Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) é um movimento de ativismo político e social brasileiro. De inspiração marxista, teve origem na oposição ao modelo de reforma agrária imposto pela ditadura militar brasileira, principalmente nos anos de 1970, que priorizava a colonização de terras devolutas em regiões remotas, com objetivo de exportação de excedentes populacionais e integração estratégica. Contrariamente a este modelo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra busca fundamentalmente a redistribuição das terras improdutivas.

História O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra foi criado em 24 de janeiro de 1984 por trabalhadores rurais, defendendo que a expansão da fronteira agrícola, os megaprojetos — dos quais as barragens são o exemplo típico — e a mecanização da agricultura contribuíram para eliminar as pequenas e médias unidades de produção agrícola e concentrar a propriedade da terra. Paralelamente, o modelo de reforma agrária adotado pelo regime militar priorizava a "colonização" de terras devolutas em regiões remotas, tais como as áreas ao longo da rodovia Transamazônica, com objetivo de "exportar excedentes populacionais" e favorecer a integração do território, considerada estratégica. Esse modelo de colonização revelou-se, no entender do movimento, inadequado e eventualmente catastrófico para centenas de famílias, que acabaram abandonadas, isoladas em um ambiente inóspito, condenadas a cultivar terras que se revelaram impróprias ao uso agrícola.

Nessa época, intensificou-se o êxodo rural — abandono do campo por seus habitantes —, com a migração de mais de 30 milhões de camponeses para as cidades, atraídos pelo desenvolvimento urbano e industrial, durante o chamado "milagre brasileiro". Grande parte deles ficou desempregada ou subempregada, sobretudo no início dos anos 1980, quando a economia brasileira entrou em crise. Alguns tentaram resistir na cidade e outros se mobilizaram para voltar à terra. Desta tensão, movimentos locais e regionais se desenvolveram na luta pela terra. Em 1984, apoiados pela Comissão Pastoral da Terra, representantes dos movimentos sociais, sindicatos de trabalhadores rurais e outras organizações reuniram-se em Cascavel, Paraná, no 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, para fundar o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.Centro de Documentação e Memória da Unesp. Jornal Gazeta do Povo - edição comemorativa de n° 30.000 - acessado em 8 de dezembro de 2012 Apesar de os movimentos organizados pela reforma agrária no Brasil serem relativamente recentes, remontando apenas às ligas camponesas — associações de campesinato que existiam durante as décadas de 1950 e 1960 — o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra entende-se como herdeiro ideológico de todos os movimentos de base social camponesa ocorridos desde que os portugueses entraram no Brasil, quando a terra foi dividida em sesmarias por favor real, de acordo com o direito feudal português, o que excluiu em princípio grande parte da população do acesso direto à terra. Contrariamente a esse modelo concentrador da propriedade fundiária, o movimento declara buscar a redistribuição das terras. Desde o início do movimento em 1985 foram assassinados 1722 militantes, segundo a Comissão Pastoral da Terra.

A Reforma Agrária Popular, defendida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, trabalha novas relações sociais e de poder. Trata-se de um projeto popular de sociedade anticapitalista que articula a luta pelo direito à terra, o debate das questões ambientais, as sementes como patrimônio coletivo dos povos, a produção de alimentos saudáveis, a educação e a cultura na busca e defesa dos direitos sociais e condições de vida digna para todos.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra luta para construir um mundo sem exploração, injustiça e desrespeito. Isto traz a obrigação de enfrentar opressões presentes no campo, como a LGBTfobia. Assim, como fruto da auto-organização dos sujeitos sem terra, o movimento incorporou o fortalecimento da luta dos indivíduos LGBTIA+ assentados e acampados. O espaço interno de debate se transformou no coletivo LGBT Sem Terra, criado em 2015 para abarcar o debate sobre diversidade sexual e de gênero como uma das bandeiras de luta relacionadas ao projeto de Reforma Agrária Popular. Todas estas movimentações só se dão com a justificativa da exclusão histórica das pessoas LGBT do campo brasileiro, relações expressas por forças hegemônicas vinculadas ao patriarcado e ao capitalismo.MST. Caderno de Formação Nº 5: Diversidade Sexual no MST - Elementos para o debate, 2a Edição. São Paulo: Setor de Gênero, 2018. Sendo assim, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra reconhece a diversidade dos sujeitos que constroem a luta pela Reforma Agrária Popular, afirmando o respeito e sinalizando condições para a inserção de todos os indivíduos nas instâncias organizativas do movimento, nos assentamentos e acampamentos, na militância e nas ações que os fazem sujeitos dessa construção.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra atua na produção de alimentos e realiza a distribuição de produtos da reforma agrária para serem comercializados nas cidades. Foi reconhecido pelo Instituto Riograndense do Arroz (Irga) como o maior produtor de arroz orgânico do Brasil, além de liderar a produção de soja livre de transgênicos.

O movimento tem cerca de 450 mil famílias assentadas e 90 mil acampadas, organizadas em 24 estados.

