A Grande Recessão foi um período de declínio econômico geral (recessão) observado nos mercados mundiais no final dos anos 2000 e início dos anos 2010. A escala e o momento da recessão variaram de país para país. O Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que foi o colapso econômico e financeiro mais grave desde a Grande Depressão dos anos 1930 e é frequentemente considerado como a segunda pior crise de todos os tempos.

A Grande Recessão decorreu do colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos em relação à crise financeira de 2007–2008 e à crise das hipotecas subprime, embora as políticas de outras nações também tenham contribuído. De acordo com o National Bureau of Economic Research, uma organização sem fins lucrativos, a recessão nos Estados Unidos começou em dezembro de 2007 e terminou em junho de 2009, estendendo-se assim por 19 meses.US Business Cycle Expansions and Contractions , NBER, acessado em 9 de agosto de 2012. A Grande Recessão resultou em uma escassez de ativos valiosos na economia de mercado e no colapso do setor financeiro (bancos) na economia mundial; alguns bancos foram socorridos pelo governo federal estadunidense.A recessão não foi sentida igualmente em todo o mundo; enquanto a maioria das economias desenvolvidas do mundo, particularmente na América do Norte, América do Sul e Europa, entrou em recessão definitiva, muitas economias desenvolvidas mais recentemente sofreram muito menos impacto, principalmente China, Índia e Polônia, cujas economias cresceram substancialmente durante esse período.

Terminologia

Existem dois sentidos da palavra "recessão": um sentido que se refere amplamente a "um período de atividade econômica reduzida" e dificuldades contínuas; e o sentido mais preciso usado em economia, que é definido operacionalmente, referindo-se especificamente à fase de contração de um ciclo de negócios, com dois ou mais trimestres consecutivos de contração do PIB (taxa de crescimento negativa do PIB). Segundo a definição acadêmica, a recessão terminou nos Estados Unidos em junho ou julho de 2009.Daniel Gross, The Recession Is... Over?, Newsweek, 4 de julho de 2009.

V.I. Keilis-Borok et al., Pattern of Macroeconomic Indicators Preceding the End of an American Economic Recession. Journal of Pattern Recognition Research, JPRR Vol.3 (1) 2008.

Robert Kuttner argumenta: "'A Grande Recessão' é um nome impróprio. Deveríamos parar de usá-la. As recessões são quedas leves no ciclo comercial que são auto-corrigíveis ou logo curadas por um modesto estímulo fiscal ou monetário. Por causa da contínua armadilha da deflação, seria mais preciso chamar a economia estagnada desta década como grande deflação".Kuttner, Robert. Debtors’ Prison: The Politics of Austerity Versus Possibility. New York: Vintage Books, 2013, 40.

Histórico

thumb|upright|Antiga sede do Lehman Brothers em Manhattan, Nova Iorque. A Grande Recessão atendeu aos critérios do Fundo Monetário Internacional (FMI) de ser uma recessão global apenas no único ano civil de 2009. Essa definição do FMI exige um declínio anual no PIB per capita. Apesar de os dados trimestrais estarem sendo utilizados como critério de definição de recessão por todos os membros do G20, que representam 85% do PIB mundial, o FMI decidiu — na ausência de um conjunto completo de dados — não declarar/medir recessões globais de acordo com dados trimestrais do PIB. O PIB real ponderado por PPC ajustado sazonalmente para a zona G20, no entanto, é um bom indicador para o PIB mundial e foi medido em declínio direto do terceiro trimestre de 2008 até o primeiro trimestre de 2009, que marcam com mais precisão quando a recessão ocorreu em nível global.

De acordo com o National Bureau of Economic Research (o árbitro oficial das recessões dos EUA), a recessão começou em dezembro de 2007 e terminou em junho de 2009 e, assim, se estendeu por dezoito meses.

Os anos que antecederam a crise foram caracterizados por um aumento exorbitante nos preços dos ativos e um boom associado na demanda econômica. Além disso, o sistema bancário paralelo dos Estados Unidos (ou seja, instituições financeiras não depositárias, como bancos de investimento) cresceu para rivalizar com o sistema depositário, mas ainda não estava sujeito à mesma supervisão regulatória, tornando-o vulnerável a uma corrida aos bancos.

Os títulos lastreados em hipotecas dos Estados Unidos, que tinham riscos difíceis de avaliar, eram comercializados em todo o mundo, pois ofereciam rendimentos mais altos do que os títulos do governo estadunidense. Muitos desses títulos foram lastreados em hipotecas subprime, que entraram em colapso quando a bolha imobiliária dos Estados Unidos estourou em 2006 e os proprietários começaram a inadimplir seus pagamentos de hipotecas em grandes números a partir de 2007. thumb|esquerda|upright=1.7|Mapa-múndi mostrando taxas de crescimento real do PIB para 2009. (Países em marrom estavam em recessão econômica.)

O surgimento de perdas com empréstimos subprime em 2007 iniciou a crise e expôs outros empréstimos de risco e preços de ativos superinflacionados. Com o aumento das perdas com empréstimos e a queda do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008, um grande pânico estourou no mercado de empréstimos interbancários. Havia o equivalente a uma operação bancária no sistema bancário paralelo, resultando em muitos bancos de investimento e bancos comerciais grandes e bem estabelecidos nos Estados Unidos e na Europa sofrendo enormes perdas e até enfrentando falência, resultando em assistência financeira pública maciça (resgates governamentais).

A recessão global que se seguiu resultou em uma queda acentuada no comércio internacional, no aumento do desemprego e na queda dos preços das mercadorias. Vários economistas previram que a recuperação poderia não surgir até 2011 e que a recessão seria a pior desde a Grande Depressão da década de 1930.Congressional Budget Office compares downturn to Great Depression . By David Lightman. McClatchy Washington Bureau. 27 de janeiro de 2009. O economista Paul Krugman comentou uma vez sobre isso como aparentemente o começo de "uma segunda Grande Depressão".

