Escravidão branca refere-se à escravidão de brancos europeus por não europeus (norte-africanos ou muçulmanos), bem como pelos próprios europeus, como os thralls (escravos) víquingues ou galeotes (criminosos condenados e/ou escravos usados como remadores em galés). Desde a Antiguidade, os escravos europeus foram comuns durante o reinado da Roma Antiga e proeminentes durante o Império Otomano no início da Idade Moderna. No feudalismo, existiram várias formas de status abaixo do homem livre, no que é conhecido como servidão (vilão, vagabundo, escravo) que podiam ser comprados e vendidos como propriedade e estavam sujeitos ao trabalho e à marca por seus donos ou demesne (posse). Sob o domínio muçulmano, o tráfico árabe de escravos que incluía cativos caucasianos, era frequentemente abastecido por ataques a territórios europeus ou eram levados quando crianças na forma de um imposto de sangue pelas famílias de cidadãos de territórios conquistados para servir ao império numa variedade de funções. Em meados do , o termo "escravidão branca" era usado para descrever os escravos cristãos que eram vendidos no comércio de escravos da Berbéria.
O uso moderno do termo também pode incluir escravidão sexual, prostituição forçada e tráfico humano.
História
O termo "escravidão branca" foi usado por Charles Sumner em 1847 para descrever a escravidão dos cristãos em todos os Estados da Berbéria e principalmente na Argélia, a capital da Argélia otomana.Sumner, Charles (1847). White Slavery in the Barbary States: A Lecture Before the Boston Mercantile Library Association, Feb. 17, 1847. Boston: William D. Ticknor and Company. pág. 4. "I propose to consider the subject of White Slavery in Algiers, or perhaps is might be more appropriately called, White Slavery in the Barbary States. As Algiers was its chief seat, it seems to have acquired a current name for the place. This I shall not disturb; though I shall speak of white slavery, or the slavery of Christians, throughout the Barbary States." Adicionado em 15/11/2018. Também abrangia muitas formas de escravidão, incluindo as concubinas europeias frequentemente encontradas em harens turcos.Sumner, Charles (1847). White Slavery in The Barbary States. A Lecture Before The Boston Mercantile Library Association, Feb. 17, 1847. Boston: William D. Ticknor and Company. pág. 54. "Among the concubines of a prince of Morocco were two slaves of the age of fifteen, one of English, and the other of French extraction. - Lampiere's Tour, p. 147. There is an account of "One Mrs. Shaw, an Irishwoman," in words hardly polite enough to be quoted. She was swept into the harem of Muley Shmael, who "forced her to turn moor";"but soon after, having taken a dislike to her, he gave her to a soldier." - Braithwaite's Morocco, p. 191." Adicionado em 15/11/2018.
O termo também foi usado a partir do início do , quando a maioria dos países da Europa assinou em Paris, em 1904, a Convenção Internacional relativa à repressão do tráfico de mulheres brancas,Câmara dos Deputados do Brasil - DECRETO Nº 21.817, DE 13 DE SETEMBRO DE 1932. Publica a adesão do Sudão ao Acordo de 1904 e à Convenção de 1910, referentes ao tráfico de mulheres brancas. Acessado em 15/11/2018. visando combater a venda de mulheres que eram forçadas à prostituição nos países da Europa continental. No início do , o termo foi usado contra a prostituição forçada e a escravidão sexual de meninas que trabalhavam nos bordéis de Chicago.
Na segunda metade do século XVII, durante o período colonial dos Estados Unidos, a escravidão branca foi uma prática comum. Consultado em 22 de setembro de 2023 Até a proclamação de Emancipação, que efetivamente aboliu a escravidão no transcorrer da Guerra Civil Americana, existiram escravos brancos nos EUA (numa proporção muito menor que de escravos negros). Evidências indicam que imigrantes pobres sequestrados, órfãos, bebês indesejados dentre outros, eram vendidos como escravos. A chamada "propaganda de escravos brancos" foi uma estratégia usada pela União para mobilizar a opinião pública do Norte a favor da abolição.
