Uíge (por vezes erroneamente grafada como Uíje) é uma das 21 províncias de Angola, localizada na região norte do país. Sua capital está na cidade e município de Uíge.

Segundo as projeções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, conta com uma população de habitantes e área territorial de .

É constituída por 23 municípios: Alto Zaza, Ambuíla, Bembe, Bungo, Cangola, Damba, Dange Quitexe, Lucunga, Mabanza Sosso, Maquela do Zombo, Massau, Milunga, Mucaba, Negage, Nova Esperança, Puri, Quimbele, Quipedro, Sacandica, Songo, Sanza Pombo, Uíge e Vista Alegre.

A província recebe a alcunha de "terra do bago vermelho" ou "terra do grão vermelho", em alusão ao seu sustentáculo econômico, as imensas lavoras de café.

Etimologia O nome da província deriva da localidade do Uíge, onde foi fundado um posto militar pelos portugueses em 1917, que viria a ser a sede da circunscrição do Bembe a partir de 1923 e posteriormente sede do concelho do mesmo nome.

Há várias explicações para o nome Uíge, que comporta também as grafias Uíje (língua portuguesa arcaica) e Wizi (língua congo), onde a principal vertente diz vir de uma expressão da língua congo "wizidi", que significa "chegada", em alusão aos primeiros portugueses que se fixaram na região. Outra vertente correlaciona o nome ao rio Uíge.

De 1887 a 1961 a província do Uíge conservou o nome "Congo".

História

Durante a Idade Média, a província do Uíge foi uma das áreas vitais do reino do Congo, uma entidade nacional dos povos congos localizada a norte e a sul do rio Congo, e também, em determinados períodos, pelos ambundos, localizado mais para o sul. Os monarcas do Reino do Congo viviam na cidade de Mabanza Congo, governando com grande autoridade, por vários séculos, toda a região. O seu reinado foi reforçado pela chegada de padres portugueses que viviam na corte do rei e ensinavam religião, bem como promoviam a alfabetização. A interacção com o domínio português sobre Luanda foi durante um longo período de tempo bastante marginal. A mudança ocorreu quando, no início do , os portugueses iniciaram a conquista e ocupação do território que actualmente constitui Angola. No início do , o Reino do Congo ainda existia "no papel", assim como o tribunal de Mabanza Congo, mas tinha perdido qualquer poder efectivo.

Do reino do Congo ao período colonial

miniatura|esquerda|200px|Uma máscara Hemba, no Museu do Brooklyn (2012), cultura pré-colonial dos povos basucos, que desenvolveu-se na província do Uíge. Os contactos com os portugueses permitiram aos congos a abertura ao Atlântico e com isso desenvolveu-se o tráfico de escravos. Porém, as boas relações com Portugal foram muitas vezes dificultadas por tensões resultantes do tráfico de escravos. Por sua vez, as influências de missionários católicos manteve-se até ao século XVII, mas a sua actividade conheceu um grande declínio até à segunda metade do século XIX, e, quando foi reactivada, passou a ter concorrência dos protestantes da Igreja Baptista, que passaram a ter grande influência na formação de elites letradas e líderes comunitários.

No território da província desenvolvia-se uma entidade política tributária do reino do Congo, que inicialmente era uma província e depois tornou-se o "ducado de Bambata", que tinha como sede a cidade de Maquela do Zombo. Era uma entidade poderosa e seu território vital para o reino do Congo. Outra entidade poderosa foi o país Damba-Sosso, com capital em Mabanza Sosso, que dominou o centro geográfico uigino, tornando-se, depois, a província Sosso do reino do Congo.

Em 29 de outubro de 1665, teve lugar em território uigino, em Ambuíla, a batalha de Ambuíla que seria fatal para o reino do Congo. Nela, foi morto o rei António I do Congo e, com ele, perto de cinco mil homens, entre os quais muitos dos seus colaboradores. A cabeça do rei foi enterrada com solenidade de monarca cristão na Igreja da Nazaré, em Luanda, onde, ainda hoje, se encontram azulejos alusivos à batalha de Ambuíla. O reino do Congo fragmentou-se após a derrota em Ambuíla, fazendo surgir várias unidades políticas nos seus antigos domínios, como os reinos Sosso, Pombo e Damba, à parte.

