thumb|Carga de Canoas, de Oscar Pereira da Silva Sala das Monções é uma sala de exposição no Museu do Ipiranga, criada em 1929, para dar destaque a pinturas sobre monções. O idealizador da sala foi Afonso d’Escragnolle Taunay, que a imaginou para dar destaque a Partida da Monção, de José Ferraz de Almeida Jr. Duas outras obras de Almeida Júnior estavam na sala: São Paulo a Caminho de Damasco e Retrato de Prudente José de Morais e Barros. Além de quadros, estavam na sala objetos reminiscentes das expedições fluviais, como mapas.
A sala foi remontada em 1944, exclusivamente sobre monções, agora sem os quadros de Almeida Júnior. O objeto principal da sala, foi dito, era o Rio Tietê, tornado mítico.
As monções Em Portugal o termo "monção" referia-se às estações mais adequadas às viagens, de acordo com o regime das águas. A origem desta palavra, contudo, não é português e sim árabe, e designa certo movimento de ventos que mostram a melhor época para navegar no oceano Índico. Adaptado ao cenário brasileiro, o termo foi destinado a denominar jornadas com foco comercial, as quais partiam da capitania de São Paulo e se destinavam às minas de Cuiabá. No caso destas expedições, a época mais favorável situava-se entre fins de março e meados de junho, após o período mais intenso das chuvas e antes das secas.
As monções, expedições fluviais realizadas no século XVIII, eram, logo, conceitualmente distintas das bandeiras realizadas no século XVII e das expedições científicas do XIX. Quem organizou textualmente esta distinção foi o sucessor de Taunay, Sérgio Buarque de Holanda. Em sua publicação intitulada Monções, lançada em 1945, dissocia as categorias de "bandeiras" e "monções de povoado". Estas últimas puderam ser individualizadas por sua permanência ao longo do século XVIII, pela sua regularidade anual, e pelo tipo de transporte utilizado. Este historiador declara que: "Não é só o emprego de meios de locomoção diversos, é, também, e principalmente, o complexo de atitudes e comportamentos, determinados por cada um desses meios, o que fará compreender a distinção essencial entre a primitiva bandeira e a monção de povoado. Naquela, os rios constituem, efetivamente, obstáculos à marcha, e as embarcações são apenas o recurso ocasional do sertanista, utilizável onde a marcha se tornou impossível. Nas monções, ao contrário, a navegação, disciplinadora e cerceadora dos movimentos, é que se torna regra geral, e a marcha a pé, ou a cavalo, ou em carruagem (na fazenda de Camapuã, por exemplo), constitui exceção a essa regra."
No século XVII, a intenção principal das aventuras Brasil adentro era a captura de indígenas. Diz-se que a existência do ouro inicialmente não incentivava as aventuras paulistas.GODOY, S. A. de (2002) Itu e Araritaguaba na rota das monções (1718 a 1838). 235p. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, SP. Disponível em: <http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/286309>. Acesso em: 11 jun 2020 Os bandeirantes, logo, eram aqueles que embrenhavam-se no interior da América Portuguesa, a partir da capitania de São Paulo, com o propósito de capturar indígenas para o trabalho cativo nas vilas paulistas ou para a sua comercialização com outras regiões. As bandeiras tiveram maior ocorrência ao longo do século XVII e nos inícios do século XVIII, e foram em parte responsáveis pelo alargamento dos limites da capitania paulista.
Já o princípio da história das monções é marcada pelo descobrimento das minas de ouro em Cuiabá, em 1772. Esse fato atraiu muita população para a região, a qual não possuía uma produção agrícola suficiente para abastecer esse novo contingente. Desse modo, as monções seguem desde o Tietê até Mato Grosso, aproveitando este novo mercado de alimentos emergente. Segundo o historiador Sérgio Buarque de Holanda, " o que estimulava agora essas expedições já não era tanto o ânimo aventureiro, mas o lucro certo, que prometia o comércio com esses remotos sertões, distanciados de qualquer recurso, onde os preços atingidos por todos os artigos, até mesmo os de uso indispensável, parecem destinados a compensar abundantemente todos os riscos da viagem."
