A Batalha do Dniepre foi uma campanha militar ocorrida em 1943, no quadro da Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial. Foi uma das maiores operações desse conflito internacional, tendo envolvido quase quatro milhões de homens ao longo de mais de 1 400 km de frente.
Durante seus quatro meses de duração, a margem oriental do Dniepre foi recuperada das forças alemãs pelo Exército Vermelho, que realizou várias travessias de assalto para estabelecer cabeças de ponte. Como consequência dessa batalha, Kiev pôde ser libertada na Batalha de Kiev de 1943.
No total, 2 438 soldados do Exército Vermelho foram condecorados com o título de Herói da União Soviética por sua participação nessa batalha, número esse que é superior ao total de condecorações desse tipo que até então haviam sido concedidas. Nunca mais houve um número tão grande de laureados em uma única ocasião.
Situação estratégica Após a batalha de Kursk, as forças do Heer e da Luftwaffe no sul da União Soviética estavam na defensiva, sobretudo na Ucrânia. Em meados de agosto, Adolf Hitler entendeu que a próxima ofensiva soviética não poderia ser contida na estepe aberta e ordenou a construção de uma série de fortificações ao longo da linha do rio Dniepre.
No lado soviético, Josef Stalin estava determinado a lançar uma grande ofensiva na Ucrânia. O principal impulso da ofensiva seria em direção ao sudoeste, com o flanco norte amplamente estabilizado e o flanco sul no Mar de Azov.
Planejamento
Planejamento soviético A operação começou em 26 de agosto de 1943. As divisões soviéticas começaram a se mover em uma frente de 1 400 km, que se estendia entre Smolensk e o Mar de Azov. No geral, a operação seria executada por 36 exércitos de forças combinadas, quatro exércitos de tanques e cinco exércitos aéreos. Cerca de 2,65 milhões de homens foram alistados para esta enorme operação. A operação utilizaria bocas de fogo, 2 400 tanques e 2 850 aviões.
O Dniepre é o terceiro maior rio da Europa, atrás apenas do Volga e do Danúbio. Em sua parte inferior, sua largura pode chegar facilmente a três quilômetros, e represas em vários lugares a torna ainda maior. Além disso, sua costa ocidental — a que ainda seria retomada — era muito mais alta e mais íngreme do que a leste, complicando ainda mais a ofensiva. Além disso, a margem oposta foi transformada em um vasto complexo de defesas e fortificações mantido pela Wehrmacht.
Diante de tal situação, os comandantes soviéticos tinham duas opções. A primeira seria dar-se tempo para se reagrupar forças, encontrar um ou dois pontos fracos para explorar (não necessariamente na parte inferior do Dniepre), cruzar o rio em um ataque duro mas pontual, e cercar os defensores alemães por detrás, dessa forma cortando-os de suas linhas de suprimento e tornando suas linhas de defesa inúteis (operação em profundidade, algo muito parecido com o que os panzers alemães fizeram quanto à linha Maginot, em 1940). Esta opção foi apoiada pelo marechal Gueorgui Jukov e pelo Chefe do Estado-Maior Adjunto Alexei Antónov, preocupados em evitar perdas substanciais, após a violenta Batalha de Kursk. A segunda opção seria realizar um grande ataque sem esperar, forçando o cruzamento do Dniepre em uma frente ampla. Esta opção não daria tempo adicional aos defensores alemães, mas levaria a baixas muito maiores do que um avanço bem-sucedido por meio de uma operação em profundidade. Esta segunda opção foi apoiada sobretudo por Stalin, devido à preocupação de que a política alemã de terra arrasada pudesse devastar a região no caso de o Exército Vermelho não avançar suficientemente rápido.
A Stavka (o alto comando soviético) escolheu a segunda opção. Em vez de uma operação de penetração profunda e cerco, o soviete preferiu fazer pleno uso de partisans para atacar e interromper a rota de abastecimento da Alemanha, de modo que os alemães não pudessem enviar reforços ou remover instalações industriais soviéticas na região. Em sua decisão, a Stavka também levou em consideração a possibilidade de os alemães arrasarem a região, buscando prevenir isso por meio de um avanço rápido.
