thumb|upright=1.25|O ditador Júlio César, o membro mais conhecido da gente Júlia A gente Júlia (; pl. Iulii) era uma das mais antigas gentes patrícias da Roma Antiga, com membros que chegaram aos mais altos cargos da magistratura romana desde os primeiros anos da República. O primeiro a chegar ao consulado foi Caio Júlio Julo em 489 a.C.. Esta gente é, provavelmente, mais conhecida por causa de Júlio César, ditador, tio-avô e pai adotivo do primeiro imperador Augusto, através de quem seu nome passou para a dinastia júlio-claudiana no . O nome Júlio (Julius) se tornou muito comum no período imperial, especialmente porque descendentes de pessoas arroladas como cidadãos nos primeiros anos do império começaram a deixar sua marca na história em textos e inscriçõesSmith, Julia (gens), pp. 642, 643..

Origem Os Júlios eram, sem dúvida, de origem albanense e foram mencionados como uma das principais casas albanenses, que Tulo Hostílio removeu para Roma depois da destruição de Alba Longa. Os Júlios também estavam presentes, desde os tempos mais antigos, em Bóvilas, como atesta uma inscrição muito antiga num altar no teatro daquela cidade, que trata de sacrifícios dos Júlios segundo a lege albana ("rito albanense"); a ligação deles com Bóvilas também está implícita no sacrário ("capela") que o imperador Tibério dedicou à gente Júlia na cidade e que ostentava uma estátua do divino Augusto. Não é impossível que alguns Júlios tenham se assentado em Bóvilas depois da queda de Alba LongaDionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas, iii. 29.Tácito, Anais xi. 24.Niebuhr, vol. i. nota 1240, vol. ii. nota 421..

No período final da República, entrou na moda entre as principais gentes romanas reivindicar uma origem divina e se convencionou que "Julo" (), o mítico ancestral dos Júlio, era a Ascânio, o filho de Enéas, o troiano fundador de Alba Longa. Enéas, por sua vez, era filho de Vênus e Anquises. Para provar que Ascânio e Julo eram a mesma pessoa, utilizou-se uma prova etimológica, atestada na obra de Sérvio. Outras tradições defendem que Julo era filho de Enéas com sua esposa troiana, Creusa, enquanto que Ascânio seria filho dele com Lavínia, a filha de LatinoSérvio, i. 267.Lívio, Ab Urbe Condita i. 3..

César frequentemente fazia referência à origem divina de sua gente, como foi o caso no elogio proferida por ele enquanto questor no funeral de sua tia Júlia ou na escolha do epíteto Vênus Generatrix para seus soldados nas batalhas de Farsalos e Munda; escritores e poetas posteriores não hesitaram em aceitar esta crença que exaltava a origem da família imperialSuetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de César 6..

Apesar das evidências da chegada dos Júlios à Roma na época de Tulo Hostílio, nas lendas, o nome da gente aparece já na época de Rômulo. Foi um tal Próculo Júlio que teria informado o enlutado povo romanos, depois da estranha partida de Rômulo deste mundo, que seu rei havia descido dos céus e aparecido a ele para pedir que o povo o homenageasse no futuro como um deus chamado Quirino. Alguns críticos modernos inferiram deste relato que uns poucos Júlios podem ter se assentado em Roma na época de Roma, mas, considerando a natureza fabulosa de toda esta narrativa e o fato de que a celebridade da gente Júlia no final da República poderia ter facilmente levado à fabricação desta ligação com os primeiros anos da história de Roma, nenhum argumento histórico pode ser construído a partir desta mera citação numa lendaLívio, Ab Urbe Condita i. 16.Ovídio, ii. 499ss..

No final do período imperial, a distinção entre prenome, nome e cognome foi gradualmente se perdendo e Julius passou a ser entendido como um nome pessoal, no que o termo finalmente se transformou. A forma latina é comum em muitas línguas e, em outras, existem formas similares como Giulio (italiano), Jules (francês), Iuliu (romeno) e Юлий (búlgaro e russo).

Prenomes (praenomina) Os Júlios do período republicano utilizaram os prenomes Lúcio (Lucius), Caio (Gaius) e Sexto. Há também casos do uso de Vopisco (Vopiscus) e Espúrio (Espurius) nas primeiras gerações da família. O primeiro membro conhecido da gente Júlia aparece nas lendas com o prenome Próculo (Proculus) e não é impossível que este nome tenha sido utilizado por alguns dos primeiros Júlios, mas não se conhece mais nenhum caso. No final da República e no começo do Império, Vopisco e Próculo passaram a ser utilizados como cognomes pessoais.

