A Peste ou Praga de Cipriano é o nome atribuído a uma pandemia, provavelmente de varíola ou sarampo, que afligiu o Império Romano por duas décadas durante a Crise do terceiro século. Sua origem é desconhecida, embora os autores clássicos tenham postulado que fosse a Etiópia. Seu nome deriva do Bispo Cipriano de Cartago que descreveu-a ca. 250. Ela afetou inúmeras cidades populosas do período como Alexandria, no Egito, e Roma, na Itália, ceifando milhares de vidas.

Segundo as fontes, no auge da pandemia alegadas pessoas morriam por dia na capital imperial. Ela ainda estava no seu auge de 270, quando é relatado que o imperador romano , à época estacionado com seu exército em Sirmio, falecera de peste. Ela causou uma ampla escassez de mão de obra para a agricultura e o exército e pode ter influenciado, segundo consenso moderno, a expansão do cristianismo do interior do império.

Relatos contemporâneos

thumb|esquerda|Áureo de Décio thumb|esquerda|Antoniniano de Valeriano

Segundo estimado, os primeiros surtos da praga emergem no porção oriental do Império Romano já pelos últimos anos da década de 240, vindo a alcançar a Itália em 248. Em 251, sabe-se que ela vitimou Hostiliano , coimperador de Treboniano Galo e filho de Décio , que falecera lutando com os godos de Cniva na batalha de Abrito. De 250 para 266, no auge do surto, diz-se que pessoas morriam por dia em Roma.

Gregório de Níssa e Eusébio de Cesareia deixaram importantes relatos do aparecimento súbito da peste e de sua terrível violência. Sabe-se por meio deste e doutros relatos que por 256 a doença teria alcançado uma cidade do Ponto Polemoníaco após a reunião de grande quantidade de pessoas no teatro local, como punição pela temeridade dos espectadores em desafiarem Júpiter, em cuja honra a atuação era feita. Em 259/260, o imperador romano Valeriano , que à época estava no Oriente enfrentando invasões de godos e do Império Sassânida sob Sapor I , sofreria pesadas baixas em decorrência da peste, o que lhe custaria uma esmagadora derrota na batalha de Edessa.

Cipriano traçou analogias morais em seus sermões para a comunidade cristã e traçou uma figura de linguagem dos sintomas da peste em seu ensaio Sobre a Mortalidade ():

thumb|upright=0.9|Cipriano de Cartago em óleo sobre tela de Mestre de Meßkirch

O biógrafo de Cipriano, Pôncio de Cartago, escreveu um relato sobre a peste em Cartago:

Em Cartago, a perseguição de Décio, desencadeada no início da peste, procurou bodes expiatórios cristãos como justificativa do surto epidêmico. 50 anos depois, o norte africano convertido ao cristianismo Arnóbio de Sica defendeu sua nova religião das alegações pagãs em seu Aversão dos Povos ():

A peste ainda assolava o Império Romano pelos anos 270: no relato da guerra contra os godos travada por fornecido pela História Augusta afirma-se que "no consulado de Antioquiano e Órfito o favor do céu promoveu o sucesso de Cláudio. Para uma grande multidão, os sobreviventes das tribos bárbaras, que tinham se acumulado em Hemimonto, estavam tão abalados com a fome e pestilência que Cláudio agora desdenhou conquistá-los ainda mais". E "durante essa mesma época, os citas tentaram saquear Creta e Chipre também, mas em todo lugar seus exércitos eram abalados com pestilência e assim foram derrotados." Apesar de tais sucessos, sabe-se que o próprio Cláudio II contraiu a doença e faleceu em Sírmio em 270.

Epidemiologia

thumb|esquerda|Sestércio de Hostiliano . Ele foi um dos primeiros indivíduos a falecerem da doença segundo as fontes thumb|esquerda|Antoniniano de . Ele faleceu da doença em 270, sendo um dos casos mais tardios relatados

A devastação severa da população europeia pela Peste de Cipriano e sua predecessora Peste Antonina pode indicar que a população não possuía exposição anterior - ou imunidade - para a causa. Os autores latinos supuseram que ela originou-se na Etiópia e dali espalhou-se através do Egito em direção a Europa e então por todo o mundo conhecido, do Egito a Escócia. Em cidades como Alexandria a mortalidade foi enorme e o espalhar da peste deveu-se principalmente às inúmeras ações militares nas províncias vizinhas e, portanto, ao grande trânsito de soldados e invasores. Tal situação foi semelhante na Europa, onde as tribos bárbaras repetidamente invadiram a Gália e as províncias do Danúbio.

Segundo o relato de Cipriano, os sintomas da doença eram olhos vermelhos e garganta inflamada, gangrena dos pés e diarreia e vômito contínuos aos quais se seguia perda da audição e cegueira. Segundo outras fontes sobreviventes, os enfermos ainda sentiam febre forte e sede insaciável. De acordo com Cedreno, a doença podia se espalhar indiretamente através das roupas de uma pessoa infectada. Para o estudioso Haeser, provavelmente a praga teria sido uma manifestação de peste bubônica. Ele baseou-se no fato de, segundo os autores clássicos, a doença possuir um ritmo epidêmico sazonal, com sucessivos surtos começando no outono e perdurando até o clima quente de julho. Contudo, devido à carência de relatos que citem bubos ou inchaço glandular como sintomas, tal teoria é considerada falha.

Segundo o historiador William H. McNeill, a Peste Antonina e a Peste de Cipriano foram as primeiras transferências de hospedeiros animais para a humanidade de duas doenças diferentes, varíola e sarampo, embora não necessariamente nesta ordem. O consenso moderno, contudo, parece favorecer a teoria que ambos os surtos eram de varíola. Esta última visão parece mais provável dado um estudo recente que estimou que o vírus do sarampo provavelmente divergiu de seu parente mais próximo peste bovina apenas nos séculos XI-XII. Apesar disso, com base em estudos linguísticos, supõe-se que o sarampo já era conhecido desde entre o período das migrações bárbaras e a fragmentação imperial.

Legado

A Peste de Cipriano propagou-se em meio à chamada Crise do terceiro século, um período caracterizado por sucessivas usurpações, invasores e ataques às fronteiras imperiais pelas tribos bárbaras e pelo Império Sassânida e um exponencial aumento da tributação para arcar com os altos custos da manutenção do exército imperial cada vez mais necessário. Nesse sentido, ela insere-se como um dos fatores importantes para se entender os inúmeros revezes da época. Dentre as consequências imediatas da propagação da doença está a redução da população imperial. Como notado por Haeser:

Pelo período registra-se um decréscimo do número de pagantes de impostos em alguns assentamentos egípcios e na Itália Central detectou-se o abandono de grandes territórios, o que propiciou o desenvolvimento de pântanos e, consequentemente, o surgimento de pestilências, inclusive nas saudáveis áreas costeiras da Etrúria e Lácio. Além disso, o exército, em constante marcha pelo império, também seria afetado, com inúmeros casos relatados da propagação da pestilência entre os soldados.

Outra questão a se considerar é o cristianismo. É postulado pelos estudiosos que a peste de Cipriano teria sido um dos principais fatores que levaram à ampla conversão dos romanos aos cristianismo durante o . Durante este período, segundo o autor latino Barônio, originou-se o costume cristão de trajar preto como uma cor de luto. Tal uso fora registrado no reinado de Adriano , quando o imperador trajou roupas pretas por nove dias após a morte de Plotina, a esposa de Trajano .

Bibliografia

Categoria:Crise do terceiro século Categoria:Pandemias Categoria:Epidemias de varíola Categoria:Medicina da Roma Antiga Categoria:Século III na Europa