Resultados da Conferência de Berlim no Uíge Antes da Conferência de Berlim o interesse português nas terras do Uíge assentava-se basicamente na exploração das minas de cobre de Mavoio, no Bembe, que iniciou-se em 1857, onde chegou-se a permitir a exportação de um importante quantitativo de minério, antes do seu encerramento devido às dificuldades de transporte para o Ambriz.

Após a Conferência de Berlim Portugal apressou-se para criar o "distrito do Congo", em ato no dia 31 de maio de 1887, cuja primeira capital foi a cidade de Cabinda Anteriormente os lusitanos já haviam buscado firmar o protetorado do Congo Português, criando o distrito como entidade administrativa.

Evolução administrativa e territorial Em 1914 o governador colonial José Norton de Matos decide por dar início a reestruturação da vila de Maquela do Zombo para fazê-la capital do distrito do Congo, no intuito de rivalizar com Quinxassa e Brazavile. Maquela do Zombo torna-se capital em 1917, porém a saída de Norton de Matos da função de governador colonial fez o projeto de construção de infraestruturas naquela localidade declinar, mantendo-se precariamente como capital do distrito do Congo até 1946.

No local onde hoje se encontra a cidade do Uíge, foi criado, pela portaria nº 60, de 6 de abril de 1917, um posto militar. Em 1923, o posto passou a sede da circunscrição e, mais tarde, ao de conselho do Bembe. A importância crescente da cultura do café e a subida do seu preço no mercado internacional, provocaram alterações radicais na economia do distrito do Congo, como por exemplo a estruturação da via de escoamento Estrada Uíge-Luanda (atual EN-120).

Em 1919 ocorre a primeira perda territorial do distrito do Congo, com a criação do distrito de Cabinda, no extremo-norte, e; 1922 o distrito do Congo divide-se em dois para dar origem ao distrito do Zaire. Esse quadro permanece até 1930, quando o Congo passa a tutelar a "Intendência-Geral de Zaire e Cabinda".

Em 1946 o governo colonial decide transferir definitivamente a capital da cidade de Maquela do Zombo para a vila do Uíge, esta última a partir de 1955 passando a denominar-se vila Marechal Carmona.

Em 1954, o distrito do Congo absorve juridicamente a parte sul da Intendência-Geral de Zaire e Cabinda, restando ainda sob sua tutela somente a "Intendência-Geral de Cabinda". Em 1955 a Intendência-Geral de Cabinda torna-se novamente distrito de Cabinda (atual província de Cabinda), desligando-se da tutela do Congo.

Posteriormente, pelo diploma legislativo ministerial nº 6, de 1 de abril de 1961, foi mudado o nome do distrito do Congo, passando a denominar-se "distrito do Uíge", e; a partir de terras divididas do distrito do Uíge, o mesmo ato recriou o distrito do Zaire (atual província do Zaire). Em 1972 todos os distritos angolanos tornaram-se províncias.

