O Maneirismo no Brasil um estilo artístico que marcou o início da história da arte de origem europeia no território brasileiro. Descoberto pelos portugueses em 1500, o Brasil até então era habitado por povos indígenas, cuja cultura tinha ricas tradições imemoriais, mas era em tudo diferente da cultura portuguesa. Com a chegada dos colonizadores, começaram a ser introduzidos os primeiros elementos de uma dominação em larga escala que perdura até hoje. Naquele século de fundação de uma nova civilização americana, a principal corrente cultural em vigor na Europa era o Maneirismo, uma complexa e muitas vezes contraditória síntese de elementos clássicos derivados do Renascimento italiano — ora questionados e transformados pelo colapso da visão de mundo unificada, otimista, idealista e antropocêntrica cristalizada na Alta Renascença — e de tradições regionais cultivadas em várias partes da Europa, incluindo Portugal, que ainda tinham no estilo Gótico anterior uma forte base de referência. Com o passar dos anos a corrente foi acrescida de novos elementos, oriundos de um contexto profundamente perturbado pela Reforma Protestante, contra a qual a Igreja Católica organizou, na segunda metade do século XVI, um agressivo programa disciplinador e proselitista, a chamada Contra Reforma, revolucionando as artes e a cultura em geral da época.
Devido ao fato de que a implantação da civilização portuguesa no Brasil iniciou do zero, houve escassas condições para um florescimento cultural ao longo de quase todo um século. Desta forma, quando começam a surgir os primeiros testemunhos artísticos de algum vulto no Brasil, situados quase exclusivamente no campo da arquitetura sacra e da sua decoração interna, o Maneirismo já estava em declínio na Europa, sendo sucedido pelo Barroco na primeira metade do século XVII. Não obstante, em virtude principalmente da atividade dos jesuítas, que foram os mais ativos e empreendedores missionários, e que adotaram o Maneirismo quase como um estilo oficial da Ordem, resistindo muito em abandoná-lo, esta estética pôde se expandir abundantemente no Brasil, influenciando outras ordens. Porém, a vertente que cultivaram mais na colônia foi a do Estilo Chão, de feições austeras e regulares, fortemente baseada nos ideais classicistas de equilíbrio, racionalidade e economia formal, contrastando com outras correntes em voga na Europa, que eram muito mais irregulares, anticlássicas, experimentais, ornamentais e dinâmicas. O modelo básico de fachada e em particular o de planta baixa da igreja jesuíta foi o mais duradouro e influente padrão da história da edificação sacra brasileira, sendo adotado em vasta escala e com poucas modificações até o século XIX. O Estilo Chão exerceu um profundo impacto também na construção civil e militar, criando uma arquitetura de grande homogeneidade espalhada por todo o território nacional. Quanto às decorações internas, incluindo a talha dourada, a pintura e a escultura, o Maneirismo conheceu uma permanência muito mais breve, desaparecendo quase por completo a partir de meados do século XVII, ocorrendo o mesmo nos campos literário e musical. Apesar desta presença tão marcante, grande parte das igrejas maneiristas foi descaracterizada em reformas posteriores, sobrevivendo hoje um número relativamente pequeno de exemplos em que os traços mais típicos da Arquitetura Chã ainda são visíveis. As suas decorações internas, bem como os testemunhos na música, sofreram destino ainda mais dramático, perdendo-se quase em sua inteireza.
A atenção da crítica para o Maneirismo é fenômeno recente, até a década de 1940, o estilo em geral sequer era reconhecido como uma entidade autônoma na História da Arte, considerado até então uma triste degeneração da pureza renascentista ou uma mera etapa de confusa transição entre o Renascimento e o Barroco, e por isso a descrição de seu legado ainda está eivada de imprecisões e controvérsias, mas desde a década de 1950 uma grande série de estudos passou a enfocá-lo, delimitando melhor suas especificidades e reconhecendo seu valor como um estilo rico de propostas e de soluções inovadoras, e interessante em seu próprio direito. Sobre o caso brasileiro, porém, as dificuldades são bem maiores, as pesquisas estão em sua fase inicial e a bibliografia é pobre, havendo ainda muitos equívocos, anacronismos e divergências em sua análise, mas alguns estudiosos já deixaram contribuições importantes para sua recuperação.
