Campeonato Nacional de Clubes foi o nome oficial utilizado pela CBD (precursora da atual CBF) para designar, em sua época de disputa, os campeonatos nacionais realizados entre 1971 e 1974, quando passou a ser denominado oficialmente de Copa Brasil. Antes de 1971, o Campeonato Brasileiro de Futebol era denominado pela entidade máxima do futebol brasileiro de Taça de Prata.

História

Antecedentes A primeira competição nacional oficial entre clubes de futebol que dava ao seu vencedor o título de campeão brasileiro foi a Taça Brasil (já na época de sua disputa, o vencedor da Taça Brasil era considerado o campeão brasileiro). Apesar do certame ter sido instituído em 1954 pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF), com a finalidade de apontar o clube campeão brasileiro da temporada e, de ter seu regulamento definido no ano seguinte, a primeira edição da competição não pôde ocorrer em 1955, como o planejado, devido o calendário do futebol brasileiro de 1955 a 1958 já está aprovado e não podendo sofrer alterações por causa da Copa do Mundo de 1958. Sendo assim, ficou definido naquela época para a Taça Brasil começar somente em 1959. Porém, como na época ainda havia limitação de data, restrições econômicas e dificuldades para viagens e transporte interestaduais em um país com dimensões continentais, a competição foi montada do modo mais econômico possível. Sendo assim, participavam apenas os campeões estaduais — obviamente, um clube por Estado, exceto em algumas edições, quando foi permitida a participação de um segundo clube —, que se enfrentavam em um grande sistema eliminatório. Mesmo com esse certame nacional, o futebol brasileiro necessitava de um campeonato que integrasse as maiores equipes do País e fosse lucrativo e atrativo aos clubes participante e aos torcedores. Como em 1967 o Brasil já se encontrava um pouco mais estruturado, tendo meios de transporte melhores, foi possível ousar em um formato de competição nacional com mais jogos.

A CBD decidiu pôr em prática planos mais ousados de integração para o futebol brasileiro, devido à conquista do primeiro título nacional do Cruzeiro, a Taça Brasil de 1966, que se tornou um marco por ter mudado o eixo do futebol brasileiro que até então era dominado por equipes paulistas e cariocas. Esta conquista do clube mineiro foi tão importante assim por ser o divisor de águas na história do futebol nacional, uma vez que até à data ainda acreditava-se que só existia futebol de alto nível, apesar das boas exibições do Bahia, no eixo Rio-São Paulo. No entanto, o Cruzeiro apresentou uma equipe jovem de excelente qualidade, chamando a atensão para potenciais atletas de outros Estados, minimizando a hegemonia do eixo Rio-São Paulo. E, também, devido ao fiasco da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Com isso, em 1967, o Torneio Rio-São Paulo (cujo nome oficial, a partir de 1954, era Torneio Roberto Gomes Pedrosa) certame até então regional, foi ampliado para a participação de clubes de outros estados e passando a ser conhecido por seu nome oficial e, a partir de sua segunda edição, em 1968, a CBD passou a denominá-lo oficialmente de Taça de Prata. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, diferentemente da Taça Brasil, era uma competição de âmbito nacional com um modelo que visava a incluir a maioria dos grandes clubes dos principais centros do país.

O "Robertão", como o campeonato ficou conhecido popularmente, foi a primeira competição a englobar os principais times do país e, também, devido ao seu modelo de disputa, o Robertão teve seu sucesso garantido, agradando instantaneamente aos clubes participantes, dirigentes e torcedores — a média de público por jogo foi de mais de vinte mil pessoas —, tornando-se o primeiro torneio nacional a conseguir atingir uma fórmula vencedora e lucrativa para suas equipes participantes, que de certa forma, na opinião do jornalista, historiador e escritor Odir Cunha, representou uma evolução da Taça Brasil. Para alguns autores o Torneio Roberto Gomes Pedrosa era tudo que uma competição moderna de futebol precisa ter: poucos e poderosos participantes, os melhores jogadores do Brasil — e do mundo —, ótima média de público, jogos de alto nível, credibilidade e excelente cobertura da mídia.

