A Batalha do Callao, também chamada de Batalha do 2 de Maio, foi um enfrentamento nas águas da cidade de El Callao, no Peru, entre uma esquadra da Armada Espanhola sob o comando do almirante Casto Méndez Núñez e as defesas de El Callao sob o comando do então "chefe supremo da república do Peru" Mariano Ignacio Prado, no contexto da guerra hispano–sul-americana.

Após o bombardeio de Valparaíso, a esquadra espanhola se dirigiu ao porto do Callao. A batalha e seu resultado são objeto de polêmica. A historiografia espanhola sustenta que a esquadra se retirou sem danos graves após arrasar as defesas do Callao, enquanto os peruanos dizem que as baterias de terra mantiveram seu poder de combate e que a esquadra se retirou devido aos danos sofridos e à falta de munição. Antecedentes Em 1862, a Espanha organizou uma expedição naval científica e diplomática que deveria percorrer a costa americana desde o Rio de Janeiro até São Francisco. A expedição cumpriu sua missão, chegando até a Califórnia. Na volta, pararam novamente no porto de El Callao e receberam a notícia de que colonos espanhóis haviam sido assassinados na fazenda de Talambo. Alguns historiadores consideram que o que aconteceu foi uma briga entre colonos espanhóis e peões locais, enquanto que outros consideram que ocorreu um caso de xenofobia contra colonos bascos recém-chegados ao local.PONS MUZO, G. Historia del Conflicto entre el Perú y España. pág. 46.

Enquanto a esquadra espanhola deixava o Callao e chegava a Valparaíso, Eusebio Salazar y Mazarredo se ofereceu para levar a correspondência oficial à Espanha. Da Espanha, voltou a Lima com o cargo de "ministro de sua majestade na Bolívia e comissário extraordinário para o Peru" e solicitou uma reunião com a autoridade competente do governo. O chanceler Juan Antonio Ribeyro respondeu que a entrevista seria confidencial, pois não reconhecia o cargo de comissário. Indignado, Salazar disse que não aceitava e foi se encontrar com o almirante espanhol Luis Hernández-Pinzón Álvarez, comandante-geral das esquadras do Pacífico. Salazar, então, lhe disse que o Peru não resolveria justamente o assassinato de Talambo e que, além disso, o país estava se armando.

Embora as ordens de Madri fossem: "lembre V. S. [Salazar] que a missão que o governo lhe confia é de paz: o governo quer paz e boa inteligência". Salazar entregou a Pinzón as instruções secundárias, nas quais o desejo de paz estava condicionado a uma resolução justa do caso de Talambo e nas quais se afirmava que estava justificado o uso da força no caso extremo de atentado contra a segurança dos barcos, o seu pessoal ou a honra nacional. Embora Pinzón tenha pedido o resto das ordens, Salazar disse-lhe que não eram importantes. Assim, em 14 de abril de 1864, a esquadra ocupou as Ilhas Chincha. Em seguida, o governo chileno se recusou a abastecer qualquer navio espanhol.

Em 6 de dezembro, o vice-almirante José Manuel Pareja chegou da Espanha para substituir o almirante Pinzón. Em 30 de dezembro, se realizou a primeira conferência entre Pareja e Vivanco, que resultou na redação do tratado Vivanco-Pareja. O documenta estabelecia a troca de embaixadores, a saudação às respectivas bandeiras, a reprovação oficial a Salazar, a desocupação das Ilhas Chincha e o pagamento à Espanha de 3 000 000 de pesos como indenização pelos gastos causados.

Em 2 de fevereiro de 1865, o tratado foi ratificado pelo presidente do Peru Juan Antonio Pezet. No dia 26, o coronel Mariano Ignacio Prado iniciou a Revolução de Arequipa, que acabou derrubando Pezet. A justificativa da revolução era a de que o tratado firmado por Pezet era humilhante para a nação. Como resultado, Prado assumiu o poder com o título de "chefe supremo do Peru".