O Maneirismo
thumb|esquerda|A Igreja de Jesus em Roma, que serviu de modelo para inúmeras outras construções, considerada um grande documento maneirista e também uma das principais precursoras do estilo Barroco na arquitetura. thumb|esquerda|José no Egito, de Jacopo Pontormo, uma típica pintura maneirista.
O Maneirismo surgiu na Itália como uma evolução natural do Renascimento, que florescera entre os séculos XIV e XV pregando um retorno aos ideais estéticos classicistas de equilíbrio formal, economia de meios e moderação na expressividade, ideais que estavam associados aos mais elevados valores morais. O Renascimento atingiu seus plenos objetivos na fase chamada de Alta Renascença (c. 1480-1527), delimitada usualmente pela obra de maturidade de Leonardo da Vinci e o saque de Roma de 1527, produzindo uma arte de grande dignidade, estabilidade e solenidade, que tinha em uma natureza depurada de suas imperfeições transitórias, no primado da razão sobre a subjetividade e na produção dos mestres consagrados do passado seus fundamentos ideais. Apesar disso, a imitação da natureza estava carregada de formalismo e idealismo, propunha a apresentação de um mundo utópico, onde o Bem impera na Terra debaixo do poder benevolente dos Céus, e as diferenças são anuladas sob uma grande homogeneização da cultura e do modo de vida, onde as pessoas seguem uma ética pura e altruísta. De fato, uma das preocupações dos artistas do Renascimento foi oferecer modelos de conduta educativos, que pudessem transformar a sociedade e dar-lhe felicidade duradoura. Se este ideário foi o principal sustentáculo da grande arte produzida neste período, era ao mesmo tempo artificial, divorciado da realidade cotidiana, sendo cultivado em um período de guerras quase incessantes e grandes crises sociopolíticas. Neste contexto, duas crises foram especialmente dramáticas: o sangrento saque de Roma de 1527, um dos pontos culminantes de uma completa reorganização na geopolítica europeia e que abateu definitivamente a primazia política e econômica italiana no cenário europeu, e a Reforma Protestante iniciada em 1517, que cindiu em duas seitas diversas o antes monolítico Cristianismo, que até então fora o mais importante fator para preservação da unidade cultural e religiosa da Europa, e que havia dado à Itália singular influência política internacional como a cabeça da Cristandade.Hauser, Arnold. História Social da Literatura e da Arte, vol. I. Mestre Jou, 1972-82, pp. 483-489Edelman, Murray. From Art to Politics. University of Chicago Press, 1995. p. 20Tatarkiewicz, Władysław. History of Aesthetics. Continuum International Publishing Group, 2006, pp. 151-152Lohr, Charles. "The Sixteenth-Century Transformation of the Aristotelian Division of the Speculative Sciences". In Kelley, Donald & Popkin, Richard (eds). The Shapes of Knowledge from the Renaissance to the Enlightement. Springer, 1991, pp. 49-57
O Maneirismo, pois, é fruto em primeiro lugar dessas profundas mudanças na sociedade italiana, e se antes os valores clássicos da Alta Renascença ainda podiam preservar uma fachada de unidade cultural e de um mundo otimista e pacífico, em pouco tempo nem a arte foi mais capaz de sustentá-la, aparecendo obras ambíguas, agitadas, questionadoras, não raro cínicas, hedonistas, irracionais, herméticas, preciosistas e frívolas, e mesmo bizarras, obscuras, fantásticas e grotescas, confrontando tudo o que o Classicismo advogava e que se havia provado como um ideal alto demais para ser materializado, apresentando o mundo com um lugar de conflitos, contradições, incertezas, insuficiências e dramas, onde a violência, a falsidade e a crueldade eram métodos políticos habituais, o dogmatismo religioso subjugava as consciências e as vontades, a fome, as guerras e as epidemias eram ameaças constantes e a simples sobrevivência era para a vasta maioria das pessoas um desafio pungente e premente.Criticos, Mihaela. The Ornamental Dimension: Contributions to a Theory of Ornament. New Europe College Yearbook. Special ed. 2004, pp. 185-219 Não por acaso que Giulio Argan definiu o Maneirismo como "o triunfo da prática sobre a teoria".
