Louis Hubert Gonzalve Lyautey GCTE (Nancy, — Thorey, ) foi um militar francês que se destacou nas guerras coloniais e foi o primeiro do Protetorado Francês de Marrocos de 1912 a 1925, ministro da guerra durante a Primeira Guerra Mundial, Marechal de França em 1921, além de académico. É frequentemente considerado o construtor do império colonial francês. A sua divisa, tradicionalmente atribuída ao poeta inglês Percy Shelley, ficou célebre: «La joie de l'âme est dans l'action» (no original em : The soul's joy lies in the doing; "A alegria da alma está na ação").
Biografia Educação militar O pai de Louis Hubert Lyautey, Just Lyautey, um "engenheiro de pontes e calçadas" formado na École Polytechnique, era descendente de uma família originária da comuna de Vellefaux, no Franco-Condado, instalada na Lorena, que se distinguiu durante as campanhas militares do Primeiro Império. A sua mãe, Laurence de Grimoult de Villemotte, era filha de um fidalgote descendente de uma família da nobreza da Normandia. Louis Hubert era sobrinho, neto (o seu avô era o general Hubert-Joseph Lyautey, chefe dos exércitos de Napoleão Bonaparte, marechal de campo e senador) e tatara-neto de oficiais generais.
Quando tinha dois anos, saltou de uma varanda do primeiro andar do hôtel de la Reine, na praça Stanislas de Nancy, onde morava então a sua família. Tratado pelo cirurgião Velpeau, durante dez anos tem que usar um colete, o que o obriga a ficar frequentemente de cama mas lhe desenvolve um gosto por livros. Este acidente vai ter consequências sobre o seu temperamento e psicologia. Imobilizado, passa os seus tempos livres a ler livros de história e extasia-se com a epopeia napoleónica e pelos relatos de exploradores, viajantes e missionários, ao mesmo tempo que é mimado pela sua avó materna, pela mãe e pela tia Berthe.
O seu pai matricula-o no Liceu Sainte Geneviève, então situado no de Paris, para que ele se preparasse para o concurso de admissão à École Polytechnique para se tornar engenheiro. Mas, marcado como a maior parte dos jovens da sua geração pela derrota francesa na guerra franco-prussiana de 1870, e dotado de uma vontade tenaz, Lyautey consegue entrar na Escola Militar Especial de Saint-Cyr, perto de Versalhes, no curso arquiduque Alberto . Apesar das suas notas serem excelentes não gosta da escola e alimenta os seus pensamentos com sonhos de grandeza e de uma profunda busca espiritual.
É nessa época que conhece Prosper Keller, Olivier de Fremond e Albert de Mun, com quem frequenta os círculos católicos. Após sair da escola leva uma vida mundana em Paris, de um jovem oficial da sua patente, mas em plena busca espiritual. Não esconde as suas opiniões católicas e legitimistas, quando a França se tinha então tornado republicana. Segundo alguns historiadores, pondera também seriamente a questão da vocação religiosa e por duas vezes faz retiros nas montanhas, no mosteiro da Grande Chartreuse.
Carreira militar Em 1875, classificado em 29º lugar entre 281, sai de Saint-Cyr e é incorporado no 26º Batalhão de caçadores de Infantaria (chasseurs à pied). Dois anos mais tarde é promovido a tenente e durante uma licença faz tenções de empreender uma viagem através da Europa, em direção à Áustria, com o objetivo secreto de conhecer o conde de Chambord no exílio. No entanto, acaba por desistir e parte durante dois meses para a Argélia como o seu camarada Prosper Keller. Esta primeira descoberta da Argélia encanta-o. De regresso, não fica muito temoo em França, pois o de Hussardos a que pertence é transferido para a Argélia.
Passa dois anos na Argélia, primeiro em Orléansville (Chlef) e depois em Argel. Critica a política colonial francesa e advoga um «sistema mais civilizado e mais humano». Lyautey é conquistado pelo orientalismo e transforma os seus apartamentos em palácios das mil e uma noites e mostra-se muito respeito pela civilização local e pela religião muçulmana.
