O Reino Quidarita foi um Estado fundado pela dinastia tribal huna dos quidaritas no no atual Paquistão e regiões vizinhas da Ásia Central. Era centrado no Tocaristão (Báctria) e expandiu-se em direção a Gandara, na Índia, e partes de Soguediana. Foi fundado pelo rei que, segundo os anais chineses, liderou seu povo ao norte da Índia e conquistou os reinos locais.
Durante o , o Reino Quidarita expandiu-se às custas do Império Gupta e durante vários anos esteve em conflito com o Império Sassânida, que gradualmente tomou-lhe o Tocaristão. Seria conquistado pela dinastia tribal dos heftalitas que fundaria o Império Heftalita da Índia.
Etimologia
O nome desta dinastia é citado numa grande quantidade de fontes, porém de forma muito variada. Os autores latinos chamam-os "quionitas" (), enquanto os gregos de "hunos quidaritas". Os cronistas indianos designam-os hunas, os armênios como honques (honk’) ou cuchanos e os anais chineses como iuechis (Yüeh-chih), um nome também utilizado para designar o Império Cuchano que dominou vastas porções do Paquistão e Índia décadas antes. Para E. V. Zeimal, somente "quidarita" indica a dinastia, pois remete-se a seu rei fundador, Quidara, enquanto que nomes como "hunas", "hunos" e "quionitas" presumivelmente refletem designações mais amplas que abarcam vários grupos distintos; F. Altheim deriva o nome "quidarita" do turco antigo kidirti (hunos ocidentais). Outros nomes como "cuchanos" e "iuechis" referem-se ao país dos quidaritas e talvez reflitam as reivindicações da dinastia como sucessores dos reis cuchanos.
Na tradução de do Tratado sobre a Grande Perfeição da Sabedoria ( em chinês; em sânscrito) do começo do faz-se menção a Iuechi Maior e Iuechi Menor, interpretado por K. Enoki como denominativos geográficos: "Maior" aludiria ao Tocaristão, enquanto "Menor" a Gandara e Swat. Xiang Wan concorda com esta afirmação, mas alega que a aplicação de "Iuechi" variou nas fontes: nas obras de Budadeva e Dao’an de meados do significava Báctria/Tocaristão; na obra de Cumarajiva designou o noroeste da Índia, enquanto Faxian e outros monges usaram-o para as regiões em torno de Puruxapura; na biografia de refere-se a Nagaraara e demais regiões ainda sob controle quidarita. Além disso, Wan notou o uso do nome Jibin pelas fontes budistas do para referir-se ao país quidarita, provavelmente indicando uma apropriação deles do nome do Reino de Jibin que existia no noroeste indiano antes de sua chegada.
História
Origens
thumb|upright=1.2|Dinar de ouro de thumb|upright=1.2|Dracma quidarita inspirado nos dracmas persas
É impreciso quando ocorreu a fundação do Reino Quidarita da Ásia Central, com os autores modernos dividindo opiniões. Alguns especularam que seu estabelecimento teria ocorrido com a conquista de Kangju (um reino mencionado nas fontes chinesas) e Soguediana, porém o registro arqueológico não corrobora tais alegações. Outros sugeriram uma data muito posterior, ca. 420, com base nos achados encontrados na estepe de Carchi, porém não há outros registros arqueológicos semelhantes na região, dificultando a precisão. Uma terceira teoria, que baseia-se numa pequena quantidade de moedas descobertas em Samarcanda nas quais aparece registrado o nome do rei Quidara, aventa que, haja vista a datação destas moedas para meados do , a chegada dos quidaritas à região ocorreu em algum momento antes desse período.
A primeira menção aos quidaritas cronologicamente verificável é feita na crônica do historiador romano Amiano Marcelino. Segundo ele, os quidaritas (ali chamados quionitas), sob comando do rei Grumbates, aliaram-se ao xá sassânida , que à época esteve em guerra com os povos que habitavam a fronteira oriental de seu império, e participaram no Cerco de Amida de 359. Esta aliança, expressa na cunhagem quidarita na qual há dracmas de prata copiando exemplares sassânidas, foi considerada como a gênese do Reino Quidarita, fundado tão cedo quanto o último cartel do ; Martin sugeriu que o Império Sassânida teria reconhecido o Estado quidarita, enquanto o último ter-se-ia tornado vassalo dos sassânidas.