Entretanto, devido a grande popularidade do futebol no Brasil, o governo militar enxergou uma excelente oportunidade para promover o ufanismo e a imagem de integração nacional, passando a intervir regularmente no esporte. Colocando, na prática, o futebol no ambicioso Plano de Integração Nacional (PIN). Com a elite política (desde governadores a vereadores, passando por prefeitos e deputados interessados em ver suas cidades representadas no certame nacional) convencida dos benefícios e dos dividendos eleitorais da instrumentalização da maior paixão nacional, o futebol. No entanto, não somente os políticos tinham interesse no campeonato nacional, pois diversos outros agentes sociais perceberam que poderiam se beneficiar da competição.

Como a revista Placar, que desde sua criação adotou uma postura crítica em relação à administração do futebol nacional e considerava o modelo administrativo usado pelos dirigentes ultrapassado, defendia a organização de um campeonato que reunisse as principais agremiações do Brasil e que fosse totalmente integrado. Em consequência natural destas reivindicações, apareceria as propostas de criação de um Campeonato Nacional de clubes. Os primeiros argumentos utilizados seriam aqueles ligados à ampliação do mercado dos clubes dentro do País e a maior facilidade para a elaboração de um calendário racional. Uma visão evolucionista dá o tom das argumentações, como se um campeonato de proporções nacionais fosse um estágio obrigatório para o desenvolvimento do futebol brasileiro, mesmo sabendo-se que isso poderia acarretar na falência das pequenas agremiações. Com uma chamada de capa que dizia: "Senhores Dirigentes, Eis o Campeonato Nacional", os jornalistas da revista apresentam a alguns dirigentes, exceto aqueles ligados à Confederação Brasileira de Desportos que não aceitaram dialogar com a reportagem, um calendário ideal, com férias, espaço para as excursões ao exterior e uma tabela racional, aonde os clubes fariam deslocamentos de uma maneira a reduzir os custos com passagens aéreas, deixando a competição viável economicamente. Até mesmo como seria a participação da televisão no orçamento dos clubes era ponto de debate pela Placar.

As reações dos dirigentes às propostas feitas pela revista foram interessantes. O supervisor do Fluminense, Almir de Almeida, ressalta as dimensões territoriais do Brasil como o velho obstáculo para a criação desta competição proposta, argumentando que as longas viagens e climas díspares iriam impactar na preparação das equipes; entretanto, ressalta os ganhos técnicos com a total integração do futebol brasileiro. Mais enfático, o presidente do Atlético Mineiro diz que é responsabilidade da CBD realizar o torneio, uma vez que "o Robertão já está superado", pois seria uma competição dos clubes da preferência de João Havelange, e um país tricampeão mundial deveria organizar um campeonato à altura. Já Felício Brandi, presidente do Cruzeiro, afirmava que sua equipe iria lutar pelo Campeonato Nacional. Por outro lado, ainda em Minas Gerais, surgem os primeiros descontentes com a proposta. João Frota, diretor do Flamengo de Varginha, afirmava que seria o fim das pequenas agremiações. No Sul, os dirigentes do Grêmio e do Internacional estavam juntos na oposição ao campeonato nas bases propostas pela revista. Na Bahia, os dirigentes do Vitória eram favoráveis, enquanto os do Bahia achavam que o Robertão era o campeonato ideal, não necessitando ser reformulado.

