thumb|Cartaz em língua francesa com os detalhes das leis antijudeus aplicadas na Bélgica a partir de 28 de Outubro de 1940. O Holocausto na Bélgica refere-se à perseguição, e tentativa de extermínio, dos judeus e dos ciganos durante a ocupação alemã da Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial entre 1940 e 1944.
No início da Guerra, a população belga era maioritariamente católica. Os judeus representavam a maioria da população não-cristã do país, totalizando entre – de um total de 8 milhões. A maioria vivia nas cidades de Antuérpia, Bruxelas, Charleroi e Liège. A grande maioria era composta por imigrantes recentes na Bélgica que fugiam da perseguição na Alemanha e na Europa de Leste, e, como tal, eram poucos aqueles que possuiam cidadania belga.
Pouco depois da invasão da Bélgica, o Governo Militar emitiu um conjunto de leis anti-semítas em Outubro de 1940. A Comissão de Secretários-Gerais belga recusou-se desde início a fazer cumprir quaisquer leis anti-semítas, e o Governo Militar mostrou-se relutante em elaborar mais legislação. O governo alemão começou a apreender os negócios detidos por judeus e a expulsá-los de cargos na função pública. Em Abril de 1941, sem qualquer ordem das autoridades alemãs, colaboradores flamengos pilharam duas sinagogas em Antuérpia e incendiaram a casa do rabi principal da cidade. Os alemães criaram a no país, the (AJB; "Associação dos Judeus na Bélgica "), na qual todos os judeus deviam fazer parte. Parte integrante da Solução Final desde 1942, a perseguição aos judeus belgas aumentou de forma exponencial. A partir de Maio de 1942, os judeus foram obrigados a usar uma Estrela de David amarela para os distinguir da população em geral. Utilizando os registos da AJB, os alemães começaram a deportar os judeus para campos de concentração nazis no Governo Geral (o território ocupado da Polónia). Os judeus escolhidos a partir dos registos eram enviados para o novo campo de reagrupamento de Mechelen; seguidamente, eram deportados através de sistemas ferroviários específicos para campos de concentração, em particular para o de Auschwitz. Entre Agosto de 1942 e Julho de 1944, cerca de judeus e 350 ciganos foram deportados da Bélgica; mais de seriam mortos antes de os campos serem libertados pelos Aliados.
De 1942 em diante, o descontentamento entre a população face ao tratamento que os judeus na Bélgica estavam a passar, cresceu. No final da ocupação, mais de 40% de todos os judeus na Bélgica encontravam-se escondidos; muitos deles eram protegidos por gentios, em particular por padres e freiras católicos. Alguns eram ajudados pela resistência organizada, como o (CDJ; "Comissão de Defesa dos Judeus"), o qual fornecia alimentos e protecção aos judeus escondidos. Muitos desdetes acabaríam por se juntar à resistência armada. Em Abril de 1943, membros do CDJ atacaram o vigésimo comboio para Auschwitz, e conseguiram salvar alguns dos que lá dentro seguiam para serem deportados.
Antecedentes
Religião e antissemitismo
Antes da guerra, a população da Bélgica era maioritariamente católica. Cerca de 98 porcento da população era baptizada, cerca de 80 porcento das cerimónias de casamento eram realizadas de acordo com a tradição católica, e, em termos políticos, o país era dominado pelo Partido Católico.
A população judaica da Bélgica era comparativamente pequena. De uma população total de oito milhões de pessoas, apenas eram judeus antes da Primeira Guerra Mundial. O período entre-guerras assistiu a um considerável fluxo de imigração judaica para a Bélgica. Por volta de 1930, esta população subiu para , e em 1940 atingia um valor entre –. Muitos dos novos judeus imigrados vinham da Europa de Leste e da Alemanha Nazi, fugindo do antissemitismo e da pobreza dos seus países de origem. A população Romani da Bélgica, neste período, era de cerca de 530. Poucos dos judeus migrantes pediram a cidadania belga, e muitos não falavam francês nem holandês. A comunidade judaica concentrou-se em Charleroi, Liège, Bruxelas e, principalmente, Antuérpia, onde vivia mais de metade dos judeus na Bélgica.
