Revanchismo (do francês revanche, "vingança")FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 504. é um termo usado desde a década de 1870 para descrever uma manifestação política da vontade de reverter as perdas territoriais sofridas por um país, muitas vezes depois de uma guerra ou de um movimento social. O revanchismo tira a sua força do pensamento patriótico e retribucionista e muitas vezes é motivado por fatores econômicos e/ou geopolíticos. Ideólogos revanchistas extremos representam muitas vezes uma postura linha-dura, sugerindo que seus objetivos desejados podem ser alcançados por meio do resultado positivo de outra guerra.
O revanchismo está relacionado com o irredentismo, a concepção de que partes de uma nação cultural e/ou étnica permanecem "não redimidas" nas fronteiras do seu Estado-nação adequado. A política revanchista muitas vezes conta com a identificação de uma nação com um Estado-nação, muitas vezes mobilizando sentimentos de nacionalismo étnico profundamente enraizados, alegando territórios fora do Estado onde membros do seu grupo étnico vivem. As justificativas revanchistas são frequentemente apresentadas com base em ocupações antigas ou mesmo autóctones de um território, em "tempos imemoriais".
Motivações de agressão territorial e contra agressão são tão antigas quanto as sociedades tribais, mas a instância do revanchismo que deu a acepção moderna ao termo reside no forte desejo durante a Terceira República Francesa de recuperar a Alsácia-Lorena — que a França dominava desde o tempo do rei Luís XIV, no século XVII, e que foi levada no Tratado de Frankfurt, após a esmagadora derrota do Imperador Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871 (apesar do fato de que durante a maior parte de sua história a região foi governada e habitada por germânicos alemães).Veja W. Schivelbusch, The Culture of Defeat, page 106 (Henry Holt and Co. 2001)
Exemplos históricos e contemporâneos
Américas
Argentina
A Argentina considera as Ilhas Malvinas, sob administração britânica, como parte integrante da Província da Terra do Fogo. Em 1994, a reivindicação territorial argentina sobre o arquipélago foi formalmente incorporada à Constituição da Argentina.
Durante o entreguerras, a corrente ideológica fascista do Nacionalismo e organizações como a Aliança da Juventude Nacionalista apoiaram abertamente planos de anexação do Uruguai, Paraguai, Chile e de porções do sul e leste da Bolívia, sob o argumento de que essas áreas compunham historicamente o Vice-Reino do Rio da Prata.
México
Setores nacionalistas mexicanos defendem que o Sudoeste dos Estados Unidos constitui território mexicano a ser restituído. Essa região pertenceu ao México até 1836, quando o Texas declarou sua independência. A subsequente Anexação do Texas aos Estados Unidos em 1845 desencadeou a Guerra Mexicano-Americana (1846–1848), cujo desfecho culminou na Cessão Mexicana de um vasto território que hoje compreende grande parte do oeste norte-americano.
Em 1865, ao término da Guerra Civil Americana, o imperador Maximiliano "recrutava ativamente refugiados confederados para colonizar o norte do México, permitindo que levassem seus escravos. Grant antevia que Maximiliano pretendia criar uma base a partir da qual rebeldes obstinados manteriam uma guerra revanchista contra os Estados Unidos e estabeleceriam uma barreira protetora para o império mexicano contra uma invasão das forças norte-americanas".Doyle, Don H. (2024). The Age of Reconstruction: How Lincoln's New Birth of Freedom Remade the World. Princeton & Oxford: Princeton University Press, p. 74.
Ásia
China
A República Popular da China (RPC) tem recorrido a reivindicações históricas no Mar do Sul da China como justificativa para a construção de ilhas artificiais e expansão de sua jurisdição marítima. A demarcação da "linha das nove raias" estende a área reivindicada por Pequim em desacordo com as disposições da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Além dos atritos navais e civis nessa bacia, o país mantém contestações fronteiriças com o Japão, com a Índia e reivindica a soberania sobre Taiwan.