As frotas paulistas que seguiam com mantimentos até as minas saíam do porto de Araritaguaba - atual Porto Feliz, mas na época uma freguesia de Itu. Essa localidade é frequentemente representada nos quadros que compõem a Sala das Monções, por exemplo em Partida de Porto Feliz, Carga de canoas, ambas de Oscar Pereira da Silva, e Benção das Canoas, de Aurélio Zimmermman. As monções eram viagens de no mínimo cinco meses - mesmo período que levavam os viajantes de Portugal a Índia. Seu itinerário principal, inicialmente, seguia pelos rios Tietê, Grande, Camapoã, Pardo, Coxim, Taquari, Porrudos, Paraguai e Cuiabá. Esse trajeto foi sendo repensado ao longo do tempo, podendo incluir também os rios Paraná, Paranapanema, Ivinheima, Anhanduí-Guaçu e São Lourenço também são citados como opções. Sérgio Buarque de Holanda declara que após a descoberta do varadouro de Camapoã, em 1720, criou-se uma "estrada definitiva das monções", que passava por tal localidade. Ali os tripulantes podiam consertar os barcos e reabastecer o armazenamento de mantimentos.
Entre as dificuldades encontradas no trajeto, há a presença de outros povos, muitas vezes não pacíficos. São citados os índios Mbaiá, Caiapó, Paiaguá e Guaicurú, assim como os castelhanos. Fora isso, havia os perigos da própria atividade de navegação, amplificadas pelo caráter dos rios brasileiros - e em especial do rio Tietê. São citadas perdas humanas e de bens pela dificuldade no manejo das canoas e falta de conhecimento aprofundado dos rios. As pedras que ofereciam riscos de colisão, os redemoinhos, as cachoeiras e as mudanças de vento tinham de ser enfrentados ao longo do caminho. O conde de Azambuja caracterizou o Rio Tietê por suas águas fortes e violentas, e como aquele mais repleto das piores cachoeiras. Gervásio Rebello atesta que embora este rio fosse navegado já há mais de cem anos, toda tropa que passava por ele sofria perdas. O Rio Grande ficou conhecido por não só ser caudaloso, mas possuir caldeirões e redemoinhos. Ao longo do rio Pardo era necessário passar por nada menos que 54 cachoeiras, sendo nove delas só eram transponíveis mediante o descarregamento das canoas. Esse rio tinha águas tão "arrebatadas e violentas que [era] preciso saltar a gente em terra e levarem as canoas com duas cirgas, para poderem vencer a violências das águas e livrarem-nas das pedras de que estão cheios os canais". As dificuldades continuavam para se acessar o varadouro de Camapoã e nos rios que se seguiam após ele, agora não por água forte, mas pela escassez desta. A obra "Desencalhe de canoas", inicialmente ilustrada por Hercule Florence e posteriormente pintada a óleo por Zilda Pereira - presente na Sala das Monções - demonstra visualmente dificuldades deste trecho. A atividade, que também possuía suas dificuldades, de procurar e montar pouso adequado também foi retratada em tela exposta na citada Sala. De autoria de Aurélio Zimmerman, Pouso nas Monções fora inspirada em uma ilustração realizada por Florence. Além dos perigos evidentes, ainda povoava a imaginação dos tripulantes itens como a canoa fantasma e o poço do Pirataraca, suposta habitação de um grande bicho. Ambas estas duas lendas foram retratadas em telas por Nair Opromolla Araújo, e estas participaram da composição da segunda edição da Sala das Monções (aquela montada na sala B-4, em 1944). Uma vez que não foram inspiradas em anteriores desenhos, a realização destas pinturas dependeu de relatos verbais. O próprio Afonso Taunay contribuiu para estes relatos, como mostra a correspondência enviada por ele à pintora brasileira citada, em 27 de agosto de 1943. Nesta, ele descreve o modo com que havia imaginado o quadro, segundo o que havia ouvido dos cronistas. Ele diz o "monstro" poder ser representado como uma cobra, enorme em comprimento e grossa, e com grandes olhos escancarados. Ela se posicionaria quase perpendicular ao plano das águas. Os homens da tela seriam representados em seu canoão, assustados e com a mão sobre a testa, olhando por meio da bruma para o grande animal, atônitos.