O período entre-guerras também assistiu à crescente popularidade dos partidos da Nova Ordem Fascista na Bélgica. Estes eram representados pela (VNV; União Nacional Flamenga) e pela na Flandres, e pelo Rex na Valónia. Ambos os partidos flamengos eram a favor da criação de um "" ("Grande Estado Holandês") do qual os judeus seriam excluídos. O , cuja ideologia tinha por base o Fascismo Cristão, era particularmente antissemita, mas tanto o VNV como o fizeram campanha com slogans antissemitas nas eleições de 1938. A sua posição era oficialmente condenada pelas autoridades belgas, mas suspeitava-se que algumas figuras proeminentes, como o rei Leopoldo III, tinham posiçõess antissemitas. A partir de Junho de 1938, os imigrantes judeus ilegais detidos pela polícia belga eram deportados para a Alemanha, até a condenação pública condenar a prática depois da Kristallnacht (Noite dos Cristais) em Novembro de 1938. Entre 1938 e o começo da guerra, com a influência dos partidos fascistas em declínio na Bélgica, o país começou a aceitar mais refugiados belgas, incluindo 215 do MS St. Louis a quem tinha sido recusado os vistos noutros países.
Invasão e ocupação alemã
No período entre-guerras, a Bélgica seguiu uma política neutral. Embora a Componente Terrestre do Exército Belga tenha sido mobilizada em 1939, o país só entrou na guerra em 10 de Maio de 1940, quando foi invadida pela Alemanha Nazi. Após 18 dias de campanha, as forças militares belgas e o seu comandante-chefe Leopoldo III, renderam-se em 28 de Maio. A Bélgica, e a província francesa de Nord-Pas-de-Calais, foram agrupadas sob a Administração militar alemã da Bélgica e Norte da França (Militärverwaltung in Belgien und Nordfrankreich). Devido ao facto de o país estar sob ocupação militar, de início ficou sob o controlo da , em vez do Partido Nazi (NSDAP) ou da Schutzstaffel (SS). Em Julho de 1944, a Militärverwaltung foi substituído por uma administração civil (Zivilverwaltung), aumentando, assim, grandemente, o poder das mais radicais organizações do Partido Nazi e SS, até à libertação em Setembro de 1944.
O Holocausto
Primeiras discriminações e perseguições, 1940–41 thumb|Aviso em três línguas (alemão-holandês-francês) utilizado para assinalar lojas e negócios de judeus na Bélgica a partir de Outubro de 1940 A 23 de Outubro de 1940, a Administração Militar Alemã adoptou legislação anti-judaica pela primeira vez. As novas leis, semelhantes às de Nuremberga adoptadas na Alemanha em 1935, coincidiam com a adopção de legislação semelhante nos Países Baixos e em França. As leis de 28 de Outubro proibiam os judeus de exercer certas profissões (incluindo as de serviço público) e forçava-os a registarem-se nas suas freguesias de residências. Na mesma data, a administração alemã anunciou uma definição de quem era considerado judeu. As lojas e os negócios judaicos tinham de ser marcados com um sinal nas janelas, e os bens detidos pelos judeus tinham de ser registados. Em Junho de 1940, já tinha sifo elaborada uma lista dos negócios judaicos em Liège.
Em 1940, o governo alemão começou a fechar os negócios dos judeus. Alguns foram transferidos para proprietários alemães num processo denominado por arianização. Cerca de 6300 lojas e negócios judaicos encerraram antes de 1942, e 600 foram arianizados. Cerca de 600 milhões de francos belgas foi o montante apurado pela tomada dos negócios dos judeus, bastante menos do que o previsto.
No total, entre 28 de Outubro de 1940 e 21 de Setembro de 1942, foram publicados 17 decretos anti-judaicos pela Administração Militar.
