Clifford R. Shaw (1895-1975) foi um sociólogo americano, professor da Universidade de Chicago. Destacou-se no estudo criminológico da delinquência juvenil e sua distribuição no espaço urbano.

Biografia No ano de 1895, nasce Clifford Shaw, no mês de Agosto, na cidade rural de Luray, Indiana, no Meio oeste americano. Foi criado em uma fazenda em Luray, e era o quinto entre dez filhos. Seus pais tinham uma pequena loja, e seu pai se envolvia em atividades diversas, desde a política local até trabalhar com sapatos e com a colheita.

Desde criança, Clifford teve contato com o Cristianismo, e aos 15 anos, em 1910, ele foi encorajado à iniciar seus estudos como pastor. Após um ano de ministério no Adrian College, abandonou o curso, desiludido com as instituições cristãs.

Em 1917, Shaw decidiu entrar para a Marinha, durante a Primeira Guerra Mundial, como um farmacêutico, para trabalhar em submarinos. Ele estudou Farmácia na Universidade de Johns Hopkins, mas antes que pudesse entrar para o serviço ativo, a guerra acabou, em 1918, de forma que Shaw retornou ao Adrian College para terminar seu curso. No mesmo ano, Clifford Shaw decidiu estudar sociologia na Universidade de Chicago. Durante seus estudo, viveu em um bairro de imigrantes poloneses, o que pode ter influenciado seu trabalho e suas pesquisas quanto à composição racial dos bairros de cada cidade.

Entre 1921 e 1923, Shaw trabalhou como agente de condicional (“parole officer”) para uma instituição chamada “Illinois State Training School for Boys”, visitando a casa dos infratores e os ajudando a encontrar empregos.

Entre 1924 e 1926, Shaw trabalhou como oficial de justiça (“probation officer”) no Tribunal Juvenil do Condado de Cook. Entre suas funções, estavam realizar pequenas investigações, visitar casas e de apresentar casos à Corte. Nesse mesmo ano de 1924, Shaw terminou seu curso na Universidade de Chicago, e decidiu não fazer doutorado, talvez por não falar língua estrangeira, uma das exigências para o PhD, ou talvez por já ter decidido o que pretendia fazer profissionalmente no futuro. Em 1939, porém, ele recebeu um título honorário de Doutor de Direito pelo Adrian College.

A partir do ano de 1926, Shaw passou a dar aulas no George Wiliiams College e na Central YMCA College, se tornando o Diretor do Instituto de Pesquisas Juvenis (antigo Instituto de Psicopatia Juvenil de Chicago, liderado pelo psicanalista William Healy). Em 1941, Shaw passou a dar aulas na Universidade de Chicago.

No ano de 1957, após longo período de convalescença, morre Clifford Shaw. Pensamento criminológico da Escola de Chicago e Teoria da Desorganização Social Clifford Shaw sofreu influência em sua obra do pensamento da escolha de Chicago. Nesta Universidade, formou-se em Sociologia, além de tornar-se um de seus professores.

Nesta universidade foram desenvolvidos trabalhos de vanguarda acerca da distribuição de determinadas características e o espaço urbano. Isso refletiu-se no estudo da criminologia realizado.

Entre as contribuições dessa escola destacam-se as do campo metodológico associando a pesquisa à formulação de políticas criminais. No âmbito da metodologia instituíram a análise estatística evidenciando a distribuição espacial. Os estudos realizados apontavam para a necessidade de mudanças efetivas nas condições econômicas e sociais das crianças (carreiras dos delinquentes). Evidenciaram também as demandas de melhorias sanitárias e manipulação do ambiente físico, considerando inclusive as oportunidades de realização dos delitos, como estratégias de prevenção que deveria ser priorizadas em detrimento das repressivas.

Naquela época, um aspecto típico das pesquisas era a confecção de mapas, onde se situavam os diferentes tipos de população, grupos étnicos, raças, espécies de atividades: em que lugar da cidade, por exemplo, se concentravam as atividades criminosas? Como explicar esse fato? Tal metodologia é evidente no livro “Juvenile Deliquency and Urban Areas”.

Principais Obras Juvenile Delinquency and Urban Areas

Parte I – Introdução Estudos anteriores já avistavam correlação entre taxas de criminalidade entre jovens e condições de vida nas comunidades. Percebeu-se que comunidades de baixa renda possuíam os índices de delinquência mais elevados.

O presente trabalho analisa as características de Chicago, bem como de outras grandes cidades, buscando responder outras perguntas acerca da criminalidade entre menores. Questiona-se a relação deste índice para com características socioeconômicas das comunidades, reincidência, composição populacional, dentre outros.

No presente, na análise da variação do índice de criminalidade entre diferentes áreas da cidade americana, utilizou-se uma série de dados estatísticos, a fim de determinar que diferenças socioeconômicas apresentam um paralelo com a variação das taxas de delinquência.

A análise presente se baseia numa visão mais sútil dos relacionamentos humanos e dos valores sociais que permeiam a vida familiar e social. Os fatores que se relacionam com a delinquência juvenil são resultados de processos econômicos e sociais que ocorreram no desenvolvimento das cidades e, consequentemente, das comunidades em exame. O estudo da cidade de Chicago ocorre de forma mais detalhada que o de outras cidades. Limita-se o estudo apenas da delinquência entre jovens do sexo masculino. Parte II Capítulo 2 – Crescimento de Chicago e diferenciação do espaço urbano Nesse capítulo o autor analisa as características comuns do processo de expansão dos centros americanos, bem como o caso específico da cidade de Chicago.

