A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Porta do Céu é uma igreja localizada em Telheiras, na freguesia do Lumiar, em Lisboa. Pertenceu ao convento de religiosos franciscanos de Portugal, tendo sido edificada em 1633 a mando de D. João, Príncipe de Cândia, na Ásia (1578-1642). Ali se encontra o seu túmulo.

História

Das origens O mosteiro e igreja ligados à invocação de Nossa Senhora das Portas do Céu, em Telheiras, Lisboa, têm origens que remontam ao século XIII, altura em que as Chancelarias de D. Afonso II mencionaram a propriedade “Teleiras” como parte dos bens do Mosteiro de São Vicente de Fora. Contudo, uma presença religiosa mais formal apenas se dá no local a partir do século XVII.

A fundação do convento por D. João de Cândia (século XVII) thumb|left|D. João, Príncipe de Cândia|291x291pxEm 1614, já existia no sítio uma pequena ermida dedicada à Senhora do Céu, onde foi sepultada uma mulher de nome Violante Dias. Posteriormente, em 1625, D. João de Cândia, um nobre residente num palácio à entrada da Mouraria, adquiriu um terreno em Telheiras que, com o tempo, passaria a ser conhecido como: Quinta do Príncipe, Quinta de D. João, Quinta de Telheiras, ou Quinta do Convento. Ali, D. João procedeu a uma série de construções e ampliações, incluindo a edificação de um oratório, e fundou a Irmandade de Nossa Senhora das Portas do Céu, cuja celebração anual ocorria no terceiro domingo de Junho. D. João doou ao oratório quatro castiçais de prata, uma lâmpada grande e seis balaústres, também de prata.

Entre 1632 e 1633, D. João de Cândia fundou um convento franciscano dedicado a Nossa Senhora das Portas do Céu, destinado à convalescença dos frades franciscanos. A construção do convento foi realizada junto a uma torre antiga com cerca de 28 a 30 metros de altura, e, em 1633, foi eleito o seu confessor, Frei Manuel do Sepulcro.

Em 1642, D. João redigiu o seu testamento na véspera da sua morte, com o intuito de garantir que as peças de tapeçaria, prata, alfaias litúrgicas e outros bens doados ao convento não fossem vendidos. Faleceu no início de Abril desse ano, na sua residência na Rua Direita da Mouraria, e o elogio fúnebre foi proferido por Frei Manuel da Esperança. Terá sido sepultado na ermida de Telheiras, junto ao altar-mor. Na altura, o oratório estava quase concluído, e a igreja já possuía como capela principal a de Nossa Senhora das Portas do Céu, onde se encontrava uma imagem da padroeira segurando uma chave de prata.

A sucessão de D. João de Cândia Após a morte de D. João de Cândia em 1642, Frei Manuel da Esperança foi designado para governar o Convento de Telheiras, liderando cinco frades sob regime de clausura. Sucedeu-lhe Frei Manuel do Sepulcro, a quem se atribui a construção do retábulo da capela-mor e do sacrário, além da introdução de novas peças de prata doadas por nobres, como uma custódia, que substituíram as peças roubadas anteriormente. No interior da igreja, destacava-se um tecto de estuque com a representação da Virgem com o Menino. No altar-mor, além de uma grande imagem da padroeira em camarim e trono de talha dourada, figuravam quatro outras imagens: do lado do Evangelho, Nossa Senhora da Conceição e São Vicente, mais tarde substituído pelo Senhor Jesus da Boa Morte; e do lado da Epístola, Nossa Senhora do Parto e São João Baptista, padroeiro da Freguesia do Lumiar.

Em 14 de Dezembro de 1653, um documento relatou um episódio marcante: Maria Gomes, uma viúva de quarenta anos, libertou-se de um demónio durante uma missa na igreja. Em 1660, a Irmandade de Nossa Senhora das Portas do Céu, por falta de um juiz, decidiu dividir entre os irmãos as despesas das celebrações da padroeira. Em 1669, o Conde Barão e seu filho, D. Luís Lobo, residentes no Lumiar, associaram-se à Irmandade.

