Umaro El Mokhtar Sissoco Embaló (Bissau, 23 de setembro de 1972) é um militar, lobista e político bissau-guineense que serviu como presidente da República da Guiné-Bissau de fevereiro de 2020 a novembro de 2025, quando teria sido deposto num golpe de Estado (que tem sido descrito como um autogolpe). Anteriormente, foi primeiro-ministro do país, de 2016 até 2018.
A presidência de Embaló foi marcada por violações sistemáticas da Constituição da República, desmonte das instituições democráticas, violação dos direitos humanos, ataque às liberdades democráticas, divisionismos étnicos e religiosos, sequestros e espancamentos de vozes críticas ao seu governo, perseguição de adversários políticos, ataques recorrentes à imprensa nacional e internacional.
Biografia Umaro Sissoco Embaló nasceu em Bissau, 23 de setembro de 1972, numa família muçulmana da etnia fula.
Carreira militar e como lobista e início na política miniatura|200px|esquerda|Embaló entre o ex-Presidente do Senegal Abdou Diouf e o então Presidente do Mali Amadou Toumani Touré em 2012 Na década de 1990, Embaló alistou-se e passou ao serviço militar no Exército da Guiné-Bissau, instituição que o teria enviado para fazer estudos de defesa nacional no Centro Superior de Estudos da Defesa Nacional de Espanha (CESEDEN), tornando-se poliglota com domínio fluente em português, espanhol, francês, árabe e suaíli. Ele teria ascendido ao posto de capitão. Embaló teria se especializado militarmente em assuntos africanos e do Oriente Médio.
Em 2005, Embaló deixou o Exército da Guiné-Bissau alegadamente no posto general de brigada (graduação militar conquistada de forma récorde), informação porém nunca confirmada ou negada pelas Forças Armadas da Guiné-Bissau. Após sua saída do meio militar, teria tido uma carreira obscura como lobista de um fundo de investimentos líbio, além de conselheiro do Presidente Nino Vieira. Filiou-se ao Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) neste período.
Umaro Sissoco Embaló iniciou sua carreira como Ministro da Cooperação junto ao Primeiro-Ministro Aristides Gomes de 2005 a 2007 e, posteriormente, como Ministro de Estado junto à Presidência da República da Guiné-Bissau até 2012, após o falecimento de Malam Bacai Sanhá.
Primeiro-Ministro miniatura|200px|esquerda|Embaló encontrando-se com o então presidente burquinense Blaise Compaoré em 2014 A 18 de novembro de 2016 foi nomeado Primeiro-Ministro de iniciativa presidencial por José Mário Vaz, tendo tomado posse do cargo no dia 13 de dezembro de 2016.
O novo primeiro-ministro da Guiné-Bissau assumiu o posto com um boicote do seu próprio partido, o PAIGC, que através do seu Comité Central deu-lhe um voto de desconfiança de cento e doze votos a favor e onze contra no dia 26 de novembro de 2016. Como chefe de governo, pôde contar com apoio de somente do Partido para a Renovação Social (PRS), a segunda maior bancada da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau. Mesmo sem maioria e referendo parlamentar, exerceu a chefia do governo por insistência de José Mário Vaz, num mandato marcado por autoritarismo.
Em 13 de janeiro de 2018, após entrar em rota de colisão com o presidente José Mário Vaz (até então seu principal aliado), em função deste ter-se colocado ao lado das demandas de João Fadiá (Ministro das Finanças) e Botche Candé (Ministro do Interior), Embaló solicitou sua demissão do cargo, tendo sido efetivada em 16 de janeiro de 2018. Em 2017, o PAIGC expulsou a ele e a outros 14 deputados e dirigentes por indisciplina partidária.
