Os Conflitos Luso-Mamelucos trataram-se de confrontos armados entre o estado Egípcio dos Mamelucos e os Portugueses no Oceano Índico, após a expansão dos portugueses depois de navegarem em torno do Cabo da Boa Esperança em 1497. Ocorreram durante a primeira parte do século XVI, de 1505 até a queda do Sultanato Mameluco em 1517.
Operações Origens
Após o bombardeamento Português de Calecute em 1500-01 pela 2ª Armada Portuguesa da Índia comandada por Pedro Álvares Cabral, o comércio de especiarias pela Rota da Seda, ligando a Índia ao Egipto e depois a República de Veneza, foi seriamente reduzido e os preços dispararam.Venice, a maritime republic de Frederic Chapin Lane p.290 Os navios Árabes também estavam a ser atacados diretamente: em 1503, um primeiro navio Egípcio foi roubado e afundado pelos portugueses quando retornava da Índia. Em 1504, 17 navios Árabes foram destruídos pelos portugueses no porto Indiano de Ponnani.E.J. Brill's first encyclopaedia of Islam 1913–1936 de M. Th. Houtsma pag.720ff
thumb|A 7ª Armada Portuguesa da Índia lutou no Oceano Índico a partir de 1505.
Em 1504, o Sultão Mameluco Axerafe Cançu Algauri enviou pela primeira vez um emissário ao papa, na pessoa do Grão-Prior do Mosteiro de Santa Catarina, advertindo que se o papa não parasse com as ações dos Portugueses contra os Muçulmanos, ele traria ruína para o Lugar Santo Cristão no Levante e para os Cristãos que viviam no seu reino.Mecca: a literary history of the Muslim Holy Land de Francis E. Peters pag.176ff
Em 1504, os Venezianos, que compartilhavam interesses comuns com os Mamelucos no comércio de especiarias e desejavam eliminar o desafio Português, se possível, enviaram o emissário Francesco Teldi ao Cairo.Ottoman seapower and Levantine diplomacy in the age of discovery de Palmira Johnson Brummett pag.34ff Teldi tentou encontrar um nível de cooperação entre os dois reinos, encorajando os Mamelucos a bloquear as navegações Portuguesas. Os Venezianos alegaram que não podiam intervir diretamente e encorajaram o Sultão Mameluco Axerafe Cançu Algauri a agir entrando em contato com os príncipes indianos de Cochim e Cananor para convencê-los a não negociar com os Portugueses, e com os Sultões de Calecute e Cambaia para lutarem contra eles. Algum tipo de aliança foi assim concluída entre os Venezianos e os Mamelucos contra os Portugueses."Durante o reinado de Algauri, uma política perspicaz levou o Sultão a fazer uma aliança com os Venezianos para se opor à instalação dos Portugueses na Índia. Infelizmente a frota Mameluca possuía um poder de fogo insuficiente" em Splendours of an Islamic world de Henri Stierlin,Anne Stierlin p.40 Houve alegações, expressas durante a Guerra da Liga de Cambrai, de que os Venezianos tinham fornecido aos Mamelucos armas e habilidosos construtores de navios.
Os Mamelucos, no entanto, tinham pouca inclinação para as operações navais: "A guerra contra os Portugueses, sendo principalmente uma guerra naval, era totalmente estranha aos Mamelucos e pouco a seu gosto. A marinha e tudo relacionado a ela era desprezado pelos cavaleiros Mamelucos".Ayalon, quoted in Mecca: a literary history of the Muslim Holy Land de Francis E. Peters pag.434 Nota 82
Os Portugueses, no entanto, continuaram a bloquear o Mar Vermelho e a prender navios mercantes Muçulmanos.
Expedição Mameluca (1505) Em 1505, o Sultão Mameluco Axerafe Cançu Algauri ordenou a primeira expedição contra os Portugueses. A frota foi construída com madeira e armas do Império Otomano, e equipas e armadores foram recrutados em todo o leste do Mediterrâneo. A expedição, sob o comando de Mirocém, partiu de Suez em Novembro e viajou por mar até Jidá, onde fortificou a cidade. A frota então preparou-se para ir para Adem. Isto coincidiu com o envio da 7ª Armada Portuguesa da Índia para o Oceano Índico, comandada por Francisco de Almeida.
