A Comunidade Samba da Vela é uma roda de samba, fundada na cidade de São Paulo no ano 2000 e um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil. A comunidade proporciona espaço para que compositores de samba divulguem suas obras inéditas, fazendo dessa reunião um verdadeiro culto ao que há de mais genuíno na cultura brasileira.

História A Comunidade Samba da Vela foi fundada em uma segunda-feira, no dia 17 de julho de 2000, no bairro Santo Amaro, localizado na zona sul da capital paulista, por quatro fundadores: Paquera (José Alfredo Gonçalves de Miranda - falecido em 2014, Chapinha (José Marilton da Cruz) e os irmãos, ambos integrantes da dupla Prettos Maurílio de Oliveira (Maurílio de Oliveira Souza - cantor, compositor, produtor, diretor musical e Magnu Sousá (Magno de Oliveira Souza), cantor, compositor, produtor, diretor artístico da Comunidade Samba da Vela.

A história dessa manifestação da cultura popular começou no bar Ziriguidum, na Rua Dr. Antonio Bento, número 257, no Largo Treze de maio. O lugar era do tamanho de um galpão, com pouca luz. Perto da entrada havia um bar, e mais ao fundo uma cozinha. A montagem do bar, segundo seu proprietário, o Chapinha, tinha o propósito de criar um espaço para fazer uma roda de samba, pois segundo ele, na Zona Sul da cidade de São Paulo não havia um lugar apropriado para se fazer um bom samba. A ideia era reproduzir fielmente uma roda de samba ao estilo antigo. Com o tempo, os outros três fundadores da comunidade - Paquera, Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira - se uniram a Chapinha, e os quatro decidiram montar um projeto de roda de samba às segundas-feiras, dando origem ao Samba da Vela. Não existia na época um movimento que hasteasse a bandeira do samba da forma que a Comunidade Samba da Vela faz, tornando a comunidade pioneira na difusão e divulgação do samba, dando uma verdadeira aula de entretenimento e inclusão social.

Em janeiro de 2002, a roda de samba foi transferida do bar Ziriguidum para a Casa de Cultura de Santo Amaro, onde passaram a se reunir todas as segundas-feiras a partir das 20h45m, momento em que a vela é acesa, até o instante em que a vela se apagava e uma sopa era servida para todos no final.

O nome curioso vem da própria organização do evento: a roda de samba ocorre em torno de uma vela, que funciona como um cronômetro das apresentações. O samba se inicia quando a vela é acesa e todos cantam o samba “Acendeu a vela” (ver letra abaixo) e termina quando a vela se apaga e todos cantam a “A comunidade Chora” (ver letra abaixo). A roda de samba reúne simpatizantes, cantores, músicos e compositores que apresentam somente músicas inéditas diretamente ao público, que totaliza cerca de 250 pessoas a cada semana. Este seria o objetivo mais óbvio da comunidade: revelar sambas de compositores desconhecidos da grande mídia. Mas o objetivo mais significante do Samba da Vela é “apresentar as obras diretamente ao público, revelando, transformando, refletindo e promovendo o resgate da cidadania, cultura e lazer, incluindo o cidadão no ambiente das artes de um modo geral, revitalizando sua autoestima através da música, inserindo-o na sociedade brasileira.” Comunidade Samba da Vela. < http://www.revistas.usp.br/plural/article/download/74418/78042/ > acessado em 2013.

Como em toda roda de samba, o Samba da Vela também segue um ritual, um “regulamento interno”, segundo o qual é inadmissível: Manejar um instrumento sem competência; Falar mais alto do que o som que vem da roda; Interromper quem está puxando o samba. Essas regras são baseadas na amizade e na intimidade que a roda proporciona, no modo como as pessoas se relacionam. A hierarquia na roda é respeitada, não pelo sucesso ou pelo dinheiro que a pessoa tem, mas por seu conhecimento e história no samba.MOURA, Roberto M. No princípio, era a roda: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

