Guerra romano-parta de 113–117, também chamada de Campanha parta de Trajano, foi uma guerra entre o Império Romano e o Império Parta sobre o controle do Reino da Armênia, um reino sobre qual os dois dividiam a hegemonia desde a época de Nero, cinquenta anos antes, como resultado da Guerra romano-parta de 58-63.

Contexto e motivação de Trajano Como os relatos literários sobre a campanha parta de Trajano são fragmentários e dispersos,R. P. Longden, "Notes on the Parthian Campaigns of Trajan". The Journal of Roman Studies, Vol. 21 (1931), pp. 1–35. Online é difícil estabelecer um contexto apropriado para o início das hostilidades, algo que abriu espaço para uma longa controvérsia sobre os eventos e os objetivos do conflito. Muitos estudiosos modernos consideram que a decisão de Trajano de travar uma guerra contra os partas pode ter tido motivos econômicos: depois da anexação da Arábia, o imperador construiu uma nova estrada, a Via Trajana Nova, que ia de Bostra (moderna Bostra) até Aila (moderna Ácaba), no mar Vermelho,Steven E. Sidebotham, Roman Economic Policy in the Erythra Thalassa: 30 B.C. – A.D. 217. Leiden: Brill, 1986, ISBN 90-04-07644-1 , p. 154 o que significava que Cárax Espasinu, no Golfo Pérsico, era o último ponto terminal ocidental das linhas comerciais indianas que estava fora do controle romano.Christol & Nony, Rome, 171 Este controle era importante para diminuir os custos de importação e para limitar uma suposta fuga de metais preciosos criada pelo déficit no comércio exterior romano com o Extremo Oriente.Gary K. Young, Rome's Eastern Trade: International Commerce and Imperial Policy 31 BC – AD 305. London: Routledge, 2001, ISBN 0-203-47093-1, p. 181

Não há dúvidas de que Cárax comerciava com o Império Romano, pois os contatos da cidade com os comerciantes de Palmira no período estão bem documentados na epigrafia palmirena da época, que nos revela vários cidadãos da cidade homenageados depois de assumirem uma posição em Cárax.Daniel T. Potts, ed., Araby the Blest: Studies in Arabian Archaeology. Copenhagen: Museum Tusculanum Press, 1988, ISBN 87-7289-051-7 , p. 142 Além disso, os domínios dos monarcas de Cárax na época provavelmente incluíam as ilhas do Barém (onde um palmireno trabalhou, logo depois da morte de Trajano, como sátrapaPaul Veyne, L'Empire Gréco-Romain, 279  – uma nomeação feita por um xá de CáraxJulian Reade, ed.,The Indian Ocean In Antiquity. London: Routledge, 2013, ISBN 0-7103-0435-8, p. 279 ), o que dava aos romanos a oportunidade de estender a hegemonia romana ao próprio Golfo Pérsico.Potts, 143 O racional para a campanha de Trajano, neste caso, teria sido eliminar um sistema comercial entre o Extremo Oriente através de pequenas cidades semíticas ("árabes") sob controle parta ou colocá-lo sob o controle romano.George Fadlo Hourani, Arab Seafaring in the Indian Ocean in Ancient and Early Medieval Times. Princeton University Press, 1995, ISBN 0-691-00170-7, p. 15

Em suas conquistas dácias, Trajano já havia utilizado unidades auxiliares sírias, cujos veteranos, assim como os comerciantes sírios, tiveram um importante papel na subsequente colonização da Dácia.Găzdac, 59 Ele já havia recrutado unidades palmirenas para seu exército, inclusive uma unidade de camelosPat Southern, Empress Zenobia: Palmyra's Rebel Queen. London: Bloomsbury Publishing, 2008, ISBN 978-1-84725-034-6 , p. 25  –aparentemente buscando apoio de Palmira em seu objetivo maior de conquistar Cárax. Já se propôs até mesmo que, quando, no início de sua campanha, Trajano anexou a Armênia, ele tinha a intenção de anexar a Mesopotâmia se os partas não interrompesse o fluxo comercial no Golfo Pérsico ou criassem problemas na fronteira do Danúbio.Freya Stark, Rome on the Euphrates: The Story of a Frontier.London: I.B. Tauris, 2012, ISBN 978-1-84885-314-0, p. 211

