O gonocorismo (forma adjetiva: gonocorístico ou gonocórico), ou dioicia (forma adjetiva: dióica), se refere ao fenômeno no qual organismos possuem os sexos separados, ou seja, cada espécime é exclusivamente macho ou fêmea, produzindo, respectivamente, gametas masculinos e gametas femininos. miniaturadaimagem|Ao contrário da maioria dos Platyhelminthes, os Schistosoma são gonocóricos (na imagem a fêmea pode ser vista emergindo do canal ginecofórico do macho, situado imediatamente abaixo da ventosa ventral). (Autores: Bruce Wetzel & Harry Schaefer).

Gonocorismo em invertebrados

Filo Porifera Todos os poríferos são capazes de realizar reprodução sexuada, entretanto, muitos detalhes desse processo são desconhecidos, porque, como as esponjas não têm órgãos, não existem gônadas. Os gametas são formados a partir da diferenciação de células somáticas e ficam dispersos por todo o meso-hilo.

Grande parte das esponjas é hermafrodita. Entretanto, em algumas espécies, os organismos parecem ser, permanentemente, machos ou fêmeas, enquanto, em outras, alguns organismos são gonocóricos e outros, da mesma população, são hermafroditas.

Coanócitos ou arqueócitos sofrem meiose e uma série de alterações celulares até se transformarem em ovócitos e espermatozoides, respectivamente.

A reprodução em várias espécies parece estar associada à temperatura da água, sendo a liberação de gametas ou larvas ativada por sinais endógenos e exógenos. Uma vez liberados os gametas na coluna d’água, as esponjas situadas ao longo do sentido da corrente os notam e começam a liberar seus gametas também, podendo ocorrer fecundação interna ou externa.

Filo Cnidaria Os cnidários são essencialmente dioicos, ou seja, têm sexos separados. Muitas espécies liberam os gametas diretamente no meio e a fecundação ocorre por encontro casual. No entanto, algumas espécies utilizam diferentes mecanismos para maximizar o encontro dos gametas.

Subfilo Anthozoaria

Classe Anthozoa Os antozoários são tipicamente gonocoristas, embora a maioria dos corais escleractíneos seja hermafrodita. As gônadas localizam-se na gastroderme de todos ou de apenas alguns mesentérios, na forma de almofadas longitudinais em faixa, por trás do filamento mesentérico.

A fecundação pode ocorrer internamente, mas, na maioria das espécies, ocorre externamente, em mar aberto. Os ovócitos são livres ou, ocasionalmente, acumulados em massas gelatinosas. Em geral, os espermatozoides estão equipados com estruturas flagelares e mitocondriais apropriadas à propulsão dos gametas até os ovócitos, embora as diferenças estruturais entre os espermatozoides dos antozoários sejam notáveis.

Subfilo Medusozoa

Classe Hydrozoa Todas as medusas se reproduzem sexuadamente, sendo a maior parte delas gonocórica. Os óvulos e espermatozoides originam-se de células intersticiais epidérmicas ou gastrodérmicas, que migram em direção a locais específicos da epiderme. Chegando lá, essas células aglutinam-se para formar uma gônada. Todavia, as gônadas são apenas agregados de gametas em desenvolvimento e estão localizadas abaixo do canais radiais, na epiderme do manúbrio.

Classe Scyphozoa Com poucas exceções, os cifozoários são dioicos, tendo suas gônadas localizadas na gastroderme. O tecido que forma os gametas das cifomedusas adultas sempre deriva da gastroderme, geralmente do assoalho das bolsas gástricas, e os gametas são normalmente liberados pela boca. A fecundação ocorre no mar aberto, ou nas bolsas gástricas da fêmea.

Filo Ctenophora Com exceção de duas espécies gonocóricas do gênero Ocyropsis, todas as espécies de ctenóforos são hermafroditas.

Filo Xenacoelomorpha A maioria dos acelos é constituída de hermafroditas.

Filo Chaetognatha Os quetognatos são hermafroditas.