Crescimento Urbano No que tange ao crescimento urbano, a cidade americana tende a crescer formando círculos concêntricos, em cujo centro encontram-se grandes distritos comerciais e industriais. A proximidade para com o centro faz com que bairros residenciais se tornem menos atrativos. Os imóveis nessas áreas sofrem com a deterioração, fuligem, barulho, dentre outros. Portanto, verifica-se um fluxo habitacional decrescente no centro, em direção à periferia, de maior valor imobiliário. A especulação imobiliária força as pessoas de renda mais baixa a se fixarem nos bairros menos atrativos, uma vez que os custos são mais baixos, enquanto aqueles de maior poder aquisitivo, se dirigem à zona residencial periférica mais valorizada.

Verifica-se, outrossim, a existência de uma divisão laborativa entre as diferentes regiões. Profissionais mais bem remunerados, mais nobres, ocupam bairros mais valorizados, pois podem custear despesas habitacionais mais altas. Já os trabalhadores com menores salários ocupam as áreas menos atrativas, correspondentes ao centro industrial.

Ocorre também a separação relativa a nacionalidade. Os grupos com menor renda correspondem, nas cidades do norte dos EUA, àqueles com maior número de imigrantes recentes. Isso resulta na concentração de imigrantes nas áreas centrais, menos valorizadas, enquanto os nativos concentram-se nas zonas periféricas residenciais.

Nas cidades nortistas, o preconceito racial fez com que grupos de negros não ocupassem áreas de menor valor imobiliário. Isso forçou esses grupos a formarem comunidades localizadas de acordo com sua escolha, assim que seu poder aquisitivo aumentava. Desse modo, formaram-se bairros com características semelhantes aos centrais, porém com alto custo de habitação, devido à pressão por moradia.

Crescimento de Chicago Chicago é uma cidade industrial, limitada pelo Lago Michigan, e pelo Rio Chicago. Seu crescimento gerou como consequência um processo claro de diferenciação dos espaços, visto que há zonas industriais e residenciais; com habitantes de alta ou baixa renda; com população americana ou estrangeira. Chicago é limitada pelo Lago Michigan e pelo Rio Chicago, fazendo com que seu estudo se dê de modo a dividir a cidade em semicírculos, em vez de círculos completos. Mudanças em algumas áreas foram visíveis em seu processo de expansão. No entorno do distrito central de negócios, as residências originais deram lugar a empreendimentos comerciais e industriais, e a zona residencial foi se deslocando cada vez mais afastada do centro. A cidade segue o padrão verificado como comum a outros centros norte-americanos. No norte da cidade esta “Gold Coast” área conhecida pelo alto padrão habitacional.

Evidências da diferenciação urbana Passa-se a arrolar fatos que evidenciam o processo de diferenciação sofrido. No centro, é maior o número de imóveis antigos, passíveis de demolição. Isso ocorre a medida que tais localidades são abandonadas, haja vista que a proximidade com o distrito industrial as tornam menos atrativas à população. Verificou-se um decréscimo progressivo na densidade populacional das áreas centrais de Chicago, enquanto as áreas periféricas apresentaram aumento populacional. Isso mostra o processo de expansão que a cidade sofreu, do centro em direção a periferia.

Comprovou-se que a população de renda mais baixa, o maior número de famílias assistidas pelo governo e os aluguéis mais baratos estão em áreas correspondentes ao centro desvalorizado. Em contrapartida, regiões periféricas, onde se situam bairros residenciais mais recentes e organizados, apresentam indicadores opostos. Por meio dessa análise, observou-se que nas zonas centrais encontram-se maior número de trabalhadores industriais nos bairros do centro e maior número de profissionais e clérigos nas áreas de periferia residencial. Nos bairros mais desvalorizados verificou-se, também, maior números de imigrantes estrangeiros. Capítulo III Nesse capítulo, as estatísticas a respeito da delinquência juvenil e sua incidência no espaço urbano de Chicago são examinadas. Os casos de delinquência juvenil considerados estatisticamente são aqueles referentes aos jovens de 17 anos trazidos ao judiciário e oficialmente imputados.

São analisadas três séries de dados, cada uma em três períodos de tempo (1927-33; 1217-23; 1900-1906): Distribuição dos supostos delinquentes trazidos ao Tribunal de Menores; Distribuição dos delinquentes direcionados a escolas correcionais pelo Tribunal de Menores; Distribuição dos supostos delinquentes acompanhados por policiais de condicional; Concluiu-se que as três séries de dados apresentam, pouquíssimas exceções, as mesmas características entre si e entre os períodos de tempo analisados. As áreas com maior índice de criminalidade entre menor coincidiram com as áreas centrais de Chicago, subvalorizadas e próximas ao distrito comercial central. As áreas periféricas residenciais, em contraste, apresentaram menores taxas. Desse modo, a variação entre as taxas de delinquência é diretamente proporcional à variação do grau de desorganização urbana. Capítulo IV Aqui são explorados outros problemas urbanos existentes e sua distribuição no espaço, tais como: desemprego, dependência química, desorganização familiar, dentre outros. Foram examinadas cinco condições: Índice de evasão escolar; Índices de jovens adultos criminosos; Taxa de mortalidade infantil; Incidência de tuberculose Incidência de doenças mentais; A conclusão foi que a variação de tais índices no espaço urbano era muito similar à variação das taxas de criminalidade entre menores. E, por conseguinte, assimilava-se também a variação do grau de desorganização das comunidades.

Verificou-se que não houve um caso sequer que essas condições não variassem de acordo com os índices de delinquência. Destarte, a delinquência não é um fato isolado: acontece juntamente com outras condições não desejáveis em uma comunidade. Dada tal relação, é possível afirmar que os problemas listados nesse capítulo, bem como as taxas de criminalidade, se relacionam com as condições de vida de determinada localidade. Capítulo V