Período das guerras

A cultura do café passou então a marcar a história de quase toda a região. Porém, factos como a usurpação de terras férteis, o trabalho forçado nas plantações dos colonos, o pagamento de impostos injustos, a obrigatoriedade da cultura do café e prejuízo a alimentares, contribuíram para o acontecimento dos ataques ao norte de Angola em 1961, promovidos pela Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA; àquela altura ainda como UPA), operação guerrilheira relâmpago que abrangeu praticamente todo o norte e noroeste de Angola. Por ser zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores ambundos e ovimbundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela FNLA/UPA para fazer seu primeiro ataque, no município de Quitexe. O ataque guerrilheiro, que marcou o início definitivo da Guerra de Independência de Angola, teve um alto grau de violência, com a resposta dos colonizadores sendo ainda mais violenta e desproporcional, atingindo basicamente inocentes. thumb|200px|esquerda|Rodovia EN-120, a antiga Estrada do Café, que liga a província do Uíge às províncias do Bengo e Luanda. A revolta provocou importantes mudanças na política colonial portuguesa. Uma delas foi a reforma legislativa que abrangeu a concessão de terras, o trabalho forçado, a organização administrativa, o poder tradicional, os impostos e os mercados rurais. A contraofensiva portuguesa, aliada a intensa propaganda psicológica, provocou o regresso de grande parte da população que se havia refugiado nas matas ao convívio com os portugueses. Foram criadas as aldeias da paz em pontos estratégicos e teve início um novo tipo de relacionamento com os cafeicultores nativos, que representou um importante incentivo à produção de café e contribuiu, num primeiro momento, para atenuar a ação dos nacionalistas.

Com a montagem da IV Região Militar do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), abrangendo as Lundas (Norte e Sul), Malanje e Uíge, e o estabelecimento da Rota Agostinho Neto, a partir de 1968 os confrontos militares ganham um terceiro ator de peso (MPLA) que passa a operar com bastante sucesso no vale do rio Cuango (zona entre Cangola, Puri, Sanza Pombo, Milunga e Massau), com os portugueses conseguindo manter estrategicamente a zona central montanhosa de Mucaba, Negage e Carmona/Uíge e a FNLA a operar basicamente na zona do Bembe, de Ambuíla e Sacandica.

Mesmo com a guerra em curso, a região do Uíge chegou a produzir 74 mil toneladas de café comercial nos primeiros anos da década de 1970 quando a produção nacional havia atingido o máximo de 180 mil toneladas.

Uíge continuou a ser uma província muito castigada pelos conflitos, mesmo após a independência nacional, visto que não ocorreu a pacificação, mas a evolução para a Guerra Civil Angolana, de 1975 a 2002. Os habitantes da província tiveram suas casas destruídas e as infraestruturas uiginas foram seriamente abaladas, fazendo, do Uíge, uma das províncias mais pobres de Angola.

Se não bastasse a própria guerra civil, o território provincial uigino chegou a sofrer as consequências da Segunda Guerra do Congo, no episódio que ficou conhecido como a Operação Kitona, onde tropas estrangeiras a invadiram.

Pós-guerra O pós-guerra, em 2002, fez ressurgir a economia do café, que praticamente havia se extinguido desde a metade da década de 1970, fazendo com que as infraestruturas, como estradas e aeroportos, fossem revitalizadas.

Começando em outubro de 2004 e continuando em 2005, a província de Uíge foi o centro de um surto de febre hemorrágica de Marburg, uma doença intimamente relacionada ao ébola. Foi causada pelo vírus de Marburg, que é um vírus de RNA que causa a doença do macaco verde. Agora considerado sob controle, houve 374 casos com 88% de mortes. De acordo com a Organização das Nações Unidas, foi, na época, a pior epidemia mundial de qualquer tipo de febre hemorrágica.

Geografia A província faz fronteira a oeste com a província do Zaire, a norte e a leste com a República Democrática do Congo, a sudeste com a província de Malanje, e a sul com as províncias do Cuanza Norte e do Bengo.

Clima Na província encontram-se dois períodos climáticos bem definidos, sendo um chuvoso, denominado inverno, de outubro a maio e; um seco, denominada verão, de junho a setembro.

Segundo a classificação climática de Köppen-Geiger, é predominante na província o clima tropical de savana (Aw/As), com temperaturas variando entre 22ºC e 25ºC..

Hidrografia Os seus rios principais são: Cuango, Zadi, Dange, Lúria, Lucala e Luvulu. A principal bacia de irrigação é a do rio Congo.

Ecologia, flora e fauna thumb|esquerda|200px|O tradicional vilarejo do Quimbo, em Uíge, em 2008.