right|450px|thumb|Papiro Westcar em exibição no Ägyptisches Museum, Berlim

Papiro Westcar (designação de inventário: P. Berlin 3033) é um texto egípcio antigo contendo cinco histórias sobre milagres realizados por sacerdotes e magos. Cada uma dessas histórias é contada na corte real do faraó Quéops (IV dinastia) por seus filhos. A história no papiro é normalmente traduzida em inglês como King Cheops and the Magicians ("Rei Quéops e os Mágicos")Simpson, William Kelly. (1972). The Literature of Ancient Egypt: An Anthology of Stories, Instructions, and Poetry. Edited by William Kelly Simpson. Translations by R.O. Faulkner, Edward F. Wente, Jr., and William Kelly Simpson. New Haven e Londres: Yale University Press. ISBN 0-300-01482-1. Página 15. e The Tale of King Cheops' Court ("O Conto da Corte do Rei Quéops").Parkinson, R.B. (2002). Poetry and Culture in Middle Kingdom Egypt: A Dark Side to Perfection. Londres: Continuum. ISBN 0-8264-5637-5. p. 295–96. Em alemão, no qual o texto do documento foi originalmente traduzido, é referido como Die Märchen des Papyrus Westcar ("Os Contos do Papiro Westcar").

O material sobrevivente do Papiro Westcar consiste em doze colunas escritas em texto hierático. Miriam Lichtheim estabelece que o documento é do Período Hicso (XVIII a XVI século a.C.) e afirma que está escrito em egípcio médio clássico.M. Lichtheim, Ancient Egyptian Literature, vol.1, University of California Press 1973, p.215 A linguista e egiptóloga Verena Lepper acredita que pode ser possível que o Papiro Westcar já tenha sido escrito durante a XIII dinastia. O papiro tem sido usado pelos historiadores como um recurso literário para reconstituir a história da IV dinastia.

Hoje o texto encontra-se em exibição sob condições de pouca luz no Museu Egípcio de Berlim.

História da descoberta Em 1823 ou 1824, um aventureiro britânico, Henry Westcar, aparentemente descobriu o papiro durante viagens no Egito. Por razões desconhecidas, ele não registrou as circunstâncias exatas em que obteve o artefato.

Entre 1838 e 1839, o egiptólogo alemão Karl Richard Lepsius afirmou ter recebido o papiro da sobrinha de Westcar. Como Lepsius era capaz de ler alguns sinais de hierático, reconheceu alguns dos cartuchos reais com nomes dos reis e datou o texto do Império Antigo.

Há inconsistências sobre a verdadeira natureza da aquisição e o subsequente paradeiro do Papiro Westcar. Lepsius escreveu que o documento estava em exibição na Biblioteca Bodleiana de Oxford, mas exposições públicas são documentadas lá desde o início de 1860 e seu nome não aparece em qualquer lista ou registro. Além disso, ele nunca tornou público o texto do Papiro Westcar; guardou a obra em casa no sótão, onde foi encontrado depois de sua morte. Essas inconsistências levaram a uma ampla especulação; muitos historiadores britânicos especulam que Lepsius pode ter roubado o papiro.Verena M. Lepper: Untersuchungen zu pWestcar. Eine philologische und literaturwissenschaftliche (Neu-)Analyse. Ägyptologische Abhandlungen, Band 70. Harrassowitz, Wiesbaden 2008, ISBN 3-447-05651-7, p. 15–17.

Em 1886, o egiptólogo alemão Adolf Erman comprou o papiro do filho de Lepsius e o deixou para o Museu de Berlim. Como os signos hieráticos ainda eram insuficientemente investigados e traduzidos, o Papiro Westcar era exibido como algum tipo de curiosidade. Desde a primeira tentativa de Erman em uma tradução completa em 1890, o documento foi traduzido várias vezes, concluindo em resultados diferentes. A datação do texto também varia.Verena M. Lepper: Untersuchungen zu pWestcar. Eine philologische und literaturwissenschaftliche (Neu-)Analyse. Ägyptologische Abhandlungen, Band 70. Harrassowitz, Wiesbaden 2008, ISBN 3-447-05651-7, p. 317–320..

