O Cineteatro Éden é um edifício situado na Praça dos Restauradores, em Lisboa, Portugal. Desenhado pelo arquiteto Cassiano Branco e assinado por Carlos Florêncio Dias, é um dos mais conhecidos marcos da arquitectura de estilo art déco em Portugal.

História

Antecedentes

Garage Beauvalet miniaturadaimagem|461x461px|Artigo da revista Ilustração Portugueza, no. 101, sobre a grande abertura da loja de automóveis de Albert Beauvalet na Praça dos Restauradores, em Lisboa (27 de janeiro de 1908) Em 1899, Ferdinand "Fernando" Baerlein, industrial alemão que dirigia a Empreza Industrial Portugueza criada por Henrique Burnay, convidou o engenheiro francês Albert Beauvalet para dirigir a concepção e produção de um automóvel de fabrico nacional. Após a construção de um modelo, sendo infrutíferas as suas tentativas de rentabilizar a produção em massa do automóvel criado, devido à falta de maquinaria e mão de obra qualificada, em 1902, o engenheiro francês, que passou a residir no país, decidiu criar o seu próprio empreendimento e alugou na Praça dos Restauradores as antigas cocheiras do Palácio da Foz, conhecidas por serem à época cobertas por uma imponente infraestrutura de ferro e vidro e por terem sido o palco do extinto "Grande Museu Universal Artístico Histórico e Olepático" ou ainda da "Grandiosa Galeria Universal Parisiense", passando estas a albergar no rés-do-chão a loja "Agence Général d'Automobiles", conhecida como "Garage Beauvalet", e o primeiro music hall de Lisboa, embora de forma improvisada.

Quatro anos mais tarde, Albert Beauvalet mandou fazer grandes obras no espaço comercial destinado apenas à venda e reparação de automóveis importados, tornando-se no principal representante da marca Peugeot em Portugal. Intitulada "Albert Beauvalet & Cª", a inauguração da nova loja contou com a presença do rei D. Carlos e de Armand Peugeot, fundador da marca francesa de automóveis.

Recreios Music-Hall Em 1909, Albert Beauvalet transferiu o seu stand de automóveis para uma das lojas do Hotel Avenida Palace, sendo no seu lugar e no resto do renovado edifício instalada a casa de espectáculos e divertimento "Recreios Music-Hall", gerida por António dos Santos Júnior, empresário do Real Coliseu de Lisboa e responsável pela primeira sessão animatográfica em Portugal.

Éden Teatro

Aproveitando as obras realizadas no antigo edifício das cocheiras pelos seus arrendatários ao longo dos anos, em 1913, o seu proprietário, José Rodrigues de Sucena, 2º Conde de Sucena, pediu ao dramaturgo e empresário teatral Luís Galhardo e ao cenógrafo e decorador Augusto Pina para que, juntamente com o arquitecto Guilherme Edmundo Gomes, criassem uma sala de espectáculos mais imponente e ampla do que o conhecido "Teatro Variedades", situado no Parque Mayer.

Realizadas as novas obras do "Éden Teatro", a sala de espetáculos, situada no primeiro andar, com plateia, balcão e capacidade para mais de 2000 espectadores, foi inaugurada a 25 de setembro de 1914, abrindo ao público com a opereta "O Burro do Sr. Alcaide", da autoria de Gervásio Lobato e D. João da Câmara, e interpretações de José Ricardo, Palmira Bastos e Joaquim Costa.miniaturadaimagem|285x285px|Panfleto publicitário com a programação do Éden Teatro (1919)|esquerdaPossuindo um terraço, um café concerto, um restaurante e vários salões para a realização de diversos eventos, assim como várias montras de lojas no piso térreo abertas para a Praça de Restauradores, o teatro rapidamente tornou-se num dos mais conhecidos e aclamados espaços culturais lisboetas, sendo o palco de vários sucessos musicais, teatrais e até estreias cinematográficas, tais como as revistas "No País do Tirismo", "Dominó!" (1915), "Às de Oiros" (1917), "Negócio da China" (1920), "Céu Aberto" (1924), "Cozido à Portuguesa" (1927) e "Tic-Tac" (1921), com os atores Carlos Leal, Alberto Ghira e Álvaro de Almeida, as peças "A Pêra de Satanás" (1924) de Eduardo Garrido e "O Rei dos Judeus" (1927) dos dramaturgos João da Silva Tavares e Fernando Carvalho Mourão, os filmes "Tourada de Gala" (1918), produzido pela Lusitânia Film, companhia cinematográfica rival da Invicta Film, "Vida Nova" (1919) de Nascimento Fernandes e "O Pesadelo de António Maria" (1923) de Joaquim Guerreiro, ou ainda o concerto de pianola da cantora soprano Emília Rodrigues e do violoncelista João Passos (1915), entre muitos outros eventos.

