Joan Wallach Scott é uma historiadora norte-americana, nascida em 18 de dezembro de 1941 no Brooklyn, cujo trabalho, inicialmente dedicado à história francesa (movimento operário e história intelectual) foi direcionado na década de 1980 para a história das mulheres a partir da perspectiva de gêneroSIQUEIRA, Tatiana Lima. Joan Scott e o papel da história na construção das relações de gênero . Revista Ártemis, vol. 8, jun. 2008, p. 110-117.. Ela atualmente ocupa a cadeira Harold F. Linder na Instituto de Estudos Avançados de Princeton.

Entre suas publicações mais notáveis está o artigo ""Gênero: uma categoria útil de análise histórica"", publicado em 1986 no American Historical Review. Este artigo, "sem dúvida, um dos artigos mais lidos e citados na história da revista"http://www.historians.org/Perspectives/issues/2008/0812/0812new5.cfm, foi essencial na formação de um campo de história de gênero dentro dos estudos históricos anglo-americanos. O artigo foi traduzido para o portuguêsapud Scott, J.Gênero uma categoria útil de análise histórica. Recife: SOS Corpo,1991 e é referência teórica importante no estabelecimento dos estudos de gênero no Brasil.

É mãe do crítico de cinema e jornalista A. O. Scott.

Carreira Acadêmica Joan Scott graduou-se na Universidade Brandeis, em 1962. Em 1969, obteve seu Ph.D. pela Universidade de Wisconsin. Em seguida, ela ensinou sucessivamente na Universidade de Illinois em Chicago e na Universidade Northwestern, na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, na Universidade de Rutgers e na Universidade Johns Hopkins. Após ocupar brevemente o cargo de diretora de estudos associados à École des Hautes Études en Sciences Sociales (em 1984), obteve em 1985 a cadeira Harold F. Linder do Instituto de Estudos Avançados. Em janeiro de 2006, ela se juntou ao conselho editorial do The Journal of Modern History.

Atualmente, Scott é professora emérita na Faculdade de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e continua seu trabalho, participando de conferências, lecionando e escrevendo. A historiadora também mantém sua afiliação com o departamento de história e com o comitê de Globalização e Mudanças Sociais no Centro de Graduação da Cidade de Nova Iorque.

Premiações

Prêmio Herbert Baxter Adams (1974) Prêmio Joan Kelly (1989) Prêmio Nancy Roelker para mentoria de alunos de pós-graduação (1995) Prêmio Hans Sigrist (1999) Prêmio Academic Freedom (2006) Prêmio de Distinção Acadêmica (2008) Prêmio Talcott Parsons (2016) Prêmio Edgar Picciotto International (2020)

Obras centrais

Gênero: uma categoria útil para análise histórica No artigo seminal "Gênero: Uma Categoria Útil de Análise Histórica", Joan Scott argumenta que o gênero deve ser adotado como uma ferramenta analítica central para a historiografia, capaz de transformar a compreensão do poder e da organização social. De acordo com sua análise sobre o que é o gênero, Scott aponta que: “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos , e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”

Com relação ao primeiro, Scott aponta a existência de quatro elementos relacionados e simultâneos que o gênero implica: primeiro, as representações simbólicas presentes na cultura, como as figuras bíblicas de Eva e Maria, que representam a figura da mulher em culturas cristãs ocidentais, e mitos dicotômicos da luz e escuridão, inocência e corrupção. Segundo, os conceitos normativos apresentados por doutrinas religiosas, educativas, políticas, científicas e jurídicas, que tomam uma forma binária de oposição entre o masculino e feminino, produtos de um conflito social mas tratado como um consenso que é naturalizado por instituições religiosas, políticas e sociais. Terceiro, o gênero se aplica ao contexto da vida privada e doméstica (sistema de parentesco) e a vida pública, ao mercado de trabalho, o sistema educacional e o sistema político, todos marcados pela desigualdade de gênero.

Em um quarto aspecto defendido por Scott está a identidade subjetiva dos indivíduos. Segundo a historiadora, o gênero é utilizado como meio de decodificação e atribuição de sentido à complexidade das relações humanas e de suas diversas interações. De acordo com Scott:Quando os(as) historiadores(as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas particulares, situadas em contextos específicos, como a política constrói o gênero e o gênero constrói a políticaHistoricamente, o gênero foi utilizado pela teoria política de formas literais ou analógicas, como um meio de justificar ou criticar monarcas ou para expressar as relações entre governantes e governados. Esses usos do gênero são percebidos nos debates contemporâneos sobre os reinados de Elizabeth I da Inglaterra e de Catherine de Médici da França, como forma de questionar a capacidade das mulheres em posições de governação, por exemplo. (SCOTT. 26, 1989) Em essas e outras ocasiões políticas, o gênero está diretamente ligado e representa de forma primeira as relações de poder. Um elemento que apesar de muitas vezes não receber ênfase explícita ainda constitui uma dimensão organizacional entre igualdade e desigualdade.O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político tem sido concebido, legitimado e criticado. Ele não apenas faz referência ao significado da oposição homem/mulher; ele também o estabelece. Para proteger o poder político, a referência deve parecer certa e fixa, fora de toda construção humana, parte da ordem natural ou divina. Desta maneira, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se parte do próprio significado de poder; pôr em questão ou alterar qualquer de seus aspectos ameaça o sistema inteiroDe acordo com Scott, tendo em vista que as significações de gênero se constroem de forma recíproca, a forma de mudá-las possui origens diversas, com o propósito de reconstruir as ordens políticas antigas em favor de novas, revisar termos do gênero para criar novas formas de legitimação. Entretanto, há a escolha de não estabelecer essas mudanças, a reinterpretação e ressignificação dos símbolos culturais pode reescrever a história Edipiana ou atualizar os símbolos já impostos em termos ainda mais complexificados. Por isso, Scott defende que para escrever a história desse processo de reinterpretação, é necessário reconhecer que “homem” e “mulher” são categorias vazias por não possuírem significado definitivo, e ao mesmo tempo transbordantes por possuírem definições alternativas negadas ou reprimidas, mesmo quando fixas.