Em 1882 é promovido a capitão e é transferido para o de Caçadores a Cavalo, em Bruyères, nos Vosges. Aproveitando as autorizações para se apresentar em Itália, viaja para Roma, passando por Gorizia, então parte do Império Austro-Húngaro, local de exílio do conde de Chambord. Este, ciente dos rumores sobre o Ralliement ("reunião") do à república francesa, encarrega Lyautey de uma missão junto do papa, que o recebe em audiência a 18 de março de 1883. Lyautey sai dessa audiência visivelmente desapontado, pressentindo que a opinião do papa é definitiva.
Pouco depois, por ocasião de uma revista às tropas, Lyautey conhece o , inspetor da cavalaria, que, impressionado pela personalidade do jovem oficial, o nomeia seu ajudante de campo. Durante os quatro anos passados junto a L'Hotte, Lyautey viaja muito através da França e das suas cidades de guarnição e inicia-se na tática militar, então em completa renovação. Também leva uma vida muito mundana em Paris na província, frequentando os salões da alta sociedade e ligando-se a escritores e artistas.
Nessa altura Lyautey deixa-se tomar pouco a pouco pelo ceticismo religioso, mas os anos passados em guarnição e o seu regresso ao contacto com a tropa (foi colocado em 1887 no 4º Regimento de Caçadores a Cavalo) foram suficientes para alimentar o seu espírito que amadurecia ideias inovadoras sobre a função do exército. Em 1891 publica um longo artigo na célebre Revue des deux Mondes ("Revista dos Dois Mundos") sobre o papel social do oficial. Este texto, não assinado (para cumprir os regulamentos então em vigor), mas cujo autor foi rapidamente conhecido, provocou um intenso debate, pois defendia a ação educativa do exército, além da sua função puramente militar. A publicidade feita em redor deste artigo fundador e a grande visibilidade do oficial não prejudicarão a sua carreira. Na primavera de 1893 é colocado no 12º de Hussardos, em Gray, Haute-Saône.
Mais tarde serve na Indochina, de 1894 a 1897 (posto que teria sido escolhido para evitar a proposta de casamento de uma dama de boas famílias), inicialmente no estado-maior do corpo de ocupação em Hanoi, Tonquim, depois na qualidade de chefe do gabinete militar do governador-geral Armand Rousseau. É em Tonquim que conhece Gallieni, que volta a encontrar em Madagáscar, onde esteve destacado de 1897 a 1902. Esta experiência junto do general que tinha construído a sua reputação nas colónias marca-o profundamente. Em Marrocos, Lyautey desejará sempre "construir", em benefício do povo "colonizado".
Em 1895, durante o auge do caso Dreyfus, Lyautey exprime as suas dúvidas sobre a culpabilidade do acusado nas suas cartas:
Promovido a coronel em 1900, general de brigada em 1903 e general de divisão em 1907, Lyautey obtém em 1908 o comando da divisão de Orão, na fronteira com Marrocos. Cruza-se vários vezes com Charles de Foucauld.
Marrocos Em março de 1907 recebeu ordens para ocupar Ujda, como represália do assassinato em Marraquexe do doutor Mauchamp. Em novembro do mesmo ano reprimiu o sublevamento na região do maciço dos Beni Esnassene e foi nomeado alto-comissário do governo para a zona marroquina ocupada na região de Ujda. Em março de 1912, o Tratado de Fez estabeleceu o Protetorado Francês no Império Cherifiano, do qual Lyautey foi o primeiro geral (governador). Empreende a chamada "penetração pacífica" de Marrocos, apesar do início da Primeira Guerra Mundial.
Como residente geral deixará uma marca profunda na sociedade e urbanismo marroquinos. Impulsiona numerosas obras em diversos domínios, como a agricultura, silvicultura (com Paul Boudy), etc. Ligado à cultura local, como a escritora Isabelle Eberhardt de quem foi íntimo, publica várias leis que visam proteger os centros antigos das grandes cidades (as cidades coloniais são construídas na periferia das almedinas ou a estabelecer regras estritas que deixam ao marroquinos espaços de liberdade (por exemplo, interdição para os não muçulmanos de entrar nas mesquitas).