O edifício no qual será criada a Sala das Monções: o Museu Paulista (Museu do Ipiranga) O Museu Paulista, onde localiza-se a Sala das Monções, é, enquanto instituição, o museu público mais antigo da cidade de São Paulo. Criado em 1890, inicialmente fora denominado Museu do Estado. A atual denominação foi dada em agosto de 1893, e o primeiro diretor, um naturalista alemão, é nomeado em janeiro de 1894. A entidade é conhecida pelo nome "Museu do Ipiranga" desde que alojou-se no bairro com este nome, em 1895. O edifício em que se encontra desde então encontra-se mais especificamente no Parque da Independência, este inaugurado em 1989, o qual reúne o museu a outros dois bens culturais - o Monumento à Independência e a Casa do Grito. O chamado "conjunto do Ipiranga", que engloba o museu, seus jardins e os bosques que o circundam, o monumento, a casa e o parque, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1998. Devido a esta variedade de itens, o tombamento ocorre em três dos quatro livros estabelecidos pelo Decreto Lei nº. 25, de 30 de novembro de 1937: o Livro Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, o Livro Histórico e o Livro de Belas Artes.
O Museu Paulista não foi inicialmente pensado para ter o fim que possui hoje. A princípio ele foi proposto como um monumento. O projeto da edificação-sede do museu foi incumbido a Tommaso Gaudenzio Bezzi, engenheiro e arquiteto italiano radicado no Brasil desde 1875. Este profissional foi indicado pela Comissão Central do Monumento do Ipiranga, em 1882, e em novembro deste ano entrega o projeto. Em 1883, após modificações realizadas por uma comissão técnica, o projeto é aprovado, e as obras se iniciam dois anos depois. Em 1890 encerra-se a construção do "Palácio de Bezzi", como ficara conhecido na época, e no dia 7 de setembro de 1895 é realizada uma inauguração solene do local. A edificação é um palácio eclético, construído para aparentar grande porte, e logo monumentalidade, apesar de possuir espaço interno limitado. Segundo o catálogo da exposição "Às margens do Ipiranga", "O projeto inicial previa um retângulo alongado e dois braços laterais projetando-se da fachada principal, voltada para a cidade (como consta da maquete da época). Abandonadas as alas, por razões de economia, restou o retângulo pontuado por três corpos salientes. O do meio, com arcadas que suportam pares de colunas coríntias e frontão, é servido por ampla escadaria axial e rampas laterais. Em recuo, torre cujo topo é oco e apenas mascara um domo transparente que iluminava os espaços nobres internos. Os corpos das extremidades são torres ligeiramente mais baixas que a central - com a qual, aliás, não têm comunicação direta. O essencial do edifício se desenvolve em dois andares, tirante o subsolo e um terceiro andar nas torres. O térreo dispõe de um saguão hipostilo (são 24 colunas), de onde parte escadaria monumental que, em dois lances após um patamar, desemboca no Salão Nobre, por sobre o saguão. Tanto no térreo quanto no segundo andar, corredores laterais servem a uma sequência de pequenas salas de, em média, 55m²."
Por sua destacada arquitetura, e por sua função de monumento, o edifício necessariamente influencia nas exposições e salas que abriga. Não é possível ignorar o impacto do prédio ao pensar as disposições e conteúdos expositivos, pois sua história e suas simbologias misturam-se às peças apresentadas nele.BOGUS, R. (2009). O projeto museográfico da exposição Cartografia de uma história - São Paulo colonial: mapas e relatos . Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 17(1), 17-33. https://doi.org/10.1590/S0101-47142009000100003