João Pedro Dias Gonçalves (Arcos de Valdevez, 10 de agosto de 1985), conhecido pela alcunha Colucci, é um criminoso português condenado por liderar uma das maiores redes de contrafação de notas de euro da Europa, comercializadas através da darknet. Anteriormente, tinha sido condenado na Bélgica, em 2011, a sete anos de prisão por tráfico de heroína.
A rede de contrafação, que operava a partir de Portugal e era dirigida por Gonçalves desde a Colômbia, foi desmantelada pela Polícia Judiciária em julho de 2019, no âmbito da Operação Deep Money, com a colaboração da Europol. Expulso da Colômbia em setembro desse ano, foi condenado a oito anos de prisão pelo Tribunal de Coimbra em junho de 2020, decisão de que a defesa anunciou recurso.
Tráfico de estupefacientes Em maio de 2011, o tribunal correcional de Arlon, na Bélgica, condenou-o a sete anos de prisão como um dos dois líderes de uma organização de tráfico de heroína, tendo-lhe sido confiscados 700 mil euros. À data, com 25 anos e residente em Messancy, foi julgado juntamente com o outro líder da rede, um homem de 27 anos residente em Roterdão, condenado a oito anos; o Ministério Público belga havia pedido doze anos de prisão para ambos.
Segundo o tribunal, a organização escoava cerca de 25 quilogramas de heroína por mês em Athus, entre 2006 e 2010, droga que abastecia posteriormente a França, a Bélgica e os Países Baixos. Outros seis arguidos foram condenados a penas entre 18 meses e quatro anos de prisão.
Rede de contrafação Segundo a Polícia Judiciária, a rede operava desde, pelo menos, o início de 2017 e foi responsável pela produção de mais de 26 mil notas, maioritariamente de 50 euros, num valor facial superior a 1,3 milhões de euros. A acusação do Ministério Público situa o início da atividade em finais de 2016, prolongando-se até agosto de 2019, e refere que a maioria dos arguidos tinha entre si relações familiares.
As notas eram produzidas nas zonas Norte e Centro de Portugal, publicitadas num dos principais mercados da darknet e enviadas por via postal após pagamento em moeda virtual, sendo as encomendas recebidas por mensagens privadas nesse mercado ou através de plataformas de conversação encriptadas. Foram remetidas para vários países europeus, entre os quais o Montenegro, a Irlanda, a Alemanha, a Inglaterra, a França e a Áustria, com maior incidência de apreensões em França, na Alemanha, em Espanha e em Portugal.
A qualidade das notas era reconhecida pelos compradores, assentando na utilização de papel de segurança com filamento incorporado, hologramas e bandas holográficas autoadesivas, tintas ultravioleta, marca de água e simulação de talhe doce. De acordo com fonte ligada à investigação citada pelo Observador, um maço de 100 mil euros em notas de 50 era vendido por cerca de três mil euros, sendo os compradores maioritariamente criminosos.
Gonçalves era procurado pelas autoridades portuguesas desde 2016 e coordenava o despacho das notas a partir da Colômbia, onde residia e detinha um visto de migrante desde setembro de 2018.
Operação Deep Money Em julho de 2019, a Polícia Judiciária, através da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e com a colaboração da Europol, desmantelou a rede no âmbito de inquérito do DIAP de Lisboa. A operação, que envolveu ainda a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica e o Laboratório de Polícia Científica, incluiu oito buscas e a apreensão de 1833 notas falsas (1290 de 50 euros e 543 de 10 euros), num total de 69 930 euros, além de computadores, impressoras, papel de segurança, hologramas e tintas ultravioleta. Foram detidas cinco pessoas, três homens e duas mulheres, com idades entre os 26 e os 63 anos, pelos crimes de contrafação de moeda e associação criminosa.
Gonçalves foi expulso da Colômbia pela Migração Colombiana em setembro de 2019, ao abrigo de um mandado de detenção internacional emitido pelas autoridades portuguesas, ficando-lhe interdita a entrada naquele país por dez anos.
Entre 9 e 11 de dezembro de 2019, uma segunda fase da operação, coordenada pela Europol, visou os compradores das notas em sete Estados-membros da União Europeia: foram realizadas 36 buscas domiciliárias e interrogados 44 suspeitos, 11 dos quais detidos, tendo sido apreendidas notas falsas, armas, drogas, documentos falsos e moeda virtual.
Julgamento e condenação O processo de Gonçalves foi separado do dos restantes membros do grupo por ter requerido tribunal de júri. Na primeira sessão de julgamento negou a acusação, afirmando que nunca falsificara moeda nem acedera à darknet e que apenas negociava bitcoin em plataformas autorizadas; a defesa sustentou que não existia prova física ou documental, apenas depoimentos de testemunhas que considerava parte interessada. A procuradora do Ministério Público salientou que as notas tinham uma "qualidade muito apurada", podendo facilmente passar por verdadeiras.
A 26 de junho de 2020, um tribunal de júri do Tribunal de Coimbra condenou-o a oito anos de prisão pelo crime de contrafação de moeda, dando como provado que liderava um grupo de quatro pessoas que produziu, pelo menos, 24 775 notas de 50 e 10 euros entre 2017 e 2019. Vinha também acusado de passagem de moeda falsa, crime que o tribunal considerou já abrangido pela condenação.
O tribunal considerou as declarações do arguido "manifestamente incoerentes e sem sentido" e concluiu, com base nos depoimentos dos restantes membros do grupo e em conversações digitais, que era o utilizador do pseudónimo "Colucci" na darknet. Os outros quatro arguidos, julgados em processo separado, foram condenados a cinco anos de pena suspensa pelos crimes de falsificação e passagem de moeda falsa, mediante o pagamento de 125 mil euros ao Estado no mesmo período. A defesa anunciou recurso da decisão.
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