Iraque thumb|O Kuwait foi invadido e anexado pelo Iraque de Saddam Hussein em agosto de 1990. O regime de Saddam Hussein buscou anexar diversos territórios vizinhos. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), Saddam reivindicou o controle integral da margem oriental do Chatte Alárabe, controlada pelo Irã.
O governo iraquiano justificou a invasão do Kuwait em 1990 alegando que o emirado vizinho sempre fora parte integrante do território iraquiano durante o período otomano, tendo sido desmembrado unicamente por ingerência imperialista britânica.R. Stephen Humphreys, Between Memory and Desire: The Middle East in a Troubled Age, University of California Press, 1999, p. 105.
Fontes historiográficas apontam também que Saddam Hussein planejou invadir e anexar parcelas da Província Oriental da Arábia Saudita, sustentando que o oásis de Al-Ahsa pertencera historicamente ao Vilaiete de Baçorá otomano antes de ser incorporado pelos sauditas com apoio britânico em 1913.Amatzia Baram, Barry Rubin. Iraq's Road To War. New York, New York, USA: St. Martin's Press, 1993, p. 127.
Filipinas
As Filipinas mantêm uma reivindicação diplomática sobre porções do Norte de Bornéu, território administrado pela Malásia como o estado de Sabah. O pleito filipino baseia-se na cessão histórica da região pelo Sultanato de Sulu sob o acordo de arrendamento firmado em 1878 entre o sultão Jamalul Azam e Gustav von Overbeck, da Companhia Britânica do Bornéu do Norte.
Turquia
No século XXI, a política turca vivenciou uma revalorização de símbolos e narrativas do período otomano, concomitante à ascensão do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), no poder desde 2002, acompanhada de reivindicações de influência sobre antigas possessões do Império Otomano. O uso do neo-otomanismo pelo AKP tem moldado a política externa e transformado o debate interno entre a identidade secular republicana e a herança imperial. O partido utilizou lemas eleitorais como ("descendentes dos otomanos") para mobilizar sua base em apoio a Recep Tayyip Erdoğan, presidente eleito em 2014. Essa orientação serviu de sustentação ideológica para a transição do sistema parlamentarista turco para um presidencialismo centralizado, gerando críticas de opositores que acusam Erdoğan de adotar posturas de um "sultão moderno".
O avanço de posturas ultranacionalistas manifestou-se igualmente em tensões com minorias e contestações contra a Armênia. Em setembro de 2015, uma placa de boas-vindas quadrilíngue (em turco, curdo, inglês e armênio) instalada em Iğdır foi alvo de protestos de grupos nacionalistas, vindo a ser vandalizada e posteriormente removida em junho de 2016.
Europa
França
thumb|upright=1.6|Cartaz propagandístico francês de 1917 retratando a Prússia como um polvo expansionista, acompanhado da citação atribuída a Mirabeau em 1788: "A guerra é a indústria nacional da Prússia". O revanchismo moderno adquiriu projeção conceitual na França após a derrota na Guerra Franco-Prussiana de 1870–1871, nutrido pela amargura da perda compulsória da Alsácia-Lorena para o recém-unificado Império Alemão.Karine Varley, "The Taboos of Defeat: Unmentionable Memories of the Franco-Prussian War in France, 1870–1914." in Jenny Macleod, ed., Defeat and Memory: Cultural Histories of Military Defeat in the Modern Era (Palgrave Macmillan, 2008), pp. 62–80.Karine Varley, Under the Shadow of Defeat: The War of 1870–71 in French Memory (2008). O sentimento de desforra militar e a exaltação patriótica influenciaram a cultura visual da época em telas de pintores como Alphonse-Marie-Adolphe de Neuville.
