thumb|As flores de açafrão croco, representadas como tufos vermelhos, são colhidas por duas mulheres em um afresco da escavação de Acrotíri na ilha Santorini do mar Egeu O cultivo e o uso do açafrão pelo homem ultrapassam 3500 anos e abrangem culturas, continentes e civilizações. O açafrão, uma especiaria derivada dos estigmas secos do açafrão croco (Crocus sativus), manteve-se através da história entre as substâncias mais caras do mundo. Com seu sabor amargo, fragrância que lembra feno, e leves notas metálicas, o açafrão é rico em apocarotenoides e tem sido usado como tempero, fragrância, corante e medicamento. O açafrão é um clone geneticamente monomórfico originário do Sudoeste da Ásia e cultivado pela primeira vez na Grécia.
O provável precursor silvestre do açafrão croco doméstico é o Crocus cartwrightianus, originário de Creta ou Ásia Central. O C. thomasii e o C. pallasii são outras possíveis fontes. Atualmente, o açafrão croco é um triploide "auto-incompatível" e androestéril. Ele se submete à meiose incomum e por isso é incapaz de se reproduzir independentemente. Toda a propagação é feita com a multiplicação vegetativa manual “dividindo e colocando” um clone acionador ou com a hibridação interespecífica. Se o C. sativus é de fato uma forma mutante do C. cartwrightianus, pode ter surgido no final da Idade do Bronze em Creta.
O homem pode ter cultivado amostras do C. cartwrightianus fazendo a triagem de amostras com estigmas anormalmente longos. O resultante açafrão croco foi documentado em uma referência botânica assíria do compilada conforme Assurbanípal. Desde então, o açafrão foi comercializado e usado durante quatro milênios, até mesmo como tratamento para noventa distúrbios. O clone C. sativus foi difundido lentamente por quase toda a Eurásia e, então, atingindo partes do Norte de África, América do Norte e Oceania. A produção mundial em grande escala é agora dominada pelo Irão, que responde por cerca de nove décimos da colheita anual.
Etimologia
Estudioso propõem que زَعْفَرَان (za'faran) é a forma arábica da palavra persa زرپران zarparan, zar + par + -an—"que tem folhas amarelas". Uma forma mais antiga é a palavra acadiana azupiranu, "açafrão". A forma latina safranum é também a fonte da palavra catalã safrà, da palavra italiana zafferano, mas o açafrão, do português e o azafrán do espanhol, vêm da palavra hispano-arábica al-zaferán, que vêm do termo árabe زعفران (Z'.fran). O termo latino crocum é certamente uma palavra emprestada semita. Ela foi adaptada da forma aramaica kurkema por meio do termo árabe kurkum e os intermediários gregos krokos oo karkum, que também significam "amarelado(a)".
Período minoico e greco-romano
thumb|Esta reconstrução imprecisa de um afresco minoico de Cnossos em Creta retrata o que parece ser um homem ou macaco colhendo o croco.
O açafrão desempenhou um papel importante no período pré-clássico greco-romano, desde o até o A primeira imagem conhecida do açafrão na cultura pré-grega é muito mais antiga e originária da Idade do Bronze. Uma colheita de açafrão é mostrada nos afrescos do palácio de Cnossos da Creta minoica retratando flores que são colhidas por garotas e macacos. Um desses sítios de afrescos está localizado na construção Xeste 3 de Acrotíri, na ilha egeia de Santorini — os antigos gregos o conheciam como Tera. Esses afrescos datam de 1600 a , mas várias outras datas foram atribuídas: 3000 a ou o Eles descrevem uma deusa minoica supervisando as flores que são arrancadas e os estigmas que são colhidos para uso na fabricação de um possível medicamento terapêutico. Um afresco do mesmo local também descreve uma mulher usando o açafrão para tratar um sangramento no seu pé. Esses afrescos teranos são as primeiras representações visuais botanicamente precisas do uso do açafrão como medicamento natural. Esse crescente estabelecimento minoico do açafrão foi finalmente destruído por um poderoso terremoto e subsequente erupção vulcânica (a erupção minoica) ocorridos entre 1645 e As cinzas vulcânicas da destruição sepultaram e preservaram esses afrescos de ervas.
Antigas lendas gregas contam que audaciosos marinheiros embarcando em viagens longas e perigosas à remota ilha de Cilícia, onde viajaram para encontrar o que consideravam como o açafrão mais valioso. A lenda helênica mais conhecida do açafrão é a do Croco e da Esmílace: o lindo e jovem Croco vai em busca da ninfa Esmílace, nos bosques próximos a Atenas Em um interlúdio galanteador sobre amor idílico, Esmílace é lisonjeada pelos avanços apaixonados dele, mas logo se cansa de suas intenções. Ele insiste mas ela resiste. Ela enfeitiça Croco e ele transformar-se-ia então num açafrão croco. Seus estigmas alaranjados e radiantes foram criados como um brilho relicto de uma paixão imortal e não correspondida. A tragédia e seu tempero seriam lembrados mais tarde:
Para os antigos mediterrâneos, o açafrão encontrado na cidade costeira ciliciana de Solos era de grande valor, particularmente para uso em perfumes e pomadas. Entretanto, Heródoto e classificaram os concorrentes açafrões assírio e babilônio do Crescente Fértil como os melhores para o tratamento gastrointestinal ou renal. O açafrão grego da Caverna de Corício do monte Parnasso também foi importante: a cor do croco de Corício é mencionada na obra Argonautas de Apolônio de Rodes e a fragrância do croco usada nos epigramas de Marcial.
Cleópatra, que viveu no Egito ptolemaico, usava um pouco de açafrão em seus banhos quentes, pois apreciava suas propriedades cosméticas e de coloração. Ela usava o açafrão antes de se encontrar com homens, acreditando que ele tornaria o ato sexual ainda mais prazeroso. Os curandeiros egípcios usavam o açafrão para tratar todas as variedades de distúrbios gastrointestinais. Para dores estomacais com hemorragia interna, o tratamento egípcio consistia das sementes do açafrão croco misturadas e esmagadas com restos de árvores aager, gordura de gado, coentro e mirra. Essa pomada ou cataplasma era aplicado no corpo. Os médicos acreditavam que isso “expelia o sangue pela boca ou pelo reto, como se fosse um sangue de porco cozido”. Os problemas urinários também eram tratados com uma emulsão à base de óleo feita de flores jovens de açafrão e grãos torrados. Nos homens, isto era usado topicamente. Já as mulheres, ingeriam uma preparação mais complexa.
Na era greco-romana, o açafrão era largamente comercializado pelos fenícios no Mediterrâneo. Seus clientes iam desde fabricantes de perfumes em Roseta, no Egito, até médicos em Gaza e na cidade vizinha de Rodes, que por sua vez usavam bolsas de açafrão a fim de camuflar a presença de conterrâneos mal cheirosos durante as idas ao teatro. Para os gregos, o açafrão era diretamente associado a cortesãs e conselheiras conhecidas como heteras. Grandes tinturarias de Sídon e Tiro usavam o açafrão em banhos como ingrediente substituto. Ali, vestes reais eram mergulhadas três vezes em tinturas roxas. Para as vestes de pretendentes reais e plebeus, os últimos mergulhos eram feitos com açafrão, que criava uma tonalidade roxa menos forte.
Os antigos gregos e romanos valorizavam o açafrão como perfume ou desodorante e o espalhavam em lugares públicos, como saguões reais, cortes e anfiteatros. Como exemplo, quando Nero chegou em Roma, as pessoas espalharam açafrão pelas ruas. Além disto, os romanos ricos também usavam o açafrão em banhos diários. O açafrão era usado como rímel, em vinhos, em saguões e ruas como pot-pourri e oferecido a divindades. Colonizadores romanos levaram o açafrão quando povoaram a Gália romana ao Sul, onde foi amplamente cultivado até a invasão bárbara da Itália em 271. Teorias opostas alegam que o açafrão somente retornou à Gália com os mouros do ou com o Papado de Avinhão no .
Oriente Médio e Pérsia thumb|Saframbolu, Turquia.
