O Museu do Mar, localizado na cidade de Santos, no estado de São Paulo, Brasil, é uma entidade cultural dedicada à difusão do conhecimento da biodiversidade marinha. Inaugurado em 30 de junho de 1984, o museu preserva um dos mais importantes acervos de biologia marinha da América Latina.
A entidade é administrada pela Sociedade Museu do Mar, instituição privada que mantém também o Museu Marítimo.
História O fundador
O Museu do Mar é fruto da iniciativa do biólogo marinho Luiz Alonso Ferreira. Nascido em Santos, São Paulo, em 02 de setembro de 1946, Alonso é filho de Quincio Francisco Ferreira (1917-1990) e Carmen Alonso Ferreira (1922-1976), sendo neto de imigrantes espanhóis, pelo lado materno, e portugueses, pelo lado paterno.
A bordo do navio “Magdalena”, da Mala Real Inglesa, seus ascendentes espanhóis desembarcaram no porto de Santos em 5 de abril de 1893, oriundos das cidades de Ourense, Arzuá e Verín, situadas na histórica região da Galícia. Os antepassados portugueses chegaram ao Brasil no início do século XX, procedentes do Porto e da Vila do Conde, localizadas defronte ao vasto Oceano Atlântico.
Enquanto os avós espanhóis se estabeleceram no centro de Santos, passando a trabalhar em companhias de café e no próprio porto, os portugueses fixaram residência na Ilha das Palmas, na entrada do canal de Santos, onde trabalhavam para a companhia alemã de navegação Theodor Wille.
Na Ilha das Palmas, durante as primeiras décadas do século XX, a família Ferreira cultivou amizade com alguns famosas personalidades brasileiras que frequentavam o local em busca de descanso e lazer, tais como os escritores Monteiro Lobato e Oswald de Andrade, o poeta Vicente de Carvalho, o diplomata Osvaldo Aranha, a poetisa Patrícia Galvão (Pagu) e a dançarina Luz del Fuego. No livro “A Escada Vermelha”, Oswald de Andrade refere-se direta e indiretamente (com o uso de pseudônimos) a diversos membros da família Ferreira.Andrade, Oswald de. A Escada Vermelha, 1934. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
A vida escolar de Alonso teve início no Externato Casa Pia São Vicente de Paula, instituição na qual estudou até a 4° série do curso primário. Posteriormente, estudou no tradicional Colégio Santista, da 5 a 8° série, concluindo o 1° grau.
Neste período, duas produções cinematográficas marcariam indelevelmente o espírito da criança em formação: “20.000 léguas submarinas”, filme de 1954, baseado no livro de Júlio Verne, com James Mason no papel do capitão Nemo, e “Moby Dick”, de 1956, inspirado na obra de Herman Melville, com Gregory Peck no papel do capitão Ahab.
No mesmo Colégio Santista, em curso equivalente ao 2° grau, Alonso formou-se em 1968 como técnico em Química Industrial.
Entre 1971 e 1979, trabalhou em Cubatão, SP, na Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobrás. Paralelamente ao trabalho como operador de processamento de petróleo, Alonso ingressou no curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Santos, formando-se em 1978. No mesmo ano, os conhecimentos adquiridos com o estudo de conchas levaram-no a desenvolver e ministrar o Curso de Conquiliologia.Jornal A Tribuna. 15/01/1978. Título: Um curso científico a respeito de conchas.
Entre 1979 e 1984, retornou ao Colégio Santista, desta vez como professor de I e II graus, lecionando as disciplinas de Ciências, Química, Botânica e Ecologia. Como Coordenador do Centro de Estudos de Ciências da tradicional instituição de ensino, promoveu entre os anos de 1980 e 1983 a Feira de Ciências do Colégio Santista, a FECISA.Jornal A Tribuna. 23/08/1981. Título: Feira de Ciências do Colégio Santista abre quarta-feira.
Finalmente, em 30 de junho de 1984, inaugurou o Museu do Mar, na presença de autoridades civis, militares e religiosas.Jornal Cidade de Santos, 30/06/1984, pág. 16. Título: Museu do Mar, um sonho concretizado hoje. miniaturadaimagem|Logomarca do Museu do Mar, com a concha símbolo da entidade, Chicoreus spectrum (Reeve, 1846). Marca registrada no INPI (Instituo Nacional da Propriedade Industrial). Luiz Alonso Ferreira exerce o cargo de Diretor-Presidente da Sociedade Museu do Mar desde sua fundação.
