Nota: para outras famílias homônimas mas não consanguíneas, consulte Sartori.
Sartori é uma antiga família nobre da Itália. Foi fundada em 1295 em Vicenza, onde foram feudatários agregados à vassalagem episcopal. Antes de 1500 foram admitidos também no patriciado cívico. A família fez fortuna principalmente na exploração e comércio de madeira, acumulando um ingente patrimônio financeiro e fundiário. A partir do século XVI estabeleceram sua principal sede em Bassano del Grappa, e lançaram outros ramos para outras cidades do Vêneto, do Trentino, da Áustria e do Brasil. Os vários ramos da família detiveram várias titulações: foram senhores feudais em Roana, Foza, Castegnero e Meledo Alto; nobres em Vicenza, Bassano del Grappa e Belluno, cavaleiros hereditários em Primiero; patrícios em Vicenza, Roana, Asiago, Lusiana, Foza, Asolo, Valstagna, Longarone e Bassano del Grappa. Família muito prolífica e ramificada, produziu três bispos e muitos religiosos, literatos, professores, acadêmicos, notários, políticos, magistrados e administradores de instituições civis e religiosas. O sobrenome às vezes é grafado como Sartore, Sartor ou Sartorio.
Origens
Os Sartori descendem de florentinos que chegaram a Vicenza acompanhando o bispo Andrea dei Mozzi,Frigo, Rita. Il Passaggio da una Regione a Statuto Ordinario ad una Regione a Stastuto Speciale. Gli art. 5 d 132 della Costituizione: Il caso dell’Altopiano di Asiago. Tesi di Laurea. Universitá degli Studi di Verona, 2013 membro de uma das mais ilustres famílias de magnatas de Florença na Idade Média,Tanzini, Lorenzo. "Il vescovo e la città. Interessi e conflitti di potere dall'età di Dante a Sant'Antonino". In: Annali di Storia di Firenze, 2013; VIII: 81-111 transferido para Vicenza depois de ser envolvido em um grande escândalo, cuja natureza ainda é mal compreendida. Seja como for, o bispo chegou a Vicenza em fins de 1295, mas já estava doente e morreu em menos de um ano, provavelmente em agosto de 1296.Diacciati, Silvia. "Mozzi, Andrea". In: Dizionario Biografico degli Italiani, Volume 77, 2012Chiarini, Eugenio. "Mozzi, Andrea de". In: Enciclopedia Dantesca, 1970
Antes disso ele distribuiu feudos entre alguns de seus servidores, entre os quais membros de uma família cujo sobrenome original se desconhece, e que veio a adotar o sobrenome Sartori em Vicenza. Os Sartori receberam feudo em Roana, uma das Sete Comunas situadas no planalto vicentino que compunham uma federação semi-independente. Ao mesmo tempo, o bispo os inscreveu como vassalos da Mesa Episcopal, naturalizando-os como nobres vicentinos, assim permanecendo sob os bispos sucessivos.Bonato, Modesto. Storia dei Sette Comuni e contrade annesse dalla loro origine alla caduta della Veneta Repubblica. Tip. del Seminario, 1857, pp. 168-169Nalli, Giuseppe. Epitome di Nozioni Storiche Economiche dei Sette Comuni Vicentini. Forni, 1895, 2ª ed. p. 44 O abade Modesto Bonato, historiador das Sete Comunas, escrevendo em meados do século XIX, disse que nos registros públicos que encontrou existia apenas uma única tradição sobre os Sartori vicentinos, que é esta referindo uma origem florentina e fixação inicial em Roana.
