Caicaus (; ; ; ) é uma figura mitológica do folclore iraniano e tradição oral, membro da semi-lendário dinastia caiânida. Segundo a Épica dos Reis de Ferdusi, governou por 150 anos durante os quais foi auxiliado pelo famoso herói . Era filho de Cai Abivé ou Caicobado e pai de Siauascis, que por sua era pai de Caicosroes, seu sucessor. Por vezes foi associado a dois xás dos medos, antecessores do Império Aquemênida: Ciaxares ou seu filho Astíages.
Etimologia
O antropônimo Caicaus corresponde ao índico antigo Kāvya Uśánas. A grafia pálavi <kʾyws> deixa o comprimento da vogal indeterminado, pois <-ʾy-> era comumente usado para grafar o avéstico -aii- e -aē-. A grafia <kʾyws> e as formas posteriores com -ā- indicam que continuou um anterior *Kāvya Usan-, que bate com a forma índica antiga. A outra grafia avéstica, Usaδan, presente em apenas duas listas idênticas, parece ser um erro gráfico, segundo Prods Oktor Skjærvø.
Vida Tradição avéstica e pálavi thumb|esquerda|upright=1.05|Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Caicaus está seu trono voador thumb|esquerda|upright=1.05|Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Caicaus tenta ascender ao céu
A genealogia de Caicaus variou muito dependendo da fonte. A Criação Original e Dencarde afirmam que Abivé era pai de 4 filhos (Cai Araxe, Cai Biarxe, Cai Pisim, Caicaus), enquanto fontes muçulmanas fazem várias distorções: Atabari cita Cai Araxe como filho de Cai Abivé, mas também coloca os 4 irmãos, mais Cai Abivé, como filhos de Caicobado, a versão que Balami segue; Abu Hanifa diz que Caicaus, Cai Abivé e Cai Caivas (Cai Araxe?) eram filhos de Caicobado; a Épica dos Reis de Ferdusi e Gardizi citam os 4 irmãos da Criação Original (trocando o nome de um deles para Cai Armine ou Cai Arxexe dependendo da leitura) como filhos de Caicobado; Taalebi coloca Cai Araxe como filho de Caicobado, mas Caicaus como seu filho e sucessor; Hâmeza e Albiruni (com Macdeci) notam, respectivamente, Cai Pisim e Caicaus como filhos de Abivé; a crônica do Moǰmal al-tawāriḵ pôs Caicaus, Cai Paxine, Cai Arxexe e Cai Araxe como filhos de Caicobado, mas noutra versão, presente na mesma obra, Caicaus era filho de Cai <ʾfrh>, filho de Caicobado. Seja como for, Caicaus era pai de Siauascis e avô de Caicosroes (Criação Original 35.31; Julgamentos 26.55).
No Iaste 5.45, onde aparece sacrificando a Anaíta no Monte da Águia (ərəzifiiāṯ paiti garōiṯ), é chamado auruua e aš.varəcah, "tendo grande varəcah", e em Iaste 14.39, aparentemente, teria viajado pelo ar no pássaro vārəṇjina. Segundo os textos pálavis, era o filho mais velho de Abivé, governou por sete continentes, e estava cheio de xwarrah (Dencarde 7.1.35, 37). Segundo a Criação Original (36.7), governou por 150 anos sobre daivas e homens (Dencarde 9.22.4), sendo que 75 destes antes de ir ao céu, e os restantes 75 depois disso. Diz-se que instruiu as terras iranianas com instruções eruditas (Dencarde 7.1.37). Em seu reinado (Criação Original 33.8-10), os daivas ficaram muito opressivos, especialmente os daivas mazanias ("gigantes"?), que impediu de prejudicar e subjugar as criaturas (Dencarde 9.22.4). Na Criação Original (33.9-11) se segue o episódio de , que atacou a Pérsia da Arábia e matou tudo o que olhou com seu olho venenoso. O turaniano Afrassíabe matou-o e assumiu o governo, deportando vários e devastando a Pérsia até que veio e tomou os habitantes de Xambarão e libertou Caicaus e os persas cativos. Caicaus então lutou contra Afrassíabe, empurrando os turanianos ao Turquestão e recultivando a Pérsia. Ele construiu uma mansão no monte Elbruz, uma parte da qual era de ouro, que servia de alojamento; duas partes de cristal, que serviam como estábulos; e duas de aço, onde os rebanhos eram mantidos e a água fluía das nascentes (Criação Original 9.22.4); a Criação Original (32.11) cita uma tradição que alega que os que entravam nessa mansão velhos saíam dela com 15 anos de idade, enquanto o Dencarde (9.22.4) fala daqueles que, debilitados pela velhice, podiam se rejuvenescer se alcançassem e circunvoluíssem-a. Caicais também fundou Samarcanda, que foi concluída por Siauascis, e Caicosroes nasceu lá (As Capitais Provinciais do Irã 2-3).
