right|thumb|280px|O ex-senador e ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, gravou conversas comprometedoras com os líderes do PMDB.
A crise dos vazamentos de maio de 2016 consistiu em uma série de vazamentos de trechos e áudios de conversas particulares que foram divulgados pelos portais Folha de S.Paulo, UOL e TV Globo entre os dias 23 e 27 de maio de 2016. A maior parte dos documentos fazia parte da delação premiada do ex-senador Sérgio Machado (PMDB-CE), ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras. Gravadas pelo próprio Machado de forma oculta, as conversas revelaram principalmente o medo da classe política em relação à Operação Lava Jato e as tentativas de conter o avanço das investigações através de uma mudança de governo, materializada no impeachment de Dilma Rousseff. As gravações eram diálogos entre o ex-senador e lideranças do PMDB, como Romero Jucá (PMDB-RR), então ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer; Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado; e José Sarney (PMDB-AP), ex-presidente da República.
As gravações provocaram dias de tensão no governo federal e troca de acusações no mundo político, desdobrando-se inclusive na queda de ministros. As conversas gravadas continham citações, suspeitas e acusações que atingiram figuras públicas de diversos poderes, campos e partidos políticos, tais como empresários, deputados, senadores, ex-presidentes da República. Passados apenas onze dias desde o afastamento de Dilma Rousseff, os vazamentos foram o primeiro grande escândalo político da gestão interina de Michel Temer.
Em 25 de maio de 2016, em meio aos vazamentos, o ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato no STF, homologou o acordo de delação premiada de Sérgio Machado.
Antecedentes
Delação de Sérgio Machado Em novembro de 2014, depois de quase 12 anos no comando da Transpetro, subsidiária da Petrobras, Sérgio Machado pediu licença do cargo após ter o seu nome envolvido no escândalo de corrupção da petroleira, investigado pela Operação Lava Jato. A investigação chegou ao seu nome depois que o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, relatou ter recebido 500 mil reais de Machado. Além de Costa, outros delatores como Alberto Youssef, Fernando Baiano, Ricardo Pessoa e Nestor Cerveró apontaram o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), como destinatário de propina desviada da subsidiária. Três meses depois de sua licença, Machado pediu renúncia.
Em novembro de 2015, Sérgio Machado revelou à Polícia Federal que a sua indicação para a presidência da Transpetro havia sido patrocinada pelo PMDB. Segundo Paulo Roberto Costa, o presidente do Senado só teria mantido Machado no cargo por tanto tempo porque a subsidiária da Petrobras teria contratos com valores "canalizados" para o esquema. Segundo investigadores, Machado é uma peça importante para se avançar sobre o possível envolvimento da alta cúpula do PMDB com os desvios da petroleira. Renan Calheiros negou que tivesse relação com o esquema e sempre disse que as suas relações com dirigentes de empresas públicas "nunca ultrapassaram os limites institucionais".
Durante meses Sérgio Machado tentou obter um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, revelando detalhes do esquema de corrupção em troca de benefícios legais. Inicialmente, enfrentou resistência pelo pouco material oferecido. Em março de 2016, Machado gravou conversas suas com peemedebistas para conseguir o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, que semanas depois seriam vazadas e divulgadas pela imprensa.
Machado confessou que repassou propina para mais de vinte políticos de vários partidos por meio de doações eleitorais oficiais para os seguintes parlamentares e ex-parlamentares: Cândido Vaccarezza (PDT-SP), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Luis Sérgio (PT-RJ), Edson Santos (PT-RJ), Francisco Dornelles (PP-RJ), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Ideli Salvatti (PT-SC), Jorge Bittar (PT-RJ), Garibaldi Alves (PMDB-RN), Valter Alves (PMDB-RN), José Agripino Maia (DEM-RN), Felipe Maia (DEM-RN), Sergio Guerra (PSDB-PE, morto em 2014), Heráclito Fortes (PSB-PI) e Valdir Raupp (PMDB-RO).
Sérgio Machado também detalhou aos investigadores da Lava Jato que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) recebeu 1 milhão de reais em recursos ilícitos e em dinheiro para a campanha eleitoral que o elegeu deputado federal em 1998 e para "eleger a maior bancada federal possível na Câmara", a fim de viabilizar apoio à candidatura de Neves à presidência da Câmara dos Deputados.
Também afirmou que o então vice-presidente Michel Temer lhe pediu pessoalmente em 2012, durante um encontro na base Aérea de Brasília, dinheiro ilícito para a campanha de seu aliado Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo naquela eleição. Machado, então, o informou que conseguiria 1,5 milhão de reais da Queiroz Galvão. Temer, nega ter pedido dinheiro.