Os Sartori chegaram a Vicenza numa época em que o poder dos bispos estava em franco declínio, tendo governado a cidade de facto como um feudo episcopal desde o século IX, a despeito de ser nominalmente um condado laico, e o sistema político, através da pressão da burguesia emergente apoiada pelo partido dos condes de Vicenza, se rearticulava de maneira mais democrática, na chamada "fase comunal". O conflito entre os bispos e os condes era endêmico, mas no século XIII o partido popular já levava uma clara vantagem, acentuada por uma série de administradores episcopais incompetentes ou corruptos. Uma das estratégias adotadas pelos bispos nesse período de crise foi cooptar apoiadores através da concessão de feudos e privilégios, o que nem sempre resultou como o pretendido; muitas famílias beneficiadas passaram a perseguir seus próprios interesses e disputar o poder.Cracco, Giorgio. Tra Venezia e terraferma. Viella, 2009, pp. 351-453Giarolli, Giambattista. Vicenza nella sua toponomastica stradale. Istituto San Gaetano, 1955, pp. xiv-xv
Os nomes dos fundadores da família são desconhecidos. Depois da morte do bispo Mozzi a família se concentrou em torno do seu feudo. Dispondo de uma base social e econômica bem estabelecida, os novos Sartori prosperaram adquirindo novos feudos e vastas áreas de terras no planalto vicentino em torno de Roana,Peck, Fanny Morton. "A Roman Consul of the Nineteenth Century". In: United States Catholic Historic Society. Historical Records and Studies, 1919; 13Toldo, Antonio. Valdastico ieri e oggi. La Galiverna, 1984 descendo então pelo vale do rio Brenta, onde estabeleceram laços de parentesco com as principais famílias da região. A partir do século XV voltam a se fazer presentes na sede urbana vicentina, onde ingressam do patriciado e alguns personagens se destacam, e depois se espalham por muitas outras comunas no Vêneto, sendo geralmente recebidos nos patriciados locais. No século XVI a família já havia se dividido em múltiplos ramos e vários deles haviam adquirido uma grande riqueza, especialmente através da exploração e comércio de madeira.
Sete Comunas Contexto
Tendo como centro em Roana, integrante da Federação das Sete Comunas do planalto vicentino (mais Asiago, Lusiana, Enego, Foza, Gallio e Rotzo), as localidades do entorno desde o século XIV foram marcadas pela presença dos Sartori, seja através da posse de propriedades, seja através de residência. Contudo, o contexto da região não favoreceu a manutenção da nobreza feudal da família por muito tempo. Em 1405 a Federação se sujeitou a Veneza, preservando contudo uma grande autonomia, seus costumes e seus antigos privilégios fiscais e comerciais. No século XVI os feudos da região estavam quase todos extintos, já que as comunas desde o século XIII estavam desenvolvendo um sistema de governo semidemocrático conhecido como regolaneria.
Cada comuna tinha um Conselho, formado por todos os chefes de família que pagavam impostos e tinham o estatuto formal de cidadãos,Ver nota:Cada comuna funcionava como uma república individualizada e conferia sua própria cidadania, que não valia fora de seus limites aqui chamados vicini. Residentes que não eram cidadãos não tinham direitos políticos. O Conselho tinha capacidade de legislar localmente, fiscalizar as contas públicas e eleger a) procuradores ou deputados para assuntos extraordinários e b) o decano (também chamado governador), magistrado ordinário com funções cerimoniais, representativas e executivas, mais ou menos equivalente a um prefeito moderno, com capacidade de indicar oficiais administrativos (síndicos) para gestão da coisa pública. Para a administração da justiça em primeira instância e solução de disputas eram escolhidos, entre os cidadãos idôneos e conhecedores dos costumes, e com o consentimento das partes, árbitros ad hoc com função de juiz. A capital da Federação era Asiago, onde se reunia a Regência, um conselho formado por um ou dois ministros de cada comuna sob a presidência de um chanceler, que centralizava a administração federativa e a política externa, fiscalizava a atividade política