Descrição do material O Papiro Westcar é um documento reutilizado feito da planta Cyperus papyrus. O pergaminho foi separado em três partes. Durante a vida de Lepsius e Erman foi dividido em duas partes; não se sabe quando e por que o pergaminho foi separado em três fragmentos. O texto escrito no papiro inclui doze colunas ao todo. A primeira parte contém no recto (parte frontal) as colunas um a três, na segunda parte do recto estão as colunas quatro e cinco e a terceira parte contém em seu verso as colunas seis a nove; na dianteira da terceira parte, as colunas dez a doze. A textura do papiro é granulada, de cor cinza-amarelada e muito frágil. A primeira parte foi fixada em linho e colocada entre duas vidraças. No quinto ponto, o papiro foi fixado ao vidro com metilcelulose. A parte dois foi fixada em um papelão e placa de madeira e é coberto por uma vidraça. A parte três foi simplesmente colocada entre duas vidraças e foi completamente colada com eles. O adesivo usado para isso perdeu parcialmente a transparência e uma névoa esbranquiçada apareceu. As bordas de todas as três partes foram deixadas livre para circulação de ar. Devido à laminação do papel durante o século XVIII, todos os fragmentos do papiro estão parcialmente danificados; em vários pontos o material é rasgado, distorcido e esmagado. Algumas das fibras agora estão sobre a inscrição. Todo o artefato mostra grandes lacunas e a borda dos pergaminhos está muito desgastada. Devido às lacunas, muitas partes do texto hoje estão ausentes.

O texto em si é completamente escrito em tinta preta de ferro e de carbono e dividido por rubrica em dez parágrafos. Entre as frases cuidadosamente escritas, traços vermelhos de um texto mais antigo são visíveis. Parece que a obra é um palimpsesto; o autor desconhecido do Antigo Egito obviamente tentou, mas parcialmente não conseguiu apagar o texto mais antigo. A limpeza e escrita caligráfica mostra que o autor era um profissional altamente educado.Verena M. Lepper: Untersuchungen zu pWestcar. Eine philologische und literaturwissenschaftliche (Neu-)Analyse. Ägyptologische Abhandlungen, Band 70. Harrassowitz, Wiesbaden 2008, ISBN 3-447-05651-7, p. 17–21.

Contos do Papiro Westcar A primeira história, contada por um filho desconhecido de Quéops (possivelmente Djedefré), está faltando tudo menos a conclusão, em que seu pai ordena ofertas abençoadas ao rei Djoser. Parece ter sido um texto detalhando um milagre realizado por um sacerdote-leitor no reinado do rei Djoser, possivelmente o próprio Imhotep.Adolf Erman: Die Märchen des Papyrus Westcar I. Einleitung und Commentar. In: Mitteilungen aus den Orientalischen Sammlungen. Heft V, Staatliche Museen zu Berlin, Berlim 1890. página 10 – 12.Verena M. Lepper: Untersuchungen zu pWestcar. Eine philologische und literaturwissenschaftliche (Neu-)Analyse. In: Ägyptologische Abhandlungen, Band 70. Harrassowitz, Wiesbaden 2008, ISBN 3-447-05651-7, pp. 41–47, 103 & 308–310..Miriam Lichtheim: Ancient Egyptian literature: a book of readings. The Old and Middle Kingdoms, Band 1. University of California Press 2000, ISBN 0-520-02899-6, página 215 – 220.