Pigmentos à base de açafrão foram encontrados em pinturas pré-históricas usadas para ilustrar animais. Essa arte rupestre, de 50 mil anos, foi encontrada no atual Iraque ou noroeste do Império Persa. Apesar de não cultivar o açafrão, os sumérios o usavam como ingrediente em seus medicamentos e poções mágicas. Eles supriam seus armazéns com flores selvagens pois acreditavam que a intervenção divina daria propriedades medicinais ao açafrão.
Na Pérsia Antiga, o açafrão (Crocus sativus 'Hausknechtii) foi cultivado em Derbena e Ispaã no . Lá, fios de açafrão persa foram encontrados entrelaçados em antigos tapetes reais e mortalhas persas. O açafrão era usado por adoradores persas como um ritual de oferenda aos deuses e como um ótimo ingrediente amarelado para tinturas, perfumes e medicamentos. Assim, os fios de açafrão seriam espalhados nos quartos e misturados em chás quentes como um remédio contra a tristeza. De fato, os fios de açafrão persa eram utilizados para temperar comidas e chás, sendo considerados uma espécie de droga e afrodisíaco. Esses rumores se espalharam e serviram de aviso para viajantes evitarem a culinária persa, contaminada de açafrão. Além disso, o açafrão persa era dissolvido com sândalo em água para fazer desodorantes corporais, usados após o trabalho contra o suor. Anos depois, o açafrão persa foi usado por e suas tropas durante as batalhas. Eles misturavam o açafrão em chás e o comiam com arroz. Alexandre, particularmente, usava o açafrão em banhos quentes, da mesma maneira que o xá aquemênida . Assim como Ciro, Alexandre acreditava que o açafrão ajudava a curar muitas de suas feridas e sua fé no açafrão aumentou a cada tratamento. Ele inclusive recomendava banhos de açafrão para os homens simples que o serviam. Os soldados gregos, devido às propriedades curativas do açafrão, continuaram a usá-lo depois de retornarem à Macedônia.
Leste e Sul Asiático
thumb|A cada doze anos, durante o Mahamastakabhisheka, milhares de devotos colocam açafrão no monumento chamado Gomateshwara.
Vários relatos divergentes descrevem a chegada do açafrão no Sul e no Leste da Ásia. Os primeiros são relatos históricos encontrados em registros persas. Para os especialistas em açafrão, isto é um indício de que o surgimento desta especiaria se alastrou, primeiramente, na Índia, por meio dos esforços dos governantes para abastecer suas hortas e parques. Isso se cumpriu pela transplantação de cultivo em todo o Império Aquemênida. No , os fenícios começaram a comercializar o novo açafrão caxemiro, fazendo uso de suas amplas rotas comerciais. A partir da sua comercialização, o açafrão da Caxemira passou a ser utilizado em tratamentos contra depressão e como corante de tecido.
Por outro lado, há uma lenda caxemira muito tradicional de que o açafrão surgiu entre os séculos XI e , quando dois sufistas ascéticos e itinerantes, Khwaja Masood Wali e Hazrat Sheikh Shariffudin, adentraram a região da Caxemira. Ao ficarem doentes, os estrangeiros suplicaram pela cura da doença para o cacique da tribo local. Segundo boatos, quando o cacique ordenou, os dois entregaram um bulbo da flor de açafrão como pagamento e agradecimento. A partir desse dia, orações são oferecidas para os dois santos durante a colheita do açafrão no outono. Os santos, de fato, tem um santuário e um túmulo de cúpula dourada dedicado a eles na aldeia Pampore, local de comércio do açafrão. No entanto, o poeta e estudioso caxemiro Mohammed Yusuf Teng contesta, afirmando que o povo de Caxemira cultivou açafrão por mais de dois milênios. Na verdade, tal cultivo indígena faz referência às epopeias caxemiras de Tantras Hindus daquela época.
Antigos relatos budistas chineses vindos da ordem monástica de mula-sarvastivada (ou vinaya) relatam, ainda, outra chegada do açafrão na Índia. De acordo com a lenda, Madhyântika (ou Majjhantika), um missionário indiano e budista, foi enviado para a Caxemira no Após sua chegada, ele plantou a primeira safra de açafrão da Caxemira.