Outros historiadores rejeitam essas motivações, pois este suposto controle parta sobre o comércio com o Extremo Oriente era, na melhor das opções, conjectural e baseado numa leitura seletiva de fontes chinesas – o comércio terrestre através do Império Parta parece ter sido deixado em paz pelas autoridades partas e nas mãos de comerciantes privados.Gary K. Young, Rome's Eastern Trade, p. 176ss. Atividades comerciais na Mesopotâmia no parece ter sido um fenômeno generalizado, compartilhado por muitos povos de dentro e fora do Império Romano, sem evidências de uma política imperial específica para regulá-lo.Finley, The Ancient Economy, 158 Como no caso das alimenta, acadêmicos como Moses Finley e Paul Veyne consideram a ideia de uma política externa de comércio por trás da guerra de Trajano anacrônica: segundo eles, a única preocupação romana com os artigos de luxo do comércio com o Extremo Oriente, além do pagamento de impostos e pedágios,Paul Erdkamp, The Grain Market in the Roman Empire: A Social, Political and Economic Study. Cambridge University Press, 2005, ISBN 978-0-521-83878-8 , p. 5 era moral e envolvia uma crítica geral sobre a "frivolidade" destes artigos, sem nenhuma política econômica.Finley, The Ancient Economy, 132; Paul Veyne, La Société Romaine , Paris: Seuil, 2001, ISBN 2-02-052360-4, Chapter 5 Em seu controverso livro sobre a economia na Antiguidade, Finley considera que Trajano "calculou muito mal um caro ataque à Pártia" como um exemplo das "guerras comerciais" de Roma, que tinham em comum o fato de existirem apenas nos livros de historiadores modernos.Finley, Ancient Economy, 158

Uma visão alternativa é que a campanha teria sido iniciada por um desejo de anexação territorial e prestígio, o único motivo citado por Dião Cássio.Citado por Bennett, Trajan, 188 Como a conquista territorial envolvia a coleta de impostos,Michael Alexander Speidel: "Bellicosissimus Princeps". In: Annette Nünnerich-Asmus ed., Traian. Ein Kaiser der Superlative am Beginn einer Umbruchzeit? Mainz 2002, p. 23/40. especialmente os 25% de imposto devido por todos os bens que entravam no Império Romano (), pode-se dizer que a guerra de Trajano tinha um motivo "econômico".Steven E. Sidebotham, Roman Economic Policy in the Erythra Thalassa, p. 144 Havia também o valor propagandístico de uma conquista no oriente, que emularia, na opinião romana da época, as conquistas de Alexandre, o Grande.Nathanael John Andrade, "Imitation Greeks": Being Syrian in the Greco-Roman World (175 BCE – 275 CE), University of Michigan, 2009, p. 192. O fato de emissários do Império Cuchana possam ter participado das celebrações das Guerras Dácias pode ter acendido em alguns intelectuais greco-romanos como Plutarco, que escreveu que seriam necessários apenas soldados para conquistar a Índia, e nos amigos mais próximos de Trajano sonhos especulativos sobre os espólios que poderiam ser obtidos ao se reproduzir as conquistas macedônias no oriente.Raoul McLaughlin, Rome and the Distant East: Trade Routes to the Ancient Lands of Arabia, India and China. London: Continuum, 2010, ISBN 9781847252357 , p. 130 É possível ainda que a ligação de Trajano a uma política expansionista fosse apoiada por um poderoso círculo de senadores falcões da Hispânia, especialmente Licínio Sura.Françoise Des Boscs-Plateaux, Un parti hispanique à Rome?: ascension des élites hispaniques et pouvoir politique d'Auguste à Hadrien, 27 av. J.-C.-138 ap. J.-C. Madrid: Casa de Velázquez, 2005, ISBN 84-95555-80-8 , p. 304 e 311 É possível explicar a campanha simplesmente indicando que, para os romanos, seu império era, a princípio, ilimitado e que Trajano queria simplesmente aproveitar uma oportunidade de realizar uma ideia.Dexter Hoyos, ed., A Companion to Roman Imperialism. Leiden: Brill, 2012, ISBN 978-90-04-23593-9 , p. 262

Finalmente, há os historiadores modernos que acreditam que os objetivos originais de Trajano eram puramente militares e bem modestos: assegurar uma fronteira oriental mais segura para o Império Romano, cruzando a Alta Mesopotâmia ao longo do rio Cabur, protegendo a Armênia.Luttvak, Grand Strategy, 108