O ataque foi planejado para ser realizado quase simultaneamente em uma frente de trezentos km de extensão. Todos os meios de transporte disponíveis deveriam ser usados para transportar os atacantes para a margem oposta, incluindo pequenos barcos de pesca e jangadas improvisadas, feitas de barris e árvores. A preparação do equipamento de cruzamento foi ainda mais complicada pela estratégia alemã de terra arrasada, com a destruição de todos os barcos e materiais que poderiam ser usados na construção de barcos. A questão crucial seria, obviamente, o equipamento pesado. Sem isso, as cabeças de ponte não aguentariam por muito tempo.
Organização soviética
Frente Central (conhecida como Primeira Frente Bielorrussa a partir de de 20 de outubro de 1943), comandada por Konstantin Rokossovsky e responsável por soldados (não participou da batalha de Dniepre após 3 de outubro) 2º Exército de Tanques, liderado por Aleksei Rodin e depois Semion Bogdanov (a partir de setembro) 9º Corpo de Tanques, liderado por Hrihori Rudtchenko (KIA) e depois Boris Bakharov 60º Exército, liderado por Ivan Tcherniakhovski 13º Exército, liderado por Nikolai Pukhov 65º Exército, liderado por Pavel Batov 61º Exército, liderado por Pavel Belov 48º Exército, liderado por Prokofi Romanenko 70º Exército, liderado por Ivan Galanin, Vladimir Sharapov (setembro-outubro) e Aleksei Grechkin (depois de outubro) 16º Exército Aéreo, liderado por Sergei Rudenko Frente de Voronej (conhecida como a Primeira Frente Ucraniana a partir de 20 de outubro de 1943), comandada por Nikolai Vatutin e responsável por soldados 3º Exército Blindado da Guarda, liderado por Pavel Ribalko 1º Exército de Tanques, liderado por Mikhail Katukov 4º Corpo de Tanques da Guarda, liderado por Pavel Poluboiarov 1º Corpo de Cavalaria da Guarda, liderado por Viktor Baranov 5º Exército da Guarda, liderado por Aleksei Jadov 4º Exército da Guarda, liderado por Grigori Kulik, Aleksei Zigin (KIA) e Ivan Galanin 6º Exército da Guarda, liderado por Ivan Chistiakov 38º Exército, liderado por Nikandr Tchibisov e Kirill Moskalenko (desde outubro) 47º Exército, liderado por Pavel Korzun, Filipp Jmachenko (setembro-outubro) e Vitali Polenov (desde outubro) 27º Exército, liderado por Sergei Trofimenko 52º Exército, liderado por Konstantin Koroteev 2º Exército Aéreo, liderado por Stepan Krasovski Frente Estepe (conhecida como a 2ª Frente Ucraniana após 20 de outubro de 1943), comandada por Ivan Konev Frente Sudoeste (conhecida como a Terceira Frente Ucraniana após 20 de outubro de 1943), comandada por Rodion Malinovski Frente Sul (conhecida como a Quarta Frente Ucraniana após 20 de outubro de 1943), comandada por Fiodor Tolbukhin
Planejamento alemão miniaturadaimagem|163x163px| Grupo de Exércitos Sul: Erich von Manstein A ordem para construir o complexo de defesa de Dniepre, conhecido como "Muro Oriental", foi emitida em 11 de agosto de 1943 e começou a ser executada imediatamente.
Fortificações foram erguidas ao longo do rio Dniepre, embora não houvesse esperança de completar uma linha defensiva tão extensa no curto espaço de tempo disponível. Portanto, o Muro Oriental não era uniforme na densidade e na profundidade de suas fortificações. Em vez disso, estas estavam concentradas em áreas onde era mais provável que ocorressem os assaltos soviéticos, como perto de Krementchuk, Zaporijia e Nikopol.
Além disso, em 7 de setembro de 1943, as forças da SS e da Wehrmacht receberam ordens para implementar uma política de terra arrasada, destruindo, nas áreas que tinham que abandonar, qualquer coisa que pudesse ser usada pelo esforço de guerra soviético.
