Richard McGee Morse, (Summit, New Jersey, 26 de junho de 1922 - Pétionville, Haiti, 17 de abril de 2001) foi um pensador norte-americano especialista em América Latina, com ênfase no aspecto histórico-cultural.
Biografia
Graduou-se pela Hotchkiss School, cursou Letras na Universidade de Columbia. Foi aluno de Allen Tate e R. P. Blackmur. Realizou estudos em Cuba, México, Chile, Argentina, e Brasil, formou-se, com louvor, na Escola de Assuntos Públicos e Internacionais. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando serviu na Marinha de Guerra, no front do Pacifico, continuou sua carreira acadêmica, tornando-se um especialista em América Latina. Da sua experiência em Cuba, em 1942, resultou o romance intitulado "The Narrowest Street". Em 1947, veio ao Brasil realizar pesquisas para sua tese. Em São Paulo, entrou em contato com acadêmicos da USP, como Antonio Candido e Fernando Henrique Cardoso, de quem ficou amigo. Em 1952, Morse recebeu seu Doutorado/Ph.D., em História, com a tese "De Comunidade a Metrópole: Uma Biografia de São Paulo", 1958, um clássico. Casou-se com a cantora haitiana Emerante de Pradine, em 1954, tiveram dois filhos, um reside no Haiti, e a filha em Washington. Richard Morse faleceu aos 78 anos, vítima de Alzheimer, em sua residência em Pétionville, Haiti.Richard Mcgee Morse, 78, latin-america expert, NYTimes Código Morse, UFMG
Carreira
Morse atuou na Universidade Columbia, Universidade de Porto Rico, Universidade de Yale, e Universidade de Stanford, terminou sua carreira no Woodrow Wilson Center, como Secretário de Assuntos Latino Americanos, entidade associada ao Smithsonian Institution em Washington DC. Foi Diretor dos Estudos Latino-Americanos da Universidade Yale, antes de se transferir para Stanford, no fim dos anos 70. Morse foi o primeiro acadêmico nos EUA a apresentar uma análise não tradicional das relações entre os EUA e a América Latina, afirmando que seu país tinha muito a aprender com a cultura latino-americana. Richard Morse foi o fundador do Institute of Caribbean Studies em Porto Rico. Em 1993, Morse foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais elevada honraria da república brasileira para estrangeiros, por suas contribuições para a cultura nacional.
Pensamento
Sua obra mais conhecida O Espelho de Próspero foi publicada em 1988. O título é inspirado na peça A Tempestade de William Shakespeare, de 1613, a última peça do escritor inglês, e serve como metáfora da relação entre a América anglo-saxônica e a América ibérica. Bela na forma e atraente pela erudição.
Richard Morse propõe uma inversão do olhar sobre o continente, a América Latina ou Caliban, não mais deveria se ver e se julgar como o oposto da bem sucedida e próspera América do Norte, ou Ariel, mas sim, com seus próprios critérios, com os parâmetros do seu projeto de civilização e cultura. Antes de se considerar o lado imperfeito do Novo Mundo, um projeto fracassado do Ocidente, uma civilização abortada, deveria, procurar se entender como uma alternativa histórica legitima, que difere da trajetória dos EUA, mas que não lhe é inferior.
Morse procura compreender como sociedades tão semelhantes nos séculos XVI e XVIII produziram sociedades tão diferentes nos séculos posteriores. (Cfr “Pré-história do Novo Mundo” e a “História do Novo Mundo” in O Espelho do Próspero) A originalidade dessa "outra América" é o que Morse deseja revelar. Não há razão para a América Latina se considerar inferior, em termos intelectuais ou morais, incapaz de realizar seus objetivos, e tampouco definir-se como uma experiência de modernidade malograda. Ao contrário da linha sociológica tradicional de análise da realidade latino-americana, Morse afirma que a região é possuidora de uma rica experiência humana e humanística, capaz de gerar ensinamentos para a sociedade contemporânea, em face do esvaziamento de sentido ou do niilismo contemporâneo. Sua abordagem deseja causar uma inflexão no modo como os EUA e o mundo entendem a América Latina.