das comunas, arbitrava disputas entre elas e indicava os núncios (procuradores da Regência em alguma outra cidade). A administração da justiça em segunda instância e a defesa militar estavam a cargo da podesteria de Vicenza, representando o governo veneziano.Pietribiasi, Fabio. "La Spettabile Reggenza dei Sette Comuni. Breve analisi di un federalismo incompiuto". In: Quaderno di Cultura Cimbra, 2014 (66)Bianchi, Francesco. "Una società di montagna in una terra di confine: l'altopiano dei Sette Comuni vicentini nel primo Cinquecento". In: Panciera, Walter (ed.). Questioni di confine e terre di frontiera in area veneta. Secoli XVI-XVIII. FrancoAngeli, 2009, pp. 19-88
A maioria do território era de posse coletiva, indivisível e inalienável, o uso das pastagens e recursos florestais públicos era regulamentado e dependia da concessão da comunidade, era gratuito na medida necessária para o sustento das famílias, mas para exploração comercial pagava-se taxas. Situadas em zona montanhosa imprópria para a agricultura, a economia das Sete Comunas se baseava no pastoreio (principalmente ovelhas) e na exportação de lã, madeira e peles de animais silvestres, importando principalmente grãos, vinho, sal, tecidos e ferramentas. Vicenza era o principal parceiro comercial. Embora fossem comunas pequenas (Asiago tinha 1.944 habitantes em 1558, Gallio tinha 1.575, e as outras de 806 a 1.026). Segundo Francesco Bianchi nesta época "as Sete Comunas eram dotadas de uma organização econômica suficientemente articulada e lucrativa para chamar a atenção dos comerciantes da planície, intimamente ligados e integrados com os circuitos produtivos da cidade de Vicenza e seus arredores. Além disso, o planalto não oferecia apenas oportunidades de renda para os estrangeiros, não era simplesmente uma terra de conquista, mas garantia oportunidades de ascensão econômica e social também para os montanheses mais capazes e dotados de habilidades empreendedoras". Os Sartori tiraram proveito desse contexto favorável e se tornam grandes comerciantes.
Não havia uma divisão da sociedade em estamentos rígidos, nem uma classe formal de nobres e nem uma definição jurídica para a nobreza. Mesmo assim, havia um patriciado burguês formado pelas famílias mais ricas e cultas e aquelas que obtivessem os principais cargos públicos. No século XVI as famílias locais mais empreendedoras já acumulavam fortunas, entre elas os Sartori. Disse o historiador oitocentista Giuseppe Nalli que a presença da família Sartori honrava as Sete Comunas.Nalli, p. 147 Alguns membros são registrados na região com títulos nobres, como Bonato, Marco e Giovanni Martino, mas as fontes não esclarecem como foram obtidos.
A história das Sete Comunas — e por conseguinte a dos Sartori nesta região — é mal conhecida até o fim do século XVI devido a uma maciça perda documental ocorrida durante guerras entre Veneza e o Sacro Império, quando Asiago e Roana foram arrasadas e todo o arquivo público foi perdido. Com a queda de Veneza para os franceses em 1797, o sistema de governo coletivo vigente nas Sete Comunas, responsável pela sua estabilidade política e prosperidade econômica, entrou em colapso, sendo abolido oficialmente em 1807. Na I Guerra Mundial as comunas foram quase totalmente destruídas, sendo palco de algumas das mais sangrentas e devastadoras batalhas da frente italiana."La Grande Guerra sull’Altopiano dei Sette Comuni". Museo Storico della I Guerra Mondiale, 2021-2023
Roana
Em Roana, além do feudo recebido do bispo Andrea dei Mozzi em 1295, que deu origem à Contrada Sartori, possuíram as montanhas Erio e Verena, esta última também enfeudada, além do feudo de Verenetta e outras propriedades.Brentari, Ottone. Guida storico-alpina di Bassano-Sette Comuni: canale di Brenta, Marostica, Possagno, con carta della regione. Sante Posszto, 1885, p. 177Nalli, p. 93 Segundo Alessandro Scandale, a família foi uma das protagonistas na separação jurídica de Roana a partir de Rotzo e sua constituição em nova comuna em 1300.Scandale, Alessandro. "Margareta e Frà dolcino, amore e libertà". Domenica di Vicenza, 08/12/2012