As fontes avéstico-pálavis também contam, em duas versões, a estória de sua loucura e queda. Conforme a Criação Original (33.8, cf. 36.7), sua mente estava poluída (wiyābānēnīd) e tentou batalhar com o céu, mas caiu e o xwarrah foi roubado (appār); devastou o mundo com seu exército até o prenderem e amarraram por decepção na terra de Xambarão. A versão do (Dencarde 9.22.5-12), por sua vez, é mais detalhada. Os daivas conspiraram para matá-lo, e a Fúria, empreendendo a tarefa, foi a Caicaus e, fazendo-o insatisfeito com o governo apenas dos 7 continentes, fez com que desejasse também o controle do céu e lutasse contra os deuses. Marchou sobre o Elbruz com daivas e homens maus até chegar ao Kavian xwarrah da forma de uma montanha. Seu exército atacou-o, mas Aúra-Masda reconvocou o xwarrah, e o exército inteiro caiu em terra, enquanto Caicaus caiu no , onde nadou. Sua morte foi impedida pelo espírito guardião (Fravaxi) Caicosroes, que pediu a que estava voando atrás de Caicaus, para não matá-lo, pois Siauascis não nasceria, nem Caicosroes, e os turanianos não seriam derrotados (Dencarde 9.22.9-11). Um fenômeno astral, chamado "a estrada de Caicaus" ou "a estrada da serpente " (Criação Original 5B.22), pode ter sido nomeado após este evento.
thumb|upright=1.05|Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Caicaus cai do céu thumb|upright=1.05|Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Caicaus repreende Siauascis numa carta
Segundo o Dencarde (7.1.37), Caicaus trouxe ordem aos sete continentes e ensinou às pessoas a arte útil de determinar as fronteiras (wimand-gōwišnīh). A capacidade de distinguir limites foi atribuída a um touro que apareceu em seu reinado, e sua história é contada no Dencarde (7.2.62-67) e por (Seleções 4.10-26). Este touro foi divinamente habilitado com a capacidade de determinar exatamente a fronteira entre Pérsia e Turanistão (Dencarde) ou tinha os limites escritos em seus cascos (Zadesprão). Os turanianos invejaram o touro e enviaram o guerreiro Seride para matá-lo, mas o touro lhe disse para não fazê-lo, de modo que, quando Zoroastro aparecesse, terrível infortúnio não recaísse sobre sua alma. Seride se absteve de matá-lo e foi até Caicaus e relatou o ocorrido. O xá, enganado por daivas e feiticeiros (Criação Original) ou cético quanto à chegada de profeta (Zadesprão), ordenou lhe que o matasse, que assim o fez, malgrado os protestos do touro. Segundo Zadesprão, Seride foi vencido pelo remorso, mas Caicaus lhe disse para ir à floresta, que era habitada por bruxas que removeriam seu remorso, e Seride matou o touro. Novamente perturbado, Seride retornou a Caicaus e pediu que o matasse, o que se recusou. Seride, em seguida, ameaçou matá-lo, mas o xá disse para voltar à (mesma?) floresta e fazer com que a bruxa em forma de cão o matasse. Toda vez que Seride a atingia, ela se dividia ao meio, e quando havia mil réplicas, mataram-o.