No Brasil, ocorreu escravização de brancos nos períodos colonial e monárquico. No início da ocupação territorial, Portugal enviou para lá degredados brancos para trabalhos forçados. Segundo registros, portugueses brancos foram escravizados por invasores holandeses. No Império do Brasil, tal fenômeno (visto como "anormal", já que acreditava-se que o trabalho escravo era destinado somente aos negros) gerava comoção e esforços coletivos pela libertação dos escravos brancos. Na pós-abolição no Brasil, um grande número de imigrantes portugueses e alemães, empregados na cafeicultura, trabalharam em condições análogas à escravidão. Na atualidade, episódios classificados como sendo de trabalho escravo, ainda ocorrem no país (ver: Escravidão moderna no Brasil).
Comércio de escravos brancos
Escravos eslavos
thumb|250px|Comerciante de escravos Rus' com os cazares: O comércio no campo eslavo oriental por Sergei Ivanov (1913)
A rota comercial do Volga foi estabelecida pelos varegues (víquingues) que se fixaram no noroeste da Rússia no início do . Cerca de 10 km ao sul da entrada do rio Volkhov no lago Ladoga, eles estabeleceram um assentamento chamado Velha Ladoga (língua nórdica antiga: Aldeigjuborg).Brøndsted (1965), págs. 64–65. Adicionado em 15/11/2018. Esta, ligou o norte da Europa e o noroeste da Rússia com o mar Cáspio, através do rio Volga. Os Rus' usaram esta rota para negociar com países muçulmanos na costa sul do mar Cáspio, às vezes penetrando até Bagdá. A rota funcionou concomitantemente com a rota comercial do rio Dniepre, mais conhecida como a rota comercial entre os vareques e os gregos, e perdeu sua importância no .
Sacaliba refere-se a escravos eslavos, sequestrados das costas da Europa ou em guerras no mundo muçulmano medieval, no Oriente Médio, Norte da África, Sicília e Alandalus. Sacalibas serviam, ou eram forçados a servir, de muitas maneiras: servos, concubinas de harém, eunucos, artesãos, escravos militares e como guardas do califa. Na Península Ibérica, Marrocos, Damasco e Sicília, seu papel militar pode ser comparado ao dos mamelucos no Império Otomano. Na Espanha, os eunucos eslavos eram tão populares e amplamente distribuídos que se tornaram sinônimo de Sacaliba.
Canato da Crimeia
No período do canato da Crimeia, os crimeanos realizavam incursões frequentes nos principados do Danúbio, Polônia-Lituânia e Moscóvia. Para cada cativo, o cã recebia uma parcela fixa (savğa) de 10% ou 20%. As campanhas das forças da Crimeia, denominadas sefers, operações militares declaradas lideradas pelos próprios cãs e ataques de çapuls, empreendidos por grupos de nobres, às vezes ilegalmente porque violavam os tratados concluídos pelos cãs com os governantes vizinhos. Por muito tempo, até o início do , o canato mantinha um comércio maciço de escravos com o Império Otomano e o Oriente Médio. Cafa (Teodósia) foi um dos portos comerciais e mercados de escravos mais conhecidos e significativos.Britannica.com Historical survey > Slave societies. Acessado em 15/11/2018. Incursores tártaros na Crimeia escravizaram entre 1 e 2 milhões de pessoas da Rússia e da Polônia-Lituânia durante o período de 1500 a 1700.Galina I. Yermolenko (15 Julho de 2010). Roxolana in European Literature, History and Culture. Ashgate Publishing, Ltd. pág. 111. ISBN 9780754667612. Adicionado em 15/11/2018. Darjusz Kołodziejczyk, reportado por Mikhail Kizilov (2007). Slaves, Money Lenders, and Prisoner Guards:The Jews and the Trade in Slaves and Captivesin the Crimean Khanate. The Journal of Jewish Studies. pág. 2. Adicionado em 15/11/2018. Cafa foi um dos portos comerciais e mercados de escravos mais conhecidos e significativos. Britannica.com - Slavery - sociology. Acessado em 15/11/2018. Britannica.com - Feodosiya - Ukraine. Acessado em 15/11/2018. Em 1769, um último grande ataque tártaro resultou na captura de 20.000 escravos russos e rutenos.
