O Caso Flordelis refere-se ao assassinato do pastor Anderson do Carmo de Souza (Rio de Janeiro, 27 de março de 1977 – Niterói, 16 de junho de 2019) em 16 de junho de 2019 em Niterói, no Rio de Janeiro. Nesse dia, Anderson foi morto a tiros ao chegar em casa após ter ido caminhar com Flordelis, que disse aos policiais que o crime havia sido um latrocínio. Os criminosos usaram toucas ninja para evitar a identificação.

Segundo investigação da Polícia Civil, Anderson foi morto a mando da esposa, a deputada federal Flordelis, com participação de sete filhos do casal e uma neta, além de outras duas pessoas. O Ministério Público Estadual ofereceu denúncia contra Flordelis por homicídio triplamente qualificado e outros quatro crimes.

Antecedentes: a dinâmica familiar

Anderson e Flordelis se conheceram durante um culto evangélico em 1993 e se casaram em 1994. Flordelis tinha três filhos biológicos: Adriano, Flávio e Simone. Anderson chegou a namorar Simone antes de se casar com Flordelis, que era dezesseis anos mais velha. Além dos três filhos de Flordelis e outros cinco filhos adotivos que constituíam a chamada "primeira geração" da família, o casal adotou outras 47 crianças, em geral encontradas nas ruas. A dinâmica familiar, no entanto, incluía um tratamento diferenciado entre os filhos: enquanto os da "primeira geração" tinham acesso a comida de melhor qualidade, geladeira e viviam no segundo andar da casa, numa área restrita, os demais 47 viviam numa área coletiva no primeiro andar da casa, comendo apenas pão sem manteiga no café da manhã e arroz, massa e salsicha no almoço e jantar. "O cenário surpreendeu investigadores e é bem diferente do que era relatado por Flordelis nas últimas décadas, de que era uma casa de amor e solidariedade", escreveu o G1 em 24 de agosto de 2020.

Anderson exercia todo poder familiar, inclusive controlando todo dinheiro, até mesmo o do Ministério Flordelis, depois rebatizado de Comunidade Evangélica Cidade do Fogo. O pastor era frequentemente descrito como "controlador" em relação à esposa, escolhendo as roupas que Flordelis usava e determinando os temas que seriam pauta em suas pregações perante os fieis do Ministério Flordelis. Além disso, Anderson era o responsável por administrar a vida financeira da família: costumava andar com grandes quantias de dinheiro na mochila a fim de distribuir a determinados filhos do casal e à própria Flordelis. Por este motivo, desentendimentos eram frequentes na dinâmica do casal, ao passo que Anderson queixava-se que a parlamentar gastava excessivamente.

Flordelis também foi acusada de desviar dinheiro de sua igreja para usá-lo em benefícios pessoais, como plano de saúde, e também em lazer. Uma das fiéis da igreja do casal afirmou que Flordelis e Anderson frequentavam uma casa de swing na Barra da Tijuca, onde a deputada tinha um quarto exclusivo, e constantemente saía de lá completamente bêbada. Flordelis defendeu-se nas redes sociais, aos gritos, dizendo que processaria a fiel por danos morais e que sua mãe, já idosa, não merecia sofrer com manchetes jornalísticas mentirosas.

Investigações Após a morte de Anderson do Carmo, iniciou-se a investigação sobre a sua morte. Flordelis e sua família informaram à polícia que o pastor seria uma vítima de latrocínio, porém os mesmos desconfiaram desta hipótese, pois não encontraram evidências suficientes para manter esta teoria.

A polícia começou as investigações e já no dia 17 de agosto acreditava que o crime pudesse estar ligado a uma desavença familiar. Nos dias que se seguiram, com o depoimento de um dos filhos (cujo nome não foi revelado), a polícia desvendou uma "trama familiar" que envolvia a possibilidade de outras tentativas de assassinato desde 2018, e o oferecimento de dinheiro para a prática do crime. Segundo o G1, a testemunha teria dito que a Flordelis e três filhas do casal colocavam arsênico na comida do pai, e que uma das irmãs teria oferecido R$ 10 mil ao irmão Lucas dos Santos para matar o pastor, que antes de falecer havia dado entrada no hospital por mais de oito vezes, com dores estomacais, mas o veneno não era encontrado.

Os peritos oficiais que investigaram os laudos médicos de Anderson concluíram existirem indícios de que as intoxicações poderiam causar sinais e sintomas de envenenamento, porém não poderiam confirmar.

A polícia também encontrou pesquisas no celular de Simone, filha da pastora. Ela procurava por “cianeto” e “cianeto nos alimentos” na internet. Marzy, filha afetiva, tinha um histórico de busca em seu celular de “alguém da barra pesada” e “assassinos onde achar”. Assim como mensagens um tanto confusas com seus familiares.

No dia 20 de junho, o filho biológico de Flordelis, Flávio dos Santos, foi preso por um mandato em aberto de violência doméstica contra sua ex-esposa, na delegacia admitiu ter dado seis tiros em Anderson (a perícia constatou mais de trinta perfurações). Ele também disse que Lucas havia comprado a arma. Ambos foram presos preventivamente por homicídio qualificado e porque já tinham as prisões pendentes por outros crimes.

Em setembro de 2019, Flordelis, em uma entrevista ao Fantástico, revelou uma suposta carta que recebeu de seu filho afetivo, Lucas Cezar dos Santos de Souza. Nesta carta, Lucas havia revelado que foi o autor do crime a pedido de seus irmãos Misael e Luan, que, em retorno, prometeram casa e emprego se o irmão matasse o pastor Anderson. Porém, após investigações, a polícia concluiu que esta carta não se passava de uma tentativa de atrapalhar as investigações da morte do pastor por meio de mensagens trocadas entre a ex-deputada e Andrea Santos Maia, esposa de Marcos Siqueira, que estava preso com Lucas e Flávio. Ao questionar Andrea, a polícia concluiu que ela havia levado esta carta para o seu marido na penitenciária. Ele a entregou a Lucas e solicitou que a copiasse em sua letra.  

Em agosto de 2020, 6 familiares da ex-deputada foram presos suspeitos de terem envolvimento com a morte do pastor. Entre eles, Simone dos Santos, Marzy Teixeira da Silva, André Luiz de Oliveira, Carlos Ubiraci Francisco da Silva, Adriano dos Santos e Rayane dos Santos Oliveira. Essa operação foi conhecida como “Lucas 12”. Flordelis não foi presa por ter imunidade parlamentar, mas, pouco tempo depois da operação, a juíza Nearis Arce determinou que a pastora usasse tornozeleira eletrônica, pois acreditava que Flordelis estava interferindo na investigação.

A possível motivação do crime foi financeira, pois Flordelis estava insatisfeita que seu marido tivesse o controle financeiro e patrimonial de toda a família. Segundo as investigações da polícia, a pastora não queria desmoralizar-se perante os fiéis de sua igreja com um divórcio, sendo mais aceitável ficar viúva. Segundo as próprias palavras de Flordelis, encontrada em troca de mensagens de seu celular: Fazer mais o quê? Se separar eu não posso, porque não posso escandalizar o nome de Deus. Isso não!

Durante as investigações, filhas do casal alegaram que o pastor cometia abusos sexuais contra suas próprias filhas e netas na casa. Estes abusos acreditam ser possíveis motivações para as tentativas de assassinato e homicídio de Anderson.

Inquérito policial O caso da morte do pastor Anderson do Carmo teve mais de um inquérito; o primeiro indiciou Flávio como executor da vítima e Lucas foi indiciado por auxiliar na compra da arma que matou a vítima. O segundo inquérito investigou quem tinha participação no homicídio, tentativas de homicídio por envenenamento, associação criminosa e falsificação de documento para confundir as investigações.

