Central Única dos Trabalhadores (CUT) é uma central sindical brasileira. A CUT é a mais antiga central sindical em operação no Brasil, bem como a maior do tipo, representando mais de 7,9 milhões de trabalhadores associados em todas as áreas produtivas. É também a maior central sindical da América Latina e a quinta maior do mundo. Seus filiados são denominados "cutistas".

A CUT foi fundada em 28 de agosto de 1983. Juntamente com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), a CUT foi uma das principais organizações a desafiar a ditadura militar de 1964-1985 em seus estágios finais, organizando greves de trabalhadores metalúrgicos, ferroviários e da construção civil na Região Metropolitana de São Paulo.

A CUT historicamente tem desempenhado um papel importante na ala sindical do Partido dos Trabalhadores (PT), que vai desde o compartilhamento de bandeiras de luta laboral e social até a conservação de visões ideológicas semelhantes, muito embora ocorram clivagens importantes relacionadas às políticas econômicas do partido. Os estatutos da CUT proclamam autonomia em relação a governos, patrões e partidos políticos. Em geral, a entidade possui uma ampla heterogeneidade política, ideológica e cultural.

História Antecedentes miniatura|200px|esquerda|Paulo Paim, então deputado constituinte e vice-presidente nacional licenciado da CUT, recebe representantes da CUT que lutavam pela inclusão do direito à greve no texto constitucional de 1988 Antes da fundação da CUT, o chamado "velho sindicalismo", vigente desde a Era Vargas, dominava o modelo sindical brasileiro. A principal prática do varguismo e dos governos subsequentes era tentar integrar os sindicatos ao Ministério do Trabalho. O golpe militar de 1964 expôs o risco aos trabalhadores da manutenção desse modelo, pois garantiu ao regime ditatorial a total tutela dos sindicatos.

Com a abertura política gradual, determinada pelo Presidente militar Ernesto Geisel, vários sindicatos começaram a se reorganizar, ganhando força algumas correntes que pregavam a total ruptura com a tutela governamental. Em paralelo, a abertura política veio acompanhada de imensas greves de trabalhadores das fábricas de automóveis da Volkswagen, Ford e Mercedes-Benz que abalaram a Região Metropolitana de São Paulo entre 1978 e 1980. Nesse contexto, emergiu uma nova geração de líderes sindicais, sendo Lula da Silva o mais proeminente. Outro fator determinante para a fundação da CUT foi o surgimento, em 1980, do Partido dos Trabalhadores (PT), uma agremiação política que preceituava a organização das lutas dos trabalhadores. Essa somatória de cenários deu ímpeto à proposta de convocação de uma "Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras", que buscava reunir correntes de sindicalismo muito mais reivindicativo, formando o "Bloco dos Combativos". Uma das propostas fundamentais era a ruptura com o modelo de sindicalismo tradicional do Bloco da Unidade Sindical — que em 1983 daria origem à Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e em 1985 à União Sindical Independente (USI). Para a realização de tal evento, foi formada a seguinte comissão organizadora: Organização-Geral: Raimundo Rosa de Lima e Joaquim "Joaquinzão" dos Santos Andrade; Finanças: Arnaldo Gonçalves e Lula da Silva; Secretaria e Divulgação: Hugo Perez, Crispim da Cruz e Édson Barbeiro dos Campos.

A 1ª Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras (I Conclat) — um histórico e amplo encontro intersindical realizado no Brasil em agosto de 1981, na cidade de Praia Grande (SP) — marcou a primeira grande articulação nacional dos trabalhadores do campo e da cidade desde o início da ditadura militar em 1964. A tônica do evento estava na luta pela redemocratização do país, havendo, ainda, fortes debates sobre melhorias salariais e a perseguição promovida pela ditadura contra os trabalhadores. No entanto, a proposta pela criação da CUT, defendida pelo PT e pelo Bloco dos Combativos, encontrava resistência na tendência Bloco da Unidade Sindical, que defendia a manutenção da estrutura oficial. As negociações da I Conclat foram particuarmente renhidas. Mesmo sem o consenso, ao final da Conferência o Bloco dos Combativos foi desfeito e foi eleito em seu lugar uma "Comissão Nacional Pró-CUT", composta por 56 membros, sendo 24 representantes de entidades rurais, demonstrando o peso dessa categoria na concepção da CUT. Na Conferência fica definido que, no prazo de um ano, a nova entidade deveria ser organizada, mas isso não se concretizou como planejado pois percebeu-se que o cronograma era curto.

Fundação da CUT e primeiros anos de luta miniatura|200px|esquerda|Membros da CUT presentes na 4ª Marcha da Classe Trabalhadora, ocorrida em 5 de dezembro de 2007, em Brasília Em 1983, com atraso de cerca de um ano, a Comissão Pró-CUT convocou o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), evento a ser realizado na cidade de São Bernardo do Campo (SP). Assim, realizadas as discussões do Conclat, em 28 de agosto de 1983 deu-se o voto geral que fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Naquele Congresso foi eleita a direção nacional colegiada, tendo como coordenador-geral o metalúrgico paulista Jair Meneguelli, com os outros dirigentes sendo Paulo Paim (metalúrgico/RS), João Paulo Vasconcelos (metalúrgico/MG), Jacó Bittar (petroleiro/SP), Abdias José dos Santos (metalúrgico/RJ), José Gomes Novaes (rurais/BA) e Avelino Ganzer (rurais/PA). A concepção e a fundação da entidade se deu a partir da construção definitiva de uma corrente ideológica chamada de "Novo Sindicalismo", que recusava o controle do Estado, rompia frontalmente com o peleguismo e mantinha uma prática sindical reivindicativa.