É possível que Julo (Iulus) tenha sido um antigo prenome já em desuso no início da República e preservado como cognome pelo ramo mais antigo dos Júlios. O nome foi depois revivido como prenome pelo triúnviro Marco Antônio, que teve um filho e um neto chamados Julo. O latim clássico não distingue as letras "I" e "J" e ambas eram escritas utilizando a letra "I", motivo pelo qual o nome também aparece escrito como Iulo ou Julus.

Os muitos "Júlios" do período imperial, que não eram descendentes da gente Júlia, não se limitaram aos prenomes tradicionais da família. A própria família imperial deu o exemplo misturando livremente os prenomes dos Júlios com os dos Cláudios, utilizando títulos e cognomes como prenomes e regularmente alterando seus prenomes para refletir as tendências políticas conjunturais do império.

Ramos e cognomes (cognomina) thumb|upright=1|Júlia, filha do ditador Júlio César, e esposa de Pompeu Os cognomes, equivalente aos sobrenomes familiares dentre os vários ramos da gente, na época republicana eram César (), Julo (Iulus) e Libão (Libo). Destes, os dois primeiros eram indubitavelmente patrícios; é certo que as famílias que foram celebradas de maneira particularmente intensa foram estas duas primeiras, a primeira no início da República e a segunda, no final. Em moedas, os únicos nomes encontrados são César e Búrsio, este último presente apenas em moedas.

Julos Julo (Iulus ou Julus) era o sobrenome do ramo mais antigo dos Júlios em RomaSmith, Iulus, p. 656.. Uma origem nativa do nome talvez possa ser inferida na "De Origo Gentis Romanae", na qual Julo e Ascânio são a mesma pessoa. Descrito como filho de Júpiter, ele seria conhecido originalmente como Jobus e, posteriormente, como Julus. Este nome, por sua vez, estaria associado ao termo Jove, um outro nome utilizado para Júpiter. O "Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology" sugere que Iulus pode ser um diminutivo de Dius, que também estava na raiz de Jove. Além disto, Lívio relata que, depois de sua morte, Enéas, pai de Ascânio, passou a ser adorado como Jupiter Indiges ("Júpiter local")Lívio, Ab Urbe Condita i. 2. .

Independente da historicidade de Julo na mitologia romana, não há por que duvidar que Iulus era um antigo nome pessoal, possivelmente um prenome e que Iulius é um cognome patronímico baseado nele. Iullus parece ser uma forma mais antiga que Iulus, mais comum, mas os registros com frequência misturam as duasBroughton, vol. I pp. 18, 19..

Membros Caio Júlio Julo, cônsul em 489 a.C.. Caio Júlio Julo, cônsul em 482 a.C. e um dos decênviros em 451 a.C.Broughton, vol. I, pp. 23, 45, 46.Epigraphik-Datenbank Clauss / Slaby : . Vopisco Júlio Julo, cônsul em 473 a.C.Epigraphik-Datenbank Clauss / Slaby : . Caio Júlio Julo, cônsul em 447 e 435 a.C.. Espúrio Júlio Vopisco, pai dos tribunos consulares de 408, 405 e 403 a.C. segundo os Fastos CapitolinosBroughton, vol. I, p. 91.. Lúcio Júlio Julo, tribuno consular em 438 a.C. e cônsul em 430 a.C.. Sexto Júlio Julo, tribuno consular em 424 a.C.Lívio, Ab Urbe Condita, iv. 35.Diodoro Sículo, xii. 82.. Caio Júlio Julo, tribuno consular em 408 e 405 a.C. e censor em 393 a.C.Broughton, vol. I, pp.78, 80, 91.. Lúcio Júlio Julo, tribuno consular em 403 a.C., continuou o cerco de VeiosLívio, Ab Urbe Condita, v. 1, 2.Diodoro Sículo, xiv. 35.Broughton, vol. I, p. 81.. Lúcio Júlio Julo, tribuno consular em 401 e 397 a.C.Broughton, vol. I, pp. 83, 86.. Lúcio Júlio Julo, tribuno consular em 388 e 379 a.C.Lívio, Ab Urbe Condita, vi. 4, 30.Diodoro Sículo, xv. 23, 51.. Caio Júlio Julo, nomeado ditador em 352 a.C., nominalmente para conduzir a guerra contra os etruscos, mas, na verdade, para realizar a eleição de dois patrícios na Assembleia das centúrias, uma violação da Lex Licinia SextiaLívio, Ab Urbe Condita, vii. 21..