No dia 06 de Agosto de 2004, a Comunidade Samba da Vela - na figura dos seus fundadores Magnu Sousá, Maurilio de Oliveira, Chapinha e Paquera; recebeu homenagem da Assembleia Legislativa, no plenário Juscelino Kubitschek, em sessão solene realizada por iniciativa do Sr. Vicente Cândido, na época deputado, que em seu discurso solene afirmou o importantíssimo trabalho de preservação da identidade cultural do povo brasileiro, através da música e da poesia. "...Esses artistas merecem todo o reconhecimento e incentivo" Participaram desta homenagem; Osvaldinho da Cuíca, Velha Guarda das Escolas de Samba Nenê da Vila Matilde e da Camisa Verde e Branco, Quinteto em Branco e Preto, Thobias da Vai-Vai e Beth Carvalho que na ocasião recebe o título de Cidadã Paulistana. Influências O primeiro samba de quadra surgiu no ano de 1930, nas primeiras escolas de samba do Rio e a grosso modo, pode ser resumido como um subgênero que canta as experiências da vida, o amor, as lutas, as festas, a natureza e, outros. Os sambas compostos no Samba da Vela são identificados por seus compositores como sambas de formato “tradicional”. Eles se identificam como mais próximos de dois subgêneros autênticos do samba tradicional: o Samba de Terreiro e o Partido Alto. O Samba de Terreiro era a representação dos sambas porque estes eram produzidos durante todo o ano nos espaços de terra batida, que se tornariam as futuras quadras das escolas. O Partido Alto já está mais próximo do repente nordestino, pois é marcado pela improvisação e pelo contratempo do pandeiro. Tanto o Partido Alto como o Samba de Terreiro com frequência apresentam uma primeira parte forte e cantada em coro e uma segunda parte  mais estável, porém livre para improvisos.

A Madrinha esquerda|miniaturadaimagem|320x320px|Beth Carvalho - Madrinha da Comunidade Samba da Vela - Ano 2000 - (Foto - Carolina Andrade) Elizabeth Santos Leal de Carvalho, nascida no Rio de Janeiro em 5 de maio de 1946, nasceu em uma família cuja arte tinha uma grande importância para seus membros. Seu avô tocava violão e bandolim, sua mãe, piano clássico e a irmã, Vânia, cantava. O pai da cantora, o advogado João Francisco Leal de Carvalho era grande amigo dos cantores Sílvio Caldas, Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso, a quem Beth já ouvia emocionada aos 8 anos de idade.

Magnu Sousá e Maurilio de Oliveira integram a dupla Prettos; fizeram parte do Quinteto em Branco e Preto por 18 anos e começaram a trabalhar com Beth Carvalho em 1999. Viajaram vários países com ela e têm com ela uma relação de mãe e filhos. Dias depois do início do Samba da Vela, eles a convidaram para conhecer o movimento e ela, como sempre muito generosa e uma incrível descobridora de novos talentos, topou de bate pronto.

A frequência girava em torno de oitenta pessoas e a partir da ida da madrinha, houve um superávit para quase duzentas pessoas todas as semanas, e até hoje é assim. Beth se declarou madrinha do Samba da Vela e gravou três sambas da comunidade.

A madrinha do Samba da Vela tem incontestável valor como representante da música popular brasileira. A cantora se encantou com a ideia e assumiu o compromisso de divulgar o projeto. Vale lembrar que Beth também é madrinha do grupo Quinteto em Branco e Preto, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, grupo Fundo de Quintal, Prettos entre outros.

A Comunidade Samba da Vela esquerda|miniaturadaimagem|320x320px|Fundadores da Comunidade Samba da Vela - Velha Guarda - (Foto - Carolina Andrade) - Chapinha - Maurílio de Oliveira - Paquera - Magnu Sousá Um dia, os fundadores da comunidade se reuniram para bater um papo, conversar a respeito de samba. Começaram às oito horas da noite e terminaram às quatro horas da manhã. Combinaram de se reunir na semana seguinte, com a ideia de cantar sambas clássicos e algumas de suas composições. O negócio ficou tão bom, que de novo entraram madrugada adentro.

