O conservadorismo no Brasil designa o movimento originado a partir de determinadas tradições culturais do Brasil, assim como a relação com raízes culturais luso-ibéricas e influências diversas. O movimento recebeu influências da herança romana e parte da filosofia grega em sua fundação no cristianismo. As visões e características históricas conservadoras mais tradicionais incluem a crença no unitarismo político, no catolicismo e, durante o período monárquico, o monarquismo. Posições sobre temas contemporâneos no movimento conservador brasileiro incluem a oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, embora não exista consenso. Há pesquisas de opinião indicando que a maior parte da sociedade brasileira tenha posicionamentos ligados à direita política, apesar de nem todas se considerarem efetivamente conservadoras.
A colonização portuguesa fez forte impressão na formação tradicional da sociedade brasileira. A doutrina da Igreja Católica junto às políticas públicas do Estado português, bem como a arquitetura, a literatura e outras esferas da cultura lusitana marcaram a história do Brasil, manifestando-se com vigor mesmo após sua independência.
O Partido Conservador do período imperial foi a primeira organização política de caráter conservador no Brasil independente, surgido de uma tradição que rejeitou o republicanismo e o liberalismo, propiciando a integridade territorial do novo país, assim como a continuidade da escravidão. Coube a ele a supremacia no sistema de revezamento parlamentar junto ao Partido Liberal que definiu o cenário político do Segundo Reinado.
O conservadorismo brasileiro inclui nomes como Gilberto Freyre na sociologia; Afonso Arinos, Sobral Pinto e Miguel Reale no direito; Plinio Correia de Oliveira, Gustavo Barroso, Gustavo Corção; Mario Henrique Simonsen, Eugenio Gudin e Roberto Campos na economia; Alberto Torres, Arlindo Veiga dos Santos, André Rebouças, José Bonifácio, Plínio Salgado, Enéas Carneiro e Carlos Lacerda na política; Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé na filosofia; e Câmara Cascudo,Bruno Balbino Aires da Costa. Luís da Câmara Cascudo, historiador dos espaços. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais Vol. 4 Nº 8, Dezembro de 2012. Oliveira Lima, José Pedro Galvão, João Camilo de Oliveira Torres, Paulo Mercadante e Pedro Calmon na historiografia.
História Império do Brasil Ver Década Conservadorathumb|160px|Visconde do Rio Branco, saquarema que foi Presidente do Conselho de Ministros
Durante a Independência do Brasil, na regência do príncipe Dom Pedro de Alcântara (1821-1822), aconteceu um processo chamado de "politização das ruas": o centro do Rio de Janeiro, agora lar de cafés e outros espaços de socialização, tornou-se um local de discussão, onde pessoas (intelectuais, trabalhadores, etc.) encontravam-se para debater sobre vários assuntos políticos, entre eles o futuro do Brasil. Com isso surgiram três vertentes de pensamento: o Partido Brasileiro e o Partido Português, ambos representando os interesses da alta burguesia, e um terceiro grupo formado pela pequena burguesia, profissionais liberais e por operários urbanos do Rio de Janeiro e de outras capitais provinciais, o Partido Liberal-Radical.. Os três partidos ainda não eram efetivamente partidos políticos formalmente constituídos no sentido moderno do termo, mas sim correntes de opinião.
Os membros do Partido Português, durante a regência de D. Pedro, eram favoráveis à manutenção do Brasil unido ao Império Português, já que, no geral, beneficiavam-se com a união no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Depois da independência, durante a Assembleia Constituinte de 1823, passaram a defender um governo centralizado e forte (principalmente no Senado), capaz de derrotar as tendências separatistas que se verificavam no Império.
O sucessor ideológico do Partido Português foi o Partido Restaurador, conhecido depreciativamente como "os caramurus". Defendiam o retorno do imperador Pedro I ao trono brasileiro após sua abdicação, além de apoiar um regime monárquico fortemente centralizado. Seus rivais eram o Partido Moderado (sucessor ideológico do Partido Brasileiro) e o Partido Liberal Exaltado (sucessor ideológico do Partido Liberal Radical). Os Moderados sustentavam a necessidade de reformas da Carta Constitucional de 1824, porém mantendo a forma monárquica de poder. Muitos de seus membros as queriam amplas, e outros mais restritasBASILE, Marcello (2009). In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo (Org.). O Brasil Império, volume II: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. p. 60-61. Já os Liberais Exaltados defendiam o federalismo e a democratização da sociedade; seus membros mais radicais eram favoráveis à república e ao fim da escravidão.Laura Candian Fraccaro (2018). História do Brasil Imperial (PDF). [S.l.]: Editora e Distribuidora Educacional S.A.
O Partido Conservador surgiu principalmente de uma ala dissidente do Partido Moderado e de alguns membros do Partido Restaurador na década de 1830, quando passou a ser conhecido como Partido Regressista. No início da década de 1840, passou a se chamar Partido da Ordem para se distinguir da oposição do Partido Liberal (sucessores ideológicos do Partido Liberal Exaltado), acusada de desordem e anarquia. Tanto os membros do partido quanto sua liderança eram conhecidos como "saquaremas", em homenagem à vila de Saquarema, onde a liderança possuía plantações e apoio.Jeffrey D. Needell, The Party of Order: The Conservatives, the State, and Slavery in the Brazilian Monarchy, 1831-1871 (Stanford University Press, 2006: ), p. 110.
O Partido Conservador surgiu empunhando a bandeira da "ordem" em contraposição ao que consideravam a "desordem" promovida pelos liberais. Embora o Brasil já fosse uma nação independente, suas origens luso-católicas ainda se manifestavam na esfera sociopolítica, em especial por meio da agenda conservadora. Entretanto, os saquaremas não desconsideravam ideias estrangeiras, que adaptavam quando importadas para a política brasileira.
