"Branca estais colorada" ou "Branca estais e colorada" (na grafia original: Blanca estais colorada) é uma cantiga anónima, particularmente célebre, com que termina o Auto da Feira (1527) de Gil Vicente.

Apesar de alguns autores a atribuírem ao próprio dramaturgo e da sua única fonte conhecida ser o Auto da Feira (escrito para o Natal de 1527 e publicado na Compilação de 1562), não existem garantias que seja de facto uma obra original vicentina, uma vez que este se apropriava frequentemente de músicas conhecidas na corte.

O poema, considerado como uma das cem melhores poesias líricas da língua portuguesa por Carolina Michaëlis, versa sobre o tema da natividade de Jesus. A melodia original foi perdida, tendo a parte poética sido usada como base para algumas composições de autores contemporâneos.

Poema

Grafia original(1562) Grafia atualizada(por Carolina Michaëlis) Blanca eſtais coloradaO incipit parece estar escrito propositadamente em castelhano: "Blanca estáis colorada". virgem ſagrada. Branca estais e colorada, Virgem sagrada! Em Belem vila do amor da roſa naceo a flor virgem ſagrada. Em Belém, vila do amor, Da rosa nasceu a flor! Virgem sagrada! Em Belem vila do amor naceo a roſa do roſal virgem ſagrada. Em Belém, vila do amarSegundo as correções de Carolina Michaëlis. Seguindo o original: "Em Belém, vila do amor". Nasceu a rosa do rosal! Virgem sagrada! Da roſa naceo a flor pera noſſo ſaluador virgem ſagrada. Da rosa nasceu a flor: Jesus, nosso Salvador!Segundo as correções de Carolina Michaëlis, que substituiu "pera" por "Jesus". Seguindo o original: "Para nosso Salvador!". Virgem sagrada! Naceo a roſa do roſal Deos & homem natural virgem ſagrada. Nasceu a rosa do rosal: Deus e homem natural! Virgem sagrada!

Paralelos

Branca estais colorada tem sido apontado como uma prova da continuidade entre a lírica galaico-portuguesa (século XII ao século XIV) e a poesia dos cancioneiros renascentistas (século XVI). De facto, a sua estrutura formal segue uma interessante estrutura de construções paralelísticas, tal como muitas das cantigas de amigo ou algumas das Cantigas de Santa Maria, nomeadamente a cantiga n.º 160, em louvor da Virgem:

Também de origem medieval é o simbolismo utilizado da "rosa do rosal", que descende da iconografia católica da árvore de Jessé. Contudo, neste caso, as analogias não se esgotam nas Cantigas de Santa Maria (veja-se, por exemplo, a cantiga n.º 10 que começa: "Rosa das Rosas, e Fror das Frores / Dona das Donas, Sennor das Sennores") mas são também encontradas, ainda hoje, na cultura popular portuguesa, através da seguinte quadra inserida em várias cantigas de Natal:

Música

Segundo as indicações dadas pelo próprio Gil Vicente: "ordenadas em folia, cantarão a cantiga seguinte, com que se despedirão", o poema destinava-se desde a sua origem a ser cantado. Contudo, como aconteceu com a generalidade das cantigas, vilancetes e romances dos autos, chegou à atualidade sem a música original. Assim, vários compositores portugueses escreveram música para este poema:

Frederico de Freitas (1902 — 1980) Jorge Croner de Vasconcellos (1910 — 1974) Manuel Simões (1924 — 1995) Maria de Fátima Fonte Ferreira (1983 — ) Tomás Vaz de Borba (1867 — 1950) Vasco M. N. Pereira (1956 — )

Ver também Gil Vicente Auto da Feira Folia Lista de canções de Natal Árvore de Jessé Do varão nasceu a vara

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