A Invenção de Orfeu é um livro de Jorge de Lima publicado em 1952. Descrita como a sua obra máxima, é marcada pela diversidade de formas, referências e extensão. Jorge de Lima procura uma nova forma de poesia em uma ilha utópica, onde propõe a superação do individualismo e hostilidade, abrindo espaço a uma nova ordem: mais solidária e sensível.Cavalcanti, Luciano Marcos Dias. Invenção de Orfeu: a “utopia” poética na lírica de Jorge de Lima. São Paulo: Unicamp, 2007, Tese Nesse seu último livro antes de sua morte, o exercício poético se volta para o oceano íntimo, em busca da ilha essencial e inacessível aos poderes que governam o seu tempo e o seu mundo.Longo, Mirella Márcia. Sobre Invenção de Orfeu. Estudos Avançados, 2014.

Longe de qualquer linearidade, traça um percurso feito de ciclos que se enovelam em torno de alguns temas e imagens que se repetem.Sua raiz parnasiana se manifesta pelo rigor métrico na quase totalidade dos versos do livro e pela grande presença de sonetos. Esse aparente paradoxo é um dos traços marcantes da obra no contexto do Modernismo e no Pós-Modernismo, no sentido de fundir o contemporâneo à tradição ao enquadrar uma linguagem semântica e sintaticamente difícil em uma fluência rítmica regular.Pianta, Carlo Machado. Representações do feminismo em Invenção de Orfeu: uma abordagem junguiana. Porto Alegre: UFRGS, 2014, Tese.

O livro consiste na jornada do Poeta rumo à construção da obra, uma conquista da própria realização artística. Torna-se porta-voz super-humano, servindo por vezes a Deus e noutras a Orfeu. O poema a ser construído tem um objetivo artístico mas também um caráter de missão. O Poeta multiplica-se em vozes, pois essa é uma das características de sua tarefa. Faz também parte da missão o sacrifício: tornar-se porta-voz acarreta um grau de sofrimento pessoal. Nesse livro, Lima arquiteta seu projeto mais ambicioso: interpretar as dores coletivas em uma biografia épico-lírica.

O mito de Orfeu miniaturadaimagem|279x279px|John William Waterhouse, Ninfas encontrando a cabeça de Orfeu, pintura de 1900. Filho de Calíope, uma das noves musas criadoras da poesia lírica e épica, Orfeu é o músico de acordes que encantava a todos os ouvintes de modo arrebatador. Espalhava poesia por onde passava, versos que expressavam um amor devoto a sua amada, a mais desejada de todo universo: Eurídice. Envolto em tristeza por sua partida, disseminava conselhos amorosos, gemidos de lamento em canto triste declarando a sua inexistência frente a mulher amada.Neves, Mauricélia Ferreira das. Compasso de Orfeu: a poesia de Vinicius de Moraes nos acordes do mito. Rio de Janeiro: UERJ, Dissertação, 2014.Neves, Mauricélia Ferreiras das. Imagens de Orfeu na Poesia de Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Jorge de Lima. Rio de Janeiro: UFRJ, Tese, 2019

O pesquisador Junito Brandão diz que ao regressar da expedição dos Argonautas, Orfeu casou-se com a ninfa Eurídice, considerando-a como a metade de sua alma. A unificação das almas não apenas demonstra o alto teor romântico que envolve o casal, mas também da tom a dor sentida por Orfeu após a separação.

Segundo Virgílio, da perseguição do apicultor Aristeu, Eurídice pisa em uma serpente e não resiste ao veneno, morre prematuramente. Ao saber da morte de sua musa e esposa, Orfeu se mantém em silêncio, largando sua lira. É apenas após um período emudecido que retoma seu potencial poético. Comovidos com a prova de amor, Plutão e Perséfone concordam em tirar Eurídice do inferno de Hades, devolvendo-lhe a vida.

