Hilma af Klint (Solna, Estocolmo, 26 de outubro de 1862 – Danderyd, Estocolmo, 21 de outubro de 1944) foi uma artista e mística sueca e pioneira do abstracionismo, cujas pinturas foram consideradas uma das primeiras obras abstratas conhecidas na história da arte ocidental.

Uma parte considerável de sua obra antecede as primeiras composições puramente abstratas de Kandinsky e Mondrian. Ela pertencia a um grupo chamado "As Cinco", compreendendo um círculo de mulheres inspiradas pela Teosofia, que compartilhavam a crença na importância de tentar contatar os chamados "Mestres Ascensos"—frequentemente por meio de sessões espíritas—alegadamente espíritos elevados que desejavam comunicar por meio de imagens.Bashkoff, T., ed., et al., Hilma Af Klint (New York: Solomon R. Guggenheim Museum, 2018). Suas pinturas, que às vezes se assemelham a diagramas, eram uma representação visual de ideias espirituais complexas.Bashkoff, Tracey, Hilma af Klint: Paintings for the Future, ArtBook, 2018

A pintora af Klint frequentou a Real Academia de Belas-Artes, principal centro de educação artística da capital sueca, mas logo se distanciou do seu treino académico para pintar mundos invisíveis, influenciada pelos movimentos espirituais da época, tais como o rosa-cruz, a teosofia e, mais tarde, a antroposofia. Seu grupo já experimentava, desde o final do século XIX, a escrita e o desenho automáticos, antecipando as estratégias surrealistas em mais de 30 anos.

Uma das suas obras – a série de 193 pinturas de Os quadros para o templo (Målningarna till Templet) – está incluída no Cânone Cultural da Suécia (Sveriges kulturkanon), uma lista oficial de obras e realizações particularmente importantes para a herança cultural do país.

Vida inicial miniaturadaimagem|Eftersommar (Final de Verão), uma das primeiras obras naturalísticas, pintada por af Klint em 1903, um exemplo das obras que ela exibia ao público durante sua vida Hilma nasceu em 26 de outubro de 1862. Era a quarta filha do capitão da marinha sueca, Victor af Klint, e de Mathilda af Klint. Quando criança, passou os verões com a família em sua propriedade em Hanmora, na ilha de Adelsö, no lago Malar. Foi nesta ilha de paisagem natural deslumbrante que Hilma entrou em contato com a natureza e as suas diversas formas que viriam a servir de grande inspiração para seu trabalho. Posteriormente, Hilma mudaria para Munsö, a próxima ilha depois de Adelsö.

Hilma herdou da família um grande interesse pela botânica e matemática, o que se refletiu em sua arte. Ela mostrou uma habilidade precoce em artes visuais e, depois que a família se mudou para Estocolmo, estudou na Tekniska skolan em Estocolmo (hoje Konstfack), onde aprendeu retrato e pintura de paisagem.

Ela foi admitida na Academia Real de Artes da Suécia aos vinte anos. Durante os anos de 1882 a 1887, ela estudou principalmente desenho, pintura de retratos e pintura de paisagem. Ela se formou com louvor e recebeu uma bolsa de estudos na forma de um estúdio no chamado "Edifício Atelier" (Ateljébyggnaden), propriedade da Academia de Belas Artes entre Hamngatan e Kungsträdgården no centro de Estocolmo. Este era o principal pólo cultural da capital sueca naquela época. O mesmo prédio também abrigava o Blanchs Café e a Galeria de Arte Blanchs, onde existia um conflito entre a visão de arte convencional da Academia de Belas Artes e o movimento de oposição da "Sociedade de Arte" (Konstnärsförbundet), inspirado pelos pintores franceses do En Plein Air. Hilma af Klint começou a trabalhar em Estocolmo, ganhando reconhecimento por suas paisagens e pinturas botânicas, por seus desenhos e retratos.

Foi empregada no Instituto Veterinário de Estocolmo como desenhista científica. Neste tempo, teve a oportunidade de fazer numerosos estudos e trabalhos gráficos sobre a Teoria da Evolução de Darwin. Podemos ver na sua obra a terminología desta teoria. Também os dividiu em séries, como se estivesse a fazer trabalhos de investigação científica.