Filo Platyhelminthes A maioria dos platelmintes são hermafroditas e apresenta sistema reprodutor complexo.

Filo Gastrotricha A maioria das espécies de gastrótricos é hermafrodita.

Filo Nemertea No que diz respeito à reprodução sexuada, a maioria dos nemertinos é dioica, porém, casos de hermafroditismo também são conhecidos.

As gônadas derivam do tecido mesenquimal, dispondo-­se como duas fileiras que flanqueiam o intestino. Elas formam estruturas pareadas, geralmente arredondadas e posicionadas alternadamente com os divertículos intestinais, no sentido longitudinal.

A liberação dos gametas pode envolver estímulos químicos liberados na água pelos próprios animais, precedida ou não pelo contato físico entre os vermes.

Filo Mollusca

Classe Solenogastres/Neomeniomorpha Os Solenogastres são hermafroditas.

Classe Caudofoveata/Chaetodermomorpha Os Caudofoveata são dioicos, com gônadas dorsais, que desembocam no pericárdio. Deste, os gametas são transportados, por meio de gonodutos, para a cavidade palial, de onde são liberados. A fecundação, portanto, é externa.

Classe Polyplacophora A maioria dos quítons é dioica, com um par de gônadas dorsais fundidas, localizadas na região mediana do corpo, anteriormente à cavidade pericárdica. A fecundação é externa, ou ocorre na cavidade do manto das fêmeas e os gametas são liberados por gonóporos, localizados no sulco palial, logo à frente dos nefridióporos.

Classe Monoplacophora Os moluscos monoplacóforos são dioicos e apresentam dois pares de gônadas, localizadas no meio do corpo, um a cada lado do intestino. As gônadas são conectadas via gonodutos com o segundo e o terceiro par de metanefrídios, pelos quais os gametas são liberados. Assim, ocorre, provavelmente, fertilização externa.

Classe Gastropoda A maioria dos gastrópodes é gonocórica, mas algumas espécies são hermafroditas. Os diotocárdios têm uma gônada única, pós torsional direita, que se abre através do metanefrídio direito e os gametas são liberados pelo nefridióporo para fertilização externa. Nos monotocárdios, a gônada tem um ducto genital glandular, que corre paralelo ao reto; a fertilização é interna.

Classe Cephalopoda Os cefalópodes são dioicos e apresentam uma gônada localizada na região posterior da massa visceral. Nos machos, os espermatozoides são conduzidos, por meio do vaso deferente, do testículo para a vesícula seminal, onde são aglutinados e encapsulados em espermatóforos, que são armazenados no saco de Needham.

As fêmeas de cefalópodes têm um único ovário e um ou dois ovidutos (as lulas têm um, e os polvos, dois). Uma região do oviduto é modificada em uma glândula oviducal, que secreta uma membrana protetora ao redor de cada ovócito.

Os ovos são fecundados à medida que saem do oviduto, ficando geralmente aderidos a pedras ou a outros substratos.

Classe Bivalvia Os bivalves podem ser gonocóricos ou hermafroditas, sendo que a maioria é gonocórica.

Apresentam um par de gônadas unidas. Nos bivalves que se enterram, elas se localizam geralmente dentro do pé, envolvendo parte do intestino. Nas espécies da epifauna, como as da família Pectinidae, essas gônadas ficam fora do pé.

A fecundação é externa, na maioria dos bivalves marinhos, e interna, na maior parte dos de água doce. Os óvulos se precipitam para dentro dos tubos aquíferos das brânquias, onde são fecundados por espermatozoides, que entram com a corrente inalante da água.

Classe Scaphopoda Os escafópodes são animais dioicos e apresentam uma única gônada grande e anterior, ligada ao metanefrídio direito, que libera os gametas pelo seu nefridióporo. A fecundação é externa.