Tradição árabo-persa
Hâmeza de Ispaã registrou apenas que viveu em Bactro e que, segundo o que leu nalguns livros, construiu um edifício em Babel que tocou o céu. Atabari, por sua vez, narrou sua estória no capítulo sobre os persas que reinaram na Babilônia e Oriente após Caicobado. Começa dizendo que Caicaus viveu em Bactro, matou vários inimigos e manteve os demais longe de suas fronteiras, bem como narra o nascimento de Siauascis e sua educação por Rustão. Balami começa sua narrativa alegando que viveu em Bactro de onde governou sobre todo o Oriente e que sua fronteira oriental se dirigia ao Turquestão (Oxo), então governado por Afrassíabe, enquanto as regiões ocidentais pertenciam a Solimão. Ainda diz, antes de acompanhar o relato de Atabari, que Caicaus pediu a Solimão alguns demônios (daivas) para serem colocados em seu comando para construir cidades, e o último consentiu. Caicaus casou com a feiticeira Sudaba, filha de Afrassíabe ou do rei do Iêmem. Sudaba caluniou Siauascis para seu pai, que enviou-o para combater Afrassíabe, que não havia enviado o dote prometido, mas Siauascis se juntou a Afrassíabe e teve um filho com sua filha Vasfafarida, o futuro Caicosroes. Após a morte de Siauascis, aparentemente por Quidar, irmão de Afrassíabe, sua esposa, que estava grávida, foi convidada a abortar a criança, mas recusou. Firane (Pirane), que havia providenciado a paz entre Siauascis e Afrassíabe, advertiu o último sobre as consequências do assassinato, que pediu que Visfafarida fosse entregue a ele até que a criança nascesse, quando mataria o recém-nascido. A criança nasceu, mas Firane não conseguiu matá-la e a guerra contra os turanianos continuou. Nesse tempo apareçam diante de Caicaus os heróis Godarze e Geve.
thumb|upright=1.05|esquerda|Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Siauascis é assassinado thumb|esquerda|upright=1.05| Iluminura da Épica dos Reis de Ferdusi na qual Caicaus abraça
Solimão ordenou aos demônios que servissem Caicaus, que ordenou que construíssem uma cidade para si, de 800 parasangas de comprimento, rodeada por muros de latão amarelo, bronze, cobre, argila cozida, prata e ouro (cobre, latão, bronze e ferro de acordo com Balami). Foi levado entre o céu e a terra pelos demônios junto com seus habitantes. Depois que Deus enviou alguém (um anjo segundo Balami) para destruí-la e os demônios foram incapazes de protegê-la, Caicaus matou seus líderes. A este respeito, Atabari cita que o xá não falava enquanto comia ou bebia (como requerido no zoroastrismo), o que pode ser uma variante da história relatada em um manuscrito de Balami, onde se diz que Caicaus não precisou aliviar-se mesmo depois de comer e beber. Após a destruição da cidade, de acordo com Balami, Caicaus ficou infeliz e obsessivo em subir ao céu para ver o céu, as estrelas, o Sol e a Lua. Fez uma máquina mágica, por meio da qual ele e vários de seus homens voaram, mas as cordas da máquina quebraram quando alcançaram as nuvens e eles caíram e morreram, exceto Caicaus. Consoante Atabari, ficou preocupado com seu reinado e se recusou a comer e beber (tanāwol) "qualquer coisa a menos que o alcançasse pela ascensão ao céu." De acordo com outra autoridade citada por Atabari, Caicaus veio do Coração à Babilônia, e não satisfeito com seu reinado terrestre, queria saber sobre os céus, os planetas e aquilo que estava além deles. Deus permitiu que ele e seus seguidores subissem às nuvens, mas então os deixou cair. Depois, a guerra arrasou seu reino. Ibne de Bactro simplesmente observa que se inclinou a beber vinho e festejar, e seus inimigos vizinhos se aproveitaram para atacá-lo, com a sorte da guerra indo e voltando. Caicaus então atacou o Iêmem, cujo rei o derrotou com uma força de himiaritas e outros, destruiu seu exército, o fez prisioneiro, e o jogou em um buraco, mas foi resgatado por Rustão, vindo do Sijistão. Temeroso do que poderia acontecer na guerra, os iemenitas libertaram-no, que retornou com Rustão à Babilônia e deu-lhe as terras de Sijistão e Zabulistão.