Sob a regência do Marquês de Olinda, o Exército foi avigorado para garantir, de forma autoritária e violenta, a integridade do Estado brasileiro contra as recorrentes rebeliões regionais, após o Período Regencial. Os conservadores ocuparam a Presidência do Conselho de Ministros (cargo do Chefe de Governo, pois o Imperador era somente o Chefe de Estado) pelos próximos 23 anos, liderados por figuras como o Marquês do Paraná e o então Marquês de Caxias, período em que o Brasil debelou a Revolta Praieira e conteve o expansionismo do caudilho argentino Juan Manuel de Rosas durante a Guerra do Prata.
Após a administração liberal do septênio 1861 - 1868, os conservadores retornaram ao governo por um decênio, o qual se iniciou aos momentos finais da Guerra do Paraguai. A Questão Religiosa ocorreu no ano de 1870 e foi solucionada pela ascensão do então Duque de Caxias à presidência do Conselho de Ministros cinco anos depois; o primeiro censo brasileiro foi realizado em 1872 e revelava uma população crescente de 10 milhões de brasileiros. Em 1873 ocorreu uma cisão entre os liberais, com monarquistas permanecendo no Partido Liberal e republicanos fundando o Partido Republicano.
O Barão de Cotegipe ocupou a presidência do Conselho de Ministros em agosto de 1885, após outro septênio liberal, determinado a frear o iminente processo de abolição da escravatura que se acelerara na década de 1870. Seu gabinete é dispensado em 1888 pela regente Isabel, sendo então substituído por outro gabinete, encabeçado por João Alfredo Correia de Oliveira (filiado ao Partido Conservador) que era favorável à abolição imediata, que é realizada no mesmo ano.
Durante a gestão encabeçada pelo Partido Conservador inúmeras mudanças sociais positivas foram efetivadas, sendo o processo do abolicionismo o de maior legado. O Visconde do Rio Branco, em 1871, promulga a Lei do Ventre Livre; em 1885, a Lei dos Sexagenários, redigida por Rui Barbosa (um liberal); por fim, a Lei Áurea, pelo primeiro-ministro João Alfredo, junto à regente Isabel. Assim como os conservadores anglo-saxônicos, os saquaremas mantinham sua perspectiva alinhada com a de Edmund Burke, advogando que toda reforma institucional deveria ser estudada perante a realidade concreta e não imposta abruptamente. Porém, o caráter conservador - e muitas vezes reacionário - de suas reformas acabou desgastando o regime monárquico.
Primeira República thumb|Eduardo Prado foi inimigo da nova república
thumb|160px|O historiador Oliveira Lima foi um crítico das oligarquias da Primeira República
Em 15 de Novembro de 1889, o golpe republicano de raízes positivistas destituiu a monarquia constitucional, e instaurou uma ditadura militar em seus primeiros anos. Dom Pedro II e sua família foram exilados à força. As fundações ideológicas do novo regime eram diversas e todas hostis, em diferentes intensidades, ao monarquismo que concebeu o antigo regime. Havia entre a grande parcela do Exército a crença de que os sucessivos gabinetes civis agrediam sua corporação, destituindo seus integrantes de direitos que dispunham os cidadãos livres do Império; outra pequena facção de alunos da Escola Militar da Praia Vermelha tinha germinado sentimentos revolucionários alimentados por diversas ideologias cientificistas importadas da Europa, mas em especial o positivismo. Nos quadros civis do movimento distinguia-se o grupo de republicanos liberais paulistas, no qual figuravam ricos cafeicultores e bacharéis da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Sua ideologia era complementada pela simpatia ao modelo federalista dos Estados Unidos. À época, a divisão que ocorreu entre a população, entre liberais republicanos e monarquistas conservadores, inspirou Machado de Assis a publicar sua obra Esaú e Jacó.
Duas correntes republicanas se chocaram no Governo Provisóri de Deodoro da Fonseca: a corrente liberal, que visava a uma República federativa e presidencial, com separação de poderes, nos moldes estadunidenses; e a corrente positivista (ideologia de carater conservador GONDIM, Jorge Vinícios Silva; BEZERRA, Josinete de Carvalho Bezerra; COSTA, Rafaela Ribeiro Saraiva da; Positivismo, fenomenologia e serviço social: crítica às expressões contemporâneas do conservadorismo. (21 de maio de 2019). v. 1, n. 1 (2018): Anais do XVI Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social), que defendia uma ditadura republicana unitária, segundo os princípios do filósofo francês Auguste Comte.
Boa parte dos liberais era composto por cafeicultores vinculados ao Partido Republicano, fundado em Itu (SP) no ano de 1873, além de classes proprietárias do Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Já os positivistas eram compostos principalmente por militares e setores do Partido Republicano do Rio Grande do Sul.https://blog.estrategiavestibulares.com.br/historia/republica-no-brasil/ Uma terceira corrente era a dos jacobinos, era tida pelas demais como radical, e por isso denominada de “jacobina”, em referência aos revolucionários mais enérgicos da Revolução Francesa. Defendiam mudanças mais radicais, e queriam implantar uma República com base populista, aos moldes da criada pela Revolução Francesahttps://www.proenem.com.br/enem/historia/proclamacao-da-republica-e-os-militares-no-poder/. Não chegou a ter expressão política. Muitos chegaram a apoiar Floriano Peixoto, sendo chamados de "florianistas"Jacobinos: abordagem conceitual e performática, Amanda Muzzi Gomes, Brasil. Eram compostos por pequenos proprietários, advogados, jornalistas e estudantes do jacobinismo.
Venceu a corrente liberal, sustentada por Campos Sales, Ruy Barbosa e Prudente de Morais.