Filo Annelida Os integrantes do filo Annelida são primitivamente animais gonocóricos, que liberam gametas através dos seus metanefrídios. As gônadas segmentares são agregados submesoteliais de células germinativas, que são liberadas e armazenadas nas cavidades celômicas (em indivíduos sexualmente maduros, as cavidades celômicas encontram-se completamente preenchida por gametas). Embora a maioria dos anelídeos seja gonocorística, o hermafroditismo é conhecido em alguns grupos, mas é encontrado, principalmente, em todos os clitelados. miniaturadaimagem|Representante da classe Polychaeta. (Autor: Arnstein Rønning).

Classe Polychaeta A maioria das espécies de poliquetos é gonocórica, com exceção de alguns sabelídeos, serpulídeos, certos nereidídeos de água doce e alguns outros clados, que são hermafroditas. Nos gonocóricos, as gônadas não são órgãos definidos, e sim massas de gametas em desenvolvimento, a partir de projeções do peritônio, em diferentes partes dos segmentos. Assim, a formação dos gametas pode ocorrer por todo o corpo, por proliferação dessas células peritoniais e liberação das mesmas no celoma na forma de gametogônias ou gametócitos primários.

Argumenta-se que os representantes de Annelida ancestrais fossem todos dioicos e que todos os seus segmentos fossem férteis, sem a diferenciação de gônadas. Por isso, em muitas formas, como nereídeos e eunicídeos, a maioria dos segmentos do tronco é fértil, o que permite a formação dos gametas ao longo do corpo todo. O mesmo não ocorre quando há regionalizações no corpo, como toráx e abdômen, quando a produção de gametas costuma estar restrita a uma região (ou alguns segmentos) específica. Membros de Amphitrite (família Terebellidae), por exemplo, têm poucos segmentos férteis, no toráx; nos Arenicola (família Arenicolidae), há apenas seis segmentos férteis. Já os Capitelideos, por outro lado, apresentam um par de gonodutos por segmento, associados aos nefrídeos, ao longo do corpo, embora estes animais apresentem tórax e abdômen diferenciados.

Os gametas são liberados no celoma em forma de gametogônia, ou gametócitos primários, e maturam ali mesmo, no líquido celomático. Em Spirobranchus (família Serpulidae), é possível ver, por transparência, os óvulos, nas fêmeas, que lhes dão uma coloração rosada, e os espermatozoides, nos machos, que dão uma coloração esbranquiçada ao abdômen. Ao final, quando o verme está maduro, o celoma fica repleto de óvulos ou espermatozóides.

Epitoquia É um fenômeno reprodutivo característico de poliquetas, como nos grupos de silídeos, nereidídeos e eunicídeos, e consiste na formação de  vermes sexualmente reprodutivos, denominados epítocos, originados de indivíduos não reprodutivos, denominados átocos.

Os epítocos, que possuem celoma totalmente preenchido por gametas, são capazes de nadar do fundo para a coluna d’água, onde liberam seus gametas. alt=|esquerda|miniaturadaimagem|Átoco de Platynereis dumerilii. (Autor: Martin Gühmann). Em períodos reprodutivos, ou os indivíduos átocos sofrem metamorfose e transformam-se em epítocos, o que caracteriza a epigamia. Nas formas epigâmicas, como os nereidídeos, o animal se modifica e se transforma num "heteronereidídeo", com olhos maiores do que o átoco, parapódios também maiores, com função natatória, e segmento posteriores intumecidos e cheios de gametas, enquanto internamente, o trato digestivo é atrofiado, liberando mais espaço para os gamentas. Outros produzem epítocos de forma assexuada, por mecanismo clonal, com o objetivo exclusivo de participarem da reprodução sexuada, um processo conhecido como esquizogamia, como ocorre com os silídeos. A produção de epítocos por esquizogamia normalmente ocorre de forma linear ou lateral ao corpo do átoco, ocorrendo a liberação das formas sexuais, após a maturação das mesmas. Em Trypanosyllis aurantiacus, por exemplo, que habita o litoral sul de São Paulo, a produção de epítocos se dá por tufos de estolões epítocos, brotando a partir da extremidade posterior do corpo. miniaturadaimagem|Epítoco fêmea de Platynereis dumerilii. (Autor: Martin Gühmann).