O Livro Verde do Motorista Negro (título original: The Negro Motorist Green Book, mas também The Negro Motorist Green-Book, The Negro Travelers' Green Book ou somente Green Book) era um guia de viagem para viajantes afro-americanos. Foi concebido e publicado pelo carteiro nova-iorquino Victor Hugo Green, de 1936 a 1966, durante a era das chamadas leis Jim Crow, quando era generalizada a discriminação pública e, via de regra, prevista em lei, especialmente contra afro-americanos mas também contra pessoas não brancas em geral. Embora essa discriminação racial generalizada e a pobreza predominante limitassem a possibilidade de que negros possuíssem carros, a classe média afro-americana emergente comprou automóveis assim que pôde. No entanto, enfrentava uma série de perigos e inconveniências ao longo da estrada - desde a recusa de fornecer alimentação e hospedagem até prisões arbitrárias. Por isso, Green escreveu seu guia de serviços e lugares relativamente acolhedores a afro-americanos. A área de cobertura do guia, inicialmente limitada a Nova Iorque, expandiu-se até abranger boa parte da América do Norte. Além disso, Green abriu sua própria agência de viagens.

Muitos americanos negros preferiam dirigir seu próprio carro, em parte, para evitar a segregação nos transportes públicos. Como o escritor George Schuyler colocou em 1930: "todo os negros, assim que podem, compram um automóvel o quanto antes, para se verem livres de desconforto, discriminação, segregação e insultos."Franz, p. 242. Americanos negros empregados como atletas, artistas e vendedores também viajavam com frequência, por questões de trabalho.

Viajantes afro-americanos enfrentavam dificuldades com as empresas pertencentes a brancos que se recusavam a servi-los ou a consertar seus veículos. Da mesma forma, hotéis de donos brancos lhes recusavam hospedagem ou alimentação. Também sofriam ameaças de violência física e expulsão forçada das "cidades sundown", locais cuja população excluía pessoas não-brancas mediante uma combinação de leis discriminatórias locais, intimidação e violência. Green criou e publicou o Livro Verde para evitar esses problemas, compilando recursos "para dar ao viajante negro informação que o impedirá de encontrar dificuldades, constrangimentos e que tornará sua viagem mais agradável." O diretor de um documentário de 2019 sobre o livro sintetizou-o da seguinte forma: "Todos os que entrevistei falaram sobre a comunidade que o Livro Verde criou: um tipo de universo paralelo criado pelo livro, e esse roteiro meio secreto que o Livro Verde delineava".

De uma edição focada em Nova Iorque publicada em 1936, Green expandiu a obra para cobrir boa parte da América do Norte, incluindo a maior parte dos Estados Unidos e partes do Canadá, México, Caribe e Bermuda. O Livro Verde tornou-se "a bíblia da viagem negra durante a era Jim Crow", permitindo que viajantes negros encontrassem hospedagem, empresas e postos de gasolina que os servissem ao longo da estrada. Era pouco conhecido fora da comunidade afro-americana. Logo depois da aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964, que proibiu os tipos de discriminação que tornaram o Livro Verde necessário, a publicação foi interrompida e caiu no esquecimento. A obra teve interesse renovado no início do século XXI em ligação a estudos de viagens negras durante a era Jim Crow.

Quatro edições (1940, 1947, 1954 e 1963) foram republicadas em fácsímile (até dezembro de 2017) e venderam bem. 23 edições adicionais foram digitalizadas pela Biblioteca Pública de Nova Iorque.

Experiências afro-americanas de viagem thumb|upright|Victor Hugo Green em 1956 Antes das conquistas legislativas do Movimento por Direitos Civis, viajantes negros nos Estados Unidos enfrentavam grandes problemas desconhecidos pela maioria dos brancos. Há muito tempo, supremacistas brancos buscavam restringir a mobilidade de negros e eram uniformemente hostis a forasteiros negros.

