Nove Livros de Feitos e Dizeres Memoráveis ( ou De factis dictisque memorabilibus ou Facta et dicta memorabilia) de Valério Máximo ( – ) foi escrito 30 ou 31. É uma coleção de aproximadas historietas que Valério escreveu durante o reinado de Tibério , ilustrando virtudes e vícios. Enquanto a maioria dessas histórias abordam personagens romanas, ele também reuniu algumas estrangeiras no final de alguns capítulos, muitas das quais dizem respeito a filósofos e reis famosos gregos.
Várias das histórias se relacionam com assuntos morais que se igualam aqueles do Antigo e Novo Testamento. Valério refere-se a suas histórias como "exemplos" que eram para ser usados como guia moral. O trabalho de Valério na preservação dos valores morais da República Romana do passado foi amplamente popular através do Iluminismo, de modo que, dentre os prosadores latinos legados pela Antiguidade, é um daqueles de cujo texto sobrevivem o maior número de manuscritos desse período. Seu trabalho foi especialmente usado como referência por autores e oradores profissionais, mas as pessoas também liam os Feitos como um guia prático para uma vida virtuosa.
É estimado que o trabalho de Valério nestes nove livros levou mais de uma década, tendo obtido material de Cícero, Tito Lívio, Salústio, Pompeu Trogo, Marco Terêncio Varrão e outros historiadores antigos. Cada um dos nove livros é dividido em vários capítulos (totalizando 91) que encobrem uma ampla variedade de assuntos retirados da vida romana e organizados conforme o foco em virtudes particulares, hábitos morais e imorais, práticas religiosas, superstições e tradições antigas. Esse trabalho é o uso mais antigo conhecido de um sistema de organização hierárquica para tópicos de um livro.
Assuntos
Presságios
thumb|upright=1|Lupa Capitolina: loba com Rômulo e Remo thumb|upright=1|Um ginete rodeado por pássaros de bom augúrio, ao qual se aproxima uma Nice levando louros de vitória. Cílice lacônio de figuras pretas,
Um exemplo dos temas abordados por Valério são suas histórias sobre os presságios. Ele nota que a observância de presságios tinha conexão com a Religião na Roma Antiga dado que muitos homens acreditavam que eles eram da providência divina. Valério relata que os presságios desempenharam um importante papel quando Roma foi destruída pelos gauleses em , e o senado estava deliberando se dever-se-ia mover Roma para Veios ou reconstruir os muros da cidade. Enquanto a questão estava sendo deliberada algumas coortes retornaram de seu serviço de guarda. O centurião deles, então, começou a gritar no lugar de reunião, "porta-estandarte, levante o estandarte; este é o melhor lugar para nós ficarmos." A cidade foi reconstruída naquele mesmo lugar, pois interpretaram suas palavras como um presságio.
Auspícios
No capítulo 4 do livro primeiro, Valério trata sobre a superstição em auspícios. Auspícios significam "observações de pássaros", advindo das palavras latinas avis (pássaro) e spicere (observar ou vigiar). Antes de fazer algo de grande importância, o romano "tomaria os auspícios" de modo a determinar o que os deuses aprovavam. Então, realizava-se a examinação do comportamento dos pássaros na fuga e alimentação, o qual era interpretado por um áugure como a vontade dos deuses.
Uma história romana que Valério transmite diz respeito à fundação de Roma por Rômulo e Remo. Relata-se que a fundação da cidade foi baseada em auspícios. Remo foi o primeiro a "tomar os auspícios" ao ver seus abutres, e Rômulo depois viu 12 abutres. Rômulo alegou que tinha uma reivindicação maior, pois viu uma quantidade maior, ainda que Remo tenha sido o primeiro a avistar os abutres.
Valério também registra uma história estrangeira neste tema para uma comparação: a fundação da cidade de Alexandria, no Egito. Esta foi fundada por em , tendo por arquiteto Dinócrates. Ele relata que quando Dinócrates estava indo desenhar uma grande cidade no Egito, ele não tinha cal para usar para escrever. Em vez disso, usou uma grande quantidade de cevada e organizou os planos no chão. Um grupo de pássaros veio de um lago próximo e comeu a cevada, o que o áugure egípcio interpretou como indício de abundância de alimentos para a futura cidade.
