O Políptico do Convento de Santiago de Palmela, também dessignado por Retábulo da Vida de São Tiago, era um políptico de pinturas a óleo sobre madeira criado no período de 1521 a 1530 com participação proeminente do pintor luso-flamengo da época do Renascimento que se designa por Mestre da Lourinhã (activo entre 1500-1540) e que originalmente fez parte do Retábulo do altar-mor da Igreja do Convento de Santiago, no Castelo de Palmela, sede da Ordem de Santiago em Portugal.

Os oito painéis sobreviventes que compunham presumivelmente o Políptico da Igreja do Castelo de Palmela encontram-se actualmente no MNAA, em Lisboa.Markl, Dagoberto - "O Retábulo da Vida e da Ordem de Santiago", in A Ordem de Santiago. História e Arte (catálogo da exposição: O Castelo e a Ordem de Santiago na História de Palmela). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1990, pág. 151-156.

Das pinturas subsistentes, cinco reportam-se à vida de Santiago - Jesus envia Santiago e São João em Missão Apostólica, Pregação de Santiago, Conversão de Hermógenes, Condução do corpo de Santiago ao paço da rainha Loba e Santiago combatendo os Mouros, e outros três respeitam à Ordem de Santiago e ao seu primeiro Grão Mestre - Investidura de um Mestre da Ordem de Santiago, Entrega da bandeira a um Mestre da Ordem de Santiago e Aparecimento da Virgem a um Mestre da Ordem de Santiago.

Para o historiador Flávio Gonçalves, o Políptico do Convento de Santiago de Palmela é um dos mais belos e mais importantes polípticos da pintura portuguesa da primeira metade do século XVI.Gonçalves, Flávio - O Retábulo de Santiago, nº 20 da "Nova colecção de Arte Portuguesa", Lisboa, 1963

Autoria Para a datação, Markl, aceita a hipótese de Flávio Gonçalves da relação da composição de o Mestre Invocando a Virgem com a gravura de Germão Galhardo da capa da edição de 1526 da Crónica do Condestabre, assinalando ainda que para Santiago combatendo os Mouros o autor pode ter-se inspirado numa xilogravura da obra Estatutos e Definições da Ordem de Santiago impressa em 1509 pelo impressor Hermão de Campos. Daqui retira Flávio Gonçalves que o Políptico deverá ter sido pintado entre 1520-1530.Markl, Dagoberto; Pereira, Fernando A. Baptista - História da Arte em Portugal, vol. 6. "O Renascimento", Lisboa: Alfa, 1986.

Markl aceitava a ideia da participação na criação do Políptico do Mestre da Lourinhã, mas, concordando com Flávio Gonçalves, considerava a existência de dois núcleos distintos e assim pelo menos dois autores, o que corresponderia a uma parceria de dois artistas principais, o que era corrente na época, mesmo que com ajuda de colaboradores. Para tal ideia concorria também a existência do nome Marcos, por extenso e apenas pela letra M, em duas das pinturas, Santiago combatendo os Mouros e Investidura de um Mestre da Ordem de Santiago, o que não seria permitido decerto a um colaborador secundário.

Assim, Flávio Gonçalves identificava os dois seguintes grupos. Um de influência marcadamente flamenga, talvez do próprio Mestre da Lourinhã, englobando Jesus envia Santiago e São João em Missão Apostólica, Conversão de Hermógenes e Condução do corpo de Santiago ao paço da rainha Loba. E outro de distinto Mestre, talvez Cristóvão de Figueiredo, sendo Pregação de Santiago, Santiago combatendo os Mouros, Investidura de um Mestre da Ordem de Santiago, Entrega da bandeira a um Mestre da Ordem de Santiago e Aparecimento da Virgem a um Mestre da Ordem de Santiago.

Luís Reis-Santos admitia a possibilidade de Gregório Lopes ter participado também na pintura do Políptico, nos painéis relativos ao Grão Mestre da Ordem.