Costa berbere
Os mercados de escravos floresceram na costa da Berbéria, no norte da África, nos atuais Marrocos, Argélia, Tunísia e oeste da Líbia, entre o e meados do XVIII.
Esses mercados foram prósperos enquanto os estados estiveram nominalmente sob a suserania otomana, embora, na realidade, fossem em sua maioria autônomos. Nestes mercados norte-africanos eram negociados escravos europeus capturados por piratas da Barbária em ataques a navios e por invasões em cidades costeiras da Itália, Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Holanda e nas Tyrkjaránið ("sequestros turcos" na Islândia). Homens, mulheres e crianças foram capturados numa quantidade tão grande, que muitas cidades costeiras foram abandonadas.
Segundo Robert Davis, entre 1 milhão e 1,25 milhões de europeus foram capturados por piratas e vendidos como escravos no norte da África e no Império Otomano entre os séculos XV e XIX.Davis, Robert. Christian Slaves, Muslim Masters: White Slavery in the Mediterranean, the Barbary Coast and Italy, 1500-1800. Adicionado em 15/11/2018.When Europeans were slaves: Research suggests white slavery was much more common than previously believed. Research News, Universidade Estadual de Ohio. Acessado em 15/11/2018. No entanto, para extrapolar seus números, Davis assume que o número de escravos europeus capturados por piratas berberes era constante por um período de 250 anos, afirmando:
"Não há registros de quantos homens, mulheres e crianças foram escravizados, mas é possível calcular aproximadamente o número de novos cativos que seriam necessários para manter a população estável e substituir os escravos que morreram, escaparam, foram resgatados ou convertidos para o Islã. Com base nisso, acredita-se que cerca de 8.500 novos escravos seriam necessários anualmente para reabastecer números - cerca de 850.000 cativos ao longo do século, de 1580 a 1680. Por extensão, para os 250 anos entre 1530 e 1780, o número poderia ter sido tão alto quanto 1.250.000."The Guardian - New book reopens old arguments about slave raids on Europe. Acessado em 15/11/2018.
Os números de Davis têm sido contestados por outros historiadores, como David Earle, que adverte que a verdadeira imagem dos escravos europeus é obscurecida pelo fato de que os corsários também capturaram brancos não-cristãos da Europa Oriental e negros da África ocidental.
Além disso, o número de escravos negociados era superestimado, com estimativas exageradas baseadas nos anos de pico para calcular as médias de séculos inteiros, ou milênios. Assim, houve grandes flutuações ano a ano, particularmente nos séculos XVIII e XIX, dadas as importações de escravos, e também considerando o fato de que, antes da década de 1840, não há registros consistentes. O especialista em Oriente Médio, John Wright, adverte que as estimativas modernas são baseadas em cálculos retroativos da observação humana.Wright, John (2007). "Trans-Saharan Slave Trade". Routledge. Davis, Robert (17 de Fevereiro de 2011). British Slaves on the Barbary Coast. BBC. Acessado em 15/11/2018.
Tais observações, feitas entre o final do e o início dos anos 1600, são responsáveis por cerca de 35.000 escravos cristãos europeus mantidos durante todo este período na costa berbere, através de Trípoli, Túnis, mas principalmente em Argel. A maioria eram marinheiros (particularmente ingleses), levados com seus navios, mas outros eram pescadores e aldeões costeiros. No entanto, a maioria desses cativos eram pessoas de territórios europeus próximos à África, particularmente a Espanha e a Itália. Davis, Robert (17 de Fevereiro de 2011). British Slaves on the Barbary Coast. BBC. Acessado em 15/11/2018.