Seu primeiro teste como entidade criada se deu entre 21 de julho e 21 de setembro de 1983, onde se somou 2 meses de greve contra o Decreto-Lei 2.024, de janeiro do mesmo ano, editado por exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI), que promovia uma avassaladora política de arrocho salarial. Era o princípio do neoliberalismo no Brasil. Foi, também, a primeira vez que a oposição à ditadura conseguiu derrubar algum ato do regime militar.

Logo de início, a fundação da CUT coincidiu com a campanha de massas pelas eleições presidenciais diretas — Diretas Já — na qual a entidade desempenhou um papel ativo de mobilização. A CUT desempenhou um papel central na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, buscando a consagração constitucional de disposições pró-trabalhistas, incluindo o direito à greve, a proibição de demissões arbitrárias, uma semana de trabalho mais curta, licença remunerada e maior proteção para trabalhadores agrícolas e domésticos. A CUT organizou inúmeras greves gerais — principalmente em 1986, 1987 e 1989 — estabelecendo-se como a principal voz do movimento sindical organizado na oposição à austeridade.

Ao longo da década de 1980 e início da década de 1990, a CUT expandiu-se rapidamente, abrangendo trabalhadores dos setores industrial, agrícola e público e desafiando a estrutura fragmentada e peleguista do movimento sindical brasileiro. Desde sua origem, a CUT, assim como o PT, ao qual é fortemente associada, foi modelada na "esquerda ampla" e distinguiu-se por sua heterogeneidade ideológica, englobando correntes que iam da social-democrata e teólogos da libertação, ao trotskismo e outras tendências marxistas. Esse pluralismo interno era regulado por um sistema de representação proporcional nos órgãos diretivos da entidade, que dava voz às minorias sem privar a maioria da liderança geral.

A eleição de Fernando Collor como Presidente do Brasil trouxe mais de uma década de agendas neoliberais que representaram desafios agudos para a CUT. Os governos Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) implementaram políticas radicais de neoliberalização da economia, incluíndo a privatização, larga abertura comercial, precarização do setor público e desmantelamento da legislação trabalhista, às quais a CUT se opôs ativamente. Particularmente, a liberalização comercial expôs a indústria nacional a uma implacável concorrência internacional, particularmente nos setores automotivo, químico e metalúrgico — os redutos originais da Central —, o que causou desindustrialização, perdas significativas de empregos, diminuição do padrão de renda e o empobrecimento geral da classe trabalhadora, o que minou a capacidade de luta dos sindicatos filiados. Para frear o arrocho salarial e o avanço neoliberal, a CUT promoveu imensas mobilizações trabalhadoras em 1990 e 1991, particularmente contra as perdas inflacionárias, e em 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997, contra as políticas de austeridade e privatizações. Outras mobilizações setoriais de relevo encabeçadas pela CUT foram as greves dos petroleiros de 1991 e de 1995.

Dentro da organização, o debate sobre estratégia intensificou-se na década de 1990. A corrente da Articulação Sindical, alinhada à direção do PT, defendia uma abordagem mais pragmática e conciliatória em relação à burguesia e ao estado capitalista. Correntes mais radicais resistiam a esse afastamento dos princípios de classe estabelecidos na fundação da CUT. Essas contradições nunca foram totalmente resolvidas e se intensificaram nas décadas seguintes. Nesse período, a CUT, orientada pelos conceitos do internacionalismo proletário, também expandiu sua presença internacional: em 1992, filiou-se à Confederação Internacional de Sindicatos Livres (CISL; atual Confederação Sindical Internacional (ITUC-CSI)) e participou ativamente das estruturas sindicais regionais da América Latina, desempenhando um papel fundamental na criação da Coordenação Sindical do Cone Sul (CCSCS), que interagiu com o processo de integração no Mercosul.

Ascensão do PT ao poder (2003-2016) miniatura|200px|esquerda|Trabalhadores cutistas em manifestação durante ato contra as reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer, em São Paulo, durante a greve geral de abril de 2017 A eleição de Lula da Silva como presidente em 2002 mudou fundamentalmente o contexto político em que a CUT atuava. Pela primeira vez na história, um parceiro político fundador da Central chegou ao poder no executivo nacional. Isso criou uma relação extremamente complexa. A CUT apoiou os programas sociais dos governos do PT e obteve espaço privilegiado na sugestão de elaboração de políticas públicas, além de ter fornecido nomes de vasta experiência sindical para cargos-chave no governo. No entanto, essa interação também gerou tensões. O ortodoxismo econômico do governo Lula, seus compromissos com a burguesia nacional e com seus parceiros de coalizão política-governamental, a manutenção de altas taxas de juros, as privatizações e concessões privadas e a implementação de uma reforma da previdência para servidores públicos em 2003 — à qual a CUT se opôs — expuseram os limites da influência sindical sobre o governo.

Em março de 2004, alguns setores e categorias sindicais, insatisfeitos com as políticas de conciliação de classes do governo Lula e a parca autocrítica à tal situação na CUT, separaram-se da entidade para formar a Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas). A Conlutas representava de 30 a 40 % da direção da CUT e estava mais próxima do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) — eles próprios facções dissidentes (predominantemente socialistas e trotskistas) que surgiram do PT. Em 2007, líderes associados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) criaram a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), e em 2014 líderes associados ao PSOL e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) formaram a Intersindical-Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora (estava em processo de ruptura desde 2005).

Pós-2016