Reconstituição Para Markl, analisando os oito painéis sobreviventes do Políptico, verifica-se uma falta de ligação temática entre eles, o que não poderia acontecer na composição de uma obra daquela envergadura no século XVI. Assim, depois de três pinturas alusivas à vida de Santiago - Jesus envia Santiago e São João em Missão Apostólica, Pregação de Santiago e Conversão de Hermógenes, nota-se um hiato, pois a pintura seguinte é a Condução do corpo de Santiago ao paço da rainha Loba, defendendo que está ausente um dos temas fundamentais na história da vida daquele santo e mártir, habitual nas pinturas ibéricas sobre o tema daquela época, ou seja, o do Martírio de Santiago.

Markl, aceitando o número de 12 painéis indicado no Inventário de 1823, e considerando a existência do quadro sobre o Martírio de Santiago, refere que os três restantes que se perderam seriam os seguintes: Trasladação do corpo de Santiago da Judeia para a Hispânia, Conversão e Baptismo da Rainha Loba e Aprovação dos Estatutos da Ordem de Santiago, propondo a configuração do Políptico em três fiadas de quatro painéis cada, do seguinte modo:

Fiada A - Vida e Martírio de Santiago 1 - Jesus envia Santiago e São João em Missão Apostólica 2 - Pregação de Santiago 3 - Conversão de Hermógenes 4 - Martírio de Santiago (desaparecido).

Fiada B - Vida Gloriosa de Santiago 5 - Trasladação do corpo de Santiago da Judeia para a Hispânia (desaparecido) 6 - Condução do corpo de Santiago para o Palácio da Rainha Loba 7 - Conversão e Baptismo da Rainha Loba (desaparecido) 8 - Santiago Combatendo os Mouros.

Fiada C - da Ordem e do Grão-Mestre de Santiago 9 - Investidura do Mestre D. Pedro Fernandes 10 - Entrega da Bandeira da Ordem ao Mestre D. Pedro Fernandes 11 - O Mestre D. Paio Peres Correia invocando a Virgem em Tentúdia (?) 12 - Sobre a Ordem ou sobre o Mestre (desaparecido).

Markl concorda com Flávio Gonçalves quando este propõe que originalmente o Políptico deveria ter ao meio um espaço destinado à imagem do padroeiro do altar, sem dúvida um Santiago vestido de peregrino, posto sobre uma mísula e coroado por um baldaquino de talha.

Seguindo a sugestão de reconstituição de Dagoberto Markl que divide o Políptico em três séries temáticas, estando colocado ao centro uma escultura em madeira de Santiago Peregrino sob um baldaquino, Fernando A. Baptista Pereira elaborou um esquema de três fiadas compostas por quatro pinturas, apenas trocando a ordem das duas últimas pinturas em relação ao proposto por Markl, conforme se reproduz em cima. Além das pinturas estão indicados: I - Sacrário; II - Estátua de Santiago; III - Baldaquino.

Descrição Apresenta-se a seguir a descrição dos 8 painéis conhecidos do Políptico do Convento de Santiago de Palmela, seguindo uma ordem narrativa que eles teriam tido originalmente.Pereira, Fernando A. Baptista - "Reconstrução conjectural do Retábulo da Vida e da Ordem de Santiago", em Catálogo da exposição: O Castelo e a Ordem de Santiago na História de Palmela. Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1990

Cristo envia São Tiago e São João em Missão Apostólica

Cristo envia São Tiago e São João em Missão Apostólica é uma pintura a óleo sobre madeira pintada no período de 1520 a 1525 presumivelmente pelo pintor que se designa por Mestre da Lourinhã, mede 127 cm de altura e 83,5 cm de largura, fazia parte do Políptico do Convento de Santiago de Palmela e encontra-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

No lado direito do quadro, dominando esta metade do painel, está Jesus Cristo de frente para o observador, veste uma túnica de tons cinza, e segurando com uma mão um bordão com uma cruz no cimo ricamente lavrada de ouro e pedras preciosas, com a outra indica a São Tiago e São João que devem partir. Estes ocupam o lado esquerdo, o primeiro vestindo uma túnica de tom vermelho-alaranjado, e o segundo usando uma túnica verde com capa azul.