Manifestações públicas e ocupação de terras thumb|esquerda|Manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra bloqueiam BR-367 em Eunápolis, Bahia, em abril de 2018, em protesto contra a prisão do ex-presidente Lula Em 2002, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra ocupou uma das fazendas do então presidente Fernando Henrique Cardoso, no estado de Minas Gerais, em um movimento que foi publicamente condenado por Lula, então opositor ao governo. Os danos incluíram a destruição de um trator de colheita e de mobiliário da fazenda. Além disso, todo o estoque da adega foi furtado. 16 líderes do movimento foram julgados por violação de domicílio, furto e cárcere privado.

Em julho de 2003, o recentemente empossado Presidente Lula declarou, a propósito das ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, que "se os objetivos são justos, os métodos usados estão equivocados e há uma radicalização desnecessária". Em 17 de junho de 2005, após uma discussão sobre o que o Presidente considerava uma "radicalização desnecessária", o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra fez a sua Marcha Nacional pela Reforma Agrária, em direção a Brasília.. Carta Maior, 2 de maio de 2005

Em abril de 2006, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra ocupou uma fazenda da Suzano Papel e Celulose, no estado da Bahia, devido a fazenda ter seis quilômetros quadrados de plantações de eucaliptos, que é também um tipo de árvore não nativa e sua espécie havia sido culpada por desabilitar as terras em que são plantadas, quando em pequena escala. Em 2011, a revista Veja descreveu que atividades como roubo de madeira de eucaliptos, deu informação de uma fonte militar de que 3 000 pessoas ganhavam a vida no sul da Bahia por esse tipo de práticas.

Ocupação de terras griladas O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, também condenou os atos de vandalismo ocorridos na fazenda da Cutrale. Em 2009, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra ocuparam a fazenda de uma transnacional em Santo Henrique, em Borebi, próximo a Iaras, interior de São Paulo, grilada pela Cutrale.. Por Rodrigo Vizeu. Folha de S. Paulo, 10 de outubro de 2009 Derrubaram mais de 7000 laranjeiras. A mídia noticiou a destruição de 28 tratores, a sabotagem do sistema de irrigação e a depredação da sede da fazenda, o que, entretanto, não foi provado. A justiça brasileira, sem tomar conhecimento de que aquelas terras pertenciam à União, ordenou a pronta desocupação do terreno, e entidades como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) apressaram-se em condenar o ocorrido; a ação foi amplamente criticada pela mídia. O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de São Paulo disse que "a sociedade paulista deve ficar ainda mais atenta aos desdobramentos dessas ações, porque elas comprometem a própria existência da democracia".

A Direção Nacional do MST, em nota publicada, em 9 de outubro, admitiu a ocupação de fazendas que, segundo afirma, têm origem na grilagem de terras públicas, tais como as da Cutrale - empresa que controla 30% da produção mundial de suco de laranja. Desde 2006, a Justiça analisa os títulos de propriedade da Cutrale, visando verificar se as terras são realmente públicas, como sustenta o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. A nota afirma, ainda, que "não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale", e que tais "desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento" têm acontecido por infiltração elementos estranhos ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, adversários da reforma agrária. A Polícia Civil abriu inquérito. Segundo o delegado Jader Biazon, seriam apurados os crimes de formação de bando ou quadrilha, esbulho possessório, dano e furto qualificado.

Manifesto contra a política econômica e a política externa O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra apoiou em 2017 uma marcha contra o fascismo em favor da paz na Venezuela.

Vigília miniaturadaimagem|Participação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra em favor da candidatura de Lula em 2018 O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra participou da organização da Vigília Lula Livre, durante o período em que o ex-presidente Lula ficou preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019.

Em 8 de março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou o ex-juiz Sérgio Moro suspeito e anulou todas as condenações contra o ex-presidente em relação à operação Lava Jato, restituindo seus direitos políticos.

Crise sanitária O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra participou de manifestações pedindo o impeachment de Jair Bolsonaro ao longo dos anos de 2020 e 2021, diante da crise sanitária provocada pela pandemia de COVID-19 no Brasil, o atraso na vacinação, a fome, a inflação e o desemprego. A proteção dos povos indígenas, o combate ao racismo e a política ambiental também foram objeto de manifestações.

Relações com os poderes públicos Em 2009, o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, criticou os repasses de recursos orçamentários que venham a beneficiar o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, dizendo ser ilegal o financiamento público de movimentos sociais que promovam a ocupação de terras.. Tribuna do Norte, 26 de fevereiro de 2009. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), mais de 3 milhões de reais do orçamento da educação destinados ao programa Brasil Alfabetizado foram distribuídos a secretarias regionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.

Uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) foi instaurada em 2009 para investigar a realização de repasses de recursos públicos a entidades supostamente ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. A conclusão do relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito é que não foram constatados desvios de verba pública pelas entidades investigadas.

Resultados obtidos thumb|250px|Encerramento do 5º Congresso do MST em Brasília em 2007. Foto: Agência Brasil A mais conhecida forma de atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, segundo ele próprio, são as ocupações de terra. Áreas, públicas ou privadas, que não estejam cumprindo com sua função social, são reivindicadas para fins de reforma agrária. Outras formas de luta seriam marchas, atos políticos, ocupações de prédios públicos, trancamento de rodovias, entre outros.