Cronologia
Primeiro vazamento (23 de maio) miniaturadaimagem|150px|O senador Romero Jucá. Na madrugada de 23 de maio de 2016, o jornal Folha de S.Paulo divulgou o que seriam trechos de conversas de Sérgio Machado com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). Quando divulgados, Jucá havia, há pouco mais de 10 dias, sido empossado ministro do governo interino de Michel Temer. As conversas, que somam 1h15min, estavam em poder da Procuradoria-Geral da República e ocorreram semanas antes da votação na Câmara dos Deputados que desencadeou o processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Tentativa de deter a Lava Jato Sem saber que estava sendo gravado, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) sugeriu que fosse realizada uma mudança de governo em um pacto para "estancar a sangria" representada pela Operação Lava Jato, que investigava ambos os interlocutores. Devido à repercussão de sua declaração, Jucá justificou que o termo "estancar a sangria" se referia, na verdade, à situação econômica brasileira. Contudo, a Folha de S.Paulo divulgou horas depois a gravação completo da conversa, desmentindo o então ministro. O primeiro diálogo começa quando Sérgio Machado lamenta o risco de as delações se tornarem mais frequentes a partir da decisão do STF de admitir prisão após condenação em segunda instância. Para ele, essa mudança de entendimento do Supremo provocaria um efeito em cascata e o aumento das delações. Na sequência, Machado pediu que fosse montada "uma estrutura" para impedir que as apurações contra ele fossem enviadas de Brasília, onde tramitam no STF, para a vara do juiz Sergio Moro, em Curitiba. Nesse contexto, de impedir que a Lava Jato conseguisse uma confissão de Sérgio Machado, é que Jucá sugeriu "estancar a sangria". Após ser desmentido, Jucá anunciou que deixaria o governo.
Participação do PSDB Em outro momento da conversa, Machado e Jucá comentam que o PSDB teria se dado conta de que são os próximos alvos da Lava Jato. Diz-se que os senadores Aloysio Nunes (PSDB-SP), José Serra (PSDB-SP), Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Aécio Neves (PSDB-MG) estariam convencidos disso e que Aécio seria o primeiro. Em seguida, Machado admite ter contribuído junto com Jucá para a votação que levou Aécio Neves à presidência da Câmara dos Deputados em 2001, mas não informa como e em que termos essa contribuição se deu. Ao comentarem as pesquisas de intenção de voto, Machado e Jucá lamentam que Aécio Neves não tenha condição de ganhar nenhuma eleição. Em seguida, admitem terem participado de um "esquema" do tucano para a sua campanha presidencial de 2014.
Envolvimento do STF Jucá diz na conversa que um eventual governo Michel Temer deveria construir um pacto nacional "com o Supremo, com tudo". Machado concorda que "aí parava tudo". "É. Delimitava onde está, pronto", respondeu Jucá, a respeito das investigações. O senador relatou ainda que havia mantido conversas com ministros do STF, os quais não nominou. Segundo Jucá, eles teriam relacionado a saída de Dilma ao fim das pressões da imprensa e de "outros setores" pela continuidade das investigações da Lava Jato. Jucá afirmou que há "poucos caras ali [no STF]" aos quais ele não tem acesso e um deles seria o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no tribunal, a quem classificou como "um cara fechado".
Processo de impeachment Em vários momentos da conversa, Machado e Jucá, que acabou se tornando um dos articuladores do impeachment de Dilma Rousseff, sugerem instrumentalizar o processo para atender a seus interesses. Após Jucá sugerir um pacto para "estancar a sangria" da Lava Jato, Machado diz que "tem que ser uma coisa política e rápida". Em outro momento, Machado lamenta que não tem como "arranjar uma imunidade", que "a solução institucional demora um tempo" e que "a mais fácil era botar o Michel", referindo-se ao então vice-presidente Michel Temer.
O vazamento também revelou citações que geraram polêmica nas redes sociais, como a de que "generais e comandantes militares" estariam monitorando movimentos sociais como o MST para "garantir" a queda de Dilma Rousseff. Em outro momento, Machado e Jucá analisam que Lula, embora não consiga mais dialogar com setores empresariais, acordou a militância do PT e que por isso "tem que ter o impeachment, não tem saída".
Críticas a pessoas e instituições Machado também criticou a postura do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), por odiar o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pois o presidente do Senado não teria compreendido que ele e Michel Temer são a sua "saída", pois Renan se tornaria o próximo alvo assim que Cunha fosse cassado. "Quanto mais sobrevida tiver o Eduardo, melhor pra ele [Renan]." "Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem", acrescentou Jucá.
Machado e Jucá também chamam o juiz Sergio Moro de "Torre de Londres", em referência ao castelo da Inglaterra em que ocorreram torturas e execuções entre os séculos XV e XVI. Há também, por parte dos interlocutores, o reconhecimento de que as delações de Marcelo Odebrecht, então preso pela Polícia Federial, seriam "seletivas". Em outro momento, Machado voltou a criticar a decisão do Supremo, de admitir prisão após condenação em segunda instância, dizendo ser uma "cagada" e um "absurdo total", pois "precipita as delações" e "não escapa pedra sobre pedra".
Em vários momentos da conversa, os interlocutores alegam serem perseguidos por Rodrigo Janot, o procurador-geral da República. Há também críticas de ambos às prisões de Marcelo Odebrecht e de Delcídio do Amaral, além de classificarem como "cagada" a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Jucá acha que tanto a condução coercitiva quanto o pedido de prisão pelo Ministério Público de São Paulo tenham sido realizados para inviabilizar Lula de ir para algum ministério, o que, segundo ambos, foi um ato violento e burro.
Segundo vazamento (25 de maio) miniaturadaimagem|150px|O então presidente do Senado Renan Calheiros. Em 25 de maio de 2016, novos áudios foram divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo dois dias após o primeiro vazamento. As conversas dessa vez eram entre Sérgio Machado e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Mudança na lei da delação premiada