miniaturadaimagem|Deputados Ricardo Fiúza e Amaral Netto carregam placa durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987, na qual se lê: "O Centrão é um milagre de engenharia política. Um grupo sem líderes mas com organizadores"|263x263px
No cenário político brasileiro, o termo Centrão refere-se a um conjunto de partidos políticos que compuseram uma aliança informal durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987 com o objetivo de implementar no texto da Constituição de 1988 as propostas ligadas ao presidente da República, José Sarney (PMDB), e combater a linha política progressista defendida pelo Presidente da Assembleia Constituinte, Ulysses Guimarães (PMDB).
Após a promulgação da Constituição de 1988, esses partidos pararam de se identificar publicamente com o termo "Centrão". O vocábulo passou a ser utilizado como adjetivo para designar partidos políticos que não possuem uma orientação ideológica bem definida e que se aproximam do Poder Executivo para assegurar práticas tidas como clientelistas e fisiológicas.
Ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é atribuída a reativação política do Centrão em 2014 ao organizar em um só bloco partidário as forças políticas que estavam insatisfeitas com a distribuição de recursos e cargos pelo Governo Dilma Rousseff (PT). O grupo que ficou conhecido como "Blocão" conseguiu elegê-lo presidente da Câmara dos Deputados, apesar do apoio oficial do Planalto ao candidato Arlindo Chinaglia (PT-SP).
Apesar do nome, o termo Centrão não indica necessariamente a adoção de valores ligados ao Centro no espectro ideológico. Dentre os partidos que originalmente compunham a aliança, o Partido Democrático Social (PDS), o Partido da Frente Liberal (PFL), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Liberal (PL) têm raízes em grupos políticos que colaboraram com a ditadura militar brasileira, e a utilização do nome "Centrão" buscou dissimular essa genealogia histórica no contexto da redemocratização.
No ano de 2020, partidos como Avante, Democratas (DEM), Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Partido Liberal, Partido Social Cristão (PSC), Partido Social Democrático (PSD), Partido Republicano da Ordem Social (PROS), Partido Trabalhista Brasileiro, Patriota (PATRI), Progressistas (PP), Republicanos e Solidariedade (SD) faziam parte dele na Câmara dos Deputados. O bloco agrupa parlamentares de siglas de centro, Centro-esquerda e centro-direita.
História Surgimento durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987 miniaturadaimagem|Presidente do Senado Federal e líder do PFL, Antônio Carlos Magalhães, assina a Constituição Federal de 1988 junto ao presidente da República, José Sarney|266x266px O termo Centrão tem sua origem na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, sendo usado para designar uma coalizão de partidos com perfil de centro a centro-direita, a maioria dos quais possuía ligação histórica com a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) – partido de sustentação da ditadura militar brasileira. Durante o governo Sarney, estes partidos se aliaram para dar sustentação às propostas do Presidente da República para o texto da nova Constituição, e assim combater o grupo político liderado pelo presidente da Câmara, Ulysses Guimarães (PMDB-SP), que era acusado de "progressista".
O grupo unia a ala mais conservadora do PMDB – apelidada de Centro Democrático – ao Partido da Frente Liberal (PFL), Partido Liberal (PL), Partido Democrático Social (PDS), Partido Democrata Cristão (PDC) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A composição deste bloco suprapartidário foi apoiado por camadas da sociedade que estavam insatisfeitas com a aprovação de direitos sociais e de dispositivos estatizantes, como a radicalização da questão da reforma agrária e da função social da propriedade. esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Primeira reunião da Comissão de Sistematização, sob a presidência do Constituinte Afonso Arinos (PFL-RJ). Bernardo Cabral (PMDB-AM) foi escolhido relator da Comissão de Sistematização A instalação da importante Comissão de Sistematização em abril de 1987 foi objeto de grande disputa entre o Centrão e a liderança do PMDB, que era exercida por Guimarães. O relator e os membros da Sistematização tinham poder para alterar o trabalho feito nas etapas precedentes de discussão da Constituição e a liderança peemedebista conseguiu indicar o deputado Bernardo Cabral (PMDB-AM) para a posição de relator da Comissão. Quando a Sistematização aprovou o sistema parlamentar de governo e o mandato presidencial de quatro anos, duas propostas absolutamente contrárias às pretensões do governo Sarney, o Centrão passou a articular uma reação à suposta "influência esquerdista" que se instalava na Comissão.
Em 4 de novembro de 1987, o Centrão conseguiu arregimentar 280 assinaturas para apresentar um projeto de resolução que alterava o Regimento Interno da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). O governo teria utilizado todos os recursos políticos disponíveis – incluindo cargos, verbas e concessões de rádio e TV – de modo a aliciar e pressionar parlamentares para derrubarem as medidas da Comissão de Sistematização em plenário. No dia 10 de novembro, o projeto de resolução do Centrão foi apresentado à mesa da ANC pelo deputado Cardoso Alves (PMDB-SP), contando com 319 assinaturas, iniciando assim a sua tramitação. As negociações entre a mesa, o Centrão e as lideranças partidárias foram difíceis, mas, no início de 1988, o Centrão alcançou seu objetivo com a aprovação do Projeto de Resolução nº 21-A. miniaturadaimagem|273x273px|Ricardo Fiuza (PFL-PE), um dos principais líderes do Centrão na Constituinte, ao lado de Ulysses Guimarães (PMDB-SP), o principal rival do bloco Na Resolução nº 3, limites eram impostos contra a ação individual dos parlamentares, instituindo-se um limite de quatro emendas individuais e seis requerimentos de destaques a serem apresentação por constituinte. Ademais, passou a ser admitida a fusão de emendas para votação em plenário, o que facilitaria a negociação entre partidos e líderes no curso dos dois turnos de votação.