Porém, no acordo feito para o regate, Orfeu não poderia olhar para sua esposa até saírem totalmente de Hades. O olhar do músico à amada antes do portão da saída a leva para uma segunda morte e decreta a separação definitiva do casal. Após a separação do casal, as bacantes insistem em seduzir Orfeu. Com a recusa, despedaçam. Mesmo despedaçado, sua cabeça teria continuado a flutuar no oceano pronunciando versos à amada, Eurídice.esquerda|miniaturadaimagem|296x296px|Albrecht Dürer, A Morte de Orfeu, desenho produzido em 1494. Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha. Seria uma reprodução de um original perdido do mestre italiano Andrea Mantegna. Da antiguidade à modernidade O historiador de arte alemão, Aby Warburg acredita que algumas expressões emotivas da arte clássica migraram para a modernidade. Encara a Morte de Orfeu como um dos tesouros redescobertos reproduzido em larga escala. Em seu principal trabalho, o Atlas Mnemosyne, Warburg traça um paralelo das emoções básicas transportadas através do tempo pela civilização ocidental. Pathosformel é o nome dado por Warburg ao reavivamento da Antiguidade. Feitas de tempo, são cristais de memória histórica.

Na obra de Albrecht Dürer, Orfeu se encontra encurralado diante do ataque de duas bacantes. Ajoelhado, com a mão direita apoiada no chão, mantém o braço esquerdo erguido em direção ao seu rosto, sinalizando uma tentativa de defesa. Seu rosto carrega a expressão de pavor diante da iminente morte.

No canto esquerdo uma criatura pequena, que aparenta ser uma criança ou mensageiro, corre na direção oposta ao ataque. Com a cabeça voltada para trás, parece fugir da cena trágica. No fundo, há uma árvore com um livro aberto e apoiado em seu tronco, com uma bandeirola estendida com a descrição: Orfeu der erst puseran, Orfeu o primeiro pederasta. No chão, frente a Orfeu, sua lira.

Esse mito órfico atravessa a Antiguidade clássica e suas reminiscências seguem à contemporaneidade, atingindo até a poesia brasileira modernista.

A obra O título Há quem se espante pelos vários nomes possíveis do livro de Jorge de Lima, o nome oficial, foi escolhido por Murilo Mendes, que hesitou entre: Cosmogonia, Canto geral ou Invenção de Orfeu, venceu o último. Mas mesmo assim, Jorge de Lima tratou de colocar subtítulos ao livro: Biografia Épica, Biografia Total e Não, Uma Simples Descrição de Viagem, Ou de Aventuras. Biografia com Sondagens; Relativo, Absoluto e Uno, Mesmo o Maior Canto é, Denominado - Biografia.

A ilha Desde o título, a Invenção de Orfeu aborda o tema da criação: do cosmo, do indivíduo, da cultura, do Brasil e do próprio Poema. Jorge de Lima alterna seu foco entre diferentes tempos, lugares e referências. Num momento, estamos na origem do Brasil, noutro, na origem do mundo; por vezes o autor dialoga diretamente com Os Lusíadas, com Virgílio ou com a Bíblia.

A ilha referida no título do primeiro canto é um exemplo de metáfora a múltiplos significados que nos posicionam frente à temática da criação. Ela pode aparecer como o Brasil, como o berço da civilização, ou como origem pessoal, a infância ou formação do indivíduo. Por exemplo, no segundo poema do Primeiro Canto, está claro a ilha ser uma metáfora para a formação do Brasil:2

A ilha ninguém achou

porque todos a sabíamos

Mesmo nos olhos havia

uma clara geografia.

(...)

Indícios de canibais,

sinais de céu e sargaços

aqui um mundo escondido

geme num búzio perdido.

Rosa de ventos na testa,

maré rasa, aljofre, pérolas,

domingos de pascoelas.

E esse veleiro sem velas!

Afinal: ilha de praias.

Quereis outros achamentos

além dessas ventanias

tão tristes, tão alegrias?Bem como grande parte de sua obra anterior, a Musa, figura central do poema, tem a função de guiar o Poeta pelas profundezas do universo imaginativo.

Referências O livro representa uma tentativa do autor em criar um novo mundo verbal e um novo mundo real melhor e mais humanizado, uma ilha. Jorge de Lima, nessa ilha, se cerca no diálogo com obras da poética clássica: a Divina Comédia, de Dante, a Eneida e As Geórgicas de Virgílio, Os Lusíadas, de Camões, o Paraíso Perdido, de Milton. Além de obras e autores da poesia moderna, como Lautréamont, Rimbaud, Eliot e Pound.