Enquanto isso, o vice-almirante Pareja, agora ministro plenipotenciário para as relações com o Chile, pressionava este país para acabar com as restrições impostas aos navios espanhóis. Como o Chile se negou a acabar com as restrições, em 24 de setembro Pareja declarou o bloqueio a toda a costa chilena. No entanto, devido ao reduzido número de navios espanhóis, o bloqueio somente atingiu as cidades de Coquimbo e Caldera. Em resposta, no dia seguinte, o Chile declarou guerra à Espanha.

Em 26 de novembro, a corveta chilena Esmeralda capturou a escuna espanhola Virgen de Covadonga na chamada Batalha de Papudo. Humilhado ante essa derrota, o vice-almirante Pareja se suicidou. Em 12 de janeiro de 1866, Peru e Chile firmaram uma aliança e declararam guerra à Espanha. No que foram seguidos por Equador (em 30 de janeiro) e Bolívia (em 22 de março), embora estes dois países não tenha tido participação ativa na guerra.

Em 7 e 8 de fevereiro, as esquadras aliadas de Peru e Chile combateram dois navios espanhóis na ilha Abtao, na comuna de Calbuco. Diante da impossibilidade de encontrar a frota aliada para lhe dar combate, o novo comandante da esquadra espanhola, Casto Méndez Núñez, contra sua vontade, e sob ordens do governo espanhol, bombardeou o porto de Valparaíso. Este estava sem qualquer proteção: por este motivo, o ataque foi duramente criticado. Logo após, a esquadra espanhola rumou para a ilha São Lourenço, em El Callao. Ao saber da iminente chegada da frota espanhola, o governo peruano construiu e reforçou defesas no porto do Callao, com grande apoio popular.

Forças enfrentadas Esquadra do Pacífico A Esquadra do Pacífico estava composta, no dia do combate, por uma fragata blindada (Numancia), cinco fragatas de hélice (Blanca, Resolución, Berenguela, Villa de Madrid e Almansa), uma corveta de hélice (Vencedora) e sete navios auxiliares (os vapores de transporte Marqués de la Victoria, Paquete del Maule, Uncle Sam e Matías Cousiño e os transportes a vela Mataura, María e Lotta and Mary). A esquadra contava com 272 canhões: 270 montados nos navios de guerra e em seus navios menores e 2 montados no Marqués de la Victoria.

No combate, tomaram parte unicamente os navios de guerra: os demais participaram auxiliando em tarefas de socorro e alojamento dos refugiados espanhóis que fugiram do Callao. Dos 270 canhões da esquadra, é necessário descontar a maior parte dos canhões das embarcações menores, que não participaram, e os dois inutilizáveis do Villa de Madrid que haviam explodido durante a batalha de Abtao. Embora todos os estudiosos da batalha do Callao (Iriondo, Novo y Colson, Romero Pintado...) falem em 245 canhões, José Ramón García Martínez, em sua obra El Combate Del 2 de mayo de 1866 En El Callao: Resultados y conclusiones, conclui que, além das 245 peças maiores da esquadra, está documentado o uso de sete peças menores. Assim, a esquadra espanhola atuou com 252 canhões: a maior parte (126 peças), de 68 libras (vinte centímetros).

A tabela a seguir mostra a artilharia montada em cada navio, de acordo com El combate del 2 de mayo de 1866 en el Callao: resultados y conclusiones. Divisão Nome Tipo Deslocamento Armamento principal Armamento secundário(não participa do combate) I Divisão Numancia Fragata blindada 7 420 toneladas 34 canhões de 20 centímetros 2 canhões de 12 centímetros 2 canhões de 8 centímetros 2 obuses de 15 centímetros Blanca Fragata de hélice 3 800 toneladas 10 canhões bombeiros de 68 librasO canhão bombeiro é uma variedade de obus. 2 canhões de 8 centímetros 14 canhões de 32 libras (núm. 3) 12 canhões de 32 libras (núm. 4) 2 obuses de 15 centímetros 2 canhões de 12 centímetros Resolución Fragata de hélice 3 200 toneladas 14 canhões de 68 libras — 14 canhões de 32 libras (núm. 2) 12 canhões de 32 libras (núm. 4) 1 canhão de 12 centímetros II Divisão Berenguela Fragata de hélice 3 800 toneladas 10 canhões de 20 centímetros 2 obuses de 15 centímetros 14 canhões de a 32 libras 12 canhões de 16 centímetros 2 canhões de 8 centímetros Villa de Madrid Fragata de hélice 4 731 toneladas 34 canhões de 68 libras — 10 canhões de 32 librasSó podiam disparar 8 já que 2 explodiram durante o combate de Abtao. 6 canhões de 32 libras (núm. 2) III Divisão Almansa Fragata de hélice 3 980 toneladas 34 canhões de 20 centímetros 2 obuses de 15 centímetros 6 canhões de 16 centímetros (núm. 2) 8 canhões de 16 centímetros 2 canhões de 8 centímetros 2 canhões de 12 centímetros Vencedora Corveta de hélice 778 toneladas 2 canhões bombeiros de 20 centímetros — 1 canhão de 12 centímetros

Segundo os dados recolhidos por Eduardo Iriondo em seu livro Impresiones del viaje de circunnavegación en la fragata blindada Numancia, o número de canhões era ligeiramente distinto em relação ao expressado por García Martínez. Independente de contabilizar ou não as peças menores, o Villa de Madrid, segundo Iriondo, tinha dois canhões a menos e o Almansa tinha dois canhões a mais. No entanto, a soma total segue sendo a mesma.

Defesas do Callao As defesas do Callao consistiram numa série de baterias que foram dispostas ao norte e ao sul da cidade, bem como no molhe, enquanto os navios de guerra (os monitores Loa e Victoria e os vapores Tumbes, Sachaca e Colón ficaram no centro, sob as ordens do capitão Lizardo Montero Flores.

O comando das baterias do norte estava a cargo do coronel José Joaquín Inclán. Entre as defesas deste setor, sobressaíam a torre Junín e o forte Ayacucho, colocado perto da estação de trem. No setor sul, sob o comando do general Manuel de la Cotera, as principais defesas eram o forte Santa Rosa e a torre La Merced.

Havia um total de 69 canhões: 56 nas baterias e treze nos navios de guerra. Desse total, podem ser deduzidos os seis canhões da bateria Zepita, que não participaram do combate por estarem orientados a Mar Brava. Destas 63 peças de artilharia, destacavam-se os chamados "canhões monstruosos": quatro Armstrong de trezentas libras e cinco Blakely de quinhentas libras. Também se colocou uma série de minas diante das baterias da zona sul, seis torpedos na zona norte e um torpedo de botalón no vapor Tumbes, que estava atracado ao molhe.

Quanto aos navios da Marinha de Guerra presentes no Callao, dois deles não chegaram a participar ativamente do combate (os vapores Sachaca e Colón).Basadre, Jorge. Historia de la República del Perú, Tomo V, pág. 1094. É importante ressaltar que os dois monitores haviam sido construídos no Peru por engenheiros nacionais durante a guerra, imitando os couraçados da Guerra de Secessão USS Monitor e CSS Virginia. O fato despertou a admiração da imprensa dos Estados Unidos e dos marinheiros desse país presentes: um artigo do jornal Washington News destacou que o monitor Victoria, apesar de ter recebido dez impactos espanhóis, não foi danificado.Washington News. Disponível em http://query.nytimes.com/mem/archive-free/pdf?_r=2&res=9D01E5D81631EF34BC4B51DFB366838D679FDE&oref=slogin. Acesso em 6 de maio de 2017.

O general Juan Buendía estava no comando dos batalhões de infantaria e cavalaria situados ao longo da linha de frente, atrás das baterias. Esses batalhões tinham a missão de repelir o ataque em caso de desembarque espanhol (desembarque este que, no entanto, nunca fez parte do plano dos espanhóis).

Para a defesa do porto do Callao e da cidade de Lima, o então alcaide Pablo Antonio Salinas y Castañeda fez um bem-sucedido apelo às colônias estrangeiras em Lima para a formação de companhias de bombeiros. As colônias inglesa, alemã, francesa e italiana, entre outras, em poucos dias, fabricaram bombas que ajudaram a combater os incêndios que aconteceram no porto ao longo do combate.

A seguir, uma tabela em que se especifica a artilharia disponível para a defesa da cidade, segundo Fernando Romero Pintado em sua obra Historia Marítima del Perú: