Cândido Aragonez de Faria (Laranjeiras, 12 de agosto de 1849 — Paris, 17 de dezembro de 1911) foi um jornalista, caricaturista, ilustrador e professor brasileiro, considerado um dos principais artistas gráficos do humor e da publicidade em sua geração.

Primeiros anos Era filho do ilustre médico laranjeirense José Cândido Faria e da espanhola Josefa Aragonez, crescendo em circunstâncias confortáveis. Teve os irmãos Adolfo, Júlio e Henrique. Em 1855, morto o pai, a família se muda para o Rio de Janeiro com seus oito escravos. A mãe falece em 1860, deixando os filhos sob a tutela de seu irmão Antônio Amálio Aragonez e amparados por uma pensão concedida pelo Império. Depois de passar pela guarda de dois outros tutores, em 1869 Cândido foi emancipado.Gaudêncio Junior, Norberto Um Sergipano em Paris: A arte gráfica de Cândido Aragonez de Faria no fin-de-siècle parisiense (1882 a 1911) . Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2015, vol. 1, pp. 28-29

Estudou na Academia Imperial de Belas Artes e talvez no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.Gaudêncio Junior, pp. 32-33 Cândido concluiu seus estudos em 1866 e no mesmo ano já aparece profissionalmente como caricaturista do jornal A Pacotilha, e pouco depois é redator e ilustrador de A Folha Fluminense. Em 1869 fundou com seu irmão Adolfo o semanário O Mosquito, e em 1871 comprou O Lobisomem de Antônio Alves do Vale, passando a fazer alguns trabalhos em parceria com este ilustrador.Modesto, Carlos. "Peris Sergipanos: Cândido Aragonez de Faria". A Tribuna Cultural, 07/06/2014

As primeiras obras que se conhece dele mostram um talento ainda imaturo e inexpressivo, como seria natural esperar de um jovem iniciante. Mas sua evolução é rápida e evidente. Despertou polêmicas, nesta fase de afirmação, sobre supostos plágios de ilustradores franceses, que estavam na moda, mas alusões e referências a obras e ideias alheias são parte do espírito da sátira e da paródia, essenciais à arte da caricatura, e na época eram a prática padrão. Além disso, naquela época a cultura da França em peso estava na moda no Brasil, ela era o novo o modelo ideal de civilização. Disse Norberto Gaudêncio Junior, um dos principais estudiosos da sua obra:

"A propalada influência estrangeira muitas vezes esbarrava nos empréstimos, nas similitudes decorrentes da apropriação do trabalho de outro, prática comum nesta época, pois devido à ampla circulação de imagens tecnicamente multiplicadas, questões como 'cópia' e 'originalidade' adquirem outro estatuto no período aqui estudado, colocando em xeque questões como marca individual e autoria. Havia muita rivalidade entre as publicações caricatas, que, por vezes, acusavam-se mutuamente de plágio. O próprio Faria chegou a reproduzir desenhos de Grévin na capa d’O Mosquito. Houve, inclusive, uma troca de acusações entre O Mosquito e A Vida Fluminense, em que a segunda, em um trocadilho espirituoso, afirmou que a primeira 'Faria muito melhor se não entretivesse relações tão íntimas com o Petit Journal pour Rire, publicação francesa muito apreciada na época".Gaudêncio Junior, p. 37

Projeção 300px|thumb|Caricatura publicada em O Mosquito em 16 de fevereiro de 1876. thumb|300px|Página de O Fígaro, 1878.

Com as gravuras dO Mosquito ele começa a firmar seu nome como um dos mais solicitados caricaturistas da capital do Império. Por certo tempo assinou todas as ilustrações do periódico, que prometia "ferroadas políticas, teatrais e literárias". No início as caricaturas tratavam de temas prosaicos, especialmente os costumes, as modas, os pequenos vícios e as insuficiências humanos. Depois incorpora temas políticos e em 1871 se lança na discussão de assuntos internacionais. Nesta altura Faria deixa O Mosquito, para o qual contribuiria a partir de então apenas esporadicamente, e vai ilustrar A Vida Fluminense.Costa, Carlos Roberto. A Revista no Brasil: o século XIX. Tese de Doutorado. USP, 2007, pp. 179-190

Em O Mosquito Faria já dera provas de saber articular histórias e situações curtas em quadrinhos, e provavelmente por isso em 1872 deu continuidade às As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, a primeira história em quadrinhos brasileira, lançada por Angelo Agostini em 1869, ilustrando os cinco últimos dos 14 capítulos da obra.Athos Eichler, Cardoso; Agostini, Angelo. As aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883. Senado Federal, 2002 Em 1874 fundou O Mephistópheles, que lançou e ilustrou inteiramente por dois anos, e com ele sua atuação é considerada uma das mais virulentas do período, especialmente pelo ataque ao clero por ocasião da Questão Religiosa, destacando-se também pela qualidade gráfica; na opinião de Herman Lima, autor de uma biografia fundamental, ali deixaria "algumas de suas mais belas composições, não somente pelo alcance político das legendas, como pelo vigor do desenho".Gaudêncio Junior, pp. 39-40

Em 1876 volta para O Mosquito, um ano antes do fim da publicação, e inicia sua colaboração com O Fígaro, sucessor do então já extinto A Vida Fluminense, dirigido por Luis Borgomainerio, responsabilizando-se por todas as ilustrações e caricaturas do jornal. Ali se reuniram alguns dos principais chargistas da época, e Faria está no auge do seu talento, mas permanece por pouco tempo, e no fim do mesmo ano já está trabalhando para O Ganganelli. Colaborou em muitas outras publicações cariocas, tais como o lendário O Mequetrefe, e foi desenhista exclusivo de O Diabrete em sua curta e celebrada duração de 11 números. Colaborou esparsamente com A Comédia Popular, A Galeria, Zigue-Zague, Ba-ta-clan, O Contemporâneo e outras.Gaudêncio Junior, pp. 34-46

Desde 1874 ou 1875 já havia se tornado popularíssimo, umas das grandes estrelas do primeiro escalão, "não só pela excelência dos seus desenhos, como pela oportunidade e malícia de suas charges", como disse Athos Damasceno, um dos seus primeiros biógrafos. Dono de um estilo versátil, um grande senso de humor e uma verve aguçada para a crítica social e política, o conjunto das suas caricaturas forma um rico panorama da sociedade da época e das transformações pelas quais ela passava.

Em 1878 fez uma visita a Porto Alegre, que se prolongaria por quase dois anos. Anunciou-se como professor de desenho e aquarela, mas não parece ter deixado qualquer marca apreciável neste magistério. Em 6 de outubro de 1878 funda um novo Fígaro em Porto Alegre. A revista só teria 19 edições, mas deu uma contribuição inestimável às artes gráficas e à imprensa ilustrada do estado, que ainda engatinhavam. Damasceno disse que ele soube equilibrar a temática local, "o pitoresco material doméstico", com outra internacional, que "emprestava à pasquinada provinciana o toque sensacional e atraente das intrigas estrangeiras, assim enriquecendo a folha dos cheiros agradáveis de um cosmopolitismo picante e rendoso [..] Na verdade, o lápis do chargista carioca emparelhava com os mais seguros e ágeis colegas de então à frente dos quais, ponteando o préstito, marchava com brilho o popularíssimo Angelo Agostini [...] sua obra tinha caráter, realmente, e o que deixou na Província, embora pouco, vale muito [...] Deu-nos algumas lições proveitosas, trouxe-nos uma contribuição em nada desdenhável. Pois, num meio e num tempo em que o chiste corrente era a chalaça crua, o escárnio rude e o chasco maciço – sua verve, não raro de timbre francês, como já se assinalou, ensinou-nos que o delicado mistério de criticar e corrigir erros e imperfeições dos homens é amigo da finura e inimigo da grosseria".Damasceno, Athos. Imprensa caricata no Rio Grande do Sul no século XIX. Globo, 1962, pp. 62-74

Buenos Aires e Paris thumb|left|Página dupla de La Cotorra, de 21 de março de 1880.

Chega enfim a Buenos Aires em meados de 1879. Não são claros os motivos que o levaram a sair do Brasil. Talvez Buenos Aires, um dos principais centros culturais da América, lhe parecesse um mercado mais promissor, mas encontrou um contexto tumultuado por guerras contra os índios, uma guerra civil e outros problemas. Apesar disso, sua estreia foi auspiciosa. Não demorou para lançar La Cotorra, em outubro de 1879 estava circulando, apresentando ao público a primeira revista colorida da América do Sul, avanço conseguido através da técnica da cromolitografia. Faria fez praticamente todas as ilustrações dos 43 números.

Colaborou com El Mosquito, jornal que provavelmente foi a inspiração para O Mosquito brasileiro, e para o qual criou várias peças, e ilustrou com exclusividade 91 edições do diário El Gráfico, que versava sobre política, moda, comércio e notícias diversas. Faria havia desde o início contado com a colaboração do ilustrador argentino Carlos Clérice, mas com a ascensão ao poder de Julio Argentino Roca foi imposta a censura à imprensa, e então os parceiros se voltaram para a impressão e ilustração de partituras musicais para as editoras Hartmann, Guión e Rolon. Roca determinou o fechamento da Cotorra em agosto de 1880; El Mosquito sobreviveu, porque havia se mostrado crítico dos governos anteriores e aderiu ao programa do novo governo. Mas o contexto se tornara pouco favorável. Clérice partiu para a França em 1882 com irmãos e toda a família, fundando em Paris a importante gráfica Clérice Fréres, publicando principalmente cartazes.Gaudêncio Junior, pp. 49-61 thumb|300px|Cartaz para o filme Les victimes de l’alcoolisme, 1902, da Pathé Frères.

Em 1883 Faria também está em Paris, onde se radica. Lá mantém contatos proveitosos com os Clérice e com brasileiros em viagem ou estudos, como Victor Meirelles, Eduardo Sá e Horácio Hora. Ele tem a adaptabilidade necessária para se ambientar rápido no novo meio, funda um atelier comercial, prospera financeiramente e sua arte se aprimora ainda mais. Veio a fazer um sucesso considerável, trabalhando para várias revistas e jornais. Angelo Agostini encontrou-se com ele em 1889, e descreveu sua vida na época: "Também estive com nosso antigo colega Faria, que ficou contentíssimo de ver-me. Este não faz pinturas, dedicou-se ao desenho, no qual têm feito enorme progresso e tem, hoje, trabalhado a valer para várias ilustrações. É muito procurado e faz bom negócio".Gaudêncio Junior, p. 61

A grande virada em sua carreira começou em 1895, com a invenção do cinematógrafo. O cinema, com efeito, tornou-se um sucesso instantâneo, atraindo todas as classes, e as empresas de cinematografia emergentes buscavam explorar todos os públicos possíveis. Para isso era necessário publicidade em escala massiva. Foi Faria quem produziu em 1902 o primeiro cartaz da história do cinema, para o filme Les victimes de l'alcoolisme, de Ferdinand Zecca, produzido pela celebrada Societé Pathé Frères. Trabalhou especialmente para os Clérice Frères, a Film d'Art e a Pathé, criando anúncios e cartazes para óperas, musicais, filmes e espetáculos de variedades, capas de livros e de edições musicais, e outros trabalhos. Seus cartazes de filmes e turnês de cantores e espetáculos famosos correram o mundo, dando-lhe uma reputação internacional. De 1902 a 1911 ele foi o principal cartazista da Pathé Frères, empresa que emergiu como o primeiro gigante da cinematografia, quando seu trabalho, no entendimento de Gaudêncio Junior, atingiu a maior especialização, fixando "o momento mais fecundo e sintético de uma narrativa ainda deficiente neste primeiro cinema".Gaudêncio Junior, pp. 22-39 thumb|left|Cartaz para o filme Attentat sur la voie ferrée, 1906, da Pathé Frères. thumb|left|Cartaz para o filme Un drame à Venise, 1906, da Pathé Frères.