miniaturadaimagem|Retrato de Mário Pedrosa em 1920Entre 1928 e 1968, ocorreu uma sucessão de três organizações distintas de trotskistas no Brasil. Trata-se de organizações distintas, pois os dirigentes e maior parte dos militantes das organizações antecessoras romperam com o trotskismo, o que exigiu duas refundações do movimento. A partir do 1968, começam a surgir diversas cisões nas organizações trotskistas, e estas novamente passam por diversas cisões. Em 2017, foram identificadas 30 organizações que reivindicavam o legado de Leon Trotsky atuando no Brasil.

Origens Ao longo de 1927 a 1929, surgiram inúmeras polêmicas que evidenciaram divergências no interior do Partido Comunista do Brasil. As polêmicas fundamentavam-se na tática de alianças, questionamentos sobre o regime interno e a política sindical do partido. Eram portanto questões nacionais, mas também iluminadas pelos debates internacionais. A figura de Mário Pedrosa está diretamente relacionada com essas divergências e com o surgimento da primeira geração de trotskistas no Brasil. Ainda no país, teve contato com o jornal do Partido Comunista Francês, L'Humanité e a revista Clarté. Ambas publicações traziam questões em torno da Revolução Russa e a burocratização do Partido Comunista da União Soviética e a Internacional Comunista.

Em 1927, Mário Pedrosa foi enviado para a União Soviética, pelo PCB, para fazer um curso na Escola Leninista. No entanto, uma doença o obrigou a interromper a viagem em Berlim, onde teve mais contato com as críticas de Trotsky e iniciou uma intensa correspondência com o amigo Lívio Xavier que se tornou, a partir de então, o elo de ligação com o grupo de jovens intelectuais comunistas que tinham divergências com a direção política do PCB. Em carta enviada no dia 24 de dezembro de 1927, Pedrosa escreve a Lívio suas impressões sobre o XV Congresso do PCUS que consolidou a vitória da fração stalinista sobre a Oposição Unificada:

Neste momento, Pedrosa não tinha se afastado do PCB, mantendo relações com Astrojildo e Brandão, mas já antevia que seu retorno ao partido o levaria ao enfrentamento contra a direção. Com o tempo passa a criticar mais firmemente a burocracia soviética e a direção do PCB. Não é possível afirmar um momento exato em que rompe e adere aos trotskistas, mas foi fundamental sua estadia em Paris e o contato com a oposição francesa de Pierre Naville.

Era Vargas (1930 - 1945)

Do Grupo Comunista Lenine a Liga Comunista Internacionalista Em agosto de 1929, Mário Pedrosa retornou ao Brasil e organizou esse grupo de jovens divergentes em uma agremiação chamada Grupo Comunista Lenine (GCL). Esta organização incluía intelectuais como Rodolfo Coutinho e Lívio Xavier que foram signatários do panfleto da Oposição Sindical que criticara a política sindical do PCB e sua falta de centralismo democrático. Esse grupo já havia saído do PCB na “Cisão de 1928”. Outra cisão ocorreu em 1929, que incluiu alguns sindicalistas, como Joaquim Barbosa (secretário do PCB para assuntos sindicais), João da Costa Pimenta (sindicalista, avô de Rui Costa Pimenta), Leonel Pessoa (ex-cadete, expulso do Exército por participar da Revolta da Vacina em 1904, que na época trabalhava como operário gráfico), João Dalla Dea (operário gráfico) e Hilcar Leite.Mário Pedrosa político (1): das origens ao Grupo Comunista Lenine (1901-1929), acesso em 1º de janeiro de 2020.UMA ESQUERDA EM SILÊNCIO: Militantes trotiskistas de Fortaleza no período de 1963-1970, acesso em 13 de janeiro de 2020.