Em 1671, realizou-se uma cerimónia no Oratório de Telheiras, presidida pelo Comissário Geral Frei José Ximenes Samaniego. Em 1696, uma campanha de obras na igreja foi atestada pelo estado das folhas do portal. Em 1705, Frei Fernando da Soledade registou que na sacristia existia um retrato a óleo de D. João de Cândia.

Em Outubro de 1708, os restos mortais de D. João foram trasladados da Mouraria para a igreja e sobre o túmulo gravou-se a seguinte inscrição, hoje desaparecida:Aqui jaz o esmerado Sr. D. João de Áustria, Príncipe de Cândia, fundador e padroeiro deste convento. Faleceu no mês de Março de 1642 e ficou em depósito no carneiro debaixo do altar-mor, donde se trasladaram os seus ossos para esta sua sepultura no mês de Outubro de 1708

Da criação da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição à reconstrução pós-terramoto Em 1729, foi criada na igreja do convento a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Em 1740, a Irmandade de Nossa Senhora das Portas do Céu passava por uma crise económica.

Em 1749, D. Maria Ana de Áustria e D. João V aceitaram o cargo de juízes da Irmandade. Entre 1749 e 1758, nas eleições das irmandades, a imagem de São João Baptista passou a figurar ao lado da imagem da padroeira. Durante a segunda metade do século XVIII, relatos indicavam que o convento abrigava regularmente mais de vinte religiosos. Em 1752, o convento viveu um período de grande prosperidade, contando com D. José I e D. Mariana Vitória como juízes da Irmandade.

Em 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo, então Secretário de Estado, foi eleito para a presidência da mesa. Nesse mesmo ano, a 1 de Novembro, o terramoto de Lisboa causou danos significativos no edifício. Imediatamente após a catástrofe, deram-se início às obras de reconstrução, que foram assinaladas na fachada do templo actual. Durante o processo de reparação, os serviços religiosos continuaram numa estrutura provisória de madeira, onde foram erguidos três altares. Na igreja, ainda se viam as duas sepulturas erguidas por D. João de Cândia para si e para D. Filipe, seu primo. Entre os membros ilustres da Irmandade desta época, destacavam-se Manuel Gomes de Carvalho e Silva, tenente-general de Artilharia; Joaquim Miguel Lopes de Larre, secretário de Sua Majestade no Conselho Ultramarino; e Francisco Xavier de Melo, secretário de Sua Majestade no Conselho de Guerra, ambos desempenhando o papel de mordomos da capela.

Em 1758, a igreja foi palco de uma cerimónia em memória de Josefa Maria da Cruz e Silva, esposa de João Teixeira da Costa, residentes em Telheiras. O marido organizou a trasladação dos restos mortais de Josefa para um magnífico mausoléu construído na igreja, onde se realizou um elogio fúnebre proferido por Frei António Andrade. A 4 de Maio desse ano, nas Memórias Paroquiais, Feliciano Luís Gonzaga mencionou que o convento ainda funcionava em barracas erguidas na cerca, com três altares, enquanto os túmulos na igreja se mantinham intactos.

Em 1759, a mordomia da capela foi confiada a figuras da família real e da nobreza, incluindo a futura D. Maria I, as infantas D. Maria Ana, D. Maria Francisca Doroteia e D. Maria Francisca Benedita, o infante D. Pedro, o infante D. Manuel, D. António e o futuro arcebispo primaz de Espanha, D. Gaspar.

Em 1768, concluíram-se as obras de reconstrução da igreja, incluindo a instalação de cinco sinos – três maiores e dois menores – e de um relógio na torre. É também possível que, por essa época, tenha sido colocado o órgão para acompanhar os cânticos litúrgicos.

Em 1782, a rainha interveio para encerrar o litígio sobre a herança de D. João de Cândia. No final do século XVIII, foi acrescentado o emblema que coroa o arco da capela-mor. Em 1822, houve a última menção ao retrato de D. João de Cândia na sacristia.