Sua pintura convencional tornou-se uma fonte de receita financeira, mas a "obra de sua vida" permaneceu uma prática totalmente separada.Cattelan, M., Gioni, M., & Subotnick, A., eds., Charley, Issue 5 (New York: D.A.P., 2007).

Ideias espirituais e filosóficas miniaturadaimagem|af Klint em seu estúdio, c. 1895 Em 1880 faleceu sua irmã mais nova, Hermina, e foi nessa época que a dimensão espiritual de sua vida começou a se desenvolver. Seu interesse pela abstração e pelo simbolismo veio do envolvimento de Hilma af Klint com o espiritismo, muito em voga no final do século XIX e início do século XX. Seus experimentos em investigação espiritual começaram em 1879. Ela se interessou pela Teosofia de Madame Blavatsky e pela filosofia de Christian Rosencreutz. Em 1908 ela conheceu Rudolf Steiner, o fundador da Sociedade Antroposófica, que estava visitando Estocolmo.Gaze, D., Concise Dictionary of Women Artists (Abingdon-on-Thames: Routledge, 2001), p. 413. Steiner a apresentou às suas próprias teorias sobre as artes e teria alguma influência em suas pinturas mais tarde na vida. Vários anos depois, em 1920, ela o reencontrou no Goetheanum em Dornach, na Suíça, sede da Sociedade Antroposófica. Entre 1921 e 1930 passou longos períodos no Goetheanum.

A obra de Af Klint pode ser entendida no contexto mais amplo da busca modernista por novas formas nos sistemas artístico, espiritual, político e científico do início do século XX.Liam Taft – Invisible art: rediscovering the work of Hilma af Klint National Student, April 19, 2017 Houve um interesse semelhante por espiritualidade por outros artistas durante este mesmo período, incluindo Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, Kasimir Malevitch e os Nabis franceses, entre os quais muitos, como af Klint, foram inspirados pelo Movimento Teosófico.

As obras de Hilma af Klint são principalmente espirituais e o seu trabalho artístico é uma consequência disso.[Hilma af Klint – Painting the Unseen Serpentine Galleries, 2016. , p.24]

Ela sentia que o trabalho abstrato e o significado interno eram tão inovadores que o mundo não estava pronto para vê-lo, e desejou que o trabalho permanecesse invisível por 20 anos após sua morte.

Obra miniaturadaimagem|Caos Primordial, No. 16, 1906-07 Na Academia de Belas Artes, ela conheceu Anna Cassel, a primeira das quatro mulheres com quem trabalhou mais tarde em "As Cinco" (De Fem), um grupo de artistas que compartilharam suas ideias. Os outros membros eram Cornelia Cederberg, Sigrid Hedman e Mathilda Nilsson.."As Cinco" começaram sua associação como membros da Sociedade Edelweiss, que abraçava uma combinação dos ensinamentos Teosóficos de Helena Blavatsky e espiritualismo. Todas do As Cinco eram interessadas no paranormal e em sessões espíritas regularmente organizadas. Elas abriam cada reunião com uma oração, seguida por uma meditação, um sermão cristão e uma revisão e análise de um texto do Novo Testamento. Isso seria seguido por uma sessão espírita. Elas registraram em um livro um sistema completamente novo de pensamento místico, na forma de mensagens de espíritos superiores chamados de Os Altos Mestres ("Höga Mästare"). Um, Gregor, anunciou: "Todo o conhecimento que não é dos sentidos, não do intelecto, não do coração, mas é propriedade que pertence exclusivamente ao aspecto mais profundo do seu ser […] o conhecimento do seu espírito".Heiser, J., & Higgie, J., eds., Frieze: Contemporary Art and Culture, Vols 88-91 (London: Durian Publications, 2004).

Através de seu trabalho com As Cinco, Hilma af Klint criou desenhos automáticos experimentais já em 1896, levando-a em direção a uma inventiva linguagem visual geométrica que seria capaz de conceituar forças invisíveis tanto do mundo interno quanto externo. Ela explorou as religiões mundiais, átomos e o mundo das plantas e escreveu extensivamente sobre suas descobertas. À medida que se familiarizava com essa forma de expressão, Hilma af Klint foi designada pelos Altos Mestres para criar as pinturas para o "Templo"—no entanto, ela nunca entendeu a que esse "Templo" se referia.