Em 8 de maio de 1930, os primeiros trostskistas do Brasil começaram a publicar o jornal "A Luta de Classe", que foi publicado, muito provavelmente, até agosto de 1939. Esse jornal teve periodicidade irregular, com edições impressas até o n.º 33, e mimeografadas entre os nºs 34 e 49. Com o trabalho político, outros quadro se aproximaram da Liga Comunista, tais como: Mário Dupont, José Auto, Manuel Medeiros, Raquel de Queiroz; Mirno Tibor e Azis Simão (estudantes), Arnaldo Tommasini; Ariston Rusciolelli, Lelia e Fúlvio Abramo (comerciários); L. Mássara e Fernando Bertolotti (contadores), Mário Colleoni (metalúrgico) e Josefina Mendez (operária têxtil).A Oposição de Esquerda no Brasil, acesso em 03/01/2020. Ainda em outubro de 1930, Mário Pedrosa e Lívio Xavier publicaram um ensaio que viria a se tornar a primeira contribuição marxista para o estudo da história do modo de produção capitalista em terras brasileiras: "Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil".

Em novembro de 1930, os sinais de desgaste e paralisação das atividades do grupo se tornaram evidentes. Algumas cartas descrevem este cenário de falência do GCL. Em meados de janeiro de 1931 os oposicionistas conseguiram, mais uma vez, superar a dispersão e reagrupar os dissidentes numa nova organização, formando em 21 de janeiro, a Liga Comunista - Oposição de Esquerda (LC), adotando uma denominação que seguia a tendência dos agrupamentos que se aproximavam do que seria mais tarde a IV Internacional. Reunindo remanescentes do GCL, a LC contava com novos membros, destacando Aristides Lobo e Plínio de Melo, ambos ex-membros do PCB que romperam com a direção e se haviam aproximado dos oposicionistas.Mário Pedrosa político (2): do Grupo Comunista Lenine à IV Internacional e exílio (1929-1945), acesso em 02 de janeiro de 2010.

A Liga Comunista estabeleceu que sua sede central seria em São Paulo. Aristides Lobo foi eleito para ocupar a Secretaria, na Organização ficaram Lobo, Mário Dupont e João Mateus, na Agitação e Propaganda, Lívio Xavier, Benjamin Péret (poeta francês) e Salvador Pintaúde e, por fim, na Comissão Sindical, João da Costa Pimenta e Plínio Mello. Pedrosa não ocupou nenhuma função nestas comissões, mas ficou responsável por reorganizar o grupo no Rio de Janeiro. Até março de 1933, a Liga tinha 54 militantes no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Em outubro de 1933, os oposicionistas brasileiros abandonavam a política fracionista e a perspectiva de reformar os PCs e a III Internacional. A partir de então, a Liga Comunista passou a se denominar como Liga Comunista Internacionalista e a trabalhar pela criação da IV Internacional, ou seja, deixou de ter militantes que atuavam dentro do PCB para fazer oposição ao estalinismo. Depois aderiram ao grupo os húngaros, Rudolf Josip Lauff e Anton Mácek (ambos soldados do Exército Vermelho), o italiano Goffedo Rosini e os brasileiros, Paschoal Petraccone (editor que, junto com Salvador Pintaúde, colaborava com a tradução de obras estrangeiras), Lívio Abramo (jornalista, desenhista e gravador); e Nestor Reis (médico). esquerda|miniaturadaimagem|Integralistas fogem de tiroteio em comício realizado na Praça da Sé em 1934. Anarquistas, sindicalistas, trotskistas e comunistas, unidos na Frente Única Antifascista, confrontaram-se com os integralistas na ocasião, tentando impedir a realização do comício. Também em 1933, a Liga Comunista Internacionalista participou da fundação da Frente Única Antifascista, que reuniu militantes anarquistas, socialistas e comunistas na luta comum contra os integralistas. Essa Frente publicaria o semanário antifascista "O Homem Livre", dirigido por Pedrosa e Geraldo Ferraz. Em 7 de outubro de 1934 a Frente participaria da Batalha da Praça da Sé, um enfrentamento com os integralistas. No entanto, posteriormente a Batalha da Sé, a LCI não aderiu à Aliança Nacional Libertadora, mas acompanhou de perto as atividades da organização. Diante da nova virada tática consolidada no VII Congresso da Comintern e da adesão dos comunistas à política de amplas alianças, os trotskistas publicaram artigos criticando e denunciando a orientação colaboracionista stalinista.

