miniatura|right|Reconstituição do Políptico do Convento da Madre de Deus (1515), da oficina de Jorge Afonso, actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga (As proporções apresentadas não correspondem às dimensões reais).De acordo com a proposta de reconstituição de Fernando Baptista Pereira, Manuel Batoréo, Alice Nogueira Alves, Armando Jesus e Maria José Francisco, em Retábulo do Convento de Jesus de Setúbal, ed. Museu de Setúbal/Convento de Jesus, 2013, ISBN 978-972-9016-44-8, .

O Políptico do Convento da Madre de Deus é um políptico de pinturas a óleo sobre madeira de carvalho pintadas cerca de 1515 na oficina de Jorge Afonso e que se destinou a decorar inicialmente a Capela-mor do Convento da Madre de Deus, encontrando-se actualmente os painéis que o constituiam no Museu Nacional de Arte Antiga.

Não se conhece a constituição original do Políptico. Os sete painéis sobreviventes, ou oito conforme as versões, que compunham o Políptico são: Anunciação, Adoração dos Pastores, Adoração dos Reis Magos, Aparição de Cristo à Virgem, Ascensão de Cristo, Pentecostes e Assunção da Virgem. S. Francisco entregando os Estatutos da Ordem a Santa Clara é considerado como fazendo parte do Políptico por Dagoberto Markl e Fernando A. Baptista Pereira. Dado que algumas pinturas foram repintadas no final do século XVI e mais tarde adaptadas às molduras barrocas do coro alto, permanece a imprecisão quanto à disposição original do Políptico do Convento da Madre de Deus.

O Políptico foi encomendado pela rainha D. Leonor, a fundadora do Convento da Madre de Deus, em Lisboa, e deve ter sido executado na oficina de Jorge Afonso. A data de realização do conjunto foi identificada por Luís Reis-Santos por exames laboratoriais da Aparição de Cristo à Virgem onde está a inscrição da data de 1515, e que esteve na origem da designação do seu autor por Mestre de 1515.

Para o historiador da arte Adriano Gusmão,Resumo biográfico de Adriano Gusmão na página web do MNMC, o Mestre do Políptico da Madre de Deus, fora injustamente confundido com outros pintores da sua época, não ocupando o lugar que por direito lhe pertence no panorama da pintura portuguesa quinhentista, e não apenas por merecimento próprio como por razão histórica colocava-o em plano cimeiro tanto mais que foi entre nós um inovador. Considerava que se podia dizer que o Mestre da Madre de Deus está para o século XVI como Nuno Gonçalves está para o século XV.Gusmão, Adriano de, O Mestre da Madre de Deus, p. 24, citado por Rafael Roble Simão, Jorge Afonso - Pentecostes (1515), Faculdade de Belas Artes – Ciências da Arte e do Património, s.d., E prossegue referindo que o Políptico da Madre de Deus representa uma nítida viragem, sob o ponto de vista estilístico, do labor das oficinas portuguesas quinhentistas, e apresenta-o como uma das raízes da pintura antiga portuguesa, obra inovadora e sem antecedentes que a explique.Gusmão, Adriano de, O Mestre da Madre de Deus, p. 12, citado por Luís A. E. Santos Casimiro, obra citada, pag 1137,

Descrição O Políptico do Convento da Madre de Deus é constituido pelas pinturas Anunciação, Adoração dos Pastores, Adoração dos Reis Magos, Aparição de Cristo à Virgem, Ascensão de Cristo, Pentecostes, Assunção da Virgem e, para alguns autores, S. Francisco entregando os Estatutos da Ordem a Santa Clara.

A estrutura original da igreja dificilmente comportaria as peças que se julga fazerem parte do Políptico, sendo grandes demais para o altar mor e, muito possivelmente, para qualquer outra zona do edifício. No entanto, sem o conhecimento da estrutura primitiva do convento e igreja, não é possível chegar a conclusões definitivas. Todas as peças ostentam marcas claras de acrescentos às dimensões e proporções originais, apresentando repintes em alguns pontos e parecendo adaptadas a espaços e funções que evidentemente não foram feitas para ocupar. O mais provável é o conjunto ter sido substituído por outro flamengo, deixando o seu local original e desde então permanecer até ao seu restauro longe da vista do público.

Os acrescentos em três painéis do Políptico com tábuas de qualidade claramente inferior, indicam quer uma preparação de suporte descuidada, quer desleixo com o conjunto após a sua conclusão.

Anunciação

Anunciação é uma pintura a óleo sobre madeira pintada em 1515 pela oficina de Jorge Afonso, mede 160,5 cms de altura e 129,5 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio bíblico da Anunciação.

A Virgem Maria recebe o anjo da Anunciação numa sala de inspiração renascentista cuja parede é rasgada por uma arcaria em dois níveis, vendo-se no lado esquerdo o desenvolvimento da habitação, e do lado direito um patamar a que se acede por escadas e que por sua vez conduz a uma varanda enquadrada igualmente por arcos. Pormenor interessante é a esteira sobre a qual as duas personagens estão ajoelhadas e que se julga ser de origem congolesa.Nota sobre Anunciação na MatrizNet

Para Markl e Pereira, nesta pintura conjugam-se o quotidiano e o cenário, o encontro quase segredado entre o Anunciado e a Anunciada. A esteira, sinal de humildade em ambiente de casa opulenta, parece simbolizar as origens da Virgem Maria, enquanto o Espírito Santo limita a intimidade. Sendo presumivelmente dos mesmos autores, e havendo o elemento comum que é a esteira, nesta Anunciação o Arcanjo ajoelha perante Maria como num acto de vassalagem romanesca, de amor cortês do cavaleiro perante a dama desejada, enquanto na Anunciação do Convento de Jesus de Setúbal o Arcanjo impõe a sua presença como enviado de Deus, sobrepondo o sobrenatural ao humano.

Adoração dos Pastores

A Adoração dos Pastores é uma pintura a óleo sobre madeira pintada 1515 por oficina de Jorge Afonso, mede 160,5 cms de altura e 124,5 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio bíblico da Adoração dos Pastores.Nota sobre Adoração dos Pastores na MatrizNet,

Tendo como pano-de-fundo uma construção em ruínas, o Menino Jesus, no centro da composição, é ladeado pela Virgem Maria, São José, e os Pastores que trazem as ofertas. Quatro anjos músicos pairam por cima da Sagrada Família.

O aspecto musical é saliente, não só pelos anjos músicos, que tocam, respectivamente, viola da gamba, flauta de tamborileiro e tambor de cordas, rabeca e alaúde, como pelos Pastores que trazem uma flauta, colocada sobre o cesto de ovos, e uma rabeca. Refere-se também a relação desta pintura com a obra Auto de Mofina Mendes (ou Mistérios da Virgem), de Gil Vicente, pela existência em ambos os casos de quatro anjos instrumentistas, anjos cantores e pastores com oferendas que irrompem pela sala depois da Rainha (Nossa Senhora) dar à luz.

Adriano de Gusmão apontou esta pintura como a mais antiga representação conhecida, neste suporte e técnica, deste tema no conjunto da pintura portuguesa.Sónia M. S. Duarte, O contributo da iconografia musical na pintura quinhentista portuguesa, luso-flamenga e flamenga em Portugal, para o reconhecimento das práticas musicais da época: fontes e modelos, utilizados na oficinas de pintura. Volume II - Anexos. Dissertação de Mestrado em Ciências Musicais. Setembro de 2011.

Adoração dos Reis Magos

A Adoração dos Reis Magos é uma pintura a óleo sobre madeira pintada em 1515 pela oficina de Jorge Afonso, mede 170 cms de altura e 205 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio bíblico da Adoração dos Magos.

A Virgem Maria está sentada com o Menino Jesus ao colo, no lado direito, recebendo a visita dos três Reis Magos que, ajoelhados num pavimento ladrilhado, apresentam as respectivas oferendas. A cena decorre num edifício arruinado tendo em fundo uma paisagem dividida em duas zonas, a da esquerda com casario ao fundo e a da direita com um caminho inclinado numa elevação de terreno por onde vêm alguns acompanhantes dos Magos.Nota sobre Adoração dos Reis Magos na MatrizNet,

A pintura, certamente numa adaptação à forma original do Retábulo em que se inseriu, tem a forma de um triângulo rectângulo em que o ângulo agudo da base foi cortado, transformado assim num trapézio em que um dos lados paralelos é muito reduzido em relação ao outro.

Aparição de Cristo à Virgem

Aparição de Cristo à Virgem é uma pintura a óleo sobre madeira pintada em 1515 pela oficina de Jorge Afonso, mede 203 cms de altura e 203 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio considerado canónico na época em que a pintura foi criada do aparecimento de Jesus a sua Mãe após a Ressurreição.

A composição está dividida em duas partes: uma cena de interior que ocupa um espaço maior e outra de exterior. Na primeira cena, Cristo está de pé, tendo a cobri-lo um manto vermelho que deixa a descoberto metade do tronco e o braço direito, perante a Virgem Maria que está ajoelhada e de mãos postas vestindo um manto azul e toucado branco. O encontro ocorre num compartimento banhado de luz vinda da direita com pavimento de mosaico, que dá através de um arco suportado por duas pilastras de mármore encimadas por capitéis para um pátio também banhado de luz, vendo-se ao fundo um janela com vitral. Na cena exterior, está representado o encontro de Adão e Eva, João Baptista (?) e Apóstolos, tendo em fundo torreões de muralha e partes altas de edifícios.

Na cartela em grisalha segura pela escultura de um anjo, na base da coluna que separa as duas cenas, está inscrita a data de 1515 o que permite identificar a data de criação da pintura.Nota informativa sobre a Aparição de Cristo à Virgem na Matriznet .

Ascensão de Cristo

Ascensão de Cristo é uma pintura a óleo sobre madeira pintada 1515 pela oficina de Jorge Afonso, mede 170 cms de altura e 205 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio bíblico da Ascensão de Cristo ().

Cristo, no lado esquerdo, eleva-se já no céu perante uma multidão de pessoas ajoelhadas, muitas delas aureoladas, de que se destacam em primeiro plano a Virgem Maria, São João e São Pedro.Nota sobre Ascensão de Cristo na MatrizNet,

A forma desta pintura é simétrica da forma da Adoração dos Pastores.

Pentecostes Pentecostes é uma pintura a óleo sobre madeira pintada cerca de 1515 pela oficina de Jorge Afonso, mede 166 cms de altura e 190 cms de largura, fez parte do Políptico do Convento da Madre de Deus e representa o episódio bíblico do Pentecostes. A pintura original foi acrescentada por uma outra tábua, em substituição da original que se degradou, pintada em época posterior, desconhecendo-se quando foi efectuado o acrescento.

A Virgem Maria, ao centro e de perfil, está ajoelhada, como todos os outros, a rezar junto a um livro de orações colocado sobre uma mesa, estando rodeada de vários santos e santas. Sobre eles descem as chamas do Espírito Santo.Nota sobre Pentecostes na MatrizNet A Virgem, em profunda meditação e reverência, ocupa uma posicão de protagonismo exigido pelas convenções de então, estando outra mulher atrás de si também em meditação. Em primeiro plano, à direita, está a imponente figura identificada como de S. João Evangelista, descalço e envolto num manto vermelho, em estado de choque e êxtase.

No restante grupo de santos há dois homens que parecem trocar palavras entre si. Todas as restantes figuras têm as cabeças voltadas para a pomba do Espírito Santo que, isolada no quarto superior esquerdo da composição, atrai também o olhar do espectador. Dominam na cena os perfis e semi-perfis, abrindo ainda mais a cena, de certa forma convidando o crente-espectador a fazer parte da cena representada.

O horizonte é bastante próximo, ocupando as figuras aproximadamente dois terços da composição, o que lhes confere monumentalidade, facilitando a sua visão.

Apreciação crítica de Pentecostes