A linguagem A linguagem de Invenção de Orfeu coloca o poeta e a sua poesia em linha direta com o Modernismo, não o brasileiro da fase de 22, mas o mundial. Faz uso da montagem, da superposição de diferentes moldes poéticos: do alexandrino clássico, da redondilha popular, das sextilhas trovadorescas, do soneto, da estrofe única e longa. A ilha, criada por Jorge de Lima carrega um sentido utópico, já que propõe uma nova possibilidade para os seres humanos, entre elas a de superação do individualismo, da hostilidade, estabelecendo uma nova ordem, mais solidária e mais sensível, similar à da arte. Unindo as influências surrealistas que procuram uma nova forma à poesia, com os dogmas católicos que procuram a origem, a Invenção de Orfeu é composta.

O próprio Jorge de Lima emprega no poema o termo palimpsesto (Canto I, poema XXIX) que pode ser usado para definir o processo de composição de Invenção de Orfeu. Como nos pergaminhos da antiguidade, Jorge de Lima escreve sobre as marcas não completamente apagadas de outros textos, de modo a deixar transparecer em seu poema a presença de obras anteriores. Não se limitando a citar as obras: ele as recria, modifica e reescreve.Sá, Lúcia de. Invenção de Orfeu e o palimpesto indígena. Luso-Brazilian Review, 2000.  A leitura dos poemas resulta numa grande canção que despeja um universo de imagens construindo a trajetória do poeta no fazer poético.

Modernização da epopeia A peculiaridade da forma em Invenção de Orfeu pode ser atribuída à maneira singular como Jorge de Lima mescla o lírico, o épico e também o dramático, o que constitui sua diferença em relação às outras obras, inclusive àquelas que lhe servem de modelo. Assim, o cruzamento das tradições que moldaram a face do Ocidente serve de base ao poema. Invenção de Orfeu acaba se tornando um catálogo de mitos e de formas.Sterzi, Eduardo. Invenção de Orfeu: uma epopéia moderna? Organon, 2001

Jorge de Lima compreendeu que para modernizar a epopeia, seu livro fugiria da tradição estabelecida por Homero e descrita por Aristóteles. Por isso, integrou também ao texto uma reflexão metalinguística sobre a unidade poética que buscava. A modernização começa pela superfície do texto, Lima contraria a regularidade métrica característica do gênero épico. Subdivide o livro em Cantos, de variadas medidas, e altera tanto os versos quanto estrofes continuamente ao longo da obra.

Estrutura O livro é composto em dez cantos de formas poéticas múltiplas, mundos particulares e místicos, distribuídos por temas e motivos: CantosVersosNúmero total de PoemasPoemas de estrofes uniformesPoemas de estrofes combinadas (incluindo sonetos)Poemas de estrofes livresPoemas de estrofe únicaIFundação da Ilha1.78839131277IISubsolo e supersolo1.005204*1033IIIPoemas relativos6752767311IVAs aparições98428*52111VPoemas da vicissitude609186734VICanto da desaparição552111433VIIAudição de Orfeu659143740VIIIBiografia2.28611000IXPermanência de Inês14411000XMissão e promissão1.335207*436Total10.03717950672735 Os asteriscos assinalam pequenas irregularidades na classificação.

Com base na Tabela, seus dez cantos são constituídos de 10.037 versos. Dois dos Cantos, o VII e o IX, são compostos de um único poema. O poema intitulado Biografia, o mais longo da obra com 2.286 versos, é todo composto por sextilhas em decassílabos, sem rimas regulares. Já a poesia única do Canto IX, Permanência de Inês, tem 144 versos distribuídos em 18 estrofes com metro e estrutura de rimas idênticas aos de Os Lusíadas. Há um grande número de sonetos: 66, no total.

Conforme os cantos avançam, a extensão dos poemas aumenta. O último Canto, Missão e promissão, por exemplo, apresenta o maior número de poemas longos. Esse desenvolvimento condiz com a tarefa do Poeta que já está consolidada pela sua jornada.

Recepção Crítica Em comparação à fortuna crítica de outros poetas como, Drummond, Quintana, João Cabral e Bandeira, o disponível sobre Jorge de Lima é muito pequeno. Uma das razões possíveis para desatenção da crítica pode ser atribuída a um dos elementos chave da obra do poeta: a religiosidade.