Neste período a Oposição de Esquerda Internacional encontrava-se com problemas. A OEI havia declarado que a III Internacional estava morta, no entanto, não reuniam um grupo suficientemente para fundar a IV Internacional. Para resolver o problema e romper com o isolamento, algumas táticas foram adotadas. A seção francesa lançou, em agosto de 1934, com o apoio de Trotski, a política de “entrismo” no Partido Socialista Francês. O objetivo era “desmascarar” a direção reformista e impulsionar os operários mais avançados em direção à oposição. Na França, centro do debate, Naville acusou o “entrismo” de ser uma manobra que levava à capitulação diante do reformismo. No Brasil, formaram-se dois grupos: a ala que aprovava a tática de ingresso no Partido Socialista, liderada por Mario Pedrosa, Hilcar Leite e Fúlvio Abramo e, do outro lado, o grupo que combateu essa política e reunia Aristides Lobo, Victor de Azevedo Pinheiro e João Mateus.

A cisão consolidou-se no início de 1935 e colocou fim ao período de crescimento da LCI, abrindo caminho para o declínio da organização. A expulsão do grupo que se reunia em torno de Lobo e Pinheiro tornou-se pública em abril. Diante da repressão desencadeada pela Lei de Segurança Nacional, os oposicionistas reduziram suas atividades à publicação de jornais e panfletos. Nessa período, os trotskistas dirigiam alguns sindicatos em São Paulo, como os dos Comerciários, dos Bancários e dos Trabalhadores Gráficos. Durante a repressão desencadeada após o fracasso do Levante Comunista de 1935, foi morto o militante Manuel Medeiro, enquanto que Mário Pedrosa, Fúlvio Abramo, Mariano e Inês Besouchet se exilaram na Bolívia. A última edição do A Luta de Classe, saiu em novembro de 1936. Após essa edição, a organização encerrou suas atividades.

Do Partido Operário Leninista ao Partido Socialista Revolucionário Os trotskistas remanescentes aliaram-se aos ex-militantes do PCB e em janeiro de 1937, fundaram o Partido Operário Leninista (POL), agora sob Estado de exceção. miniaturadaimagem|Hermínio Sacchetta, secretário-geral do PSR. (Fotografia da década de 1930)|187x187px Em meados de 1937, O PCB passar por uma nova crise em seu interior. Discordando da concepção de que a burguesia nacional "seria força motriz da revolução brasileira", a maioria do Comitê Regional de São Paulo, em aliança com setores de outras regionais, dão origem ao Comitê Central Provisório (CCP), também conhecido como Comitê Regional do PCB, liderados por Hermínio Sachetta e Heitor Ferreira Lima. Derrotada pela fração partidária de Lauro Reginaldo da Rocha, o CCP sofreu uma cisão, denominada Dissidência Pró-Reagrupamento da Vanguarda Revolucionária, que tinha além dos líderes, contava com figuras como: Alberto Moniz da Rocha Barros e José Stacchini.

Em abril de 1939, o POL e os dissidentes do PCB uniram-se num Comitê Pró-Reagrupamento da Vanguarda Revolucionária do Brasil e, em agosto de 1939, numa reunião em Guarulhos foi fundado o Partido Socialista Revolucionário (PSR), seção brasileira da IV Internacional, ao qual também se juntariam: Plínio Gomes de Mello, Vítor de Azevedo, José Stacchini, Patrícia Galvão, Florestan Fernandes, Maurício Tragtenberg, Leôncio Martins Rodrigues, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Edmundo Moniz, Bóris Fausto e Ruy Fausto.Extrema-esquerda e desenvolvimentismo, acesso em 03/01/2019. O grupo que passou a se denominar PSR, teve como secretário-geral Hermínio Sacchetta e manteve o jornal Orientação Socialista sob seu controle.

A II Guerra Mundial e o assassinato de Trótski Com o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, tem início a primeira grande cisão dos trotskistas a nível internacional, envolvendo a questão da defesa ou não da União Soviética na hipótese de guerra contra países capitalistas; nesse contexto, formaram-se duas frações: a majoritária liderada por liderada por James Patrick Cannon, dirigente do Socialist Workers Party (SWP) dos Estados Unidos, que se posicionava a favor da defesa da União Soviética; a minoritária, liderada por Max Shachtman, James Burnham, Martin Abern, C. R. L. James, Nathan Gould e Farrell Dobbs, que entendiam que a União Soviética não deveria ser apoiada na guerra contra a Finlândia, pois havia se degenerado a tal ponto que não mereceria qualquer tipo de defesa.