Os usos e abusos do gênero Publicado no Brasil em 2012, na Revista Projeto História, trata-se de um texto cujo título é auto-explicativo. Scott tem como foco os usos e os abusos sofridos pela categoria gênero em meio a avanços de movimentos conservadores durante a primeira década do século XXI. Seu início parte da constatação de que a categoria gênero estaria esgotada. Todavia, tal contestação se inverte quando a autora se vê diante de uma polêmica envolvendo gênero, grupos conservadores e um manual de estudos para admissão no ensino superior francês.

Para dar fundamentação ao seu trabalho, Scott promove uma contextualização. É com esse sentido, que as categorias “mulher” e “mulheres”, conceitos que antecederam a formulação do gênero, são retomadas pela autora. Pontuando as críticas sofridas por elas e suas relações com gênero, seja dentro do ambiente acadêmico, seja fora dele. E é precisamente ao dissecar estes contextos, que Scott passa a pontuar os diversos usos que são dados para a categoria gênero. Desse modo, diversos campos são analisados: os usos realizados pelos Estados (como o Estado francês), o uso por movimentos sociais (como os feminismos), o uso pela intelectualidade (de Judith Butler à Simone de Beauvoir), o uso por organizações internacionais (como a ONU) e os usos feitos em movimentações conservadoras (como as feitas pelo Vaticano).

É com essa ideia de gênero enquanto um termo com diferentes usuários e com diferentes usos que a autora afirma: “parece não haver um único lugar no qual o gênero possa confortavelmente ou finalmente repousar”. Nessa lógica, gênero é entendido como um verdadeiro campo de batalha, cuja definição é disputada por diferentes grupos, sendo inerentemente uma categoria não fixa. Desse modo, a autora conclui que gênero ainda se mantém como uma categoria útil e não resolvida:Gênero se torna não um guia para categorias estatísticas de identidade sexuada, mas para a interação dinâmica da imaginação, regulação e transgressão nas sociedades e culturas que estudamos. Há uma política de gênero e uma generificação da política que chama a nossa atenção – sobre a forma de um conjunto interminável sobre como, quando, onde e sob quais condições individuais, sociedades e culturas tentaram responder àquilo que não pode finalmente e definitivamente ser respondido (ou mesmo perguntado). Longe de ser um exercício de frustração, esta abordagem abre caminho para novos pensamentos, novas interpretações e talvez até mesmo para novas políticas. E longe de estar resolvido, como uma vez eu pensei que estava, gênero é uma questão perpetuamente aberta: quando pensamos que foi resolvido, sabemos que estamos no caminho errado

O enigma da igualdade No artigo publicado em 2005 nomeado “O enigma da igualdade”, Joan Scott discute os conceitos de igualdade e diferença, identidade individual e de grupo e do gênero. Segundo a historiadora, igualdade e diferença, identidade individual e de grupo são conceitos interdependentes que estão em constante tensão. E, para que haja a resolução dessas tensões, é necessário reconhecer suas especificidades históricas e analisá-las nas suas incorporações políticas particulares. É nesse sentido que Scott apresenta alguns paradoxos para que sua argumentação tome sentido ao leitor:1. A igualdade é um princípio absoluto e uma prática historicamente contingente. 2. Identidades de grupo definem indivíduos e renegam a expressão ou percepção plena de sua individualidade. 3. Reivindicações de igualdade envolvem a aceitação e a rejeição da identidade de grupo atribuída pela discriminação. Ou, em outras palavras: os termos de exclusão sobre os quais essa discriminação está amparada são ao mesmo tempo negados e reproduzidos nas demandas pela inclusãoA igualdade, como argumenta Scott, não é caracterizada pela inexistência da diferença, e sim pelo reconhecimento ou pela decisão de ignorar essa diferença. Na revolução francesa, por exemplo, a igualdade foi tida como universal, uma promessa garantida para que todos os indivíduos pudessem participar da política e na representação legal, entretanto, o direito de cidadania foi primariamente garantido somente a homens que possuíam uma determinada renda e quantia de propriedade. Assim, “diferenças de nascimento, de posição, de status social entre homens não eram levadas em consideração naquele momento; diferenças de riqueza, cor e gênero sim”.

Diante desse exemplo sobre a Revolução Francesa, Scott destaca que o conceito de igualdade tem se alterado ao longo do tempo, estando sempre relacionado à concessão e aquisição de direitos. Apesar das mudanças políticas e históricas que hoje torna possível que poucos lugares no mundo enfrentem proibições no que diz respeito ao direito de voto por motivos de raça ou sexo, as desigualdades educaiconais, de trabalho ou outros recursos sociais ainda são uma realidade. (SCOTT, p. 17, 2005)