thumb|right|Contribuição dos indivíduos, em suas especificidades, à inteligência coletiva Inteligência coletiva é um conceito de um tipo de inteligência compartilhada que surge da colaboração de muitos indivíduos em suas diversidades. É uma inteligência distribuída por toda parte, na qual todo o saber está na humanidade, já que ninguém sabe tudo, porém todos sabem alguma coisa. O termo aparece na sociobiologia, na ciência política e em contextos específicos como dinâmicas de revisão paritária e aplicações de crowdsourcing. Essa definição mais ampla envolve processos como formação de consenso, capital social, tomada de decisão e capital intelectual. Diferentes ações, desde um partido político até um verbete na Wikipédia, podem ser descritas como uma forma de inteligência coletiva.

A noção de inteligência coletiva é referida como inteligência simbiótica por Norman Lee Johnson e como Sabedoria das Massas por James Surowiecki. O conceito é usado na área da sociologia, no mundo dos negócios, na ciência da computação, na ciência da informação e na comunicação de massa. Escritores que influenciaram a ideia de inteligência coletiva incluem Douglas Hofstadter (1979), Peter Russell (1983), Tom Atlee (1993), Pierre Lévy (1994), Howard Bloom (1995), Francis Heylighen (1995), Douglas Engelbart, Cliff Joslyn, Ron Dembo e Gottfried Mayer-Kress (2003).

Princípios

Para que o conceito de inteligência coletiva possa se materializar, existem alguns princípios. É necessário primeiramente reconhecer que todo ser humano tem algum conhecimento, mas nenhum ser humano tem todo conhecimento sobre tudo. Além disso, é necessário compreender que cada indivíduo possuiu conhecimento em sua particularidades, ou seja, conhecimento não é ser inteligente de fato, e sim possuir experiências vividas ao longo da vida e que podem ser partilhadas. Posteriormente é necessária uma partilha de ideias e de propriedade intelectual: esses recursos proporcionam mais benefícios acumulados, pois permite que outras pessoas compartilhem ideias e que obtenham melhoria significativa com a colaboração, tornando-se um processo de crescimento coletivo. Assim, através de todo conhecimento interligado, toda a humanidade passa a estar interligada também. As tecnologias de comunicação são fundamentais para essa interligação.

História

Em 1912, Émile Durkheim identificou a sociedade como a única fonte de pensamento lógico humano. Ele argumentou em As Formas Elementares da Vida Religiosa, após analisar tribos aborígenes, que a religião é uma representação coletiva em que se originam nas comunidades a partir de uma semiologia comum a todos, ou seja, só é possível a crença fiel à superioridades dos deuses partindo de um consenso entre todos os crentes.

Vladimir Vernadsky, introduzindo o conceito de "noosfera", discorre sobre a interferência no surgimento do conhecimento humano na biosfera. Ainda nessa vertente, para o filósofo francês Teilhard de Chardin, assim como existe a atmosfera, responsável pelas questões físicas, há quem se responsabilize pelos mundos das ideias, no caso a noosfera.

Enquanto os autores anteriormente citados buscam aplicações táteis e estruturais, os filósofos Peter Russell, Elisabet Sahtouris, e Barbara Marx Hubbard são inspirados nas visões de uma noosfera de cunho ideológico. Essa vertente garante à mente humana esboçar em seu subconsciente um cenário da noosfera, diferente do modelo relativamente "estático". Argumentos dessa teoria se apoiam nas confluências de pensamentos provenientes de diferentes pessoas mesmo estando isoladas ou distantes umas das outras. A noção mais recente tem sido examinada pelo filósofo Pierre Lévy.

Pierre Lévy

Pierre Lévy (Tunísia, 1956) é um filósofo da informação que se ocupa em estudar as interações entre a sociedade e as novas tecnologias da informação e comunicação. O autor aborda a questão da inteligência coletiva no sentido em que todos, em suas individualidades, possuem conhecimentos e inteligência. Porém o termo inteligência pode pra muitos gerar confusão na visão de Lévy; para o filósofo, inteligência se refere a todas as faculdades humanas constituídas no decorrer da vida de cada indivíduo, incluindo suas experiências, capacidade de perceber, lembrar, aprender, imaginar etc. Desse modo, Pierre Lévy estrutura sua tese partindo do princípio de que todo ser humano tem inteligência, e que desconsiderá-la ou subestimá-la se caracteriza como o maior ato de ignorância a ser praticado, fazer isso seria destruir a pessoa em sua integridade máxima.

Para Pierre Lévy ,a chamada sociedade da informação se mostra como uma farsa, pois essa nova economia gira em torno de algo que não pode ser mecanizado, a produção do laço social. Para ele, a produção de bens de consumo deveria promover um enriquecimento humano através do aumento da competência dos indivíduos e grupos, do incentivo a sociabilidade e ao reconhecimento recíproco e da criação de diversidade. Nessa concepção, que tem a atenção voltada para o humano é necessário que as instituições e organizações abandonem formas rígidas e hierárquicas para dar lugar a da cooperação ativa dos membros que a compõem, além de promover a capacidade de iniciativa. Isso só é possível através do desenvolvimento de uma subjetividade por cada um através do apelo para recursos emocionais e intelectuais dos indivíduos.

Segundo Lévy, a inteligência coletiva é: Pois não há no mundo um centro monopolizador de toda a sabedoria já que todos possuem sabedoria dentro das suas peculiaridades. Neste momento, o autor realiza uma reflexão muito interessante em relação ao "filme" que passa na mente de cada ser humano segundos antes da morte. Segundo sua linha de pensamento, cada pessoa é um arquivo de experiência vividas, e este filme seria a última tentativa de sobreviver ao momento da morte recorrendo à experiência já vividas. Quanto à passagem "incessantemente valorizada", Pierre Lévy demonstra sua aversão a métodos de avaliação sistemática das qualidades da inteligência humana pois, deste modo, as diferentes formar de sabedoria se vêem reprimidas por um sistema impositor de normas e padrões realizados pelas pessoas ou instituições consagradas como "autoridades".

