O Bairro São Pelegrino é um bairro histórico e um dos mais antigos da cidade brasileira de Caxias do Sul. Suas origens remontam aos primórdios da cidade, quando em 1882 naquela região se estabeleceu o barão João Daniel von Schlabendorff com a esposa Maria Sartori. Pouco depois a irmã de Maria, Amália Sartori, com o marido Rafael Buratto, fundaram nessas terras uma capela dedicada a São Pelegrino, de onde o lugar tomou seu nome. No início do século XX o então chamado Arraial de São Pelegrino recebeu a estação ferroviária e o hotel-restaurante de João Paternoster, passando a atrair grande público e se tornando um ponto de recreio e devoção para a população local. A antiga chácara do barão Schlabendorff foi sendo com o tempo parcelada e urbanizada, transformando-se profundamente e tornando-se o "segundo centro" de Caxias, com uma grande população e densa rede de serviços. Com uma história que se confunde com a da cidade, o Bairro São Pelegrino guarda importantes marcos arquitetônicos e muitas tradições.

História Fundação

Caxias do Sul foi fundada em 1875 como uma colônia de imigrantes europeus, principalmente italianos. No início a sede colonial ficava em Nova Milano, mas em 1876 foi transferida para o Campo dos Bugres, a cerca de 20 km a leste. O acesso ao local era precário, não havia estradas, mas em 1877 começou a ser melhorada uma picada que conduziria à entrada oeste da nova cidade, que foi chamada Estrada Rio Branco. Esta estrada adquiriu logo importância estratégica, sendo por ela que se faria a ligação com o entreposto comercial de São Sebastião do Caí.Gardelin, Mário & Costa, Rovílio. Os Povoadores da Colônia Caxias. Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes / Folha de Hoje, 1992, pp. 15-19; 91

Em 15 de março de 1882 chegou à colônia o barão João Daniel von Schlabendorff, comprando terras na entrada da cidade, situadas na época no Travessão Santa Teresa da V Légua, que eram cortadas pela Estrada Rio Branco. Gardelin & Costa, em seu levantamento dos locais de fixação dos primeiros colonos, referem que essas terras eram formadas por metade do lote 21 e o lote 21 A, que juntos totalizavam 350 mil m2. Contudo, segundo Frantz, no que diz respeito ao barão esse levantamento é incompleto, já que de acordo com os mapas oficiais das Léguas e lotes primitivos a sua casa se localizava fora dos dois lotes citados, no de número 21 B, que Gardelin & Costa dizem ter pertencido a Nicolau Amoretti, e disse Costamilan que suas terras chegavam aos fundos do Parque do Cinquentenário, igualmente dentro do lote 21 B. Assim parece certo que em algum momento o barão adquiriu também este terceiro lote, ou pelo menos parte dele, mais parte da outra metade do lote 21, que em 1877 era de Giovanni Piva, e alguns terrenos urbanos adjacentes em direção ao centro, herdados por João Paternoster e Amália Sartori Buratto e mais tarde cedidos para a construção da atual Igreja de São Pelegrino, terrenos que ficam fora de todos os lotes coloniais sobrecitados.Frantz, Ricardo A. L. Crônica das famílias Paternoster e Frantz e sua parentela em Caxias do Sul, Brasil: Estórias e História - Volume I. Academia.edu, 2020, p. 314-315

Seja como for, o barão instalou-se à beira da estrada em uma casa simples com sua irmã Alexandrina e abriu um curtume e uma selaria nas proximidades, aproveitando o intenso movimento de colonos, comerciantes e tropeiros com seus cavalos e mulas. O primeiro nome do local foi Morro da Baronesa, devido à presença de Alexandrina. Com eles efetivamente iniciou o povoamento da área, que então era suburbana e ficava a cerca de dois quilômetros do centro, organizado em torno da Praça Dante Alighieri.Seerig, Ana; Tonet, Charles; Tonet, Tânia. São Pelegrino: quem te viu, quem te vê. Belas Letras, 2015Costamilan, Angelo Ricardo. Homens e Mitos na História de Caxias, Pozenato Arte & Cultura, 1989, pp. 97-132