Cineteatro Éden

Primeiro projecto Em 1928, uma vistoria da Inspecção Geral dos Teatros detectou várias anomalias e infracções perigosas no Éden Teatro, obrigando o seu proprietário a fechar o espaço até essas questões de segurança estarem resolvidas. Assim sendo, em 1929, Cassiano Branco foi então chamado a realizar alguns desenhos para a renovação do teatro existente, que consistia na introdução de pavimentos em betão nos 1.º e 2.º piso, na reformulação da fachada, imprimindo um novo estilo de arte decorativa, denominado de art déco, e ainda na alteração da localização da entrada, o que provocava uma certa perturbação na leitura geral do edifício. miniaturadaimagem|306x306px|Desenho da primeira proposta de Cassiano Branco para a remodelação do Cineteatro Éden (1930) As grandes alterações deram-se com o primeiro estudo de ampliação do edifício, proposta que viria a ser realizada um ano depois, em 1930, sendo demolido o edifício anterior e estabelecido uma ruptura de escala, pelo aumento do volume de construção e introdução de um novo desenho de fachada, mantendo contudo toda a estrutura e as lojas do piso térreo. Esta alteração pressupunha a ideia de construção de um grande contentor que no interior abria a possibilidade de recriação, a par com o teatro, do novo mundo cinematográfico.

Contemplando o seu novo papel como sala de cinema, na proposta apresentada existiam contudo vários problemas de logística e praticabilidade, tais como o dimensionamento das entradas e saídas para o elevado número de pessoas que poderia comportar uma sessão ou o posicionamento do local da bilheteira, que deveria ser efectuada no átrio de entrada, mas devido à necessidade inicial de manter os estabelecimentos do rés-do-chão e à falta de cooperação dos seus proprietários em ceder parte do seu espaço comercial, este acesso teria de ser realizado por um sistema de escadas de grande complexidade, dificultando consequentemente a tarefa de criar no átrio de ingresso, com duplo pé-direito, volume suficiente para uma entrada monumental, como se desejava.

Segundo projecto O segundo estudo de ampliação produzido por Cassiano Branco, em 1931, tornou-se no mais arrojado, tendo o arquitecto proposto algo mais abstracto, sintonizado com a problemática da luz e do vidro tal como debatiam, à época, os expressionistas alemães. miniaturadaimagem|306x306px|Desenho da segunda proposta de Cassiano Branco para o Cineteatro Éden (1931) Composto por uma arquitectura de sólidos puros e cilindros de luz que intersectavam uma superfície plana, coroada nas extremidades por altas lanternas, a nova proposta acentuava ainda mais o aumento da cércea. Os desenhos de Cassiano Branco revelavam assim o espírito do movimento gerado pelas novas salas de espectáculo, em particular as de cinema, tentando acompanhar a imponência que muitas possuíam em várias cidades europeias e norte-americanas. Encontrando-se o cineteatro numa das áreas mais centrais e modernas de Lisboa, a ideia de uma capital portuguesa em sintonia com os tempos modernos era algo intrínseco no seu projecto. A fachada dinâmica e peculiar, não evidenciava no entanto que o edifício se destinaria a um cinema, não existindo por exemplo painéis de divulgação das películas em exibição, os quais apenas mais tarde foram equacionados, já sem a participação de Cassiano Branco. Nesta fase do processo, o ingresso principal diluía-se numa faixa quase contínua de montras, rematada por um friso saliente, com espessura acentuada e revestida a pedra.