Candidatura e eleição à Presidência Após sua demissão em 2018 e a expulsão do PAIGC no ano anterior, articulou, com o grupo de 14 parlamentares anteriormente expulsos do PAIGC, a fundação do partido Movimento para Alternância Democrática (Madem G-15), apresentando inicialmente essa agremiação como de ideologia social-democrata. Nas eleições legislativas na Guiné-Bissau em 2019, levou o estreante partido Madem G-15 a ficar em segundo lugar.
Embaló candidatou-se à presidência da Guiné-Bissau em 2019, concorrendo como candidato do Madem G-15. Terminou em segundo lugar, com 27% dos votos, no primeiro turno. De acordo com os resultados preliminares e finais publicados pela comissão nacional de eleições, venceu o segundo turno contra outro ex-primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira, por 54% a 46%. No entanto, os resultados finais continuaram a ser contestados pelo seu oponente, Domingos Simões Pereira.
miniatura|200px|esquerda|Embaló em encontro com o presidente estadunidense Joe Biden e a primeira-dama estadunidense Jill Biden em 2022 Embora nem o Supremo Tribunal da Guiné-Bissau (que foi invadido e estava sob intervenção militar desde janeiro de 2020, com os magistrados em exílio) nem o Parlamento tivessem dado a sua aprovação à cerimónia oficial de posse, Sissoco Embaló organizou uma cerimónia de posse alternativa num hotel em Bissau em 27 de fevereiro de 2020 para se proclamar presidente legítimo da Guiné-Bissau. Vários políticos na Guiné-Bissau, incluindo o primeiro-ministro Aristides Gomes, acusaram Sissoco Embaló de orquestrar um golpe de Estado, embora o presidente cessante José Mário Vaz tenha renunciado para permitir que Embaló assumisse o poder. Na sua campanha a presidência em 2019, Embaló afirmava que tinha a formação superior em relações internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP-UTL), com mestrado em ciências políticas e doutoramento em relações internacionais pela Instituto Complutense de Estudos Internacionais da Universidade Complutense de Madrid (UCM). Em março de 2020 veio a tona uma nota da Universidade de Lisboa (sucessora da UTL) desmentindo a alegação de que Embaló tenha recebido o diploma de graduação no curso superior de relações internacionais, com a instituição afirmando que frequentou aulas entre 1997-1998 e 2000-2001, mas nunca concluiu o curso. Cabe destacar que, em 2018, a UCM já tinha se retratado publicamente diante de um escândalo de venda de diplomas em massa, com o suposto processo pós-graduação de Embaló sendo colocado sob suspeição por ter ocorrido em tempo récorde na instituição. No mesmo período, suas graduações militares também passaram a ser questionadas.
Em 2020, sua presidência viu a retirada das tropas da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) estacionadas no país após o golpe de 2012 e tentativas de organizar visitas oficiais de chefes de governo estrangeiros, incluindo a primeira visita do governo português em três décadas, e organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional. Sua primeira visita oficial como chefe de Estado foi uma turnê por Senegal, Níger e Nigéria, em março de 2020. Após a visita ao Senegal, em outubro de 2020, denúncias na imprensa trouxeram ao conhecimento público um acordo sigiloso de exploração petrolífera exclusivo com o país vizinho, assinado secretamente à revelia do Parlamento e do Primeiro-Ministro Nuno Gomes Nabiam. Em novembro de 2025, foi divulgado que tal acordo era extremamente desfavorável à Guiné-Bissau, com a petrolífera estadunidense Chevron a ganhar dois blocos de extração petrolífera em águas territoriais do país, no qual a empresa fica com 90% de benefício, enquanto a nação fica com apenas 10%, com todo negócio sem nenhum tipo de referendo do Parlamento. miniatura|200px|esquerda|Embaló em encontro com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro em 2021 Em 2021, Embaló afirmou que seu estilo de governo e ideologia política é o do "Embaloísmo", que ele define como "ordem, disciplina e desenvolvimento", afirmando que "não existe Estado pequeno nem presidente pequeno" e comparando-se a Lee Kuan Yew e Rodrigo Duterte. Em função dessas declarações e de seus embates com o Parlamento Nacional, em especial por desrespeitar e tentar deslegitimar o resultado das eleições legislativas de 2019, que deram maioria ao PAIGC, em 2021 chegou a receber o apelido na imprensa brasileira de "Bolsonaro da África", dado que aquela altura já era criticado por seu autoritarismo. Porém, de forma mais enfática que outros apelidos a ele atribuídos, ressaltou a amizade com o então homólogo brasileiro Jair Bolsonaro, mas rechaçou o epíteto por considerar que "negacionismo da pandemia [do Covid-19] não tem lugar na Guiné-Bissau".