Organização alemã
Luftflotte 2 (unidades selecionadas) - Wolfram Freiherr von Richthofen (na Ucrânia) Grupo de Exércitos Sul - Erich von Manstein 4º Exército Panzer - Hermann Hoth 1º Grupo Panzer - Eberhard von Mackensen 8º Exército - Otto Wohler 6º Exército - Karl-Adolf Hollidt (transferido para o controle do Grupo de Exércitos A) Luftflotte 4 - Wolfram von Richthofen e Otto Deßloch (desde setembro) (na Crimeia) Grupo de Exércitos A - Ewald von Kleist Grupo de Exércitos Centro - Günther von Kluge 2º Exército - Walter Weiß (não participou na batalha do Dniepre depois de 3 de outubro)
Descrição da operação estratégica
Ataque inicial miniaturadaimagem| Soldados alemães ocupam posições defensivas no Dniepre. Apesar da grande superioridade numérica dos atacantes soviéticos, seus objetivos eram desafiadores. A oposição alemã foi feroz, e os combates adentraram cidades e vilas. A Wehrmacht fez uso extensivo de guardas traseiros durante sua retirada, deixando tropas em cada cidade e em cada colina, a fim de diminuir a ofensiva soviética.
Progresso da ofensiva miniaturadaimagem| Soldados soviéticos cruzando o rio Dniepre em jangadas improvisadas. Três semanas após o início da ofensiva, e apesar das pesadas perdas no lado soviético, ficou claro que os alemães não podiam esperar conter a ofensiva soviética no terreno plano e aberto das estepes, onde a força numérica do Exército Vermelho prevalecia. Manstein pediu doze novas divisões, na esperança de conter a ofensiva soviética, mas as reservas alemãs estavam perigosamente escassas.
Em 15 de setembro de 1943, Hitler ordenou que o Grupo de Exércitos Sul se retirasse para a linha de defesa do Dniepre. A batalha por Poltava foi especialmente amarga. A cidade foi fortemente fortificada e sua guarnição bem preparada. Depois de alguns dias inconclusivos que diminuíram bastante a ofensiva soviética, o marechal Konev decidiu ignorar a cidade e seguir em direção ao rio Dniepre. Depois de dois dias de violenta guerra urbana, a guarnição de Poltava foi superada. No final de setembro de 1943, as forças soviéticas atingiram a parte inferior do rio Dniepre.
Operação aerotransportada A Stavka transferiu o 3.º Exército de Tanques da Frente Central para a Frente de Voronej, buscando competir com os alemães enfraquecidos no Dniepre, salvar a plantação de trigo da política alemã de terra arrasada, e instalar cabeças de ponte antes que a defesa alemã pudesse se estabilizar. O 3º Exército de Tanques alcançou o rio na noite de 21 para 22 de setembro, e, no dia 23, forças de infantaria soviéticas atravessaram o rio nadando e usando jangadas improvisadas, para proteger a frágil cabeça de ponte que havia sido estabelecida. Essas forças encontraram a oposição de cerca de 120 candidatos a oficiais e do 19º Batalhão de Reconhecimento da Divisão Panzer, que eram as únicas forças alemãs em um raio de 60 km. Contudo, um pesado ataque aéreo alemão e a falta de equipamento para construção rápida de pontes impediram que armamentos pesados soviéticos cruzassem o rio e expandissem a cabeça de ponte.
Os soviéticos, percebendo a fragilidade de sua situação através do rio, ordenaram que um assalto do corpo aéreo aumentasse o tamanho da cabeça de ponte antes que os alemães pudessem contra-atacar. No dia 21, as 1ª, 3ª e 5ª Brigadas Aerotransportadas da Frente Voronej receberam ordens para garantir, no dia 23, um perímetro 15 a 20 km de largura e 30 km de profundidade na curva do Dniepre entre Kaniv e Rzhishchev, enquanto outras unidades da frente atravessavam o rio.