Projecto final Em 1933 o projeto final foi finalmente entregue na Câmara Municipal de Lisboa. Contudo, devido a divergências criativas com o proprietário do espaço, Cassiano Branco desvinculou-se do processo, deixando o seu termino nas mãos do arquitecto Carlos Florêncio Dias, que o assinou, após ter trabalhado em conjunto com o arquitecto Francisco Cunha, os engenheiros Tavares Cardoso, Mariano Fernandes, Venceslau Casais, o escultor Leopoldo de Almeida, o pintor Pedro Martins e o chefe de electricista Florentino Martins. Conservando alguma relação com as propostas anteriores, o edifício foi mantido na escala desejada, os espaços comerciais encontravam-se ao nível do piso térreo, as lanternas laterais pontuavam o edifício, o corpo de janelas permanecia acima do piso de entrada e ainda existia uma vaga memória dos pujantes cilindros de luz que compunham a fachada desenhada por Cassiano Branco. A sua solução para a funcionalidade interna do espaço foi apesar de tudo mantida na generalidade, nomeadamente através dos vários acessos para a sala de espectáculos.Pinto, P. T. (2015). Cassiano Branco (1897-1970). Casal de Cambra, Portugal: Caleidoscópio, p. 119. Cassiano Branco, o arquiteto nunca reivindicou a sua autoria, embora esta evidência seja unânime entre os estudiosos da sua obra.

Construção miniaturadaimagem|306x306px|Fotografia do Cineteatro Eden durante a sua construção (1935) Sendo demolido o antigo edifício do Éden Teatro em 1930, a construção, que contava com 400 trabalhadores, durou vários anos, tendo tido períodos sem qualquer intervenção e outros de grande azáfama, sendo realizadas várias alterações no projecto até 1937, ano em que se completou a obra.

Contemplando as novas normas de segurança, foi-lhes imposto realizar um reforço de alvenaria na muralha adjacente aos terrenos da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses e a construção de paredes duplas no seu interior, criando assim acesso para as escadas dos bombeiros, tendo o cineteatro saído beneficiado, nomeadamente na acústica, deixando de se ouvir as locomotivas enquanto passavam ou qualquer outro som proveniente do exterior. miniaturadaimagem|306x306px|Fotografia do Cineteatro Eden durante a sua construção (1935) No seu interior, do piso de entrada partiam cinco escadas, uma central, geminada, que se desdobrava quando chegava à fachada norte, e quatro laterais, duas a sul e duas a norte. A primeira era de acesso directo ao primeiro balcão, com 244 lugares, e aos camarotes, e as duas do lado sul de acesso à plateia, com 814 lugares, através do grande bar do andar intermédio, que foi imposto pela necessidade de se criar um sub-palco, um foyer e ainda várias salas de administração, existindo paralelamente o escritório do conde de Sucena que, segundo o arquitecto Frederico Valsassina, responsável pela sua remodelação nos anos 90, possuía um armário que se abria para uma casa-de-banho privada e para os camarins das coristas, perpetuando os mitos de corredores e paredes secretas, tal como na história "O Fantasma da Ópera". O balcão geral, com 454 lugares, era servido por duas escadas de dois metros de largura, que se desenvolviam dentro de dois corpos cilíndricos nos extremos da fachada norte, existindo ainda nesse mesmo espaço dois elevadores com acesso a todos os pisos. As entradas de serviço eram então criadas nos extremos da fachada da Praça dos Restauradores e no fundo da passagem da Rua do Anuário Comercial, sendo a fachada lateral feita em pedra tratada com despojamento, sem ornamento, mas com um carácter modernista, de grande verticalidade, enquadrando-se no conjunto, como reminiscência do último desenho de Cassiano Branco. As várias circulações, colocadas nas margens da planta, permitiam assim ganhar o máximo de espaço possível para a sala de espectáculos com plateia, três balcões e um palco.Pinto, P. T. (2015). Cassiano Branco (1897-1970). Casal de Cambra, Portugal: Caleidoscópio, p. 121. miniaturadaimagem|306x306px|Sala de espectáculos do Cineteatro Éden (1937)