Uma parte da imprensa aproveitou a postura crítica da Placar para também marcar posição perante a situação do futebol nacional. Jornalistas da Folha de S.Paulo, como Aroldo Chiorino, reivindicavam para este meio o pioneirismo da modernização do futebol do País, uma vez que ainda nos anos 1950 a Folha organizara um congresso cujo tema era a redefinição dos rumos do esporte nacional. Em 10 de outubro de 1970, com a matéria "As derrotas de um futebol sem estrutura", a Folha endossava as críticas da Placar, criticando duramente os dirigentes encarados como aberrações e incompatíveis com a dinâmica do futebol, que boicotavam qualquer tentativa de organização. A começar pela CBD, passando pelos presidentes de federações e chegando até aos dirigentes de clubes, seriam figuras vaidosas, que colocavam interesses políticos e pessoais à frente do futebol, que pagaria um preço alto por isso.

Os efeitos da série veiculada pela Placar acabou chegando também a Brasília. No dia 24 de setembro de 1970, o ministro da Educação e Cultura Jarbas Passarinho, apresentava uma série de sugestões de reformas na estrutura do esporte brasileiro ao Conselho Nacional de Desportos (CND). Muitas destas propostas solicitadas pelo político da ARENA constavam nas linhas da revista desde a sua criação. Diante da pressão, a CBD prometeu um novo calendário para 1971.

Porém, antes do início do novo torneio nacional, ocorre a última edição do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que é considerado por muitos como o embrião do Campeonato Nacional de Clubes, a primeira rodada de jogos desta edição do Robertão foi celebrada no dia 6 de setembro de 1970, com o objetivo de conhecer a melhor equipe de futebol do Brasil do "ano do tricampeonato da Seleção". Justamente por isso, é considerado por alguns autores como o mais difícil dentre os certames nacionais já realizados. Como é afirmado por Roberto Sander, em seu livro "Taça de Prata de 1970 — O Campeonato Brasileiro mais difícil de todos os tempos". O regulamento e o número de participantes (dezessete equipes) eram os mesmos das duas edições anteriores. As mudanças diziam respeito apenas aos participantes, uma vez que a Portuguesa foi substituída pela Ponte Preta, que destacou-se no Campeonato Paulista daquele ano e conseguiu sua inclusão junto à CBD e, no Paraná, o Atlético Paranaense entrou no lugar do Coritiba. Para a Placar, os jogos desinteressantes dos campeonatos estaduais ficariam para trás com o início da Taça de Prata — nome pelo qual o torneio ficou conhecido naquele ano. José Maria de Aquino em sua coluna na revista, afirmava que a competição seria o "caminho mais certo a ser percorrido quando se quiser salvar o eterno déficit financeiro" do futebol tricampeão do mundo. Enquanto o Jornal do Brasil tratava o Robertão como o mais importante campeonato do futebol brasileiro, lamentando o fato de nenhum clube carioca ainda ter conquistado a taça, a cobertura da Placar era panfletária.

Anunciado como o melhor de todos os tempos, a Robertão de 1970 reuniria os vinte melhores clubes do país. Contestações aos critérios utilizados pela CBD para a inclusão das equipes, a ausência de tempo adequado para a preparação dos clubes para o torneio ou mesmo a tabela da competição, eram recorrentes. No entanto, a julgar pela primeira rodada após o início do torneio, a grande quantidade de clássicos conseguiu ofuscar os problemas existentes. Juntamente com a primeira partida, foi criada a Bola de Prata, acompanhada pelo ranking Placar. O objetivo era aproximar o futebol do Brasil dos grandes eventos que aconteciam mundo a fora, com direito a uma premiação semelhante ao Oscar ou mesmo à Chuteira de Ouro europeia.

O inédito título nacional de um clube do Rio de Janeiro acontece justamente na quarta e última edição do Robertão. A Placar do dia 25 de dezembro de 1970, trazia uma ampla cobertura das finais do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata e estampou em sua capa a manchete "O Flu é o campeão do Brasil! Acabou o Torneio da Bola de Prata". Na coluna de Hedyl Valle Júnior, foi feito um balanço da competição, ressaltando que a Taça de Prata não foi mal, mas poderia ter sido melhor.