Os Estados Unidos devem começar a observar esse outro como o próspero, o mundo latino como uma via de redenção, na busca de sua essência perdida na riqueza cultural da região. A sociedade americana é retratada por ele como uma reprodução distorcida da Europa, sem suas solenidades e formalismos, uma reprodução empobrecida, ou inferior, da Inglaterra, incluindo a contribuição dos imigrantes europeus e a América Latina é vista como uma realidade social, política e cultural mais profunda, mais rica e autêntica. A Redescoberta da Cultura. O Espelho de Morse, por Simon Schwartzman
A preferência da cultura latina pelas humanidades em relação às ciências empíricas expressa uma cultura com questões mais profundas, mais reflexiva, em contraste com o predomínio do interesse pelo conhecimento empírico, analítico, do mundo anglo-saxão.
Richard Morse elogia a visão escolástica, o tomismo, o sentido de totalidade, a unidade Estado-Igreja, a concepção orgânica da nação . Admira a cosmovisão do catolicismo, a ordem estamental, a sociedade organizada como uma catedral, as hierarquias sociais, o sentido de pertencimento e as identidades da sociedade pré-liberal ou pré-moderna. O Estado dotado de um conteúdo ético intrínseco que serve como referência externa para todos, incluindo os governantes. (Cfr. O Espelho do Próspero)
Os valores liberais não se tornaram o fundamento dessa sociedade devido a um bloqueio cultural. Há um choque dos princípios liberais com o universo simbólico das sociedades latino-americanas. Morse faz a crítica do contratualismo, do relacionamento formal entre indivíduos racionais, a disposição das liberdades individuais, na forma de direitos e deveres. Essa comunidade se perdeu com a independência, mas a ideia se manteve no inconsciente coletivo. A unidade foi desfeita, mas a busca dessa comunidade anterior persistiu. (Cfr. O Espelho do Próspero)
A abordagem otimista de Morse em relação à cultura latino-americana e as possibilidades da América Latina assemelha-se a de Gilberto Freyre, no caso do Brasil colonial e do período monárquico em relação a República. Há muitas convergências entre as duas empresas intelectuais como o escopo de recuperação da história, da tradição cultural. O desejo, enfim, de apresentar uma nova visão do passado, não negativa e pessimista, mas uma retrospectiva, na qual, as diversas contribuições são pesadas, de modo a fornecer elementos para pensar o futuro. O mesmo se pode dizer das suas afinidades com o pensamento de Sergio Buarque de Holanda.
As raízes do Brasil no Espelho do Próspero A ciência e as pesquisas continuam possuidoras da mesma importância, porém, a Universidade deve estar aberta para novas formas de comunicação com as massas, suas lutas e reivindicações. E deve se enriquecer com a cultura humanística. As humanidades sempre enriquecem a ciência e a cultura, orientando a técnica.
Morse declara fazer um balanço do passado, pesando seus elementos, realizando uma nova leitura em retrospectiva, produzindo uma interpretação que se pretende original. Sua abordagem holista não guarda relação com posturas políticas autoritárias ou reacionárias, sejam elas de esquerda, como o stalinismo, ou de direita, a linha fascista, ou de matriz católica.
Ele reafirma seu compromisso com a democracia, sendo um liberal convicto, no sentido americano do termo. Morse, contudo, verifica a necessidade de se combater o individualismo crescente da era pós-moderna. Lembra que a história possui trajetórias distintas e a América Latina não deve se considerar um equívoco, muito ao contrário disso. Portanto, contra a crise da pós-modernidade, a busca de sentido, de valores, nesse universo simbólico pouco explorado, é legitima e salutar.