Em 1506, outra frota comandada por Afonso de Albuquerque começou a atacar as costas da Arábia e do Corno de África, depois de derrotar uma frota Muçulmana.A military history of modern Egypt: from the Ottoman Conquest to the Ramadan War de Andrew James McGregor pag.20ff Em 1507, uma frota de cerca de 20 navios Portugueses entrou no Mar Vermelho e atacou o transporte marítimo Indiano para lá, levando o comércio dos Mamelucos a um quase colapso. Os Portugueses tentaram estabelecer uma base em Socotorá, em 1507, a fim de impedir o comércio dos Mamelucos através do Mar Vermelho, mas a ilha mostrou-se demasiado inóspita e ineficaz nesse papel, de modo que os Portugueses partiram depois de alguns meses.A history of Portuguese overseas expansion, 1400–1668 by M. D. D. Newitt p.87ff
Em Agosto-Setembro de 1507, a frota Mameluca de cerca de 50 navios estava estacionada em Adem, preparando-se para ir para a Índia.
Batalha de Chaul (1508)
A frota, novamente sob o comando de Mirocém, foi enviada para a Índia em 1507. Os Mamelucos aliaram-se ao Sultanato Muçulmano de Guzarate, a primeira potência naval da Índia na época.Firearms: a global history to 1700 de Kenneth Warren Chase pag.103ff A frota foi calorosamente recebida em Diu, e Mirocém juntou-se a Meliqueaz, um almirante Mameluco de origem dálmata que servia Guzarate, como líder da frota Mameluca na batalha de Chaul, onde enfrentaram e derrotaram a frota de Lourenço de Almeida, filho do Vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida."A frota Mameluca foi saudada calorosamente em Diu pelo seu governador, Meliqueaz, um Mameluco Russo que havia conquistado a simpatia do rei de Guzarate. Guzarate, que comercializava principalmente através do Mar Vermelho e do Egito, continuou a resistir aos Portugueses" em A military history of modern Egypt: from the Ottoman Conquest to the Ramadan War de Andrew James McGregor pag.20
Batalha de Diu (1509)
Após esta batalha, os Portugueses lutaram ferozmente liderados pelo próprio vice-rei, que procurava vingar a morte de seu filho e libertar os prisioneiros portugueses feitos em Chaul em 1508. Os portugueses finalmente conseguiram eliminar a frota sul Mameluca em 1509 no Batalha de Diu.Islam at war: a history by George F. Nafziger, Mark W. Walton p.69
A resistência dos Mamelucos impediu os Portugueses de bloquear completamente o comércio do Mar Vermelho. No entanto, a interrupção do fornecimento foi suficiente para forçar os preços no Egito a atingirem níveis astronômicos.Trade and civilisation in the Indian Ocean by K. N. Chaudhuri p.67
Diplomacia Diplomacia veneziana thumb|esquerda|Os Venezianos sob Leonardo Loredano favoreceram os Mamelucos e Otomanos contra os Portugueses. Os Mamelucos tentaram mais uma vez assegurar a ajuda dos Venezianos contra os Portugueses, e intervieram defendendo o caso com o Papa.
Os Venezianos, que tinham estado em paz com os Otomanos desde a assinatura do Tratado de Paz de Andrea Gritti após a Guerra Otomano-Veneziana, continuaram a garantir a paz com os Otomanos e renovaram o seu tratado em 1511, levando-os a encorajar Otomanos para participar do lado Mameluco no conflito contra os Portugueses.
thumb|Embaixada Veneziana ao Governador Mameluco em Damasco em 1511, oficina de Giovanni Bellini. A reaproximação era tal que Veneza autorizou o aprovisionamento Otomano em seus portos do Mediterrâneo, como o de Chipre. Veneza também solicitou apoio Otomano na Guerra da Liga de Cambrai, mas em vão.
Um tratado comercial Mameluco-Veneziano foi assinado pelo embaixador do Cairo Domenico Trevisan em 1513. Depois desse ponto, no entanto, e dos reveses dos Mamelucos e Persas contra os Otomanos, Veneza cada vez mais favoreceu uma reaproximação com o Império Otomano.