Ao final do inquérito, em agosto de 2020, a polícia havia confirmado que: além de Flordelis, sete filhos do casal e uma neta e duas pessoas de fora da família estavam envolvidos no crime; o grupo familiar tentava assassinar Anderson desde meados de 2018, com o uso de veneno. A filha biológica de Flordelis, Simone, teria chegado a fazer pesquisas sobre cianeto na Internet. Segundo as investigações, teria havido ao menos seis tentativas de assassinato por envenenamento e uma outra por emboscada, quando Anderson deveria ser morto a tiros por um assassino de aluguel. O crime só não aconteceu porque a vítima, na ocasião, havia trocado de carro, o que teria confundido o atirador; que Flordelis havia oferecido dinheiro em troca do silêncio de alguns dos filhos e para que Lucas, o adotivo preso por ter comprado a arma, assumisse o assassinato; o motivo do assassinato seria o descontentamento de Flordelis e alguns dos filhos com o poder exercido por Anderson dentro do núcleo familiar, incluindo o controle econômico de tudo.

O delegado Allan Duarte, responsável pelo caso, chegou a afirmar que "não se tratava de uma família, mas de uma organização criminosa".

Nota: o filho que foi testemunha chave chama-se Alexander Felipe, conhecido como Luan. A operação ganhou o nome Lucas 12, numa referência ao capítulo bíblico Lucas 12, que trata de mentira e hipocrisia.

Perícia e laudos do IML Desde o início, os detalhes coletados pela equipe de investigação revelaram inconsistências na história de que o crime teria sido um assalto, e as evidências indicaram um complô familiar planejado e executado na própria casa. Em uma busca na casa, a polícia encontrou no quarto de Flávio dos Santos Rodrigues, uma pistola calibre 9 milímetros, a mesma que matou Anderson do Carmo.

A análise realizada no corpo do pastor revelou que ele foi atingido por vários projéteis de arma de fogo, gerando 30 perfurações, porém os peritos não conseguiram especificar quais ferimentos eram de entrada e saída e quantos disparos ocorreram.

Com relação aos envenenamentos, tais continuaram sem provas concretas, pois a Juíza Nearis negou o pedido de exumação do corpo do pastor Anderson para investigar se haveria vestígios de substâncias tóxicas.

Cassação do mandato de deputada federal Flordelis foi eleita deputada federal em 2018 pelo Rio de Janeiro, com mais de 196 mil votos, sob a bandeira da defesa de valores familiares e cristãos. Contudo, após as investigações do assassinato de Anderson do Carmo em junho de 2019, e com a acusação formal em agosto de 2020, iniciou-se um processo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados para avaliar sua conduta e a viabilidade de sua permanência no cargo.

Na data de 11 de agosto de 2021, a Câmara dos Deputados aprovou a cassação do mandato da deputada Flordelis, contando com 437 votos favoráveis, 7 contrários e 12 abstenções. Na ocasião, justificou-se a cassação pelo motivo de quebra de decoro parlamentar. Em sua defesa, a deputada afirmou em sessão parlamentar que não haviam elementos de ordem ético-disciplinar que permitiriam que seu mandato fosse cassado. Os advogados de Flordelis, Rodrigo Faucz Pereira e Silva e Jader Marques, complementaram o depoimento da deputada requisitando aos parlamentares votantes que aplicassem a pena alternativa de suspensão de seis meses do mandato até o julgamento do crime pelo Tribunal do Júri; proposta esta que não foi acatada pela Câmara.

Rodrigo Faucz, advogado da ex-deputada, em seu discurso perante a Câmara, disse que Flordelis sofria de discriminação racial e era vítima de perseguição política. O advogado também informou que ia recorrer ao STF e pedir para anular a votação. Esse pedido foi negado pela Ministra Cármen Lúcia. Além de perder seu mandato, Flordelis ficou inelegível devido à Lei Ficha Limpa e quem assumiu seu cargo foi o suplente Jones Moura do PSD. Após perder seu mandato e, consequentemente, sua imunidade parlamentar, a pastora foi presa poucos dias após a sua cassação.  

Indiciamentos, julgamentos e penas