Guerrilha do Araguaia foi um movimento guerrilheiro existente na região amazônica brasileira, ao longo do rio Araguaia, entre fins da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970. Criada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), tinha por objetivo fomentar uma revolução socialista, a ser iniciada no campo, baseada nas experiências vitoriosas da Revolução Cubana e da Revolução Chinesa.ÂNGELO, Vitor Amorim de. Guerrilha do Araguaia: Luta armada no campo, http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/guerrilha-araguaia.jhtm em 11/10/2001

Combatida pelas Forças Armadas a partir de 1972, quando vários de seus integrantes já haviam se estabelecido na região há pelo menos seis anos, o palco das operações de combate entre a guerrilha e os militares se deu onde os estados de Tocantins, Pará e Maranhão faziam divisa. Seu nome vem do fato de se localizar às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo do Araguaia e Marabá no Pará e de Xambioá, no norte de Goiás (região onde atualmente é o norte do estado de Tocantins, também denominada como Bico do Papagaio).MORAIS, Tais de. SILVA, Eumano. Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 2005. 656p.

Estima-se que o movimento era composto por cerca de oitenta guerrilheiros sendo que, destes, menos de vinte sobreviveram, entre eles o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Genoíno, que foi detido pelo Exército em 1972, ainda na primeira fase das operações militares. A maioria dos combatentes, formada principalmente por ex-estudantes universitários e profissionais liberais, foi morta em combate na selva ou executada após sua prisão pelos militares, durante as operações finais, em 1973 e 1974. Mais de cinquenta deles são considerados ainda hoje como desaparecidos políticos.Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964 (CEPE - Companhia Editora de Pernambuco Governo do Estado de Pernambuco, Recife 1995)

Desconhecida do restante do país à época em que ocorreu, protegida por uma cortina de silêncio e censura a que o movimento e as operações militares contra ela foram submetidos, os detalhes sobre a guerrilha só começaram a aparecer cerca de vinte anos após sua extinção pelas Forças Armadas, já no período de redemocratização.

História

O PCdoB chega ao Araguaia Nos anos 60 do século XX, a região ao longo do qual corre o rio Araguaia era habitada por brasileiros em sua maioria vindos de outras regiões, principalmente do nordeste do país. Eram homens atrás de terras para o cultivo, garimpeiros atrás de pedras preciosas, caçadores atrás de peles de animais, migrantes procurando todo tipo de trabalho e riqueza que aquelas áreas virgens pudessem oferecer. Famílias inteiras, fugindo da seca nordestina, trabalhavam em fazendas por menos de um salário mínimo. Muitos plantavam mandioca e castanha-do-pará, a maioria analfabetos e explorados pelos poucos proprietários de terra, grileiros do lugar. Era o local ideal, segundo o PCdoB, para o início de uma revolta popular.Gaspari, Elio - A Ditadura Escancarada, As Ilusões Armadas, Companhia das Letras, 2003 A mesma avaliação, depois de descoberta a guerrilha, foi feita pelo Cenimar, o Centro de Informações da Marinha, que informava em relatório que a população da região vivia na miséria, sob o domínio de latifundiários e autoridades municipais corruptas.

A preparação dos guerrilheiros do PCdoB remonta ainda ao ano de 1964, quando os primeiros militantes iniciaram formação político-militar na China, visto que o Partido adotou a linha de guerra popular prolongada de inspiração maoista. Sua defesa da luta armada era anterior a 1964, e contrária à ideia de "foco" cubano e da revolução continental marxista-leninista. Entre 1964 e 1968, dezoito militantes haviam passado por treinamento militar na China, entre eles vários dos que agora se estabeleciam no Araguaia. No Brasil, um primeiro grupo de futuros guerrilheiros realizou seus primeiros treinamentos numa casa em São Vicente, na Baixada Santista, sob a direção e articulação de Armando Gimenez – antigo diretor do PCdoB em São Paulo – e Osvaldo Orlando da Costa.

Apenas quatro meses após o golpe militar, oficiais e sargentos brasileiros foram mandados para curso de combate na selva no Panamá, ministrado num centro de instrução mantido pelos norte-americanos naquele país. Nesta época, as Forças Armadas iniciaram um estudo para efetuar as operações antiguerrilha. Estas foram envolvidas de um planejamento sigiloso que durou cerca de dois anos. Segundo os militares, era indesejável a eclosão de outros movimentos semelhantes em outras regiões do Brasil, pois isto ocasionaria uma eclosão de violência na região rural, o que poderia vir a desestabilizar o poder militar. Entre 1969 e 1971, os militares desmantelaram pequenas bases e infiltrações da ALN e da VAR-Palmares na região do Bico de Papagaio, sem maiores dificuldades, na chamada "Operação Mesopotâmia", manobras de tropas realizadas em Imperatriz, no Maranhão. O embrião da guerrilha do PCdoB, na área do Araguaia, Xambioá e Marabá, porém, continuava desconhecido.

Ponto de partida de uma guerra sem data marcada para começar, a mata também servia para esconder opositores políticos procurados em todas as áreas urbanas do Brasil pela ditadura militar. A partir de 1967, os primeiros combatentes começaram a chegar a área, vindos do sul, sudeste e do Maranhão, onde já se haviam instalado. Entre eles estavam João Amazonas, o líder máximo do Partido, Elza Monnerat, Maurício Grabois, seu filho André Grabois, seu genro Gilberto Olímpio Maria, o médico João Carlos Haas Sobrinho e o gigante negro, engenheiro e campeão de boxe Osvaldo Orlando da Costa, o "Osvaldão", entre poucos outros.