Acervo As origens
Na década de 1960, Alonso começou uma coleção de conchas marinhas. Conforme o acervo ia crescendo, começou a se corresponder com colecionadores particulares e instituições científicas brasileiras, visando troca de material. Em 1963, seu trabalho começou a ganhar visibilidade junto à imprensa, com a primeira matéria sendo publicada pelo jornal A Tribuna.Jornal A Tribuna, Santos, 24/02/1963, Caderno 1, pág. 8.
Em 1969, verificou-se sua primeira correspondência internacional para troca de material científico, endereçada a um Clube de Colecionadores de Conchas da Austrália.Correspondências da Sociedade Museu do Mar, Década de 1960, Arquivo.
Ao mesmo tempo, no bairro da Ponta da Praia, de forte tradição pesqueira, desde sua juventude, Alonso travou boas relações com a colônia de imigrantes japoneses e seus descendentes (nisseis e sanseis). Dedicados em sua maioria à atividade pesqueira, alguns deles eram armadores de pesca, que se tornaram importantes colaboradores do futuro Museu do Mar. miniaturadaimagem|Bathynomus giganteus (A.Milne-Edwards, 1879). A maior espécie de isópoda marinho do mundo. Acervo do Museu do Mar. Durante a década de 1970, a coleção particular se ampliou notavelmente. Através de correspondências com colecionadores e instituições do Brasil e do exterior, bem como, do apoio de pescadores e armadores de pesca, Alonso diversificou consideravelmente o acervo, com a aquisição de grandes peixes, tartarugas marinhas, aves oceânicas, esponjas, corais, crustáceos, moluscos, equinodermos, fósseis, dentre outros materiais.
Em 1980, a residência de Alonso e seus pais reunia um vasto acervo biológico. A dimensão que tomara o trabalho aliada ao considerável número de curiosos, estudantes e jornalistas que afluíam ao local para apreciarem suas atrações, demonstrava que o acervo particular deveria ser disposto à exposição pública.Jornal A Tribuna. 01/03/1980. Título: Em breve, Museu do Mar será importante atração turística.
Destarte, apoiado pela família, Alonso demoliu a casa onde morava para dar início às obras do Museu do Mar, cujo lançamento da pedra fundamental se deu em 21 de junho de 1980.Jornal A Tribuna. 21/06/1980. Título: Diretores lançam pedra fundamental do Museu do Mar.
Com recursos financeiros próprios e enfrentando as incertezas quanto ao futuro de uma empresa privada na área cultural, depois de quatros anos de desafios, o Museu do Mar foi finalmente inaugurado (30/06/1984).
Principais atrações Todo o acervo do Museu do Mar é constituído por espécimes naturais preservados em soluções de formol ou que passaram por processo de taxidermia. Apresentado ao público visitante em ordem evolutiva, o acervo é formado por exemplares da fauna e flora marinhas do Brasil e de diversas partes do mundo.
O trabalho de taxidermia ficou a cargo de Sebastião Medeiros (1929-2005). Experiente taxidermista, com passagem pelo Museu de Zoologia da USP (onde travou amizade com o famoso zoólogo e compositor Paulo Emílio Vanzolini), Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e Museu de Pesca de Santos, Medeiros foi um dos mais importantes profissionais na história do Museu do Mar.
Dentre as principais atrações em exposição, merecem destaque:
Tubarões
Tubarões representam uma das principais atrações do Museu do Mar, que reúne cerca de 30 espécies de tubarões de um total de, aproximadamente, 100 espécies registradas na costa do Brasil.
Tubarão-baleia miniatura|Tubarão-Baleia, Rhincodon typus (Smith, 1828). Uma das principais atrações do museu é o Tubarão-Baleia (Rhincodon typus), a maior espécie de peixe do mundo, que pode atingir até 20 metros de comprimento. O exemplar em exposição no Museu do Mar é uma jovem fêmea de 5,69 metros, que pesou 1.140 quilos. É o único em exposição na América do Sul. Além dele, há apenas mais dois em museus no mundo, os quais se encontram expostos em Nova Iorque, Estados Unidos, e na Cidade do México, México.