A guerra civil e expulsão das ordens religiosas Em 1833, no contexto das guerras entre liberais e miguelistas, a igreja sofreu um saque devastador, que resultou na destruição completa da biblioteca conventual. O Inventário Geral do Convento, iniciado pouco depois, revelou o estado desolador em que o local se encontrava: já não existiam a livraria, o cartório, os utensílios de cozinha, a enfermaria, nem objectos preciosos. Apenas restavam na igreja cinco altares — o altar-mor e quatro laterais —, dois púlpitos, um guarda-vento, uma teia recente, quatro confessionários e treze imagens, incluindo a de Nossa Senhora das Portas do Céu, vestida de seda, além de diversas outras representações de santos. Na sacristia ainda se encontravam seis imagens e dois painéis de tamanho significativo: um retratando o Príncipe de Cândia e outro de São Francisco. Quanto aos bens imóveis, o convento ainda dispunha do edifício principal, com o rés-do-chão, oficinas, dormitórios no andar superior, a igreja, a sacristia e a cerca murada.

Com a extinção das ordens religiosas em 1834, os frades abandonaram as instalações conventuais, embora as missas continuassem por mais um ano sob a responsabilidade dos dois frades que permaneceram, Frei António e Frei Luís. Nesse período, ocorreu também o roubo dos sinos de bronze. O Auto de Supressão referiu a existência de oito frades no Oratório, entre os quais Frei António da Piedade Ferreira, que recebeu um subsídio do Tesouro Público em reconhecimento pela sua permanência no convento.

Em 1835, o Auto de Posse descreveu as dependências do convento, destacando o pavimento térreo com refeitório, cozinha e oficinas anexas, além de dois andares superiores que abrigavam dormitórios, formados por um corredor e diversas celas. O conjunto contava ainda com uma área rústica que incluía uma cerca com vinha, árvores frutíferas, um pequeno canavial, três tabuleiros de horta, um poço com engenho e tanque. Nesse ano, registrou-se o último enterro no interior da igreja.

O Auto de Avaliação de 1836 estimou o valor do convento, da igreja e da sacristia em dez contos de réis, estabelecendo um rendimento anual de 45$000 réis. A cerca foi avaliada em 450$000 réis, com uma renda anual de 22$500 réis, enquanto a igreja e a sacristia foram avaliadas, respectivamente, em 4:500$000 e 1:500$000 réis. O segundo piso do convento possuía dois dormitórios com doze celas e algumas áreas inacabadas, enquanto a sacristia, situada no fundo da igreja, era acedida por dois corredores laterais e tinha duas celas no andar superior.

Até 1841, houve ainda alguns enterros no chamado “claustro” do extinto convento, somando oito sepultamentos ao todo. Em 1843, a igreja foi cedida aos moradores de Telheiras, juntamente com as imagens e objectos de culto que restavam. Em 26 de Janeiro de 1846, o convento foi colocado à venda por Portaria do Ministério da Fazenda.

Em 1857, os moradores tentaram renovar a tradicional festa do Senhor Jesus da Boa Morte, mas a área destinada à feira já havia sido ocupada, tendo sido transformada no jardim de uma residência particular.

Em 1874, o historiador Pinho Leal fez uma breve descrição da igreja, exaltando sua construção em pedraria e a escultura da padroeira, Nossa Senhora das Portas do Céu:A Igreja é majestosa e construída de excelente pedraria, elegante arquitectura, com quatro capelas muito bem ornadas, com boas pinturas, feitas ainda na vida do fundador, o qual, tendo notícia de que nas Índias de Castela havia um primoroso escultor, lhe encomendou a Imagem da Padroeira [Nossa Senhora das Portas do Céu] que tem um metro e dez de alto e é belíssima. Há também nesta Igreja a Imagem de Nossa Senhora do Governo.

A influência da Ordem Terceira de São Francisco Em 1880, a Ordem Terceira de São Francisco assumiu a posse do altar de Nossa Senhora da Conceição, transferido por Pio VI para a Ermida do Sagrado Coração de Maria, actual Igreja Paroquial do Campo Grande. Mais tarde, sob ordem do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Inácio do Nascimento de Morais Cardoso, a imagem da padroeira foi depositada neste local.