Pouco depois o barão casou-se com Maria Sartori, filha de Salvador Sartori, destacado comerciante e político, e levou-a para morar em sua casa, mas a esposa tinha sua família e amigos no centro e ressentia-se da solidão, sendo ponto afastado e de difícil acesso naqueles tempos de caminhos precários. Para remediar esta situação, o barão cedeu à sua cunhada Amália Sartori, casada com o tanoeiro Rafael Buratto, um pedaço de terra junto de sua casa para que o casal erguesse a sua e lhes fizesse companhia. Ao mesmo tempo, o barão ajudou Rafael a montar uma cervejaria nos fundos. Segundo Costamilan, em 24 de outubro de 1890, numa das visitas que a família de Maria e Amália fazia às filhas, Salvador presenteou Rafael, que fazia aniversário, com uma imagem de São Pelegrino que haviam trazido da Itália. Para honrar o santo, o casal Buratto levantou um oratório de madeira, inaugurado em 2 de agosto de 1891, logo substituído por uma capela, inaugurada com missa em 19 de abril de 1893, dando início a uma devoção que cresceria muito nos anos à frente e atrairia para lá grandes romarias e procissões.

Formação do arraial

No fim do século XIX Maria Sartori já enviuvara e havia casado novamente com João Paternoster, permanecendo a morar na antiga casa. Através da esposa, João herdou os bens do barão e começou a fazer melhorias no terreno, cercando-o e construindo canchas de bocha. A cervejaria de Rafael fazia sucesso, fornecia bebidas para o município e para os jogadores de futebol que vinham treinar nos gramados de sua chácara, e também fabricava doces.“Birraria S. Pellegrino”. Città di Caxias, 01/02/1913Adami, João Spadari. “História do Futebol Caxiense”. A Época, 05/07/1953 Ele também construiu canchas de bocha, e numa época em que não havia nada de diversão pública, o local começou a atrair a população de colonos da sede urbana, que fizeram da área um ponto de convívio e recreio. Nesta época João e Rafael começaram a vender lotes em suas terras para povoar o local, formando-se um arraial, e João transformou parte de sua casa em uma bodega, onde dava festas e servia fartos banquetes sob encomenda.Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul 1864-1970. Tomo I. 2ª edição. Caxias do Sul, 1971, pp. 214-225 O jornal O Brazil em 1909 deu uma visão do cenário:

"Com extraordinária concorrência, efetuou-se na segunda-feira a tradicional Festa de São Pelegrino, no arraial de mesmo nome. Pela manhã, na igrejinha do bairro, foi rezada missa solene, perante grande concurso de fiéis. Durante o dia, em frente ao templo, fez-se ouvir uma banda de música e avultado foi, até ao crepúsculo, o número de cavalheiros e famílias da vila, que circularam pelo arraial, a pé e de carro. À noite, na residência do Sr. Rafael Buratto, e na do nosso amigo João Paternoster, realizaram-se animados bailes, que encerraram brilhantemente o programa da festa”."Festa de S. Pellgrino". O Brazil, 07/08/1909

Em 1910 o movimento pela área aumentou muito com a instalação da Estação Ferroviária nas proximidades, e em 1911 João Paternoster reformou sua casa transformando-a em um confortável hotel, que passou a ser o preferido pelos primeiros turistas e políticos em visita, continuando a tradição de servir banquetes e dar festas.Rigon, Roni. “Memória: Pioneiro da hotelaria”. Pioneiro, 05/08/1999 Novamente a imprensa da época traz vívidas recordações daquele tempo:

"Domingo último foi um dia festivo nesta cidade – bandas de música, espoucar de foguetes, e um desusado movimento na rua Júlio de Castilhos, tudo coadjuvado por um sol brilhante e um céu inteiramente azul, davam um aspecto alegre à nossa vida – era o Recreio Aliança que, num extenso préstito, encaminhava-se para o local escolhido para o pic-nic que nesse dia realizava, e a Sociedade de Carpinteiros São José, incorporada, que comemorando a data de sua fundação, realizava o seu tradicional banquete na residência do nosso amigo João Paternoster. Ao banquete dos carpinteiros estiveram presentes o sr. major Penna de Moraes, vice-intendente em exercício, dr. Stefano Paternó com sua exmª esposa, dr. Fontoura Trindade, juiz distrital, com suas gentilíssimas filha e sobrinha, srs. Paulo Rossato e Mario Pezzi, pela Cooperativa de Caxias, representantes do Clube Juvenil e da Sociedade Príncipe de Nápoles. Abrilhantou a festa a excelente Banda Independente, proficientemente dirigida pelo sr. João Bragagnolo, que executou belos trechos de música clássica. O dr. Paternô, que pronunciou um magistral discurso com sua habitual eloquência, foi muito aplaudido. O major Penna de Moraes, com a oratória que lhe é peculiar, agradeceu às frases do dr. Paternô e à Sociedade São José. [...] Terminou o seu eloquente discurso brindando o cooperativismo triunfante de Caxias. Os aplausos a esse brinde foram cobertos pelo som dos hinos ítalo-brasileiro, que fez prorromper entusiásticos vivas à Itália e ao Brasil. Foi um dia de música e de sol que encheu de expansão a alma popular"."As festas de domingo". O Brazil, 04/05/1912

Logo a região começava a se tornar verdadeiro bairro, e seu movimento já o qualificava como o "segundo centro" da cidade. Em 1925, no cinquentenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul, foi criado o Parque do Cinquentenário. Em 1935 o Hotel Paternoster foi convertido na Escola José Pena de Moraes, e em 1938 a primitiva capela foi substituída por outra mais ampla, em localização próxima, em terreno cedido por Francisco Oliva. Por ali foram instalados também outros pontos de referência, como a Vinícola Mosele, a Sociedade Brasileira de Vinhos, o Moinho Germani, o Colégio São Carlos, o Colégio La Salle, o quartel do Exército e a Padaria Rio Branco.Lopes, Rodrigo. “Hotel da família Paternoster em 1924”. Pioneiro, 15/12/2014Lopes, Rodrigo. "Colégio La Salle, uma história de 80 anos". Pioneiro, 12/02/2016<ref>Lopes, Rodrigo. "Formatura do Magistério do Colégio São Carlos em 1965". 'Pioneiro, 25/11/2015</ref>

Um novo marco

Em 27 de fevereiro de 1942 foi criada a paróquia e em 19 de março de 1944 foi lançada a pedra fundamental do edifício definitivo da Igreja de São Pelegrino, em uma área composta de terrenos negociados e outros cedidos por Amália Sartori Buratto e João Paternoster. De características monumentais e um repositório de obras de arte, a igreja nova tornou-se imediatamente uma referência geográfica no bairro e na cidade, e também uma referência social, cultural e turística.Luz, Rogério P. D. "Igreja de São Pelegrino na Serra Gaúcha, um museu de arte". Crônicas Macaenses, 05/07/2015 A construção deste marco se deve à colaboração de toda a comunidade, mas teve entre seus principais beneméritos Amália Buratto, desde o início a grande promotora da devoção. Em sua casa ou nas antigas capelas reunia grupos de oração e obras pias, estava sempre na liderança da organização das grandes festividades anuais do padroeiro, e no período da construção da última igreja sua casa foi sede de uma comissão de senhoras e senhoritas que arrecadavam fundos com festas, rifas e outras atividades. Mas não viu a igreja pronta, falecendo dois anos depois do lançamento da pedra fundamental, evento que havia paraninfado. Seu obituário foi pródigo em elogios, dizendo que "há 50 anos vinha trabalhando para a futura criação da paróquia. Viu seu sonho realizado".“Amalia Sartori Buratto”. O Momento, 26/01/1946 Também merece nota a colaboração indispensável da comissão de fabriqueiros, onde destacaram-se Germano Pisani, Aparício Postali, Antônio Rossato, João Sperandio, Ângelo Corso, Carlos Casara e João Paternoster. A inauguração ocorreu em 2 de agosto de 1953 com grande solenidade.