Tentativas de Albuquerque de criar uma aliança Portuguesa-Persa Por outro lado, os Portugueses, que temiam uma nova expedição dos Mamelucos, organizaram uma reaproximação com a Pérsia e se empenharam em estabelecer uma aliança que pudesse dar bases para os Portugueses na costa norte do Oceano Índico e criar uma ameaça oriental para os Otomanos e os Mamelucos.Ottoman seapower and Levantine diplomacy in the age of discovery de Palmira Johnson Brummett pag.45ff Albuquerque recebeu um embaixador do Xá Ismail em Goa e devolveu uma carta, bem como um embaixador na pessoa de Rui Gomes. Na carta ao Xá Ismail, Albuquerque propunha um ataque conjunto contra os Mamelucos e os Otomanos:
Campanha do Mar Vermelho de Portugal (1513) Após a sua vitória na Batalha de Diu e a eliminação de frotas rivais Muçulmanas no Oceano Índico, os Portugueses esforçaram-se para a destruição sistemática do transporte comercial Muçulmano.
Em 1513, Albuquerque liderou uma campanha contra o Mar Vermelho, a fim de parar completamente o comércio Mameluco com a Índia, e derrotar os planos Mamelucos de enviar uma frota para a Índia. Em 7 de Fevereiro de 1513, ele deixou Goa com 1.700 portugueses e 1.000 homens indianos em 24 navios.Rise of Portuguese Power in India de R.S. Whiteway pag.153ff Albuquerque desembarcou em Adem em 26 de Março de 1513, na entrada do Mar Vermelho e tentou tomar a cidade, mas foi repelido. Navegando no Mar Vermelho, ele destruiu o porto de Camarão (Junho e Julho de 1513). Ele não conseguiu navegar para Jidá devido a ventos contrários, e depois retirou-se para a Índia depois de novamente bombardear Adem.
Albuquerque, assim, não conseguiu parar o comércio de especiarias através do Mar Vermelho e estabelecer um monopólio comercial para o comércio de especiarias entre a Europa e a Índia. Esta campanha, no entanto, tinha sido uma grande ameaça para o porto Mameluco de Suez e para as cidades sagradas de Meca e Medina, que colocaram o Sultão Mameluco sob uma tremenda pressão. O Sultão Mameluco Qansuh foi assim forçado a procurar assistência Otomana, embora os Otomanos tivessem sido um rival tradicional, em sua resistência contra os Portugueses.Ottoman seapower and Levantine diplomacy in the age of discovery de Palmira Johnson Brummett pag.118
Campanha Otomano-Mameluca (1514-17) thumb|Os Mamelucos e os Otomanos comandados por Salmane Reis defenderam Jidá contra uma ataque Português em 1517.
Em 1514-16 os Otomanos cooperaram com os Mamelucos contra os Portugueses. Eles forneceram um comandante Otomano na pessoa de Salmane Reis, bem como armas de fogo. Salmane Reis entrou para o serviço dos Mamelucos e liderou um grupo de 2.000 levantinos armados, possivelmente contra a própria vontade do Sultão Otomano Selim I, e reuniu-se com essa força com o Sultão Qansuh em Suez, em Abril de 1514.The Ottoman Age of Exploration Giancarlo Casale pag.32 Defesas de Artilharia também foram estabelecidas em Jidá e Alexandria. Essa concentração na frente Portuguesa teve o efeito final, no entanto, de enfraquecer as forças Mamelucas que poderiam ser colocadas contra os Otomanos no Levante. O investimento foi enorme, já que a frota custou cerca de 400.000 dinares para o Sultão Mameluco.
Após a interrupção do comércio de especiarias entre a Índia e o Egito Mameluco pelos Portugueses, Salmane Reis liderou uma frota de 19 navios Mamelucos no Oceano Índico em 1515. Ele deixou Suez liderando a frota em 30 de Setembro de 1515.An Economic and Social History of the Ottoman Empire, Volume 1, de Halil İnalcik pag.321ff A frota também incluía 3.000 homens, dos quais 1.300 eram soldados Turcos. A frota construiu uma fortaleza em Camarão, mas não conseguiu tomar o Iémen e Adem em 17 de Setembro de 1516. A frota combinada foi capaz de defender Jidá contra os Portugueses em 1517, mas a guerra entre os Otomanos e os Mamelucos já estava em curso.
Como consequência, os Portugueses conseguiram abrir postos comerciais no subcontinente Indiano e assumir o comércio de especiarias para a Europa, que havia sido uma importante fonte de receita para o estado Mameluco. O Império Mameluco tornou-se financeiramente afetado e foi finalmente vencido pelo Império Otomano, sob Selim I, em terra, na Guerra Otomano-Mameluca (1516–1517). O Cairo foi capturado pelos Otomanos em 26 de Janeiro de 1517, levando à desintegração do Império Mameluco.
Aquisição Otomana