Nesse sentido, Martin datou a invasão quidarita do Reino Cuchano-Sassânida, a expedição retaliativa de Sapor II contra eles e a expulsão dos príncipes cuchano-sassânidas para ca. 350. Também estabelece que as moedas supracitadas poderiam ser datadas para o mesmo período que seus protótipos sassânidas foram emitidos. K. Enoki, por outro lado, sugeriu que a fundação do Reino Quidarita teria ocorrido mais tarde, enquanto R. Göbl afirma que os dracmas quidaritas devem ser datados para o reinado de Sapor II e .
Essa aliança entre sassânidas e os nômades da fronteira oriental não deve ter durado muito, contudo. Cerca de 367 ou 368, o armênio menciona que os cuchanas de Bactro (associados por ele aos arsácidas do Império Parta) causaram severas baixas nos efetivos militares de Sapor II. Devido a carência de maiores detalhes, fica difícil precisar a qual das tribos orientais Fausto alude, muito embora provavelmente seja algum grupo relacionado à tribo mais tarde conhecida como quidarita. Outro sinal da turbulência nas relações é o abandono do título ud Anērān, criado por , pelos xás sassânidas desde o fim do reinado de Sapor III, um título criado e incorporado à titularia oficial dos reis persas para indicar a submissão dos povos orientais. O comércio entre o Império Sassânida e o Império Chinês foi presumivelmente afetado no processo, com nenhuma moeda emitida entre o reinado de Sapor III e sendo encontrada na China.
Conquista do noroeste da Índia
thumb|esquerda|upright=1.05|Báctria esquerda|upright=1.05|thumb|Império Gupta ca. 400
O núcleo original do Reino Quidarita foi o Tocaristão (Báctria), que hoje corresponderia ao norte do Afeganistão e sul do Usbequistão e Tajiquistão, e sua capital era, segundo as crônicas chinesas, "Yingjianshi" (Ying-chien-shih), mais tarde designada "Lujianshi" (Liu-chien-shih), situada a oeste de Fudicha (Fu-ti-sha, atual Badaquistão). Diz-se que em data desconhecida, devido a contínua pressão do Canato Rourano, a capital foi transferida para tão longe quanto Boluo (Po-lo), identificada pelos historiadores modernos com a Balaam citada pelo historiador bizantino Prisco de Pânio.
Segundo os Anais da dinastia Wei, uma crônica chinesa que relata eventos entre 386 e 581, o rei Quidara I (chamado Chitolo), entendido como sucessor de Grumbates por A. D. H. Bivar, reuniu suas tropas, cruzou as grandes montanhas (Indocuche) e conquistou Gandara (chamada Qiantuoluo). A principal cidade quidarita ao sul do Indocuche, e que lhes serviria como capital na região, chamava-se Fu-lou-sha e ela foi concedida ao filho de Quidara, de nome não registrado, que tornar-se-ia rei ali; os historiadores sugerem que Fulousha pode ser associada com Puruxapura, próximo da moderna Pexauar.
Além de Gandara, os Anais afirmam que outros cinco reinos ao norte também foram conquistados; mediante leitura do documento Ф. 209 sabe-se o nome de dois deles: Udiana (atual vale do Suat, no Paquistão), onde estava Dachu Si, e Nagaraara, onde situava-se Xiluo Si/Xiluo (identificada com , no Afeganistão Oriental, 5 quilômetros da moderna Jalalabade), o sítio no qual eram guardadas as relíquias sagradas de Buda. Para Xiang Wan fica claro pela leitura das crônicas dos monges budistas que o Reino Quidarita à época possuía um poder imperial capaz de controlar a mais estratégica e movimentada rota conectando Iarcanda-Tascurgã, Báctria-Soguediana e Madiadesa (Índia Central), então sob domínio do Império Gupta, bem como as regiões em torno de Taxila ou Caxemira. Ao mesmo tempo, para Wan, foi sob seus auspícios que os monges peregrinos da China e seus mestres da Índia floresceram, e ele tornar-se-ia o principal destino das peregrinações.
