Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é um cientista político brasileiro. Autor de vários livros sobre teoria política e política brasileira, seu pensamento é influenciado pelo marxismo, pela sociologia de Pierre Bourdieu, pelo feminismo e pelo participacionismo democrático.
Biografia
Filho dos escritores Salim Miguel e Eglê Malheiros, formou-se em Comunicação Social na Universidade Federal de Santa Catarina. Seu trabalho de conclusão de curso, sobre a novembrada (o episódio em que o então presidente João Figueiredo envolveu-se numa briga de rua em Florianópolis, em novembro de 1979) foi publicado como livro.MIGUEL, Luis Felipe. Revolta em Florianópolis. Florianópolis: Editora Insular, 1996. Fez mestrado em Ciência Política na Universidade de Brasília e doutorado em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas. É casado com a professora e crítica literária Regina Dalcastagnè.
Desde 1996, é professor da Universidade de Brasília. Em 2001, criou o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê),https://www.demodeunb.com/ que continua a liderar até hoje. Criou, em 2009, e co-editou até 2016 a Revista Brasileira de Ciência Política.
Suas pesquisas inicialmente foram sobre a relação entre meios de comunicação e política. A partir daí chegou ao tema da representação política e da democracia, que são a parte central de sua obra. Como explicou em entrevista, ele passou a considerar que "os meios de comunicação têm que ser entendidos também como uma esfera de representação política. Porque o representante é aquele que decide em nosso nome, mas o representante também é aquele que fala em nosso nome. E, frequentemente, essa fala não se dá no plenário do Congresso, essa fala se dá nos meios de comunicação que são a arena do debate público. Então quando nós temos uma controvérsia pública eu não vou poder falar, a maior parte de nós não vai poder intervir diretamente no debate, mas se espera que as diferentes posições estejam representadas no debate da mídia, então eu passei a formular o entendimento da mídia como espaço de representação política".FEITOSA, Cleyton. "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", entrevista com Luis Felipe Miguel. Diálogos Insubmissos, n. 1, 2018, p. 245.
Na primeira metade da década de 2010, muitos de seus trabalhos sobre mídia e política e também sobre gênero - tema a qual chegou por considerar que a teoria feminista é "quem desafia o pensamento convencional da Ciência Política sobre representação"Id., ibid. - foram produzidos em co-autoria com a cientista política Flávia Biroli.
Obra
Um dos principais autores da teoria democrática no Brasil, Miguel acredita que a democracia deve ser vista não como um determinado arranjo institucional, mas como um processo contínuo de enfrentamento da dominação social.MIGUEL, Luis Felipe. Dominação e resistência. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018. A acomodação de instituições democráticas com a ordem capitalista e patriarcal faz com que o potencial emancipatório da democracia seja traído, o que o autor chama de "democracia domesticada".MIGUEL, Luis Felipe. Democracia e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2014. Ao mesmo tempo, ele é crítico das correntes democráticas deliberativistas, que seriam insensíveis às questões materiais e ao caráter inerentemente conflituoso da disputa política e assim produziriam modelos ideais sem capacidade de inserção na realidade.MIGUEL, Luis Felipe. Consenso e conflito na democracia contemporânea. São Paulo: Editora Unesp, 2016. Por essa ênfase no conflito, é por vezes alinhado a teóricos como Chantal Mouffe e Nadia Urbinati.DALAQUA, Gustavo H. "Democracy as compromise: an alternative to the agonistic vs. epistemic divide". Kriterion, n. 144, 2019. Ele é crítico também das experiências de participação política ampliada, como orçamentos participativos e conselhos de políticas públicas, que julga insuficientes para promover a verdadeira democracia.
Crítico do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, que sustenta ter sido um golpe tal como o conceito é definido pela Ciência Política,https://grupo-demode.tumblr.com/post/171564606847/golpe Miguel tornou-se, desde o agravamento da crise política brasileira, um ativo participante do debate público, colaborando com publicações de esquerda como Jornal GGN, Le Monde Diplomatique e outras. Escreveu vários artigos sobre o tema, inclusive o prefácio ao livro A verdade vencerá, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.MIGUEL, Luis Felipe. "A democracia à beira do abismo", em Luiz Inácio Lula da Silva, A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018. Crítico dos governos dos Partido dos Trabalhadores por sua falta de disposição para o enfrentamento, mesmo nos momentos em que a conjuntura seria favorável, Miguel entende que o que chama de retrocesso político no Brasil (o golpe, a perseguição judicial contra Lula, a vitória de Jair Bolsonaro e as medidas dos governos Temer e Bolsonaro) se explica pela vontade das elites dominantes de romper qualquer compromisso e impedir que a classe trabalhadora seja aceita como participante plena do jogo político.MIGUEL, Luis Felipe. O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2019.
Crítico das correntes dominantes da Ciência Política, atribui a elas a predileção por "uma epistemologia ingênua, que leva a sobrevivências do positivismo e permite a popularidade de percepções bizarras, como a 'teoria da escolha racional', que constrói os atores políticos num vácuo histórico e social", e propõe um maior influxo do materialismo histórico como forma de dotar a disciplina de maior capacidade de interpretação da realidade. Em entrevista, declarou que "compreender os eixos de dominação presentes na sociedade, como funcionam, como limitam a validade das igualdades formais, como estruturam preferências e comportamentos, como estruturam os conflitos políticos centrais (para além da “política mesquinha” limitada à distribuição de cargos), tudo isso é necessário para tornar uma Ciência Política digna do seu projeto inicial, inaugurado por Maquiavel".