Como resultado, simples viagens de automóvel para pessoas negras eram repletas de dificuldades e perigos em potencial. Elas estavam sujeitas ao ato de racial profiling por departamentos de polícia e a serem vistas como "insolentes" ou "prósperas demais" apenas pelo ato de dirigir, visto por muitos brancos como prerrogativa destes. Arriscavam serem assediadas ou coisa pior tanto dentro como fora da estrada.Seiler, p. 88. Um comentário amargurado publicado numa edição de 1947 da revista The Crisis, publicada pela NAACP, evidenciou a batalha penosa que negros enfrentavam em viagens recreativas:

Milhares de comunidades nos EUA haviam promulgado leis Jim Crow, que existiam dese 1890; nestas cidades sundown afro-americanos estavam em perigo se lá permanecessem após o anoitecer. Tais restrições remontavam aos tempos coloniais e podiam ser encontradas por todos os Estados Unidos. Depois do fim da escravidão legal no norte e, posteriormente, no sul após a Guerra Civil Americana, a maioria dos homens livres continuou a viver num nível apenas um pouco acima do de subsistência, mas uma minoria de afro-americanos conseguiu, até certo ponto, alguma prosperidade. Pela primeira vez, esta minoria podia planejar uma viagem de lazer. Negros abastados organizavam excursões de grandes grupos de até 2 000 pessoas de uma vez, viajando por exemplo de trem de Nova Orleans para resorts ao longo da costa do Golfo do México.

Na era pré-Jim Crow, isto significava necessariamente conviver com brancos em hotéis, transportes e estabelecimentos recreativos. Nisto, foram auxiliados pela Lei de Direitos Civis de 1875, que tornou ilegal a discriminação contra afro-americanos em transportes e acomodações públicos. Eles viram-se diante de uma reação branca, especialmente no sul, onde, desde 1877, Democratas brancos controlavam todos os governos estaduais. A lei foi declarada inconstitucional pela Suprema Corte dos Estados Unidos em 1883, resultando na aprovação de numerosas leis segregacionistas em estados e cidades. Governos brancos no sul exigiam até que ferrovias interestaduais aplicassem suas leis segregacionistas, apesar da legislação nacional exigir o tratamento igualitário de passageiros.

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no caso Plessy v. Ferguson (1896), que acomodações "separadas, mas iguais" eram constitucionais, todavia, na prática, estabelecimentos para negros estavam longe de serem iguais, em geral tendo qualidade inferior e problemas de financiamento. Negros enfrentavam restrições e exclusão por todos os Estados Unidos: quando não eram barrados por completo de estabelecimentos, só podiam usá-los em momentos diferentes dos brancos ou em "seções para negros" (geralmente inferiores).

thumb|upright=1.2|esquerda|alt=Placa de parque na qual se lê: "Montanha Lewis - Área para Negros - Cafeteria e Chalés - Locais para acampamento e piqueniques – Entrada"|"Separados, mas iguais" em prática: uma "Área para Negros" separada na Montanha Lewis no Parque Nacional de Shenandoah

Em 1917, o escritor negro W. E. B. Du Bois observou que o impacto da "discriminação racial recorrente" tornara tão difícil de viajar para inúmeros destinos, desde resorts populares até grandes cidade, que agora era "uma questão desconcertante sobre o que fazer com as férias". Era um problema que afetou um número cada vez maior de negros nas primeiras décadas do século XX. Dezenas de milhares de afro-americanos sulistas migraram de fazendas no sul para fábricas e serviço doméstico no norte. Não mais confinados a viver num nível de subsistência, muitos ganharam renda e tempo suficientes para realizarem viagens a passeio.

O desenvolvimento de automóveis econômicos produzidos em massa liberou americanos negros de ter de depender dos "vagões Jim Crow": vagões ferroviários poeirentos, danificados e desconfortáveis que eram alternativas separadas, mas decididamente desiguais aos salutares vagões reservados aos brancos. Um escritor negro comentou numa revista, em 1933, que, num automóvel, "é ótimo ser o capitão do barco para variar e pilotar nossa nau a qualquer lugar que desejarmos. Sentimo-nos como vikings. E daí que nossa embarcação é protuberante de nariz e limitado de poder e nosso mar é macadamizado; serve bem ao espírito só escapar do velho vagão Jim Crow."