Modéstia
thumb|esquerda|upright=0.7|Busto de
Valério escreve sobre o tema da modéstia no capítulo 5 do livro 4, abordando, por exemplo, o fato de que não havia assentos separados para os Pais Conscritos (senadores romanos) no teatro. Isso ocorreu dos primórdios de Roma no até o tempo do consulado de Cipião Africano e Tibério Semprônio Longo em Apesar disso, nenhum membro da plebe sentou em frente aos Pais Conscritos. Seu respeito por esta tradição também foi mostrada quando um dia Lúcio Quíncio Flaminino sentou-se muito atrás no teatro: ele foi situado ali, pois foi removido do senado romano por e Lúcio Valério Flaco. Flaminino já havia mantido o ofício de cônsul e era o irmão do Tito Quíncio Flaminino (cônsul em ), que tinha derrotado na Segunda Guerra Macedônica em Apesar de sua expulsão, em respeito a sua proeminência, toda a audiência colocou Flaminino à frente de modo que nenhum estivesse em sua frente.
Valério ilustra outra história de modéstia quando ele escreve sobre Caio Terêncio Varrão. Varrão devastou a República Romana quando começou a batalha de Canas contra Aníbal, uma das piores batalhas da história registrada. Seu senso de vergonha não o permitiu aceitar a ditadura, embora fosse oferecida a ele, pois as pessoas da república atribuíram a grande derrota à ira dos deuses. Na inscrição sob sua máscara mortuária é mostrado que seu bom caráter lhe trouxe mais honra que muitos dos homens que tornar-se-iam ditadores.
Valério relata outra história de modéstia quando o rei Hierão II de Siracusa ouviu sobre a desastrosa derrota romana na batalha do Lago Trasimeno. Ele imediatamente enviou alqueires de trigo, de cevada e 190 quilos de ouro. Para que o ouro fosse aceito, ele apresentou-o na forma de uma estátua da Vitória, e os romanos aceitaram-na por motivos religiosos.
Maternidade e paternidade
thumb|Pintura do retratando Cornélia proclamando "estas são minhas joias" em referência a seus filhos thumb|upright=0.6|Pintura de Ticiano sobre o estupro de Lucrécia
Outro exemplo dos temas de Valério é quando escreve histórias sobre os pais romanos e a afeição deles para com suas crianças, como, no capítulo 4 do livro 4, quando, ao tratar da pobreza, relata a história dos irmãos Gracos, Caio e Tibério. Nesta história é relatado como um dia Cornélia Africana, a mãe deles (ela era filha de Cipião Africano), foi incomodada por uma dama hóspede que estava exibindo suas elegantes joias. Cornélia pacientemente suportou essa dama até seus filhos virem para casa da escola. Então, apresentando-os à dama, ela proclamou orgulhosamente: "estas são minhas joias."
Outro exemplo, no capítulo 8 do livro 8, é sobre o filósofo Sócrates. demonstrando um lado íntimo que não competia com sua estatura, pois, como Valério coloca, nenhuma parte da sabedoria foi escondida dele. Ele mostra como Sócrates fez um cavalinho de pau de cana para seus filhos. Ele então brincou com eles mostrando o lado parental de Sócrates.
Valério escreve muitas histórias de outros pais romanos que geralmente são contrários à imagem estereotipada de serem brutais e ríspidos. Alguns destes exemplos estão no capítulo 7 do livro 5 intitulado "O amor e indulgência dos pais com seus filhos". Ele escreve que os pais reais são aqueles que são benignamente permissivos e mostram indulgência, relatando com deleite que este tipo de pai poderia ser encontrado nas ruas de Roma e que estes pais eram tão gentis quanto pais em uma comédia. Ele descreve, contudo, no capítulo 8 do livro 5 sobre pais que eram severos com seus filhos e alguns pais romanos abusivos que eram patriarcas tirânicos matando e assassinando outros, incluindo aqueles de seu próprio sangue, não mais desempenhando o papel de pais amorosos.