Campanha A campanha foi cuidadosamente planejada com antecedência: dez legiões foram concentradas no teatro de operações oriental; desde 111, a correspondência de Plínio, o Jovem, atesta que as autoridades provinciais da Bitínia tinham que organizar suprimentos para as tropas de passagem e concílios municipais locais e seus membros tinham que arcar com parte das despesas das tropas.Fergus Millar, The Roman Near East, 31 B.C. – A.D. 337. Harvard University Press, 1993, ISBN 0-674-77886-3 , p. 103 A campanha era, portanto, imensamente cara desde o princípio.M.Christol & D. Nony, Rome et son Empire. Paris: Hachette, 2003, ISBN 2-01-14-5542-1, p. 171

Armênia e Mesopotâmia (113–115) Trajano primeiro invadiu a Armênia, depôs o rei nomeado pelos partas, que depois foi assassinado ainda sob custódia das tropas romanas num incidente obscuro, descrito posteriormente por Frontão como uma mancha na boa-fé romana,John Rich,Graham Shipley, eds., War and Society in the Roman World. London: Routledge, 1993, ISBN 0-415-06644-1, p. 235 e anexou-a ao Império Romano como uma província, recebendo de passagem um reconhecimento da hegemonia romana de diversas tribos do Cáucaso e da costa oriental do mar Negro — um processo que o manteve ocupado até pelo menos o final de 114.Bennett, Trajan, 194–195 Simultaneamente, uma coluna romana liderada pelo legado Lúsio Quieto, um excepcional general de cavalariaHermann Bengtson, Römische Geschichte: Republik und Kaiserzeit bis 284 n. Chr. Munich: Beck, 2001, ISBN 3-406-02505-6 , p. 289 que se destacou durante as Guerras Dácias comandando unidades de sua Mauritânia natal,Alfred S. Bradford, With Arrow, Sword, and Spear: A History of Warfare in the Ancient World. Westport, CT: Greenwood, 2001, ISBN 0-275-95259-2 , p. 232 atravessou o rio Araxes da Armênia e invadiu a Média Atropatene e a terra dos amardos (moderna Guilão).Emmanuel Choisnel, Les Parthes et la Route de la Soie. Paris: L'Harmattan, ISBN 2-7475-7037-1, p. 164 É possível que a campanha de Quieto tenha tido o objetivo de estender a nova e mais defensável fronteira romana mais para o leste, na direção do mar Cáspio e para o norte, onde estava o Cáucaso.S.J. De Laet, review of Lepper, Trajan's Parthian War. L'Antiquité Classique, 18-2, 1949, p. 487–489

A cronologia dos eventos seguintes é incerta, mas acredita-se geralmente que, no início de 115, Trajano iniciou uma campanha pela Mesopotâmia, marchando para o sul em direção aos montes Tauro para consolidar seu domínio sobre o território entre o Tigre e o Eufrates. E posicionou guarnições permanentes no caminho para proteger a região. Enquanto Trajano marchava do oeste para o leste, Quieto vinha com seu exército do Cáspio para o oeste, com ambas as forças executando com sucesso um movimento de pinçaBennett, 195 cujo resultado foi, aparentemente, estabelecer uma poderosa presença romana bem no coração dos domínios partas, com Trajano tomando as cidades da Alta Mesopotâmia de Nísibis (moderna Nussaibine) e (moderna Suruç), e organizando a província da Mesopotâmia, incluindo o Reino de Osroena, onde o rei se submeteu publicamente a Trajano,Maurice Sartre,The Middle East Under Rome. Harvard University Press, 2005, ISBN 0-674-01683-1, p. 146 . Segundo Dião Cássio, o acordo entre Trajano e Abgar foi selado com o filho do rei se oferecendo para ser seu amante — Bennett, 199 como um estado cliente romano.Bennett, 199 Este processo parece já ter sido completado no começo de 116, quando moedas foram cunhadas anunciando que Armênia e Mesopotâmia haviam sido colocadas sob a autoridade do povo romano.Bennett, Trajan, 196; Christol & Nony, Rome,171 A região entre o rio Cabur e as montanhas à volta de Singara aparentemente foi considerada como a nova fronteira e, como tal, recebeu uma estrada repleta de fortalezas (limes).Petit, Pax Romana, 44

Babilônia e Cárax (116–117)