Os intelectuais devem estar abertos para novas formas de comunicação com a sociedade, para a grande variedade de discursos que se apresentam. A recuperação da mitologia indígena serve como motivação para o projeto nacional, sendo legitima a sua aplicação. Novos discursos e expressões culturais contra a dominação de uma cultura com hegemonia prolongada, que atrofia as possibilidades desse conjunto de sociedades na construção de seu futuro, é o que Morse defende. Ele não nega os aspectos nefastos, as guerras, ditaduras, populismo, projetos frustrados de modernização, mas mostra que há elementos positivos nessa ordem, potencialidades enormes, e que a América do Norte também possui suas falhas, por essa razão, a troca de experiências é fundamental e não a repetição, sem nenhuma criatividade, de velhos discursos na forma de um eterno pessimismo.
Identificar pontos comuns que unem elementos culturais e políticos heterogêneos como iberismo, americanismo, vitalismo, patrimonialismo, lutas populares, ONG, religiosidade africana, democracia racial, teologia da libertação, movimentos de guerrilha, lideranças de caudilhos, lutas sindicais, com o objetivo de contribuir para remover ou reformar os obstáculos ao desenvolvimento humano e material dos povos do continente.
Cabe ao intelectual entender essa dinâmica, interpretar e extrair significados, articular o popular com a elite cultural, recorrendo a autores que lograram apresentar visões que são grandes sínteses, reunindo diferentes graus de entendimento da realidade latino- americana , elaborações bastante completas, explorando sentidos pouco desenvolvidos. Autores como Carlos Fuentes, José Vasconcelos, Leopoldo Zea, Guimarães Rosa, Ortega y Gasset, Julio Cortázar, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, Rubén Darío, Jorge Luis Borges, Francisco Miró Quesada Cantuarias, José Enrique Rodó, José Carlos Mariátegui, e Manuel Bonfim. Destaca os romancistas e ensaístas do continente para pensar o naturalismo e as questões sociais da América Latina, autores como Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e José Américo de Almeida, Jean Price-Mars, Paulo Prado, Gabriel Garcia Marquez, Alejo Carpentier, Rómulo Gallegos , Arturo Ardao, Ciro Alegria, Fernando Ortiz, Ezequiel Martínez Estrada, Ángel Rama, José Luis González, José Lezama Lima, Martín Luis Guzmán e Alfonso Reyes A multiplicidade da busca pela identidade na América Latina no século XX na visão de Richard Morse e Gerald Martin, por Beatriz Helena Domingues
Morse deseja que o pesquisador encontre nesses autores, nos movimentos sociais e nos discursos, as novas ideias e identidades, as formas de pensar a realidade social, com alegorias, desfiando as categorias nativas, um mergulho na rede de categorias para pensar seus valores, sua origem e seu futuro, seu modo de conceber o universal. Morse como Louis Dumont pensa o holismo como reação ao individualismo. As novas perspectivas para enriquecer a crítica da cultura, no estilo da Escola de Frankfurt, contra a dominação cultural e com o auxilio do perspectivismo de Ortega y Gasset, a revalorização do tradicional na crítica da modernidade.
A obra de Morse gerou enormes polêmicas em vários países do continente, muitos defendendo e outros atacando a sua perspectiva. A crítica de Simon Schwartzman com o título "A Redescoberta da Cultura. O Espelho de Morse" é a mais analítica. "O Espelho do Próspero, um estudo sobre a dialética do Novo Mundo" foi traduzido para o espanhol em 1982, e para o português em 1988 e ainda não para o inglês. Morse tem a peculiaridade de possuir uma grande paixão pelo seu objeto de estudo, a cultura brasileira e latino-americana. A paixão de Morse pelo continente se insere na linha de vários pensadores que narraram as maravilhas dessa fantástica "outra América" como Claude Lévi-Strauss
Projeto Unesco : Ciências sociais e o credo racial brasileiro Revista USP, Marcos ChorReflexos distorcidos no Espelho do Próspero Rodrigo Medina Zagni, Diversitas, FFLCHA volta de Mcluhanaíma. Cinco estudos solenes e uma brincadeira séria, Richard M. Morse
Olhar dos teóricos de fora