A segunda história, contada por Quéfren, é definida durante o reinado de um dos predecessores de Quéops. O chefe-leitor do rei Sanakht, Ubaoner, descobre que sua esposa está tendo um caso amoroso com um cidadão de Mênfis, e ele modela um crocodilo em cera. Ao saber que sua esposa infiel está encontrando seu amante, ele conjura um feitiço para que a estatueta ganhe vida ao entrar em contato com a água, e manda seu caseiro jogá-lo no córrego pelo qual o cidadão entra e deixa a propriedade do leitor desconhecido. Ao pegar o cidadão, o crocodilo o leva até o fundo do lago, onde permanecem por sete dias enquanto o leitor entretém o faraó visitante. Quando ele conta a história a Sanakht, e chama o crocodilo novamente, o rei ordena que o animal o devore de uma vez por todas. Em seguida, chama a esposa adúltera, que é incendiada e jogada no rio.

miniaturadaimagem|175px|Estatueta de Quéops feita de marfim da IV dinastia. Museu Egípcio do Cairo A terceira história, contada por outro filho chamado Baufra, é definida durante o reinado de seu avô Seneferu. O rei está entediado e seu chefe-leitor, Djadjaemankh, aconselha-o a reunir vinte jovens e usá-las para velejar em torno do lago do palácio. Seneferu ordena que sejam feitos vinte belos remos, e dá as redes às mulheres para enrolá-las à medida que velejam. No entanto, uma das meninas perde um amuleto — um pingente de peixe feito de malaquita tão amado por ela que nem sequer aceita um substituto do tesouro real, e até que seja devolvido a ela nenhuma das outras meninas vai remar. O rei lamenta isto, e o leitor-chefe separa as águas para recuperar o amuleto, depois deixa as águas como estavam.

A quarta história, contada por Hordjedefe, diz respeito a um milagre que ocorreu no próprio reinado de Quéops. Um cidadão chamado Dedi aparentemente tem o poder de recolocar a cabeça cortada em um animal, domar leões selvagens, e sabe o número de quartos secretos no santuário de Tot. Quéops, intrigado, envia seu filho para convidar este homem sábio à corte, e ao chegar ele ordena um ganso, uma ave aquática indefinida, e um touro decapitado. Dedi volta a ligar as cabeças. O faraó então o questiona sobre seu conhecimento sobre o santuário de Tot, e o homem responde que ele não sabe o número de quartos, mas sabe onde eles estão. Quando o faraó pergunta onde estão e como ele sabe, Dedi responde que aquele que pode lhe dar acesso não é ele, mas o primeiro dos três futuros reis no ventre da mulher Rededjete. Esta é uma profecia detalhando os primórdios da V dinastia, começando com Userquerés.

A história final rompe com o formato e move o foco para Rededjete, que dá à luz seus três filhos. No dia do nascimento de seus filhos, Rá ordena Ísis, Néftis, Mesquenete, Heket e Quenúbis a ajudá-la. Eles se disfarçam como músicos e se apressam à casa de Reddedet para ajudá-la com o difícil nascimento. As três crianças nascem, cada uma descrita como forte e saudável, cobertos de ouro e usando cocares de lápis-lazúli. A empregada doméstica de Rededjete mais tarde tem uma discussão com sua patroa, toma uma surra e foge, jurando dizer ao rei Quéops o que tinha acontecido. Mas no caminho, ela encontra seu irmão e conta a história para ele. Desgostoso, ele também bate nela, e ordena que corra na margem do rio, onde um crocodilo a captura. O irmão vai ver Rededjete, que chora pela perda da menina. O irmão começa a confessar o que aconteceu e, neste ponto, o papiro termina.

Análises e interpretações O papiro Westcar é do mais alto interesse para historiadores e egiptólogos, uma vez que é um dos mais antigos documentos egípcios que contém um romance tão complexo. Infelizmente, o nome do autor foi perdido. As mais recentes traduções e investigações linguísticas de Miriam Lichtheim e Verena Lepper revelam elementos interessantes de escrita e ortografia escondidos no texto do documento, o que fez com que chegassem a uma nova avaliação das histórias individuais.

A primeira história está perdida devido o dano ao papiro. As frases preservadas apenas revelam o protagonista principal da história, o rei Djoser. O nome do herói, que é dito ter realizado o milagre, está completamente perdido, mas Liechtheim e Lepper acham possível que o papiro estivesse falando sobre o famoso arquiteto e alto sacerdote-leitor Imhotep.

Estilística linguística e mudança de tempos