O Museu do Mar expõe também um neonato (recém-nascido) de Tubarão-Baleia, medindo 55 centímetros.
Tubarão mangona-de-fundo Também chamado de Mangona-Preta, o Tubarão Mangona-de-Fundo (Odontaspis noronhai) é um raro tubarão que habita águas profundas. Existem apenas três exemplares em exposição no mundo. O maior deles está no Museu do Mar, um adulto de 3,54 metros de comprimento, possivelmente, o maior exemplar encontrado dentre as poucas aparições já registradas. Os outros dois estão no Museu de Funchal em Portugal, e no Museu de Pesca, em Santos.
Fetos anômalos de tubarão-azul Estão expostos também dois fetos anômalos de Tubarão Azul (Prionace glauca), ambos mantidos em formol. Um deles possui dois olhos unidos, lembrando um ciclope, e o outro, duas cabeças (xifópagos).
Tubarão-anão
O Tubarão-Anão (Squaliolus laticaudus), nos Estados Unidos, Spined pygmy shark, é a segunda menor espécie de tubarão do mundo, ficando atrás apenas do Tubarão-lanterna-anão (Etmopterus perryi). No Museu do Mar há dois exemplares, conservados em formol, um adulto de 24 centímetros, e um filhote, de aproximadamente 6 centímetros.
Dentes de Megalodonte
Na vitrine dedicada aos fósseis acham-se grandes dentes do Megalodonte, tubarão-pré-histórico, extinto há aproximadamente 2,3 milhões de anos. Jornal Cidade de Santos. 27/06/1980. Título: Raridade no Museu do Mar.
Outras atrações Albatroz-viageiro miniaturadaimagem|Detalhe do Albatroz-viageiro Diomedea exulans (Linnaeus, 1758), em exposição no Museu do Mar. Originária do Atlântico Sul, o Albatroz-viageiro, também chamado de Albatroz-errante ou Albatroz-gigante (Diomedea exulans) é a maior ave marinha do mundo, podendo atingir 3,5 metros de envergadura. Há três exemplares adultos dessa espécie no Museu do Mar, com média de 3 metros de envergadura, todos provenientes das ilhas Geórgias do Sul.
Peixe-lua
De águas tropicais e temperadas, o Peixe-Lua (Mola mola) é o maior peixe ósseo do mundo. O maior indivíduo da espécie media 3,3 metros de altura e pesou 2,3 toneladas. O espécime em exposição no Museu do Mar mede 1,60 metros e pesou 254 quilos.
Concha Gigante
A ostra-gigante Tridacna Gigas é o maior molusco bivalve do mundo, sendo considerada o terror dos caçadores de pérola dos oceanos Pacífico e Índico. Essa espécie pode atingir cerca de 1,20 metros de comprimento e pesar mais de 200 quilos. Há dois exemplares adultos em exposição no Museu do Mar. O maior deles, procedente da ilha Cebu, Filipinas, com 1 metro e 148 quilos, foi apresentado no Programa Sílvio Santos, em junho de 1980. Jornal A Tribuna. 9/02/1977. Título: Concha gigante exposta na Ponta da Praia. O outro exemplar, de 119 quilos, é oriundo das Maldivas.
Lula Gigante
Mantidos em formol encontram-se também dois exemplares da lula gigante Thysanoteuthis rhombus. Um deles, com 1 metro e 18 quilos, foi mencionado em artigo científico como a primeira ocorrência da espécie no Brasil (1987).Jornal Cidade de Santos. 10/08/1985. Título: Lula de 18 quilos vira prato especial no Estrela.
Caranguejo Aranha Gigante Japonês
Em junho de 2025, o Museu do Mar recebeu um exemplar de Caranguejo Aranha Gigante Japonês, da espécie Macrocheira kaempferi (Temminck, 1836), a maior espécie de artrópode do mundo. Capturado nas águas profundas do Mar do Japão e taxidermizado por profissionais chineses, o caranguejo, que mediu 1,70 metros com as patas esticadas, foi dividido em partes e enviado para a instituição santista, onde foi montado para fins de exposição.
Corais miniaturadaimagem|Corais rosa e roxo da ilha de San Clemente, Califórnia, EUA.