Apesar das portas fechadas ao público, não demorou para que a roda de samba despertasse a atenção. "As pessoas entravam por debaixo da porta e, a partir daí, começaram a frequentá-la. Com isso veio a necessidade de limitar o horário". Pensaram em adotar uma ampulheta, um despertador e até mesmo um galo. No entanto, uma reportagem na TV sobre o simbolismo da vela, os levaram a sugerir esse tipo de controle do tempo.

O significado da vela vai além de um simples relógio, e tem relação com a religiosidade. “Todo ritual de fé tem uma chama”, sendo a segunda-feira um dia especial para a comunidade, porque é o dia das almas e remete a todos compositores de samba de já faleceram, proporcionando a iluminação da mente dos novos criadores de samba . Uma forma de homenagear os mestres que moldaram a história do samba. Em razão disso, seus fundadores Chapinha, Magnu e Maurilio e Paquera, elegeram a segunda feira como o dia oficial para o encontro semanal.

Pensaram em acender uma vela por três horas e meia, e quando a mesma acaba-se, seria, numa frase de Beth Carvalho, uma maneira gentil de mandar o "povo pra casa", "nem choro nem vela" de Paqüera. Foi utilizado também um cone como acessório para ajudar no controle da queima, que atualmente foi substituído por um cubo retangular de vidro. "Quando a vela arde muito rápido, colocavam o cone/cubo retangular, que a protegia do vento dos ventiladores e mantinham uma queima uniforme".

No centro do salão da Casa de Cultura de Santo Amaro, esta é posta em uma mesa com uma toalha de crochê branca com detalhes em rosa e azul, e sobre ela um suporte com base de madeira como um tipo de castiçal para vela, que compartilha esta pequena base também com uma miniatura de um violão e um pandeiro. Desta forma antes de iniciar-se a roda de samba, que normalmente ocorre por volta das 20:45, o público disposto à volta da mesa e também os fundadores da comunidade, aguardam em silêncio.

A vela é acesa por um dos fundadores da Comunidade que sempre cita a seguinte frase: “Que a divina luz ilumine todas as criações”, do saudoso Paquera (José Alfredo Gonçalves de Miranda). Dá-se o início então à roda de samba com a música “Acendeu a Vela”.

"Acendeu a vela" (Hino de Abertura no Samba da Vela) (Paquera / Edvaldo Galdino)

Acendeu a vela, o samba já vai começar

Ela é quem chama, que é viva a chama pro povo cantar

A fé que não cansa

Mantém a esperança do nosso viver

O samba da vela está esperando você

Venha pra cá pra cantar

Venha pra cá pra se ver

Uma só voz embalar

Pra nunca mais esquecer

Venha fazer a história

Venha com a gente aprender

O samba da vela está esperando você

A luz do samba reluz

Condiz à inspiração seduz,

a todos induz a união de irmãos

Queremos um canto forte

Pra ver o samba vencer

O samba da vela está esperando você.

Quando vela acaba, um dos fundadores da Comunidade cita a seguinte frase repetida três vezes: “Quando a vela apaga, a comunidade chora”, de Magnu Sousá / Maurilio de Oliveira / Edvaldo Galdino. Então se encerra a roda de samba com a música “A comunidade chora”.

"A comunidade chora" (Hino de encerramento no Samba da Vela) (Magnu Sousá/Maurílio de Oliveira/Edvaldo Galdino)

Quando a vela acender

Eu vou cantar meu samba até prevalecer

A luz que ilumina o compositor

Que tem a luz nos olhos seus

Eu rezo pra essa chama tão crepuscular

Durar mais um minuto nessa hora

Ah! porque senão a comunidade chora

A comunidade chora

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

Quando a vela se apagar e o samba terminar

Saudade não me deixa ir embora

Meu peito vazio implora que uma luz me ilumine agora

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

Chora porque a vela se apagou

Porque o samba terminou

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

Chora... chora, a comunidade chora, a comunidade chora

O significado da vela rosa, azul, branca, verde