Entre 1967 e 1971, transformaram-se em habitantes locais, abrindo pequenos comércios, bares, prestando pequenos atendimentos médicos de casa em casa, fazendo partos, caçando, pescando, plantando, transportando pessoas e víveres em canoas, abrindo uma farmácia, dando aulas para moradores e fazendo propaganda política em pequenas reuniões, inseridos na pequena e humilde sociedade local. Eram chamados pelos caboclos de "paulistas". Da primeira dezena que havia chegado em 1967/68, no começo da década de 1970 o grupo já contava de mais de sessenta militantes, homens e mulheres, vindos de diversos lugares do Brasil, quase todos jovens estudantes ou profissionais liberais, em preparação para uma revolução, que acreditavam, teria início ali. Usando codinomes, eram 'Cid', 'Mário', 'Dr. Juca', 'Dona Maria', 'Dina', 'Baianinha', 'Regina', 'Sônia', 'Zeca Fogoió', 'Mariadina', "Domingos" e 'Cazuza' entre outros, para os moradores do Araguaia. Eram ex-estudantes de química, arquitetura, geografia, engenharia, letras, física, astronomia, medicina, geologia e até uma trinca de irmãos, os Petit da Silva. Dezesseis já haviam sido presos anteriormente, oito deles no Congresso da UNE em Ibiúna, 1968. thumb|esquerda|250px|Da esq. p/ dir. em sentido horário: João Amazonas, Elza Monnerat, Ângelo Arroyo e Maurício Grabois, comandantes da guerrilha. Eram então cerca de 60 homens e mulheres, espalhados por uma área de cerca 6.500 km², que cobria os principais municípios e vilarejos do sudeste do Pará. Divididos em três destacamentos, A, B e C, o A atuava ao longo da Transamazônica, nas regiões de Faveiro, Fazenda São José, São João do Araguaia e Metade; o B cobria o nordeste da serra das Andorinhas, no chamado vale do rio Gameleira e o C a sudoeste da serra das Andorinhas, cobrindo as bases de Pau Preto, Abóbora e Esperancinha. Usavam de deslocamento constante pela mata e não permaneciam presos à suas bases locais.

Apesar do esforço em se passar e se misturar aos locais, sua aparência, modos e maneira de se expressar não condiziam com a população mais antiga já instalada no Araguaia. O "povo da mata", na linguagem dos caboclos, não fazia sentido naquele ambiente. Aquela "gente sabida" era aceita pela comunidade mas não os enganava. Quando um dos guerrilheiros disse a um caboclo local que um sobrinho de "Cid" era bom de facão, recebeu como resposta: "Deve ser bom mesmo é de caneta".

Sem o conhecimento da população local, para a qual prestavam serviços médicos e davam aulas de alfabetização conquistando a estima do povo, aos poucos o grupo crescia. Com idade média inferior a 30 anos, no auge do vigor físico, estocavam alimentos, munição e remédios em pontos esparsos da mata e faziam treinamento militar, acostumando-se à vida na selva. Aprenderam a fazer fogo e caminhar duzentos metros em mata fechada sem se perder no caminho de volta. Seus integrantes espalhavam-se por uma área de 6,5 mil km², numa extensão de 130 km. O treinamento constante fazia com que alguns deles já fossem capazes de sobreviver sozinhos na mata levando consigo apenas armas, munição, sal e farinha.

Na virada do Ano Novo de 1971-72, os diferentes grupos juntaram-se numa comemoração de réveillon, quando imaginavam poder dar início a seus planos em breve, confiantes pelo tempo na selva. A festa, na região chamada Gameleira, teve comida, bebida e cantoria, e entre pedaços de veado e paca ao leite de castanha, recitaram I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias e cantaram a Internacional Socialista e Apesar de Você, de Chico Buarque de Holanda. Não era até então uma guerrilha pronta para o combate. Com poucas armas e poucos integrantes, a direção do PCdoB acreditava que com mais um ou dois anos de preparação, seria possível deflagrar a guerra de guerrilha rural revolucionária que era uma linha política do Partido, adepto da luta armada, desde 1962. Uma fuga, uma desistência, e duas prisões feita em Fortaleza e em São Paulo, bem longe dali, entretanto, faria com que os serviços de inteligência das Forças Armadas tomassem conhecimento dos guerrilheiros do Araguaia, antes do previsto e desejado.

A descoberta da guerrilha No início de 1972 o governo descobriu a existência da guerrilha e soube disso por informantes diferentes, sem que se possa precisar qual foi o primeiro. Em novembro de 1971, dois guerrilheiros, Pedro Albuquerque e sua mulher, fugiram da área, desistindo da campanha. Em janeiro de 1972 ele foi preso em Fortaleza, no Ceará, e o CIE conseguiu o fio da meada que levava à guerrilha. (Pedro, porém, sustentou ao longo dos anos que seus torturadores já conheciam a estrutura no Araguaia).

A outra informação veio de São Paulo. A mulher do guerrilheiro Lúcio Petit da Silva, um dos irmãos Petit, contraiu hepatite e tuberculose na selva. Saiu do Araguaia em fins de 1971 grávida e com um problema por curetagem mal feita, sendo levada até Goiânia para tratamento. Deveria voltar mas fugiu do hospital e desembarcou em São Paulo atrás da família.

Juntando as informações recebidas, cruzando os dados e mapeando a região, o governo localizou a área e estimou o efetivo da guerrilha. Em março de 1972, agentes da polícia federal passaram por Xambioá perguntando por forasteiros. Como havia outros pequenos focos subversivos por toda a Amazônia, apesar de avisada a guerrilha achou que aquilo não lhe dizia respeito. Em abril, sob o comando do general-de-divisão Viana Moog e do comandante e general paraquedista Hugo Abreu, tropas do Exército Brasileiro entravam no Araguaia.

Operação Papagaio