A expansão de Quidara rumo ao sul do Indocuche não é datada nos Anais, porém os autores modernos propõem que teria ocorrido em algum momento entre 380 e 390 e 430; E. V. Zeimal sugeriu algum momento antes de 410, enquanto Franz Grenet propôs algum momento após 412, pois, segundo ele, o monge itinerante chinês Faxian, que viajou pelo norte da Índia durante mais de uma década , e por Gandara em 402/403, não faz nenhuma menção a tais eventos. Xiang Wan, entretanto, discorda da visão de Grenet e alega que o relato de Faxian foi mal interpretado. Segundo ele, o episódio da conquista de Puruxapura pelo rei iuechi relatado por Faxian claramente poderia ser associado às informações dos Anais, ao passo que também afirma ser possível correlacionar tais descrições com a biografia do monge Gunavarman. Ademais, ele considera que tal conquista deve ter ocorrido na década de 380 ou mesmo antes, e que a Caxemira foi subjugada em algum momento antes de 396.
thumb|upright=1.05|Dinar de thumb|upright=1.05|Dinar de Escandagupta
O supracitado documento Ф. 209, datado entre 412 e 420, menciona que um rei (intitulado tianzi/wang em chinês e devaputra em sânscrito) dispôs batalhões de tropas em Nagaraara para proteger as relíquias budistas ali abrigadas. Xiang Wan, considerando sua datação, propôs que o rei aqui mencionada já não seria Quidara, que à época esteve ocupado guarnecendo a fronteira comum com os sassânidas, mas sim seu filho, mencionado nos Anais como guardião dos territórios indianos em Puruxapura. Aparentemente, os quidaritas continuaram avançando pelo interior da Índia nas décadas subsequentes, havendo inscrições mencionando expedições militares tão tardias quanto meados do ; segundo elas, no reinado do imperador vastas porções do Panjabe central e ocidental estavam sob controle dos nômades e pelo fim de seu reinado enviou seu filho e herdeiro Escandagupta para repeli-los. Sob Escandagupta novos conflitos teriam ocorrido, com uma invasão sendo repelida no rio Sutle ou mesmo mais a leste.
A análise revisionista de Xiang Wan, contudo, pôs em dúvida os supostos conflitos envolvendo os quidaritas. A julgar a constante menção às viagens peregrinarias realizadas por monges budistas chineses pelo período no noroeste da Índia, para ele fica difícil pressupor algum tipo de cenário beligerante entre guptas e quidaritas. A fronteira pacífica entre esses Estados teria permitido a peregrinação rápida e segura entre Gandara-Nagaraara-Udiana e Madiadesa, o florescimento do budismo no país e desenvolvimento e crescimento demográfico de alguns centros locais como Pitu e Matura. Além disso, nota-se o início da substituição do alfabeto caroste, até então prevalente no noroeste indiano, pelo alfabeto brami, comum no Império Gupta. Por fim, para Wan, as inscrições que informam sobre a invasão huna, datáveis de depois da década de 450, não possuem conexões com os quidaritas.
Reino Alconida e Império Sassânida
thumb|esquerda|upright=1.05|Dracma de thumb|upright=1.05|esquerda|Dracma de
Estudos numismáticos em consonância com as fontes budistas têm demonstrado que Gandara e regiões adjacentes passaram por momentos de turbulência nas primeiras décadas do . Joe Cribb notou que houve uma clara substituição de moedas com nomes de Quidara por outras sobre as quais grafou-se Alaca (Alakha), possivelmente o nome dum rei, e ele associou tais numismas ao grupo nômade dos alconidas (alchon), quiçá nomeados em sua homenagem. Embora não seja possível datar com precisão, Cribb propôs algum momento ca. 420, uma visão apoiada por Xiang Wan. Segundo eles, desde ca. 390 outros grupos hunos estiveram pressionando a fronteira dos quidaritas no Tocaristão, com algumas moedas alconidas aparecendo na área de Capissa-Cabul, indicando que os primeiros haviam sido expulsos dessa zona. Ca. 420, por sua vez, os alconidas tomaram toda a região de Gandara, exceto Nagaraara, e os quidaritas viram-se obrigados a se retirarem para o Tocaristão.