Pierre Lévy, quando diz que a inteligência coletiva deve ser "coordenada em tempo real" dedica-se a estudar modos de interligar a humanidade visando uma interligação de todos os modos de sabedoria do mundo, compartilhando experiências, vivências, problemas e tudo mais ocorrido a cada indivíduo na humanidade. Assim, o filósofo afirma a importância fundamental da internet realizadora deste papel de conectar as pessoas de um para todos e não de um para um. Enfim, afirma que a inteligência coletiva "resulta uma mobilização efetiva das competências". Também diz que a inteligência coletiva tem o potencial de “explorar ao máximo todas as riquezas humanas existentes nas populações”. Em seu livro, ele sugere que já que é impossível uma única pessoa saber de tudo, o outro sempre tem algo a acrescentar e quanto mais pessoas integradas em uma rede de troca de saberes, melhor.

Pierre Lévy fala sobre o Espaço Antropológico, que em si, são planos de existência, freqüência, velocidades determinadas no espectro social. Um sistema de proximidade – espaço- próprio do mundo humano – antropológico- e portanto, dependendo das técnicas, do significados, da linguagem, da cultura, das conversações, das representações e das emoções humanas. Lévy apresenta os espaços antropológicos a partir de seis aspectos: identidade, semiótica, figura de espaço e tempo, instrumentos de navegação, objetos de conhecimentos e epistemologias. Expõe também, que existem quatro grandes espaços antropológicos sendo eles a Terra, em que se desenvolve a linguagem (comunicação), as técnicas (invenções) e os laços sociais (clãs, tribos etc). Afirma a identidade de um indivíduo se dá por diferentes formas, podendo ser pela sua participação no clã, pela aliança e/ou pela linhagem... Território, que pode começar com uma simples domesticação de animais, pra depois expandir-se para o cultivo de lavouras, o que gera uma nova agricultura e, assim sendo, a comunidade que cresce, torna-se cidade, estado, o surgimento revolucionário da escrita que transforma todo o sistema de saber da sociedade. Para Lévy, a Terra sempre irrompe o meio do Território e reconstitui sua origem. Mercadorias, que é frisado pela rápida e evolutiva circulação do dinheiro; abrange vários membros dispersos no tempo, dentre eles o surgimento da moeda, do banco, dos mercados, intercâmbio etc. Apresenta o surgimento da imprensa como primeiro meio de comunicação de massa e dos tempos modernos se constitui a rede originária do espaço das Mercadorias. Esse espaço tem sua constituição finalizada com a implantação global do capitalismo. E por fim o espaço do Saber; esse espaço não existe literalmente, é no sentido etimológico, virtual, uma utopia que já está se fazendo presente, mas dissimulado, apresentando rizomas aqui e ali.

O saber não se trata, evidentemente, apenas do conhecimento científico, mas do conhecimento que qualifica a espécie homo sapiens. Sempre que um ser humano organiza ou reorganiza a sua relação consigo próprio, com o cosmo, envolve-se numa atividade de conhecimento, aprendizagem. O saber é coextensivo à vida. Assim o espaço do saber une-se a Terra. Não se trata aqui da autonomia do conhecimento científico em si, mas do espaço do viver-saber e da inteligência coletiva que poderia organizar a existência e a sociabilidade das comunidades humanas.

Outras correntes e aplicações em diferentes campos

Howard Bloom tem discutido o comportamento coletivo do nível de quarks (partículas que compõem os prótons, nêutrons e outras partículas pesadas) ao nível de planta, bactérias, animais e sociedades humanas. Ele destaca as adaptações biológicas que transformaram a maioria dos seres vivos da Terra em componentes do que chama de "uma máquina de aprendizagem". Em 1986, Bloom combinou os conceitos de apoptose, processamento paralelo distribuído à seleção de grupo, e do superorganismo para produzir uma teoria de como funciona a inteligência coletiva. Mais tarde, Bloom mostrou como a inteligência coletiva pode ser explicada nos termos das imagens geradas pela computação dos "complexos sistemas adaptativos" e os "algoritmos genéticos", nas competições das colônias bacterianas e nas sociedades humanas, conceitos pioneiramente explicados por John Holland. Bloom traçou a evolução da inteligência coletiva para nossos ancestrais bacterianos de 1 bilhão de anos atrás, e demonstrou como multi-espécies de inteligência tem trabalhado desde o início da vida.Skrbina, D., 2001, Participation, Organization, and Mind: Toward a Participatory Worldview, ch. 8, Doctoral Thesis, Centre for Action Research in Professional Practice, School of Management, University of Bath: England

David Skrbina cita o conceito de uma "mente grupal", como sendo derivado do conceito de Platão pampsiquismo (que a mente ou a consciência é onipresente e existe em toda a matéria). Ele desenvolve o conceito de uma "mente grupal" como articulada por Thomas Hobbes em "Leviatã e usa os argumentos de Fechner para explicar uma consciência coletiva da humanidade defendida por Durkheim. Cita também Teilhard de Chardin como um pensador que desenvolveu as implicações filosóficas da mente grupal.Skrbina, D., 2001, organização, participação, e Mente: Rumo a uma Cosmovisão Participativo , cap. 8, Tese de Doutorado, Centro de Pesquisa-Ação na Prática Profissional, Escola de Administração da Universidade de Bath: Inglaterra