Césares O Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology diz o seguinte sobre o cognome César:

A partir do período imperial um número imenso de pessoas assumiram o nome Jùlio, mas não se deve supor que estas pessoas estavam ligadas por descendência de forma alguma à gente Júlia, pois como a família imperial pertencia a esta gente, o nome Júlio se tornou o nome de uma infinidade de libertos. Além disto, uma grande quantidade de pessoas assumiu o nome apenas por vaidade ou ostentação.

Membros thumb|upright=1|Relevo de Cesarião (Ptolemeu XV), filho de Júlio César, e sua mãe, Cleópatra

Sexto Júlio César, pretor em 208 a.C., governador da Sicília; pai do pretor de 166 a.C. e do cônsul em 157 a.C.. Lúcio Júlio César, pretor em 183 a.C., governou a província da Gália Cisalpina. Lúcio Júlio César, pretor em 166 a.C.Lívio, Ab Urbe Condita xlv. 44.. Sexto Júlio César, cônsul em 157 a.C. Caio Júlio César, bisavô do ditador, provavelmente o mesmo senador Caio Júlio que escreveu uma história de Roma em grego por volta de 143 a.C.Lívio, Ab Urbe Condita, Epítome, 53.Drumann, vol. iii, pp. 113 ff.. Sexto Júlio César, pretor urbano em 123 a.C.; provavelmente o mesmo Sexto Júlio César que foi triúnviro monetário na mesma época. Lúcio Júlio César, pai do cônsul em 90 a.C., casou-se com Popília, mãe de Quinto Lutácio Cátulo, cônsul em 102 a.C.. Caio Júlio César, avô do ditador Júlio César, casou-se com Márcia. Lúcio Júlio César, cônsul em 90 a.C., durante a Guerra Social e censor em 89 a.C.. Júlia Antônia, esposa de Marco Antônio Crético e mãe do triúnviro Marco Antônio. Caio Júlio César Estrabão Vopisco, um notável orador e poeta que foi proscrito e executado por ordem de Mário e Cina em 87 a.C.. Sexto Júlio César, cônsul em 91 a.C., tio do ditador. Caio Júlio César, pretor em 92 a.C. e pai do ditador; casou-se com Aurélia Cota. Lúcio Júlio César, cônsul em 64 a.C.. Júlia, casou-se com Públio Cornélio Lêntulo Sura, um dos conspiradores de Catilina. Lúcio Júlio César, aliado de Pompeu na Guerra Civil de César. Júlia, tia do ditador, casada com Mário. Sexto Júlio César, flâmine quirinal em 57 a.C.Cícero, 6.. Caio Júlio César, cônsul em 59, 48, 46, 45 e 44 a.C., ditador em 49 a.C. e de 47 a 44 a.C.. Júlia Maior, irmã mais velha do ditador e esposa de Lúcio Pinário Escarpo e de Quinto Pédio. Júlia Menor, irmã mais nova do ditador e esposa de Marco Ácio Balbo. Sexto Júlio César, nomeado governador da Síria em 47 a.C. e morto num motim de suas tropas. Júlia, filha do ditador e esposa de Pompeu. Cesarião, filho do ditador Cleópatra, executado por ordem de Augusto em 30 a.C.. Caio Júlio César Otaviano, filho adotivo do ditador e futuro imperador Augusto.

Libões Durante o século e meio entre as últimas aparições dos Júlios Julos e a primeira aparição dos Júlios Césares, aparece Lúcio Júlio Libão, cônsul em 267 a.C.. Este sobrenome significa "aspersor", uma derivação do termo latino libare, o que sugere que o significado original pode ter sido uma referência a um aspersor numa libação ou outra cerimônia religiosaChase, p. 111.. É incerto se o nome era pessoal ou se este cônsul herdou-o de seu pai ou avô, dos quais sabemos apenas o prenome, Lúcio. Alguns estudiosos supõem que Libão descendia dos Júlios Julos e que Lúcio, o pai de Sexto Júlio César, era seu filho, mas as evidências são muito esparsasGriffin, p. 13..

Membros Lúcio Júlio Libão, cônsul em 267 a.C., triunfou sobre os salentinos.

Outros Lendários Próculo Júlio, uma figura lendária que anunciou a apoteose de Rômulo ao povo romano por volta de 716 a.C..

Mentões Caio Júlio Mentão, cônsul em 431 a.C..