Valério escreve de Lúcio Júnio Bruto, que matou seus filhos por falharem em seus deveres militares, deixando o papel de um pai e atuando como cônsul. Outros exemplos dessa mudança de função podem ser encontrados no livro 6. No capítulo 1.5, em que Valério conta a história de Quinto Fábio Máximo Eburno, Eburno tinha mantido os mais altos ofícios públicos com grande esplendor e terminou sua carreira com muita dignidade; contudo, ele tinha punido seus filhos por sua castidade duvidosa. No capítulo 1.6, Valério escreve sobre Públio Atílio Filisco, que foi abusado quando criança. Quando ele tornou-se adulto, Filisco tornou-se um pai rigoroso sobre a castidade. Ciente dos atos sexuais pré-matrimoniais de sua filha, ele assassinou-a.
O papel da mulher
No livro 6, ao tratar da Castidade, relata o estereótipo feminino como sendo bem-comportada e que enfrentaria a morte em vez da desonra. Uma história é a de Lucrécia no capítulo 1.1. Ele escreve que ela foi violentamente forçada a fazer sexo com Sexto Tarquínio, o filho do rei . Lucrécia não pôde suportar a desgraça e cometeu suicídio. Outro exemplo é sobre Hipona, uma mulher grega que também cometeu suicídio para não ser estuprada. Valério até mesmo escreveu no livro 2, capítulo 6.14, de como o sati era uma prática modelar admirável para todas as mulheres seguirem em seu dia.
Homossexualidade
Valério escreveu sobre a homossexualidade, abordando a homossexualidade masculina no exército romano e a classe superior. Ele não relata a homossexualidade feminina, como alguns escritores fizeram naquele período.
Exército romano
thumb|esquerda|Xilogravura de Quiomara impressa por Johannes Zainer 1474
Nas histórias do exército romano, Valério sempre relata personagens militares do alto escalão tomando vantagem de sua posição. No capítulo 1.10 do livro 6, Valério conta a história de Caio Cornélio. Ele foi recompensado quatro vezes com o posto de centurião sênior de sua legião por seus superiores. Contudo, Caio Pescênio, um triúnviro capital () em , lançou-o na cadeia algemado e acorrentado por ter relações sexuais com um jovem nascido livre. Cornélio não negou as acusações e estava preparado para fazer um sponsio (garantia legal). Ao fazê-lo, Cornélio estava fazendo uma declaração e apresentando uma quantia em dinheiro como garantia da verdade. Segundo a declaração dele, o jovem abertamente e de bom grado vendeu seu corpo por dinheiro. Os tribunos recusaram-se a permitir isso, uma vez que eles pensavam que soldados da República Romana não deveriam fazer acordos nos quais eles podiam pagar por prazeres domésticos enfrentando perigos no exterior. Cornélio passou o resto de sua vida em prisão.
No capítulo 1.11 do livro 6, Valério conta a história de Marco Letório Mergo. Comínio e um tribuno da plebe convocaram Mergo, um indivíduo de carreira militar sênior, diante do povo devido às suas relações sexuais com homens e mulheres jovens fora de seu casamento. Ele foi processado e enviado à prisão.
No capítulo 1.12 do livro 6, Valério conta a história de Quiomara. Quiomara era a esposa de Ortíago de Galácia. Durante a Guerra Gálata contra a República Romana, em , Cneu Mânlio Vulsão conseguiu vencer e subjugar todos os gálatas. Um de seus centuriões foi encarregado de um grupo de cativos. incluindo Quiomara, a quem ele violentou. O centurião então solicita um resgate por ela a seus familiares. Depois de receber o resgate, enquanto contava as moedas de ouro, Quiomara sinalizou aos que foram buscá-la para que o matassem e cortassem a sua cabeça. Ela depois presenteou seu marido com a cabeça do centurião.
Visões políticas
thumb|Moeda cunhada por Lúcio Apuleio Saturnino thumb|"Mário em meio as Ruínas de Cartago" por John Vanderlyn
As visões políticas de romanos ordinários basicamente não foram escritas por muitos dos escritores antigos. Valério, contudo, aborda os costumes populares de Roma como uma sociedade democrática.