Negros de classe média por todos os Estados unidos "não tinham certeza alguma de como se comportar ou como brancos se comportariam em relação a eles", como Bart Landry colocou.Landry, p. 58. Na cidade de Cincinnati, Wendell Dabney, editor de jornal afro-americano, escreveu sobre a situação nos anos 1920 de que "hotéis, restaurantes, bares e lanchonetes estão quase universalmente fechados para todas as pessoas nas quais o menor matiz de sangue negro pode ser detectado." Áreas sem populações negra significativas fora do sul, em geral, recusavam-se a acomodá-los: viajantes negros indo a Salt Lake City nos anos 1920 ficavam à deriva sem um hotel caso tivessem de pernoitar lá. Apenas 6% dos mais de 100 hotéis que ladeavam a rota 66 em Albuquerque aceitavam clientes negros. Por todo o estado de Nova Hampshire, apenas três hotéis em 1956 serviam afro-americanos.Rugh, p. 77.

George Schuyler relatou em 1943: "Muitas famílias negras dirigiram por todos os Estados Unidos sem conseguir garantir hospedagem para pernoitar num único campo para turistas ou hotel." Ele sugeriu que seria mais fácil que americanos negros viajassem para fora dos EUA do que em seu próprio país. Em Chicago em 1945, os sociólogos St. Clair Drake e Horace R. Cayton Jr. relataram que "os gerentes de hotel da cidade, por comum acordo, não sancionam o uso de instalações hoteleiras para negros, especialmente quartos para dormir."Drake & Cayton, p. 107. Um incidente relatado por Drake e Cayton ilustrou o tratamento discriminatório administrado até mesmo a negros em grupos racilamente mistos:

Lidando com discriminação na estrada thumb|upright=1.1|Uma família afro-americana com seu novo Oldsmobile em Washington, D.C., 1955 Embora os automóveis tivessem facilitado bastante a mobilidade de americanos negros, as dificuldades que estes enfrentavam ao viajar eram tantas, que, como colocou Lester B. Granger, da Liga Urbana Nacional, "no que diz respeito a viajar, os negros são os últimos pioneiros da América."Seiler, p. 87. Viajantes negros, geralmente, tinham de carregar baldes ou banheiros portáteis nos porta-malas de seus carros, já que, em geral, eram impedidos de usar os banheiros e as áreas de repouso em postos de gasolina e paradas de beira de estrada. Produtos essenciais para viagens, como gasolina, eram difíceis de comprar em razão da discrimnação nos postos.

Para evitar problemas em longas viagens, afro-americanos, normalmente, empacotavam refeições e carregavam recipientes de gasolina em seus carros. Escrevendo sobre as viagens de carro que fez durante a infância nos anos 1950, o jornalista Courtland Milloy do Washington Post relembrou que sua mãe passava as noites antes da viagem fritando frangos e cozinhando ovos para que sua família tivesse o que comer ao longo do percurso no dia seguinte.

Um motorista negro observou que, no início dos anos 1940, embora viajantes negros se sentissem livres pela manhã, no começo da tarde aparecia uma "pequena nuvem". No final da tarde, "ela lança um sombra de apreensão sobre nossos corações e nos amarga um pouco. 'Onde', ela nos pergunta, 'você irá passar a noite?'" Normalmente, tinham de passar horas à noite tentando encontrar um lugar para ficar, algumas vezes chegando a dormir em palheiros ou em seus próprios carros se não conseguissem achar um local. Um alternativa, quando disponível, era se organizar, antecipadamente, para dormir nas casas de amigos negros em cidades ao longo da rota. Contudo, isto significava desvios e um abandono da espontaneidade que, para muitos, era uma atração chave de dirigir. John Lewis, líder do movimento por direitos civis, relembrou como sua família se preparou para uma viagem em 1951: