Sanatruces (; ; ), também chamado Sanesano ou Sanesã (; , Sanesān) foi rei dos mascutes, uma tribo nômade cuja identificação precisa suscita debates, no início do . De acordo com as fontes armênias, aproveitou a sucessão dinástica no Reino da Armênia depois da morte de para tentar conquistar o país e tomar o trono de . Supostamente era membro da dinastia arsácida.

Nome

Sanatruces (, Sanatrúkēs), Sinatruces (, Sinatroúkēs), Sanatrúcio (, Sanatroúkios) ou Sanatruco () são as grafias grega e latina do parta Sanatruque (Sanatrūk), que seria incorporado no armênio (, Sanatruk) e aramaico (, Sanaṭrūk, e 𐣮𐣭𐣨𐣣𐣥𐣲, Sanaṭrūq (aramaico de Hatra)). Em última análise, pode derivar do iraniano antigo Sanataruca (*sāna-taru-ka-; lit. "conquistador de inimigos"). Sanesano / Sanessã, por outro lado, tem duas origens propostas. Alguns historiadores pensam estar associado ao nome parta Sanesaracã (snysrk(n), Sanēsarakān), lit. "Filho de Sanesar", atestado num fragmento parta do oriundo de Dura-Europos. Outros defendem que deriva do iraniano antigo Zanaquexana (Zanaχšāna), "o que tem tribo", "de alta linhagem".

Vida

Origens

As origens de Sanatruces são disputadas. As fontes, ao citarem seu nome, não informam seu nascimento ou parentesco. Moisés de Corene, em particular, lhe atribuiu ancestralidade na dinastia reinante do Império Arsácida, que foi destruído em 224 após a derrota de na Batalha de Hormusgã contras as tropas de , que fundou o Império Sassânida . À época, na Ibéria e Armênia, reinavam ramos cadetes dos arsácidas, que descendiam de , enquanto na vizinha Albânia, por influência dos romanos, outro ramo cadete, de origens obscuras, ascendeu com o entronização de . Fausto, o Bizantino, relatando a origem dessa personagem, comenta que ele era "parente" ou "irmão" de , filho de , configurando uma associação implícita aos arsácidas armênios.

Sanatruces é referido em diversas fontes históricas armênias. Exceto por Fausto que o chama de Sanesano, as demais referem-se a ele como Sanatruces. Murtazali Gadjiev propôs que tratam-se de duas personagens distintas, que por estarem intimamente ligadas entre si, foram confundidas pela historiografia como sendo uma pessoa. Segundo Gadjiev, Sanesano era um rei nômade que residia ao norte dos domínios armênios, a quem atribuiu uma hipotética ligação dinástica com a realeza alana como neto de Axídares, cuja filha Asiquena casar-se-ia com Tiridates IV e geraria Cosroes III; Sanatruces, por sua vez, era um arsácida residente na Albânia, que dependeu da assistência de Sanesano no transcorrer dos eventos aos quais esteve relacionado. Apesar da plausibilidade da hipótese, essa argumentação não é consenso na historiografia, com outros autores mantendo a posição de que são a mesma pessoa.

Vida

thumb|esquerda|upright=1.05|Dracma de thumb|esquerda|upright=1.05|Soldo de Constantino , provável criador do mestre dos ofícios

A descrição da vida e eventos relacionados a Sanatruces varia de fonte para fonte, o que dificulta sua reconstrução precisa. O historiador e Ciríaco de Ganzaca afirmaram que, em data incerta durante o reinado de Tiridates IV, Sanatruces foi nomeado governador na Albânia (João afirma mais especificamente que tornar-se-ia naapete da cidade de Fatacarana). João coloca que Sanatruces se rebelou e se coroou rei, enquanto Ciríaco afirma que a revolta ocorreu após a morte de Tiridates IV (ano 330), com o rebelde se deslocando até Ctesifonte, capital do Império Sassânida, onde recebeu as insígnias reais do xainxá . João V colocou que, por sua instigação, tribos do norte mataram o católico Gregoris, que estava em missão no país, na planície de Vateneã, nas cercanias de Vardanacerta, sob os cascos de cavalos que o pisotearam. Numa versão ligeiramente diferente, Ciríaco afirmou que Sanatruces ordenou a execução de Gregoris, que foi amarrado à cauda de um cavalo selvagem em Vateneã e arrastado até a morte. Depois disso, coloca João V, o pai de Gregoris, o católico Vertanes I , realizou uma embaixada em Constantinopla, onde se encontrou com o imperador (confundido com ), e pediu-lhe que coroasse Cosroes III , filho de Tiridates IV. Ciríaco, por sua vez, não mencionou essa embaixada e afirmou que Cosroes ficou satisfeito com os territórios que lhe restavam e se poupou de guerrear com Sanatruces. Em vez disso, optou por viver em paz, sob os conselhos de Vertanes, transferiu a capital de Artaxata para Dúbio e plantou um bosque de carvalhos.

Moisés de Dascurã afirmou que Gregoris dirigiu-se ao país dos mascutes (Andre Maricq propôs que estivesse localizado em Balasagena), onde se apresentou diante do rei Sanesano. A princípio, os mascutes aceitaram sua pregação e consideraram a conversão; os três filhos de Sanesano, chamados Moisés, Daniel e Elias, converteram-se, ao lado de outras pessoas. No entanto, de modo geral, os mascutes logo se desagradaram com as pregações de Gregoris, pois nelas exortava o trabalho honesto em detrimento do saque e da pilhagem. Moisés afirmou que os mascutes acreditavam que essa pregação tratava-se de uma artimanha do rei da Armênia para impedir que atacassem o reino. Os nobres mascutes dirigiram-se a Sanesano, que foi convencido a amarrar Gregoris à cauda de um cavalo, que o arrastou por Vateneã até a morte. Vários dos discípulos de Gregoris, inclusive os filhos de Sanesano, fugiram à colina de Dizapaite, onde o rei os perseguiu e matou em 9 de Navassarde (19 de agosto). Os sobreviventes recuperaram o corpo de Gregoris e sepultaram-no, mas logo depois fugiram, pois Sanesano decidiu invadir a Armênia com um grande exército. No entanto, por alegada providência divina, os nobres armênios foram capazes de destruir o exército invasor em retaliação pela morte do clérigo.

thumb|upright=1.2|Reino da Albânia no

Em outro ponto, Moisés afirmou que Sanesano, agora chamado Sanatruces, governava os albaneses da cidade de Fatacarana, e atacou a Armênia após a morte de Tiridates IV. Cosroes III convocou o general romano Antíoco, o nobre armênio e o "governador" (vitaxa) Mirranes (na verdade, uma confusão com o rei ) da Ibéria para auxiliá-lo em sua marcha contra a Albânia. Os aliados deixaram uma grande força na cidade de Fatacarana e Sanatruces fugiu às pressas ao xainxá Sapor II, com o exército albanês. Quando Antíoco retornou ao imperador Constantino I (confundido com Constâncio II), depois de ter tomado grande quantidade de despojos e tributos reais, Sanatruces aproveitou a ocasião e reuniu um exército de 30 mil albaneses e lançou um ataque contra os armênios, sob orientação de Sapor II. Moisés não menciona o destino de Sanatruces depois disso, e muda o foco da narrativa para o comandante dos lanceiros de seu exército, cujo nome não foi registrado. Diz o cronista que esse indivíduo, um enorme gigante vestido de feltro, investiu no terreno acidentado de Avexacã (Oxacã) contra os armênios, que eram incapazes de feri-lo. Supostamente após pedir intercessão divina, foi capaz de derrubá-lo com sua lança.

De acordo com Moisés de Corene, no reinado de Tiridates IV, a pedido dos nobres que viviam ao norte da Armênia, o rei enviou Gregoris como missionário à Albânia, ao lado de Sanatruces. Assim que as notícias da morte de Tiridates alcançaram o país, Sanatruces e seus apoiadores na Albânia se rebelaram e assassinaram Gregoris, pisoteando-o com seus cavalos em Vateneã. Depois, Sanatruces corou-se, ocupou a cidade de Fatacarana e, com o apoio de nações estrangeiras, planejou governar toda a Armênia. Na mesma época, o vitaxa de Arzanena Bacúrio, inspirado na rebelião de Sanatruces, rebelou-se contra Cosroes III e pretendia tornar-se independente. Quando tomaram conhecimento desses fatos, os nobres armênios reuniram-se junto de Vertanes I, que enviou Mar de Sofanena e Dátis Caminacano a Constantinopla com uma carta a Constâncio II (na verdade, Constantino I) pedindo ajuda. O imperador respondeu enviando seu general Antíoco. Cosroes foi deixado em segurança e Antíoco reuniu-se com os nobres Pancrácio I e Mirranes (Meribanes III) e marchou contra Sanatruces, que deixou uma forte guarnição persa em Fatacarana antes de fugir para a corte de Sapor II. A Albânia foi pilhada e Antíoco retornou ao Império Romano com muito butim. Antes de partir, Antíoco ordenou que Manachir Restúnio avançasse contra Bacúrio, que foi derrotado e morto.

Por fim, Fausto, o Bizantino, tal como os demais relatos, coloca de Gregoris dirigiu-se ao campo de Sanatruces, rei dos mascutes, onde realizou sua pregação. Inicialmente, os príncipes mascutes aceitaram a ideia da conversão, mas se incomodaram com a possibilidade de precisarem parar de pilhar e saquear e alegaram que a pregação de Gregoris era uma artimanha do rei da Armênia. Por esse motivo, Sanatruces ouviu o clamor do exército, agarrou um cavalo selvagem, amarrou Gregoris à cauda do animal e o lançou sobre a planície de Vateneã. Fausto alega que Sanatruces nutria forte ódio e rancor contra seu parente Cosroes III, contra quem liderou uma grande hoste formada por hunos e outros povos caucasianos (foques, tavaspares, hechemataques, ismaques, gátios, gluários, gargareus, silbianos, balaschis e suanocolcos). Cruzando o rio Cura, adentrou o Reino da Armênia. Diz Fausto que o exército era inumerável e os próprios invasores eram incapazes de calcular seus números. Para causar pânico entre os armênios, a cada encruzilhada os soldados lançavam pedras em pontos específicos para formar grandes montanhas que pressagiavam sua vinda e a dimensão de sua força. Por onde passaram, deixaram devastação e destruição, que se estendeu até Satala e Ganzaca, na fronteira com Atropatena. Dali, reuniram-se em Airarate, onde havia um grande acampamento.

O rei Cosroes e o patriarca Vertanes refugiaram-se na fortaleza de Terua (atual Castelo de Doubaiazete, na Turquia), em Cogovita. Enquanto isso, Sanatruces perambulou por todo o reino, submetendo-o a seus ataques por um ano. Nesse tempo, o asparapetes (comandante-em-chefe) retornou do Império Romano após uma longa jornada. Ao saber da situação, reuniu os nacarares mais valentes no monte Selu Gluque (Cabeça de Touro), onde matou muitos dos soldados inimigos. Dali, carregando butim, partiu à planície de Airarate. Ao chegar, avistou Sanatruces sitiando a cidade de Valarsapate. Liderando suas tropas, atacou de surpresa o contingente invasor, que foi obrigado a recuar à fortaleza de Oxacã, onde outra batalha foi travada. Vache estava acompanhado de Pancrácio I, , , Vaanes I e Varazes e o exército armênio massacrou o contingente invasor, cujos corpos encheram a planície pedregosa circundantes e seu sangue se avolumou como a corrente de um rio. Os poucos sobreviventes foram perseguidos até o país dos balaschis e a cabeça de Sanatruces foi levada perante Cosroes III, que supostamente chorou e exclamou: "Era era meu irmão, do clã dos arsácidas". Sua morte foi tentativamente datada em 336.

Notas

Bibliografia

Categoria:Mascutes Categoria:Dinastia arsácida da Armênia Categoria:Partas do século IV Categoria:Cosroes III da Armênia Categoria:Pessoas do Reino da Albânia (Cáucaso)