Hilma af Klint sentia que estava sendo dirigida por uma força que literalmente guiaria sua mão. Ela escreveu em seu caderno:Os quadros eram pintadas diretamente através de mim, sem nenhum desenho preliminar, e com grande força. Eu não tinha ideia do que as pinturas deveriam representar; no entanto, trabalhava com rapidez e segurança, sem alterar uma única pincelada.Em 1906, após 20 anos de trabalhos artísticos, e aos 44 anos, Hilma af Klint começou a sua primeira série de pinturas abstratas, uma de suas séries artísticas mais emblemáticas: Os quadros para o templo. miniaturadaimagem|Svanen (O Cisne), Nº 17, Grupo 9, Série SUW, outubro de 1914—março de 1915, uma obra nunca exibida durante a vida de af Klint As obras do Templo foram criadas entre 1906 e 1915, realizadas em duas fases com uma interrupção entre 1908 e 1912. Hilma suspendeu as suas investigações pictóricas temporalmente para cuidar de sua mãe e deixou o bairro do seu ateliê de pintura em Kungstraedgaarden. Retomou a sua pintura com Os quadros para o templo em 1912, finalizados em 1915. Um ano depois, pintou a série Parsifal e a série Átomo em 1917. Conforme Hilma af Klint descobria sua nova forma de expressão visual, ela desenvolveu uma nova linguagem artística. Sua pintura tornou-se mais autônoma e mais intencional. O espiritual continuaria a ser a principal fonte de criatividade pelo resto de sua vida.

A coleção do Templo é de 193 pinturas, agrupadas em várias subséries. As pinturas principais, datadas de 1907, são extremamente grandes: cada pintura mede aproximadamente 240 x 320 cm. Esta série, chamada As Dez Maiores, descreve as diferentes fases da vida, desde a primeira infância até a velhice.

Independentemente de seu propósito diagramático, as pinturas têm um frescor e uma estética moderna de linhas provisórias e imagem capturada às pressas: um círculo segmentado, uma hélice cortada ao meio e dividida em um espectro de cores pintadas de leve. O mundo artístico de Hilma af Klint está impregnado de símbolos, letras e palavras. As pinturas frequentemente retratam dualidades simétricas, ou reciprocidades: para cima e para baixo, para dentro e para fora, terrestre e esotérico, masculino e feminino, bem e mal. A escolha da cor em toda é metafórica: azul representa o espírito feminino, amarelo para o masculino e rosa/vermelho para o amor físico/espiritual. O Cisne e A Pomba, nomes de duas séries das Pinturas para o Templo, também são simbólicos, representando respectivamente a transcendência e o amor. Compreendidas como portas para outras dimensões, suas pinturas apelam à interpretação a nível narrativo, esotérico e artístico, evocando a geometria primordial e os motivos humanísticos.

Quando Hilma af Klint concluiu as obras do Templo, a orientação espiritual terminou. No entanto, ela continuou a perseguir a pintura abstrata, agora independente de qualquer influência externa.Fiore, J., "How the Swedish Mystic Hilma af Klint Invented Abstract Art", Artsy, October 12, 2018. As pinturas do Templo eram em sua maioria pinturas a óleo, mas agora ela também usava aquarelas. Suas pinturas posteriores são significativamente menores em tamanho. Ela pintou, entre outras, uma série que descreve os pontos de vista de diferentes religiões em vários estágios da história, bem como representações da dualidade entre o ser físico e sua equivalência em um nível esotérico. À medida que Hilma af Klint prosseguia suas pesquisas artísticas e esotéricas, é possível perceber uma certa inspiração nas teorias artísticas desenvolvidas pela Sociedade Antroposófica a partir de 1920.

Hilma af Klint suspendeu as suas investigações pictóricas temporalmente para cuidar de sua mãe e deixou o bairro do seu ateliê de pintura em Kungstraedgaarden. Retomou a sua pintura com Os quadros para o templo em 1912, finalizados em 1915. Um ano depois, pintou a série Parsifal e a série Átomo em 1917.