Lideranças políticas republicanas radicais, como Georges Clemenceau, opuseram-se às expedições colonialistas da Partilha da África, defendendo a concentração dos esforços nacionais na recuperação da "linha azul dos Vosges" na Alsácia-Lorena. Em fins da década de 1880, a comoção popular impulsionou o movimento do general Georges Ernest Boulanger (alcunhado de Général Revanche). Essa tradição nacionalista influenciou decisivamente a diplomacia francesa até 1914, sendo o fator basilar para a formação da Aliança Franco-Russa (1894) e da Tríplice Entente entre França, Reino Unido e Rússia.W. Schivelbusch, The Culture of Defeat, p. 106 (Henry Holt and Co. 2001).
O revanchismo francês determinou as diretrizes punitivas do Tratado de Versalhes em 1919, que devolveu a Alsácia-Lorena à soberania francesa e impôs severas reparações financeiras à Alemanha derrotada. A conferência de paz foi aberta formalmente no aniversário da proclamação do Império Alemão e a cerimônia de assinatura foi realizada na mesma Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes.
Alemanha thumb|right|Mapa das alterações territoriais na Europa após a Primeira Guerra Mundial (posição em 1923). Um intenso movimento revanchista germânico desenvolveu-se em oposição às perdas territoriais estipuladas no Tratado de Versalhes. Correntes do pan-germanismo na República de Weimar demandavam a reintegração das fronteiras pré-guerra e a unificação de todas as populações etnicamente germânicas em um único Estado nacional. O movimento reivindicava a anulação da entrega da Alsácia-Lorena, a recuperação do Corredor Polonês e a anexação dos Sudetos (região integrada à Tchecoslováquia após o desmembramento do Império Austro-Húngaro). Tais reivindicações foram exploradas por Adolf Hitler e pelo nazismo, culminando na deflagração da Segunda Guerra Mundial com a Invasão da Polônia. Esse irredentismo convergia com os postulados nacionalistas do movimento Völkisch e da Liga Pan-Germânica (Alldeutscher Verband), que combinavam expansionismo territorial com teorias de "higiene racial".Antisemitism: A Historical Encyclopedia of Prejudice and Persecution, Volume 1. Richard S. Levy, pp. 528–529, ABC-CLIO, 2005.
Grécia
O revanchismo e o irredentismo grego manifestaram-se historicamente através da Megali Idea ("Grande Ideia"), conceito que advogava a integração de todas as terras de população e cultura helênica na bacia do Mar Egeu e na Anatólia sob a jurisdição do Estado grego. As disputas fronteiriças e os desdobramentos da Troca de populações entre a Grécia e a Turquia após a Primeira Guerra Mundial e a Guerra Greco-Turca de 1919–1922 deixaram marcas profundas na política externa e na retórica nacionalista do país ao longo do século XX.
Hungria thumb|O Tratado de Trianon: o Reino da Hungria perdeu 72% de seu território e cerca de 3,3 milhões de húngaros étnicos ficaram fora de suas fronteiras. A aspiração pela Grande Hungria vincula-se a correntes revisionistas que buscam restabelecer o controle ou ampliar a autonomia de áreas habitadas por populações de etnia húngara nos países vizinhos (como na Romênia, Eslováquia e Sérvia). As perdas territoriais impostas pelo Tratado de Trianon de 1920 permanecem presentes no imaginário nacional sob a denominação de "trauma de Trianon". Pesquisas de opinião do Pew Research Center em 2020 indicaram que cerca de dois terços dos cidadãos húngaros concordavam que parcelas de nações vizinhas deveriam pertencer à Hungria.
Polônia Nas décadas de 1920 e 1930, a Segunda República Polonesa buscou reintegrar territórios e populações polonesas que haviam sido submetidos pelas partilhas austríaca, prussiana e russa: A Polônia considerava-se entre as potências revisionistas, acalentando aspirações de expansão ao sul e até mesmo de presença no Mar Negro. Vítima das reivindicações de outros Estados, ela própria não considerava as fronteiras de Versalhes imutáveis. Em 1938, quando o Estado tchecoslovaco foi desmembrado no Acordo de Munique, o governo polonês emitiu um ultimato a Praga exigindo a cessão da região de Teschen (Zaolzie), perante o qual o governo tcheco não pôde resistir.
Rússia