Mas havia outros fatores em jogo. O Renascimento tinha suas próprias contradições, e se por um lado pregava o respeito à produção dos grandes mestres do passado como modelos de perfeição a serem imitados, por outro longamente vinha propondo que os artistas mereciam se equiparar aos intelectuais, resultando que na Alta Renascença se reforçaram significativamente as individualidades artísticas e emergiu a figura do gênio, um criador que mais do que ganhar independência das regras, de fato estabelecia novas regras e se tornava por sua vez um novo modelo. Este cultivo do individualismo e da liberdade de pensamento e criação, combinando-se a um período de grande insegurança geral e de derrocada de padrões antes solidamente estabelecidos e muito homogêneos, contribuiu para que a arte maneirista fosse altamente personalista, muito mais livre das amarras dos cânones antigos, abrindo espaço para uma pulverização do estilo geral em uma infinidade de derivações pessoais, locais e regionais, que se aproximavam ou afastavam do Classicismo em graus muito diferenciados.Hauser, pp. 476-505Edelman, p. 21Benevolo, Leonardo. The architecture of the Renaissance. Routledge, 1978, pp. 231-232; 479; 483; 501-502 Numa segunda etapa, veio a modificar o contexto a reação católica à Reforma Protestante, a chamada Contra Reforma, que desejou moralizar e disciplinar os costumes e o clero, reafirmar o dogma e recuperar os fiéis perdidos, e as determinações que estabeleceu para a arte sacra em termos de decoro, fidelidade à doutrina e acessibilidade de leitura, impondo ao artista a direção da Igreja em todas as etapas de realização da obra, repercutiram na produção profana.Serrão Vítor. "Impactos do Concílio de Trento na arte portuguesa entre o Maneirismo e o Barroco (1563-1750)". In: Gouveia, António Camões; Barbosa, David Sampaio e Paiva, José Pedro (coords.). O Concílio de Trento em Portugal e nas suas conquistas: olhares novos. Centro de Estudos de História Religiosa, 2014, pp. 103-132 thumb|Igreja de Santo Estêvão, em Salamanca, mostrando a fusão de elementos clássicos e góticos.
Ao longo da evolução do Maneirismo a referência clássica de fato não foi eliminada da arte, mas foi sim testada, discutida, relativizada, desarticulada, transformada e até combatida, mas permaneceu como a base sobre a qual surgiram os avanços posteriores, adaptando-a a um novo universo social, político e cultural.Tatarkiewicz, p. 154Hauser, pp. 471-474 No resumo de Vítor Serrão,
"[...] a Maniera consagra valores críticos de um tempo que sabe a crise, [...] buscando responder pela ousadia das formas e ideias à crise de identidade sem resolução visível. Este foi, é, será o tempo da magia do labirinto e do serpentinato, do culto da melancolia, da stravaganza e da solidão, do notturno, da ruptura com o cânon classicista; tempo de inconstância, da paixão neoplatônica perdida na exploração de identidades como Fortuna e Virtude, Vênus e o culto de Maria, Eros e o Decoro; tempo de excessos, de euforia e de descrença; tempo enfim da frenética liberdade, da inovação formal, do culto do bizarro, em que a individualidade é assumida em termos obsessivos, como diferença e contrapoder".Apud Silva, Filipe Rocha da. Variações sobre o Maneirismo. Estudo comparativo entre o Século XVI e o presente, vol. I. Tese de Doutorado. Universidade de Évora, 2005, p. 13