Association des Juifs en Belgique A "Association des Juifs en Belgique" (AJB; Associação dos Judeus na Bélgica) foi uma criada pelos alemães para gerir a população judaica da Bélgica a partir de Novembro de 1941. Embora orientada pelos alemães, a AJB era gerida pelos judeus e funcionava como um "gueto organizacional", permitindo que aos nazis lidar com os judeus belgas como um todo. A AJB teve um papel fundamental no registo dos judeus do país. No total, foram registados judeus pela AJB. Este número representa apenas metade da população judaica, o que reflectia a desconfiança na organização, mas foi o valor que o Adolf Eichmann apresentou como o total de judeus da Bélgica na Conferência de Wannsee em Janeiro de 1942.
Durante as deportações, cerca de dez mil judeus foram detidos com base na sua afiliação com a AJB. Esta, supervisionada de perto pela (Sicherheitspolizei und Sicherheitsdienst; "Polícia de Segurança e Serviço de Informação"), também era responsável pela administração do campo de transferência de Mechelen. A AJB foi central no persuasão dos judeus a apresentarem-se voluntariamente para deportação, embora não se saiba ao certo se eles sabiam o seu destino. A partir de 1942, na sequência do assassinato pela Resistência de Robert Holzinger, um líder da AJB, a confiança na associação diminuiu e passou a ser vista com muita suspeição.
Depois da guerra, as chefias da AJB foram julgadas e condenadas por cumplicidade no Holocausto.
Radicalização, 1941–42 Pogrom de Antuérpia e a Estrela amarela
Em 14 de Abril de 1941, depois de ter visto ao filme de propaganda alemão , as forças paramilitares flamengas do , VNV e deram início a um pogrom na cidade de Antuérpia. Os atacantes, armados com barras de ferro, atacaram e incendiaram duas sinagogas e atiraram is livros da Torá para a rua. Depois, atacaram a casa de Marcus Rottenburg, o líder rabi da cidade. A polícia e os bombeiros foram chamados, mas foram impedidos de intervir pelas autoridades alemãs.
Tal como na restante Europa ocupada, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela entrou em vigor a 27 de Maio de 1942. A versão belga do símbolo incluía a letra "J" em preto (para indicar os "Juif" em francês e "Jood" em holandês) no centro de uma estrela de David amarela. A estrela tinha de estar exposta, de forma bem visível, em todas as roupas exteriores, em público, e estavam previstas penalidades por não o fazer. O decreto levou originou indignação na Bélgica. Correndo risco, as autoridades civis em Bruxelas e em Liège recusaram distribuir a estrela, fazendo ganhar tempo a muitos judeus que procuravam esconder-se.
As autoridades alemãs em Antuérpia tentaram forçar o uso da estrela em 1940, mas a política foi descartada quando os cidadãos não-judeus protestaram e usaram eles próprios as braçadeiras.
Deportação e extermínio, 1942–44 A partir de Agosto de 1942, os alema~es começaram a deportar os judeus utilizando o ("recrutamento para o trabalho") nas fábricas alemãs como pretexto. Cerca de metade dos judeus ofereceram-se voluntariamente (embora coagidos pelas autoridades alemãs) para serem transportados embora os ajuntamentos já tivessem começado no final de Julho. Nos últimos tempos da guerra, os alemães utilizaram a polícia para deter ou reunir os judeus à força.
O primeiro comboio que saiu da Bélgica, com judeus apátridas, deixou o campo de passagem de Mechelen para Auschwitz a 4 de Agosto de 1942 ao que se lhe seguiram outros. Estes comboios partiam para campos de extermínio na Europa de Leste. Entre Outubro de 1942 e Janeiro de 1943, as deportações foram suspensas temporariamente; por esta altura, cerca de pessoas já tinham sido deportadas em 17 comboios. Depois da intervenção da rainha Isabel junto das autoridades alemãs, todos os deportados nesta primeira fase não eram cidadãos belgas. Em 1943, a deportações foram retomadas. Quando as deportações para os campos de extermínio começaram, contudo, cerca de 2250 judeus belgas já tinham sido deportados como trabalhadores forçados para a , um grupo de engenharia militar, que estava a construir a Muralha do Atlântico no Norte da França.