Uma suposta tentativa de golpe de Estado para depor Embaló foi realizada em 1 de fevereiro de 2022. Ele disse que "muitos membros" das forças de segurança foram mortos em um "ataque fracassado contra a democracia". Se escorando no suposto golpe de Estado, em maio de 2022 Embaló dissolveu o Parlamento da Guiné-Bissau, alegando "diferenças persistentes e irreconciliáveis" com o Parlamento, demonstrando ter as mesmas características autoritárias e confrontadoras de seu antecessor José Mário Vaz. Cabe destacar que o resultado das eleições legislativas na Guiné-Bissau em 2019, ganhas pelo PAIGC, foi, por diversas vezes, desrespeitado entre 2020 e 2022, com Embaló preferindo nomear primeiros-ministros de sua iniciativa, sem suporte parlamentar necessário.
Em 3 de julho de 2022 Embaló foi eleito presidente da CEDEAO, substituindo o presidente ganês Nana Akufo-Addo, que ocupava o cargo desde 2020. Manteve-se nesse cargo até 24 de fevereiro de 2024, sendo substituído pelo presidente nigeriano Bola Tinubu. Mesmo tendo presidido a CEDEAO, em março de 2025, quando a liderança da oposição protestou nos canais diplomáticos internacionais porque ainda não tinha sido determinada uma data para as próximas eleições, Embaló ordenou a expulsão de uma delegação da CEDEAO que deveria mediar uma solução política entre o governo e a oposição.
Em julho de 2023, ele participou da Cúpula Rússia-África de 2023 em São Petersburgo e se encontrou com o presidente russo Vladimir Putin. A 24 de outubro de 2023, foi agraciado com o grau de Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal.
miniatura|200px|esquerda|Embaló com o Presidente israelense Isaac Herzog em Jerusalém, Israel, em 3 de março de 2024 Em 4 de dezembro de 2023, após sofrer uma enorme derrota nas eleições legislativas daquele ano (outra vez ganhas pelo PAIGC e sua coligação), Embaló dissolveu o Parlamento, citando alegações de uma tentativa de golpe de estado. O Presidente do Parlamento e líder da oposição Domingos Simões Pereira acusou Embaló de levar a cabo um golpe constitucional. Sua articulação política entre 2021 e 2024 alienou, inclusive, a estrutrura partidária do partido Madem G-15, alijando adversários internos, com a agremiação estando sob seu estrito controle e adotando posturas mais próximas de um populismo de direita (chamado de "Embaloísmo") desde então.
Em 3 de março de 2024, Embaló visitou Jerusalém e expressou apoio a Israel no genocídio perpetrado contra os palestinos na Faixa de Gaza. Ele disse ao presidente israelense Isaac Herzog que "a Guiné-Bissau e seu povo estão ao seu lado e prontos para ajudá-lo de todas as maneiras possíveis".
Sob a presidência de Embaló, a Guiné-Bissau acolheu e mediou negociações entre o Movimento das Forças Democráticas de Casamansa (MFDC) — que é historicamente ligado ao nacionalismo bissau-guineense — e o governo senegalês, que levaram ao anúncio de um novo acordo de paz em Bissau em 25 de fevereiro de 2025 para pôr fim ao conflito de Casamansa.
Tentativa de reeleição e golpe de Estado