Enquanto os apóstolos se mostram algo surpreendidos, a figura de Cristo apresenta algum distanciamento e quase preocupado. Como referiu Flávio Gonçalves, o Cristo deste painel, de olhos semicerrados e fixos num ponto próximo, a cabeça levemente inclinada, é um dos rostos mais expressivos da pintura portuguesa da época.Joaquim Caetano, "Jesus envia Santiago e S. João em Missão Apostólica", in A Ordem de Santiago. História e Arte (catálogo da exposição: O Castelo e a Ordem de Santiago na História de Palmela). Palmela: Câmara Municipal de Palmela, 1990, pág. 159-160.

Como alguns historiadores notaram, esta é uma das pinturas do conjunto que apresenta maior afinidade com a obra do Mestre da Lourinhã, seja no esquema da composição e articulação dos planos, seja no desenho e cores utilizadas. Em especial, a paisagem que se apresenta em segundo plano, com um rio em cujas margens surgem um castelo e palácios e acasteladas bem como uma caravela, e com um fundo de arvoredo e formações rochosas, suscita paralelismo com a pintura São João em Patmos que está na Misericórdia da Lourinhã, obra notável que permitiu identificar este pintor.Nota sobre Cristo envia São Tiago e São João em Missão Apostólica na Matriznet

Pregação de São Tiago

A Pregação de São Tiago é uma pintura a óleo sobre madeira pintada no período de 1520 a 1525 presumivelmente pelo pintor que se designa por Mestre da Lourinhã, mede 127 cm de altura e 83,5 cm de largura, fazia parte do Políptico do Convento de Santiago de Palmela, e encontra-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Em segundo plano, mas de forma destacada, São Tiago prega de um púlpito, sobre um céu azul acizentado dirigindo-se a um grupo que se coloca à sua frente. Do lado direito está representado um grupo de personagens masculinos atentos à pregação, ao passo que no lado esquerdo as figuras participam numa cereminónia de baptismo. Esta cerimónia já foi interpretada como sendo uma alusão à figura de Santo Atanásio, um dos discípulos de São Tiago que ficou na Península Ibérica. O fundo é constituido por arvoredo e por colinas quase nuas de vegetação.Nota sobre a Pregação de São Tiago na Matriznet

Para Joaquim Caetano, a Pregação de São Tiago denota claramente um tipo de trabalho colectivo típico da época. Por um lado, o fundo de paisagem é semelhante ao que se pode observar nas outras pinturas do Políptico e a figura de Santo Tiago tem proximidade com o tipo de rosto usado nas obras que atribuem ao Mestre da Lourinhã. No entanto, os dois grupos de figuras, o da audiência à pregação e os assistentes da cena do baptismo, afastam-se nitidamente em relação aos restantes painéis, quer pela organização dos grupos, quer pelas cores aplicadas, numa diversidade próxima dos Mestres de Ferreirim.

Conversão de Hermógenes

A Conversão de Hermógenes é uma pintura a óleo sobre madeira pintada no período de 1520 a 1525 presumivelmente pelo pintor que se designa por Mestre da Lourinhã, mede 128 cm de altura e 84 cm de largura, fazia parte do Políptico do Convento de Santiago de Palmela, e encontra-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

São Tiago está representado do lado direito com os seus atributos (bastão, barrete com a vieira) observando manuscritos a serem devorados pelo fogo numa fogueira no chão à sua frente. Do lado oposto, o mago Hermógenes, cujo rosto está delineado de forma muito realista, encontra-se ladeado por dois demónios. Em cima, sobre um fundo de nuvens negras que contrasta com o azul pálido do céu, vê-se o «baile dos diabos uivantes» que fogem perante a vitória de Santiago, mencionado na Flos Sanctorum e que foi provavelmente fonte de inspiração desta obra.

No centro da composição, em primeiro plano, estão os livros deitados às chamas por Hermógenes em sinal de abandono da sua antiga sabedoria e conversão ao Cristianismo, sendo de assinalar que na Flos Sanctorum os livros são atirados à água, e não imolados pelo fogo, parecendo haver assim uma representação dos autos-de-fé que ocorriam na época.

Sendo a conversão do mago Hermógenes por São Tiago um tema relativamente raro na iconografia portuguesa,