Durante o primeiro turno de votação da Constituinte, o Centrão conseguiu elaborar nove emendas coletivas, e também obteve o número de assinaturas necessárias para que elas tivessem preferência automática na ordem de votação. O primeiro turno de votação foi concluído no dia 30 de junho, tendo sido realizadas 732 votações. Dentre as conquistas do grupo, inclui-se a aprovação do sistema presidencialista também e do mandato de cinco anos para os chefes dos poderes executivos.
Em julho de 1988, considerando as emendas e destaques suscitados no primeiro turno, o relator Bernardo Cabral apresentou o "Projeto de Constituição B" para o segundo turno de votação. Segundo o governo Sarney, o perfil estatizante da ordem econômica e os direitos sociais constantes no anteprojeto de Cabral inviabilizariam a atividade produtiva nacional, afastariam investidores estrangeiros, aumentariam a despesa pública e desorganizariam o sistema tributário, dificultando a superação da crise econômica por que passava o país. Diante disso, o Centrão mobilizou 280 votos para rejeitar globalmente o Projeto B e, novamente, alterar as normas regimentais da Assembleia Constituinte. No dia 26 de julho, o presidente Sarney fez discurso em que tornou públicas suas críticas ao Projeto B, alegando que este, se aprovado, tornaria o país ingovernável.
miniaturadaimagem|Discurso proferido por Ulysses Guimarães (PMDB-SP) em 27 de julho de 1988, na Assembleia Nacional Constituinte, em defesa ao "Projeto B", em resposta às críticas levantadas pelo presidente José Sarney (PMDB-MA) e seus correligionários Tornada pública a crise institucional entre Sarney e Guimarães, em 27 de julho, o líder do PMDB reagiu às falas do Presidente da República e proclamou um discurso de defesa do projeto de Constituição apresentado. Após a fala de Ulysses Guimarães, foi feita a articulação de 403 votos para a aprovação do Projeto B.miniaturadaimagem|250x250px|Carlos Sant'Anna (PMDB-BA) foi o líder do governo Sarney na Câmara dos Deputados durante a Assembleia Constituinte. Médico de formação, foi também um dos principais articuladores dos dispositivos constitucionais que relacionavam a saúde como um direito universal. Ao seu lado na foto, Gastone Righi (SP), líder do PTB, e Roberto Cardoso Alves (PMDB-SP)|esquerdaA ameaça de crise institucional contribuiu para a percepção de que os trabalhos da ANC tinham que ser prontamente finalizados, uma vez que aumentavam as pressões externas à Casa por uma definição. Diante disso, consolidou-se o papel centralizador da mesa da ANC e do Colégio dos Líderes, que se reuniam para negociar a agenda de votações e reduzir o número de destaques, encaminhando os acordos feitos ao plenário. Durante as sessões, o presidente da ANC, Ulisses Guimarães, imprimia um ritmo intenso de trabalho, convocando todos à votação. O segundo turno foi concluído no dia 2 de setembro, após 38 sessões e 288 votações.
Após a votação, instituiu-se a Comissão de Redação, cujo perfil alinhado a Guimarães foi protestado pelo Centrão, que assim logrou êxito para incluir José Lins (PFL-CE), José Francisco Paes Landim (PFL-PI) e Bonifácio de Andrada (PDS-MG). A Comissão de Redação recebeu 833 emendas de redação, das quais algumas propunham alterações na matéria aprovada. Diante disso, a liderança do PFL fez requerimento reivindicando que alterações feitas ao projeto fossem votadas separadamente. No entanto, a proposta foi rejeitada pelo presidente da ANC, que considerou a manobra como um "terceiro turno". No dia 22 de setembro, o plenário da ANC, na 1.021ª votação, aprovou, por 474 votos contra 15 — todos de constituintes do PT — e seis abstenções, o Projeto de Constituição “D”.
Em entrevista anos depois, o líder do PFL na Câmara, deputado José Lourenço, quando pedido a dar sua versão da origem do centrão, respondeu: Não existindo uma definição exata, o número de deputados que compunha o Centrão neste momento histórico é estimado entre 136 parlamentares, no mínimo, a 313, no máximo, de um total de 559 constituintes.
Dissolução do Centrão após a Constituinte miniaturadaimagem|261x261px|Fernando Collor de Mello (PRN-AL) com o deputado Renan Calheiros (PRN-AL), que se tornaria o seu líder de governo na Câmara dos Deputados Após a promulgação da Constituição de 1988, o Centrão, enquanto aliança suprapartidária, foi dissolvido e os partidos pararam de se identificar publicamente com o termo, mas as práticas políticas que lhe eram características continuaram. Alguns partidos, dos quais se destacaram o Partido da Frente Liberal (PFL) e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), passaram a exercer um papel semelhante ao do Centrão. Isto é, uma força centrípeta sem uma mensagem programática definida, cuja principal função no sistema político era apoiar presidentes eleitos independentemente da sua posição no espectro ideológico.
No caso do PMDB, embora o partido fosse o sucessor do MDB, que se opôs à ditadura, e o seu presidente, Ulysses Guimarães, tivesse representado a principal frente de oposição ao Centrão durante a Constituinte, essa virada política foi influenciada por um fluxo de parlamentares oriundos do PFL e do PDS que aderiram ao partido.
Maria d'Alva Kinzo registra que, em janeiro de 1981, o PMDB contava com apenas 6 deputados federais oriundos da antiga ARENA. Com a dissolução do Partido Popular, em agosto do mesmo ano, o número chegou a 32, e, ao longo da Constituinte, se elevou a 72 parlamentares – em um total de 298. Com isso, o PMDB passou a contar com mais egressos da ARENA em suas fileiras que o próprio PDS (com 32), ficando atrás apenas do PFL (com 97).