Alinhando-se a autores como Nancy Fraser e Asad Haider, Miguel também é crítico do "identitarismo", que define como sendo não as "demandas emancipatórias vinculadas a eixos como gênero, raça ou sexualidade, mas sim a uma maneira específica de expressá-las", que "concede uma primazia desmedida às identidades socialmente imputadas, adensando as fronteiras entre os grupos de pertencimento e colocando em distante segundo plano a representação de interesses e opiniões".
Redes sociais Luis Felipe Miguel tornou-se, a partir de meados da década de 2010, um ativo participante do debate público no Brasil, por meio de artigos publicados em portais de esquerda (como A Terra é Redonda, Jornal GGN, Blog da Boitempo e outros) e também de suas contas nas redes sociais Instagram e Facebook. Adotando um ponto de vista crítico às principais forças da esquerda brasileira, como PT e PSOL, seus temas prioritários são democracia, política brasileira, teoria política, defesa da universidade pública e da ciência, luta de classes e direito ao aborto.
Em 2025, lançou a newsletter "Amanhã não Existe Ainda", na plataforma Substack. Afirmando estar convicto de que o império das big techs é inconciliável com a democracia, parou de publicar conteúdo novo nas redes sociais, limitando-se a anunciar os textos da newsletter.
Polêmicas
Curso sobre o golpe Em 2018, o então ministro da Educação, José Mendonça Filho, anunciou que ia acionar o Ministério Público Federal para investigar a disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, oferecida por Luis Felipe Miguel na UnB. Segundo ele, “respeito a autonomia universitária e reconheço a importância da UnB, mas não se pode ensinar qualquer coisa. Se cada um construir uma tese e criar uma disciplina, as universidades vão virar uma bagunça geral”. Pontuou ainda que "não é uma questão de opinião, nem de reverberar a tese petista sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Eu, por exemplo, tenho autonomia para dirigir o MEC, mas não posso transformar a pasta em instrumento de apoio ao meu partido ou a qualquer outro partido”.https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/02/21/mendonca-filho-diz-que-acionara-mpf-para-investigar-disciplina-da-unb-sobre-golpe-de-2016.htm
Miguel respondeu que “se trata de uma disciplina corriqueira, de interpelação da realidade à luz do conhecimento produzido nas ciências sociais, que não merece o estardalhaço artificialmente criado sobre ela. A única coisa que não é corriqueira é a situação atual do Brasil, sobre a qual a disciplina se debruçará”.https://www.facebook.com/luisfelipemiguel.unb/posts/10211377463173203
O caso abriu uma discussão sobre autonomia universitária e liberdade de cátedra. O ministro da Educação foi denunciado à Comissão de Ética Pública por abuso de autoridade.https://g1.globo.com/politica/noticia/comissao-de-etica-investigara-conduta-de-mendonca-filho-apos-criticas-a-disciplina-da-unb-sobre-golpe-de-2016.ghtml Dezenas de universidades brasileiras e algumas do exterior criaram disciplinas com objetivo similar e intituladas 'Golpe de 2016', remetendo à nomenclatura utilizada por Miguel.https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/universidades-curso-sobre-o-golpe.html
Identitarismo Miguel é um crítico severo do que chama de "identitarismo". Segundo ele, o identitarismo não equivale às lutas de minorias, mas uma forma específica de enquadrá-las que "faz de cada identidade uma 'essência', negando o caráter histórico e conflitivo de sua fixação; recusa a possibilidade de diálogo e construção coletiva, isolando cada um em seu grupo fechado e reificando o pertencimento a esse grupo; e objetiva uma acomodação na ordem (neo)liberal, com a abertura de nichos de privilégio para uns poucos integrantes do grupo dominado e a evasão de qualquer enfrentamento mais sério com as estruturas do capitalismo". Por isso, entrou em polêmica com outros autores do campo progressista brasileiro em questões como as "novas epistemologias subalternas", em particular no episódio da performance "Educando com o cu", da ativista travesti Tertuliana Lustosa, na Universidade Federal do Maranhão, em 2024; o apoio a rappers acusados de vinculação com o crime organizado, como Oruam e MC Poze do Rodo, em 2025; ou a importância do sexo biológico, contrariamente ao discurso queer de que só a identidade subjetiva de gênero importa.
Livros publicados
MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. (org.) Democracia em crise, teorias em transe. Belo Horizonte: Autêntica, 2025. MIGUEL, L. F. Marxismo e política: modos de usar. São Paulo: Boitempo, 2024. MIGUEL, L. F. Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2022. MIGUEL, L. F. Consenso y conflicto en la democracia contemporánea. Bueno Aires: Eudeba, 2022. MIGUEL, L. F.; VITULLO, G. E. Democracia como emancipación: miradas contrahegemónicas. Bueno Aires: Luxemburg, 2021. MIGUEL, L. F.; VITULLO, G. E. Democracia como emancipação: olhares contra-hegemônicos. Porto Alegre: Zouk, 2021. MIGUEL, L. F. (org.) Mulheres e representação política: 25 anos de estudos sobre cotas eleitorais no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2021. MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. (org.) Teoria e política feminista: contribuições ao debate sobre gênero no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2020. MIGUEL, L. F. O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016. São Paulo: Expressão Popular, Fundação Rosa Luxemburgo, 2019. PUZONE, V.; MIGUEL, L. F. (org.) The Brazilian Left in the 21st Century: conflict and conciliation in peripheral capitalism. New York: Palgrave-Macmillan, 2019. MIGUEL, L. F. Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória. São Paulo: Boitempo, 2018. MIGUEL, L. F. Trabalho e utopia: Karl Marx, André Gorz, Jon Elster. Porto Alegre: Zouk, 2018.