Governos e bancos centrais responderam com iniciativas de política fiscal e política monetária para estimular as economias nacionais e reduzir os riscos do sistema financeiro. A recessão renovou o interesse nas ideias econômicas keynesianas sobre como combater as condições recessivas. Os economistas aconselham que o estímulo seja retirado assim que as economias se recuperarem o suficiente para "traçar um caminho para o crescimento sustentável".

A distribuição da renda familiar nos Estados Unidos tornou-se mais desigual durante a recuperação econômica pós-2008. A desigualdade de renda nos Estados Unidos cresceu de 2005 a 2012 em mais de dois terços das áreas metropolitanas. A riqueza média das famílias caiu 35% nos Estados Unidos, de 106 591 dólares para 68 839 dólares, entre 2005 e 2011.

Crise das dívidas soberanas

thumb|Barack Obama faz um pronunciamento sobre a crise do limite de dívida dos Estados Unidos em 2011.

O desdobramento mais recente da crise financeira e econômica internacional de 2008–2009 foi o da insolvência das nações desenvolvidas. O grande acúmulo da dívida governamental fez estourar a capacidade de endividamento dessas nações e causou uma enorme turbulência financeira ao provocar o temor de que essas nações não pudessem honrar com seus compromissos e decretassem o calote da dívida. A principal consequência da crise das dívidas soberanas foi a grande instabilidade social causada pelos cortes dos benefícios sociais.

Em nações como o Japão — que detém o maior percentual de endividamento — a relação dívida-PIB já ultrapassa os 200%. Nos Estados Unidos, entretanto, está a maior dívida bruta entre todas as nações do mundo, que já supera os 14,3 trilhões de dólares. Nesse ponto, aliado às recentes crises de insolvência na Grécia, Irlanda e Portugal, e ao temor de que a Espanha, a Itália e o Reino Unido também não consigam honrar seus compromissos, o mercado financeiro sofreu um forte abalo.

Porém, o estopim da segunda crise — que já vem sendo chamada de "déjà vu de 2008", por acontecer exatamente três anos depois do primeiro estouro da crise do subprime — se deu pela desconfiança de que talvez os EUA não conseguissem honrar seus compromissos. A crise do limite de dívida dos EUA, que levou a um longo processo negocial e de debate no Congresso Americano sobre se o país deveria aumentar o limite de dívida, e, caso afirmativo, em que montante, fez crescer a especulação internacional sobre a real capacidade de solvência americana. thumb|esquerda|Uma multidão de 100 000 pessoas protestam em Atenas contra o pacote de austeridade, 29 de maio de 2011.

A crise forjou um fim quando um acordo complexo entre ambas as partes conseguiu elevar o limite de gastos em 31 de julho de 2011. Após a sua aprovação no Congresso e Senado, foi ratificado pelo Presidente Barack Obama, ficando o acordo conhecido como Budget Control Act of 2011 em 2 de agosto, data limite para o acordo. Porém o mercado não reagiu positivamente ao acordo, e nos dias que se seguiram, a maior parte das bolsas de valores mundiais fecharam em forte queda.

Diante do quadro da crise, a agência de classificação de notas de crédito Standard & Poor's (S&P) rebaixou pela primeira vez na sua história a nota da dívida pública dos Estados Unidos de AAA para AA+, devido à crescente dívida e ao pesado déficit de orçamento. Imediatamente ao rebaixamento da nota de crédito dos EUA, as bolsas de valores mundiais calcularam altíssimas perdas. Seguiu-se ainda que os dados divulgados no mês de agosto apontavam que as economias da Zona do Euro haviam crescido menos do que o previsto, sendo que algumas já estavam em profunda recessão. Depois de inúmeras perdas, algumas ações de bancos se recuperaram nas semanas seguintes de agosto, com os mercados acionários globais, em parte, recuperados após o rebaixamento da nota da dívida estadunidense.

Efeitos

thumb|Oferta de empréstimos sem comprovação de renda, nos EUA As demissões decorrentes da crise geraram reações desesperadas na França. Em março de 2009, em três oportunidades trabalhadores franceses fizeram reféns devido a demissões: dia 13, funcionários da Sony detiveram o presidente da empresa no país por uma noite, forçando o pagamento de indenizações maiores pelas demissões; no dia 25, o diretor de operação da 3M foi detido por um dia, sendo libertado após aceitar oferecer melhores condições aos 110 empregados demitidos; e no dia 31, os funcionários da Caterpillar fizeram quatro diretores da empresa reféns, após o anúncio do plano de cortar 733 empregos na unidade.Folha Online - Funcionários da Caterpillar na França mantêm diretores como reféns

Se estima que em 2016 os custos da dívida universitária estudantil ultrapassou a da guerra do Iraque.Fighting Terrorism With a Credit Card A Oxfam divulgou relatório em 2018 onde afirma que o número de bilionários (em dólar dos Estados Unidos) dobrou desde a deflagração da crise.

Por outro lado, as emissões de CO² na União Europeia foram reduzidas em 6% em 2008 em decorrência da crise, de acordo com o instituto de pesquisa Point Carbon, sediado em Oslo.Emissões de dióxido de carbono na União Europeia caíram 6% com a crise Em 2017, o comércio internacional voltou a crescerPRESS/800: PRESS RELEASE apesar de haver uma queda generalizada dos salários.Global Wage Report 2016 / 17 Wage inequality in the workplace

Brasil thumb|esquerda|Evolução do índice Ibovespa entre 1994 e julho de 2009. É possível observar a forte queda do Ibovespa durante o auge da crise.