Durante a Primeira Guerra Mundial, Lyautey foi ministro da Guerra do governo de Aristide Briand, entre dezembro de 1916 e março de 1917.
Depois disso voltou para Marrocos e fui promovido a Marechal de França em 1921. Mas durante o governo de Paul Painlevé foi-lhe retirado o comando das tropas envolvidas na luta contra a rebelião de Abd el-Krim, o qual foi confiado a Philippe Pétain. Lyautey demite-se e volta definitivamente a França em 1925. Neste contexto (colonialismo, ocupação) e durante a sua passagem por Marrocos, ele teria afirmado que «a França deve ser uma grande pontência muçulmana».
Fim da vida na Lorena Depois do incêndio e pilhagem pelas tropas alemãs da propriedade familiar em Crévic, levados a cabo como represália do tratado de protetorado de Marrocos, o marechal Lyautey decide instalar-se em Thorey, cidade que depois juntará ao seu nome o do célebre residente, passando a chamar-se Thorey-Lyautey.
Ali manda construir um castelo sobre uma casa senhorial herdada da irmã da sua mãe com quem tinha grande proximidade e lá se instala em 1925, aos 71 anos. Em 1926, ali recebe o sultão Mulei Iúçufe.
Em 1931 organiza no Bosque de Vincennes a Exposição Colonial Internacional, da qual é comissário geral, coroando assim o empreendimento francês realizado nas colónias. Atualmente ainda se pode ver o salão que ele usava como local de receção nessa época, no .
No prefácio de uma tradução francesa do «Mein Kampf» de Adolf Hitler advertiu: «Todos os franceses devem ler este livro.» Não de tratava de modo nenhum de uma aprovação; a tradução foi publicada contra a vontade do autor do livro; pelo contrário tratava-se de uma advertência sobre o perigo que representavam para a França os desígnios de Hitler.
O marechal morará em Thorey até à sua morte, a 27 de julho de 1934, com 79 anos de idade. Depois de uma missa em Thorey, o seu corpo foi deposto no jazigo dos duques da Lorena, na de Nancy. Quando a morte do marechal é anunciada, o sultão de Marrocos, que estava em Marselha prestes a embarcar, vai-se inclinar e chora em frente aos restos mortais.
Um ano depois o corpo é sepultado em Rabat, mas em 1961 é trasladado para a capela do Hôtel des Invalides em Paris, a pedido do general de Gaulle, que queria evitar que o mausoléu de Rabat fosse profanado. No seu túmulo está gravada a seguinte inscrição: «Ser daqueles em que os homens acreditam: em cujos olhos quais milhares de olhos procuram a ordem; a cuja voz se abrem estradas, países povoam-se, cidades surgem.»
O regresso à fé da infância Tomado nos anos 1880 por um ceticismo religioso que o angustia, o capitão Lyautey encetou uma longa marcha espiritual. O intenso questionamento ao qual se submete não o afasta, contudo, defintivamente da ideia de Deus e da sua admiração pela , da qual continua próximo culturalmente e com a qual partilha a maior parte das posições morais, sociais e políticas. Mantém-se particularmente ligado ao seu condiscípulo, o doutor Paul Michaux, figura emblemática da intelligentsia católica parisiense e fundador, em 1898, da Fédération gymnastique et sportive des patronages de France.
A sua religiosidade após a devoção da infância, pode dividir-se em três períodos: busca e questionamento de juventude face ao seu ceticismo nascente («queria amar Deus, mas não consigo fazê-lo por gratidão» — 13 de dezembro de 1875);, fascínio na sua vida de adulto pelo Deus das ideias («mas a admiração não é amor») e redescoberta tranquila do Deus-Amor na sua velhice. Lyautey atinge plenamente a sua reconciliação com a Igreja na Quinta-Feira Santa de 1930 (17 de abril), quando, depois de se confessar, recebe a comunhão do padre de Thorey, fonte de uma imensa alegria que ele partilha alguns dias depois ao seu amigo Wladimir d'Ormesson e que não o abandonará até à sua morte.